sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Fim do ciclo progressista?

Ante las dificultades que enfrentan varios países gobernados por fuerzas de izquierda, se ha abierto un debate en torno a si el progresismo se estaría agotando.

Na edición 510 (dezembro de 2015) de ALAI temos um debate desde diversas perspectivas:

Problemas de la política económica progresista
Gustavo Codas

La identidad de los progresismos en la balanza
Eduardo Gudynas

La historicidad del “ciclo progresista” actual
Cinco tesis para el debate
Roger Landa

¿Fin de ciclo? La disputa por el relato
Katu Arkonada

Retos y perspectivas de la izquierda latinoamericana
Valter Pomar

Gobiernos populares de América Latina, ¿fin de ciclo o nuevo tiempo político?
La clave del protagonismo popular
Isabel Rauber

La guerra por los corazones y las mentes y el “fin de ciclo”
Silvina M. Romano

Cómo se ve el panorama del futuro próximo
Oscar Ugarteche

Veja tudo nos seguintes endereços:

http://www.alainet.org/es/revistas/510#sthash.3gjdZ1hK.dpuf

http://www.alainet.org/es/revistas/510

http://www.alainet.org/sites/default/files/alai510w.pdf

Segue meu texto, neste caso em português.

Desafios e perspectivas da esquerda latino-americana

Valter Pomar

A situação brasileira, o resultado da recente eleição presidencial argentina e os prognósticos sobre a eleição parlamentar venezuelana intensificaram o debate sobre se estaríamos ou não diante do “fim do ciclo” aberto, entre 1998 e 2003, pelas eleições de Hugo Chávez, Luis Inácio Lula da Silva e Nestor Kirchner.
As posições em debate são variadas, pois não há consenso sobre a existência de tal ciclo nem sobre sua natureza. Além disso, há tanto os que afirmam seu término, quanto os que defendem a possibilidade de uma continuidade com aprofundamento das mudanças etc. Debate que se combina com a análise da situação mundial e com a discussão acerca da estratégia da esquerda.
Debate similar foi travado no âmbito do Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo, quando analisamos os impactos da eleição de Obama e da crise de 2007-2008 sobre América Latina e Caribe. Vários dos integrantes do Foro apontaram existir, já naquela época, sinais evidentes de uma contraofensiva da direita latino-americana e de seus sócios externos.
Entretanto, por motivos variados e às vezes opostos, diversos setores discordavam desta caracterização.
Alguns, em geral não participantes do Foro, consideravam que os governos “progressistas e de esquerda” faziam parte da arquitetura neoliberal e imperialista, motivo pelo qual não fazia sentido falar em “contraofensiva” dos que nunca teriam sido efetivamente derrotados.
Outros consideravam como característica fundamental do momento a crise do capitalismo e a desmoralização do neoliberalismo, superestimando as possibilidades e minimizando as ameaças, tanto estratégicas quanto táticas, que a situação oferecia para as esquerdas.
Havia ainda os que pareciam trabalhar com o pressuposto de que a “fórmula” econômica e política adotada pelos governos “progressistas e de esquerda” era no fundamental imune a retrocessos e não deveria sofrer alterações. Curiosamente, esta tese da imunidade a retrocessos vinha tanto de setores ultrarradicais, quanto de setores radicalmente moderados.
Um argumento usado no debate, para contraditar os que falavam em contraofensiva, era o de que, pelo menos até então, nenhum governo “eleito pela esquerda” havia sido derrotado eleitoralmente pela direita.
O caso de Piñera e as eleições na Guatemala, os golpes no Paraguay e em Honduras eram utilizados em favor do argumento acima, no primeiro caso por não serem considerados como governos integrantes do ciclo de 1998, no segundo caso pela via não eleitoral adotada pela direita.
Independente de como este debate foi equacionado, na época e posteriormente, seja nos documentos do Foro, seja na ação dos partidos, movimentos e governos “progressistas e de esquerda” existentes na região, o fato é que a contraofensiva das direitas prosseguiu.
No âmbito econômico-social, pressionando, sabotando e revertendo processos e conquistas. No terreno ideológico, contendo, desmoralizando e dividindo os oponentes. E no que diz respeito ao desempenho político-eleitoral, parte da direita regional aprendeu as lições das derrotas sofridas a partir de 1998 e, sempre “combinando formas de luta” (inclusive o paramilitarismo), quase ganhou as eleições presidenciais no Brasil em 2014 e agora ganhou as eleições presidenciais na Argentina.
A vitória de Macri – independente do que ocorra nas eleições parlamentares de 6 de dezembro de 2015 na Venezuela—colocou a contraofensiva da direita noutro patamar.
Argentina, junto com Brasil e Venezuela, cumpriram até agora um papel decisivo no processo de integração regional, que constitui a retaguarda estratégica de cada uma das esquerdas que atua nos países da região. É evidente que a situação se tornará mais difícil a partir de agora, seja pelo efeito demonstração-emulação que a vitória de Macri terá sobre as direitas em outros países, seja pelos efeitos práticos em todos os terrenos da integração regional.
Isto, claro, se desconsiderarmos o otimismo de Poliana segundo o qual um governo Macri causará danos tão intensos e tão rapidamente, além de provocar tamanha reação popular, que se transformará numa vitória de Pirro para a direita. Certamente os danos serão intensos, certamente haverá reação, mas é preciso levar em consideração que estamos diante de uma onda, não de um episódio isolado.
Independente dos motivos específicos, táticos, conjunturais, episódios e as vezes “pessoais”, envolvidos em cada situação nacional, há um processo regional e mundial que devemos levar em consideração. É isto, aliás, que nos possibilita entender melhor a aparente contradição entre o que acontece com a esquerda europeia e latino-americana.
Em escala mundial, as grandes variáveis são: a defensiva estratégica da classe trabalhadora, desde o fim da URSS; a decorrente hegemonia capitalista, numa intensidade superior a de outras épocas da história; a profundidade da crise capitalista, consequência combinada das outras duas variáveis; o declínio da hegemonia dos Estados Unidos e o esforço brutal que eles estão fazendo para interromper e reverter este declínio; a disputa entre diferentes formas de capitalismos, e não entre capitalismo e socialismo, como sendo o fio condutor das grandes disputas mundiais; a formação de blocos regionais, principalmente como reação defensiva aos processos citados; e, por fim, mas não menos importante, uma tendência a instabilidade, a crises e a conflitos cada vez mais profundos.
Sendo este o ambiente mundial, é evidente que a esquerda latino-americana corre contra o tempo, como foi dito em 2012 num artigo denominado “Ensaio sobre uma janela aberta”, publicado na coletânea La izquierda latinoamericana a 20 años del derrumbe, da editora Ocean Sul. A seguir a parte final deste artigo.
Há que se considerar, em primeiro lugar, o impacto sobre a região de macro-variáveis sobre as quais não temos incidência direta: a velocidade e profundidade da crise internacional, os conflitos entre as grandes potências, a extensão e impacto das guerras. Destacamos, entre as macro-variáveis, aquelas vinculadas ao futuro dos Estados Unidos: recuperará sua hegemonia global? Concentrará energias na sua hegemonia regional? Esgotará suas energias no conflito interno ao próprio país?
Há que se considerar, em segundo lugar, o comportamento da burguesia latinoamericana, em especial dos setores transnacionalizados. Qual sua conduta frente aos governos progressistas e de esquerda? Qual sua disposição frente aos processos regionais de integração? Qual sua capacidade de competir com as burguesias metropolitanas e aspirar a um papel mais sólido no cenário mundial? Do “humor” da burguesia dependerá a estabilidade da via eleitoral e a solidez dos governos pluriclassistas. Ou, invertendo o raciocínio, sua falta de humor radicalizará as condições da luta de classe na região e em cada país.
Em terceiro lugar, qual a capacidade e disposição dos setores hegemônicos da esquerda regional --partidos políticos, movimentos sociais, intelectualidades e governos. A questão posta é: até onde estes setores hegemônicos estão dispostos e conseguirão ir, e com qual velocidade, nos marcos do atual período. Dito de outra maneira, o quanto conseguirão aproveitar desta conjuntura política inédita na história regional, para aprofundar as condições de integração regional, soberania nacional, democratização política, ampliação do bem-estar social e do desenvolvimento econômico. E, principalmente, se vão conseguir ou não alterar os padrões estruturais de dependência externa e concentração de propriedade vigentes na região há séculos.
Considerando estas três grandes dimensões do problema, podemos resumir assim as perspectivas: potencialidades objetivas, dificuldades subjetivas e tempo escasso.
Potencialidades objetivas: o cenário internacional e as condições existentes hoje na América Latina, especialmente na América do Sul, tornam factíveis duas grandes alternativas, a saber, um ciclo de desenvolvimento capitalista com traços social-democratas e/ou um novo ciclo de construção do socialismo. Quanto a esta segunda alternativa, estamos, do ponto de vista material, relativamente melhor do que a Rússia de 1917, do que a China de 1959, do que Cuba de 1959, do que Nicarágua de 1979.
Dificuldades subjetivas: por enquanto, os que têm vontade não têm força, os que têm força não têm demonstrado vontade para adotar, na velocidade e na intensidade adequadas, as medidas necessárias para aproveitar as possibilidades abertas pela situação internacional e pela correlação de forças regional. Detalhe importante: não há tempo nem matéria-prima para formar outra esquerda. Ou bem a que está aí aproveita a janela aberta, ou teremos uma oportunidade perdida.
Tempo escasseando: a evolução da crise internacional tende a produzir cada vez mais instabilidade, o que sabota as condições de atuação da esquerda regional. A possibilidade de utilizar governos eleitos, para fazer transformações significativas nas sociedades latinoamericanas, não vai durar para sempre. A janela aberta no final dos anos 90 ainda não fechou. Mas a tempestade que se aproxima pode fazer isto.
Concluo dizendo que o jogo ainda não foi jogado. Motivo pelo qual devemos trabalhar para que a esquerda latinoamericana, especialmente aquela que está governando, especialmente a brasileira, faça o que deve e pode ser feito. Se isto acontecer, poderemos superar exitosamente o atual período de defensiva estratégica da luta pelo socialismo. Em resumo, a janela segue aberta.
Ate aqui citei literalmente o texto de 2012. Concluo dizendo que a janela segue aberta, mas está se fechando. O que vai acontecer com o “ciclo” aberto em 1998 depende, em grande medida, de saber se o Partido dos Trabalhadores e o governo Dilma Rousseff vão manter ou alterar sua estratégia.

Valter Pomar é professor de economia política internacional na Universidade Federal do ABC. É militante do Partido dos Trabalhadores (Brasil). Entre 1997 e 2013 foi dirigente nacional do PT, assumindo entre outras tarefas a de secretário de relações internacionais e a de secretário executivo do Foro de São Paulo. Contato: pomar.valter@gmail.com



quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Natal sem Cunha!!! Vamos derrotar o crime, a mentira, a chantagem e o golpe

O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, quer o impeachment da presidenta da República.

O povo brasileiro sabe quais os interesses e motivos de Eduardo Cunha.

1. Eduardo Cunha mantém uma conta bancária no exterior, onde estão depositados o equivalente a 9 milhões de reais, de origem ilícita;

2. Eduardo Cunha não apenas ocultava a existência desta conta, como mentiu a respeito em depoimento oficial numa Comissão Parlamentar de Inquérito;

3. Acusado de crime e mentira, Eduardo Cunha foi submetido à comissão de ética da Câmara dos Deputados, o que pode resultar na sua cassação, o que por sua vez facilitará seu julgamento e quiçá prisão;

4. Eduardo Cunha chantageou o Partido dos Trabalhadores e o governo. Avisou que se os três deputados do PT, integrantes da Conselho de Ética da Câmara, votassem a favor da admissibilidade do processo contra Eduardo Cunha, ele daria andamento ao processo de impeachment da presidenta da República;

5. A militância petista, com destaque para a presidenta Dilma Rousseff, o presidente nacional do Partido dos Trabalhadores e a bancada do PT na Câmara dos Deputados, não se dobraram à chantagem. O PT anunciou publicamente que votará a favor da admissibilidade do processo contra Eduardo Cunha na Conselho de Ética da Câmara;

6. Ao saber da posição do PT, Eduardo Cunha cumpriu a ameaça e deu andamento ao processo de impeachment. Em troca, espera contar com os votos dos deputados do PSDB e do DEM, que votariam a seu favor no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados;

7. Este é o enredo: um crime, uma mentira, uma chantagem e agora uma tentativa de golpe. Mas não vai ter golpe!!!

8. Os setores democráticos, progressistas, populares e de esquerda já estão mobilizando para que no mínimo 172 parlamentares votem contra a admissibilidade do impeachment e detenham o golpe, começando a reconstruir a governabilidade necessária para implementar o programa vitorioso nas eleições presidenciais de 2014;

9. A mobilização contra o impeachment é a tarefa central de toda a militância nos próximos dias e semanas e se articula com a defesa das conquistas, contra os retrocessos; com a defesa da Petrobrás, contra privatistas e entreguistas; contra quem fecha escolas e constrói prisões;

10. O destino do Brasil dependerá, mais uma vez, da capacidade de mobilização e luta dos integrantes das Frentes populares e de esquerda, das centrais sindicais e sindicatos, dos movimentos sociais e populares, dos estudantes em luta, das organizações de juventude, mulheres, negros, LGBT, indígenas, da intelectualidade democrática, de cada cidadão e cidadã: o Brasil não pode e não vai cair sob o domínio da mentira, do crime, da chantagem e do golpe.

Fora Cunha, não vai ter golpe!!!

2 de dezembro de 2015
Direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda


Expulsar Delcídio e cassar Cunha



1.O Supremo Tribunal Federal determinou a prisão preventiva do Senador Delcídio Amaral (PT-MS), basicamente sob a acusação de tentativa de obstrução da Justiça, configurando flagrante delito.

2.O Supremo Tribunal Federal tomou esta decisão com base em gravações de diálogos mantidos pelo Senador com outras pessoas, algumas das quais também foram presas. 

3.Não se conhece ninguém que questione a autenticidade e legalidade das referidas gravações, nem tampouco a gravidade do que ali é dito.

4.O Senado Federal decidiu, em votação realizada depois da prisão, validar a ação. 

5.A maior parte da bancada do PT votou contra, argumentando que não estaria sendo respeitado aquilo que a Constituição prevê como condição para a prisão de um mandatário popular.

6.A questão envolve desde interpretações da Constituição, até a análise das implicações da prisão de quem até então era líder do governo Dilma no Senado Federal. 

7.A maioria da bancada do PT no Senado Federal errou ao defender o voto secreto e ao votar contra a continuidade da prisão. Dada a gravidade do caso e considerando as provas contundentes contra o senador Delcídio, a bancada poderia no máximo abster-se, alegando razões legais e constitucionais. Mas ao defender voto secreto e ao votar contra a continuidade da prisão, a bancada alimentou a campanha da direita contra nós. 

8.A bancada do PT no Senado deveria ter votado a favor de chancelar a prisão preventiva determinada pelo STF. Se ativeram, equivocadamente, ao legalismo da interpretação constitucional, o que resultou em mais danos políticos ao PT junto à classe trabalhadora. 

9.É verdade que o STF foi ao limite da legalidade para fundamentar a prisão, forçando a interpretação para que ela fosse “em flagrante” e “inafiançável”; é verdade, também, que o Supremo aplica, contra petistas e filiados ao PT, um rigor que não adota quando se trata de filiados a partidos de centro-direita. 

10.Exemplo disto é o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB), que até este momento segue solto. Registre-se nossa posição a favor do julgamento e condenação de Cunha. 

11.Ao Partido dos Trabalhadores e ao Governo Dilma interessa separar o joio do trigo: o Senador Delcídio Amaral traiu a confiança do governo, do PT e do eleitorado popular. Não é de esquerda a tese segundo a qual enquanto não restaura-se a moralidade, locupletar-se é permitido. 

12.Está provado que o Senador usava o cargo para tentar cometer um crime, em benefício próprio e em prejuízo dos interesses do Brasil, do governo e do próprio PT. Governo e PT que seriam inevitavelmente acusados de estarem por trás da eventual fuga do criminoso que Delcídio Amaral queria impedir de colaborar com a Justiça.

13.Cabe, agora, tomar a iniciativa de requerer a cassação do mandato de Delcídio junto ao Conselho de Ética do Senado. E aprovar sua expulsão do PT,.

14.No caso do PT, não está em jogo uma interpretação da Constituição, mas sim o estatuto e o código de ética do Partido. Defendemos que a Comissão Executiva Nacional do PT suspenda a filiação do senador e instaure imediatamente o devido processo disciplinar, reafirmando o caráter pessoal e anti-partidário de suas ações e explicitando a disposição de expulsá-lo do Partido.

15.Quando Delcídio Amaral pediu filiação ao PT, nós da tendência petista Articulação de Esquerda recorremos contra no Diretório municipal de Corumbá, no Diretório estadual do PT-MS e também no Diretório Nacional. 

16.Naquela época, nos opusemos a filiação de um tucano ao PT. Hoje, fica a impressão de que sua filiação foi na verdade uma infiltração. Tratava-se de entrar no PT, na véspera da eleição presidencial de 2002, e criar laços que poderiam ser úteis para manter funcionando um esquema de corrupção que surgiu durante a era FHC.

17.É importante que o Partido recorde quais eram os motivos alegados, à epoca, para justificar a filiação de Delcídio, E comparasse os efeitos positivos da "aquisição", com os danos de agora, quando o conjunto do Partido sofre os efeitos da filiação de alguém que nunca teve qualquer passado de esquerda. E que em diversas oportunidades -- por exemplo na CPI dos Correios, no processo do chamado mensalão, na discussão do regime de partilha do petróleo, nos temas indígenas etc.--  demonstrou ter uma mentalidade burguesa e tucana, traindo inclusive aqueles que estimularam sua filiação ao PT.

18.O caso de Delcídio Amaral, assim como os de André Vargas e Candido Vaccarezza, são sintomáticos da falta de critério, da falta de vigilância, da falta de limites, do oportunismo e do pragmatismo que predominam em certos setores do Partido. 

19.Se quiser sobreviver ao cerco da direita, o PT não precisa apenas mudar de política, precisa também mudar de comportamento. O que significa, em casos como este, que precisamos depurar. Por tudo isto, o PT deve expulsar Delcídio Amaral. E votar pela cassação de Eduardo Cunha.

São Paulo, 29 de novembro de 2015

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

Entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos

http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/549738-entrevista-especial-com-valter-pomar-em-edicao

IHU On-Line - Diante dessa crise política, qual é o ponto fundamental que deve ser observado e para o qual temos de estar atentos para compreender o que está acontecendo no Brasil neste momento?
Valter Pomar - O ponto fundamental é o seguinte: está em curso uma contraofensiva reacionária. Estas duas palavras expressam a dinâmica e o conteúdo do processo. Mas, por outro lado, estas duas palavras induzem as pessoas a acreditar que exista um “Estado Maior Unificado” articulando a contraofensiva. Quem acredita na existência de um “comitê central” da direita fica feliz cada vez que ganha uma batalha, achando que ganhou a guerra. Aí vai dormir e ao acordar descobre que começou um novo ataque, vindo de outro lugar. Na verdade, a contraofensiva possui diferentes vetores: 
a) o grande empresariado, cujo objetivo central supostamente é reduzir o “custo Brasil”, mas de fato pretende rebaixar o salário direto e indireto da classe trabalhadora;
b) principalmente nos setores médios, atua uma direita social, os “zumbis coxinhas” que, nas ruas e/ou nas redes, vomitam um discurso saído das cavernas;
c) a direita partidária, que atua a partir de dois polos, um na oposição (o PSDB) e outro no governo (o PMDB), cujo objetivo central é derrotar o PT, embora estejam até agora divididos em torno de como fazer isto;
d) o oligopólio da mídia, que também possui diferentes interesses, táticas e discursos;
e) a alta burocracia do Estado, tendo mais visibilidade aquela que está no Judiciário, Ministério Público e forças de segurança em geral;
f) os setores que operam a partir do estrangeiro (governos, empresas, instituições etc.).
Os ataques ocorrem a partir de cada um destes vetores. Começaram a se tornar uma contraofensiva a partir de 2011, ganharam visibilidade em 2013 e quase resultaram na derrota de Dilma na eleição presidencial de 2014. A cronologia está ligada a combinação entre as políticas sociais adotadas desde 2003, a situação internacional desde 2007 e a evolução/composição da taxa de lucro do grande capital que atua no Brasil. Em comum, a contraofensiva possui três grandes objetivos: 
a) realinhar o Brasil com os Estados Unidos, portanto nos afastar dos BRICS e da integração latino-americana;
b) reprimir a participação da classe trabalhadora na distribuição da riqueza;
c) reduzir o exercício das liberdades democráticas e dos direitos humanos por parte dos setores populares.
E quando falamos que eles pretendem reduzir a democracia, incluímos aí esta campanha contra as mulheres, negros/as, indígenas, cotas etc.; a criminalização dos movimentos sociais; e as tentativas de interditar o PT, Lula e a esquerda em geral.
Apesar de unificadas na estratégia, as diferentes direitas possuem - pelo menos até agora - diferenças táticas importantes. Alguns setores preferem deixar o governo implementar o ajuste recessivo, desgastar-se e desgastar oPT, para que em 2018 o governo caia completamente sob controle dos neoliberais. Outros setores temem que 2018 possa “repetir” 2006, preferem não correr o risco e defendem o afastamento imediato de Dilma, assim como a interdição imediata do PT e Lula.
Sendo assim e voltando à pergunta: o ponto fundamental que deve ser observado e para o qual temos de estar atentos para compreender o que está acontecendo no Brasil neste momento é a contraofensiva da direita; o centro da tática deve estar, portanto, no que fazer para interromper a ofensiva da direita.
Alguns setores entendem que a resposta é... impedir o impeachment. Quem pensa assim comete dois erros. O primeiro é não perceber que o impeachment é uma das táticas, mas não é a única tática da direita. O segundo erro é não perceber que o principal alimento do impeachment é a política econômica.
Minha opinião: para interromper a ofensiva da direita é preciso recuperar o apoio do povo. E para recuperar o apoio do povo, é preciso mudar a política econômica. Nós militantes de esquerda podemos fazer de tudo para derrotar a direita, mas não teremos sucesso se o governo – por ação ou inação— continuar causando crescente desemprego e reduzindo políticas sociais.
IHU On-Line - Como o senhor está acompanhando a atual conjuntura política e os desdobramentos da Operação Lava Jato?
Valter Pomar - Para compreender os desdobramentos políticos da Lava Jato, é preciso levar em conta pelo menos quatro variáveis: 
a) a “crise de autoridade”, digamos assim, deste segundo mandato da presidenta Dilma;
b) a crise da estratégia adotada pelo PT;
c) a crise de legitimidade do “modo americano de fazer política”;
d) e a tendência à judicialização da política, bem como a partidarização do judiciário.
A crise do segundo mandato Dilma tem uma causa imediata: a presidenta foi reeleita prometendo não mexer no direito dos trabalhadores e dizendo que ajuste é coisa de tucano. Mas, ao começar o segundo mandato, a presidenta mexeu nos direitos e priorizou o ajuste. Ao agir assim, não ganhou um apoio do lado de lá, mas perdeu apoios do lado de cá. E como a presidenta Dilma foi eleita com pequena vantagem, o resultado é que ao perder apoio popular converteu-se num “governo minoritário”. Isto enfraqueceu o governo frente às instituições internacionais, frente ao judiciário e legislativo, frente aos poderes fáticos (grandes empresas, oligopólio da mídia), frente a setores da própria burocracia estatal etc. Enfraqueceu, sobremaneira, frente às chantagens de Eduardo Cunha. Se vivêssemos no parlamentarismo ou numa conjuntura mais tranquila, este enfraquecimento talvez não gerasse uma crise ou a crise talvez fosse resolvida mais rapidamente. Mas onde estamos e como estamos, o enfraquecimento gera, potencializa e prolonga muito a crise. Por que o governo fez a opção por um ajuste fiscal recessivo? Há vários motivos, mas os principais são os seguintes: 
a) o governo e o partido continuam aplicando, em 2015, a estratégia adotada pelo PT em 1995 e reforçada em 2002 naCarta aos Brasileiros;
b) o governo e o partido não perceberam que as políticas de ajuste derivadas desta estratégia não terão, em 2015, os mesmos resultados que tiveram em 2003 e 2011.
Hoje no partido isto é percebido, ao menos em tese. Apesar disto, não se adota uma atitude adequada. E, por ação ou inação, persistir nesta estratégia está causando e causará mais enfraquecimento do governo e do PT, portanto maiscrise. Falando em tese, o enfraquecimento do PT em si não deveria causar nada mais do que sua derrota nas próximas eleições. Acontece, entretanto, que o PT é um dos eixos ao redor do qual se estruturou a política brasileira depois da ditadura militar. E o enfraquecimento do Partido resulta, em boa medida, da contaminação do PT pelomodus operandi tradicional da política brasileira. Modus operandi que não está mais funcionando a contento, mesmo do ponto de vista da classe dominante. "Americanizado”, dependente da combinação explosiva entre dinheiro e mídia; baseado numa legislação que não agrada nem a direita nem a esquerda; depois de quatro eleições onde o PT elege a presidência da República, mas não forma maioria no Congresso; e onde os conservadores formam maioria de fato no Congresso, mas não elegem a presidência da República; tudo isto e muito mais faz com que hoje nenhuma força política ou social esteja em situação confortável. Faz com que a maior parte do povo esteja desconfortável com “a política” e com os “políticos”. E faz com que os partidos ganhem eleições, mas tenham dificuldades para implementar seus respectivos programas, gerando impasses duradouros.
Resumidamente: há uma crise, há uma incapacidade de gerar saídas institucionais para a crise, o que por sua vez aprofunda a crise. O resultado disto é que as “soluções” para a crise são buscadas, consciente ou inconscientemente, em zonas limite da institucionalidade e da legalidade. Um exemplo disto é o crescimento da violência sistêmica dos aparatos de segurança do Estado, contra os setores populares; outro exemplo é o caráter cada vez mais sistêmico dacorrupção; e um terceiro exemplo é a judicialização da política. A Operação Lava Jato é uma das expressões desta judicialização da política. No concreto, a Lava Jato não é uma “conspiração”, nem um ato “republicano”. Trata-se de uma “campanha” promovida por setores da alta burocracia de Estado --MP, Justiça, PF--, que neste contexto marcado pelas crises anteriormente descritas, ganha autonomia relativa. Para além da conjuntura, há alguns elementos estruturais que devem ser considerados para compreender esta autonomia relativa, tais como:
a) a “base social” predominante nestas instituições de Estado, que é basicamente a mesma da direita social citada antes;
b) a autonomia e o protagonismo que o PT conferiu para aquelas instituições, como parte da lógica segundo a qual o Partido optava apenas por ser governo e abria mão de disputar o poder;
c) e, principalmente, o papel que tais instituições cumprem, de “protetor em última instância” de uma democracia restrita.
E foram os anos de presidência petista que, aos olhos destes setores, ameaçaram os limites desta democracia restrita. Ameaça que gera uma reação das instituições que não são eleitas e, portanto, são “protegidas” da “corrupção eleitoral”. Não necessariamente toda judicialização da política converte-se em partidarização do judiciário contra o PT. Noutro contexto – por exemplo, se o presidente Lula tivesse optado por fazer uma devassa dos governos tucanos - o judiciário, o MP e a PF estariam provavelmente jogando outro papel. Mas no caso da Operação Lava Jato realmente existente, a dinâmica aponta para interditar Lula e o PT. Para atingir este objetivo, eles causam “danos colaterais” sobre empresários, políticos e técnicos de outros partidos e setores sociais. Mas não é preciso muito esforço para perceber que há um alvo global sendo perseguido. Vão conseguir? Depende no fundamental da capacidade de reação do PT.
IHU On-Line - Como fica o PT e a imagem do PT depois da prisão do Senador Delcídio Amaral? O que o caso Delcídio demonstra sobre o funcionamento da política no país?
Valter Pomar - A imagem do PT foi afetada negativamente, pois trata-se de um senador eleito pelo Partido, filiado desde outubro de 2001 e ademais líder do governo Dilma no Senado. Mas o PT ficará melhor sem o Delcídio, que se dependesse de mim e do setor do partido de que eu faço parte, nunca teria sido filiado. Aliás, visto de agora, sabendo o que sabemos agora, fico com a impressão de que a filiação dele ao PT foi na verdade uma infiltração, uma operação de hedge. Tratava-se de entrar no PT, na véspera da eleição presidencial de 2002, e criar laços que poderiam ser úteis para manter funcionando um esquema de corrupção que surgiu durante a era FHC. O que o caso demonstra? Bem, várias coisas:
Primeiro, confirma que a corrupção é sistêmica.
Segundo, confirma mais uma vez que mesmo partidos de esquerda baixaram a guarda.
Terceiro: se tem bico de tucano, pena de tucano e nariz de tucano, é tucano.
Cá entre nós, já em 2005, recém-filiado ao PT, o senador Delcídio mostrou de que lado estava. E agora em 2015, suas recentes posições sobre o modelo de partilha e sobre a lei anti-terrorismo mostraram de novo qual o seu verdadeiro DNA.
Há mais uma coisa interessante neste episódio. Sabemos que o sistema geralmente protege os seus. Mas a presença do PT causa uma espécie de “rejeição” no sistema. Acho que é por isto que o STF foi ao limite da legalidade para fundamentar a prisão -“em flagrante” e “inafiançável” - do senador. E é por isto que a maioria do Senado convalidou. Se fosse um senador de outro partido, é pouco provável que as coisas tivessem ocorrido assim. A maioria da bancada doPT no Senado errou duplamente frente a este episódio. Errou ao defender o voto secreto. E errou ao votar contra a continuidade da prisão.
Dada a gravidade do caso, considerando as provas contundentes, seria admissível até abster-se em função de razões legais e constitucionais; mas ao votar contra a continuidade da prisão, alimentou a campanha da direita contra nós. De toda forma, criou-se um precedente. Motivo pelo qual podem crescer as pressões por um impeachment que “ponha ordem na casa” e permita à um governo de centro-direita limitar os efeitos da Lava Jato apenas ao PT.
IHU On-Line - Que caminho está se desenhando na política brasileira, dada a atual crise política e os casos de corrupção envolvendo políticos dos principais partidos políticos, como PMDB, PSDB, PT?
Valter Pomar - Depende. Como expliquei antes, a variável fundamental da conjuntura é a contraofensiva reacionária. Esta contraofensiva só terá êxito completo se conseguir destruir o PT, como alternativa político-social. Olhando o problema do ponto de vista do que pode passar com o PT, vejo pelo menos três possibilidades.
Possibilidade um: o PT não muda de política, o governo não muda de política, somos afastados agora ou derrotados em 2018, não apenas perdemos o governo, mas também somos desmoralizados e interditados.
Possibilidade dois: o PT muda de política, o governo muda de política, mas não em tempo hábil para impedir nossa derrota eleitoral em 2016 e 2018. Perdemos o governo, mas não somos desmoralizados nem interditados.
Possibilidade três: o PT muda de política, o governo muda de política, em tempo hábil. Continuamos governando o país.
Na minha visão, portanto, o que pode decidir o futuro da política (e dos partidos) não é principalmente a investigação sobre a corrupção. O que pode decidir o futuro é, principalmente, o choque entre a contraofensiva reacionária, de um lado; e a ação do PT e do conjunto da esquerda, de outro lado. E o que vai determinar as chances do PT é a política econômica. Se mudarmos, teremos chances de vencer. Se não mudarmos, não teremos quase nenhuma chance.
Supondo que a contraofensiva reacionária vá até o fim, com a interdição do PT e Lula, a direita vai recuperar o controle pleno do governo central, seja agora, seja a partir de 2018. Neste cenário, o país viveria um retrocesso imenso: não apenas o desmonte das conquistas pós 2003; não apenas o regresso do neoliberalismo em toda linha; não apenas a liquidação dos aspectos positivos inscritos na Constituição de 1988; mas se depender deles, a proteção das leis do trabalho e nosso grau de industrialização vão ser muito afetados também. Não considero que um cenário destes seja compatível com o nível de liberdades democráticas que vivemos desde 1989. Em situações similares, as elites já mostraram que não dão muita bola para seus próprios partidos. E podem apelar para várias alternativas, inclusive para um salvacionismo conservador, um populismo de direita.
Por outro lado, supondo que o PT mude de estratégia, que o governo mude de política, que a contraofensiva reacionária seja derrotada, que o PT vença as eleições de 2018 e retome um programa de mudanças, qual seria a atitude das elites? O que seria de seus partidos? Na minha opinião, os atuais partidos também seriam afetados, por que neste caso se mostrariam imprestáveis para os propósitos da classe dominante. Noutras palavras, em qualquer cenário pode ocorrer um redesenho geral das instituições, partidos inclusive.
IHU On-Line - Que disputas políticas entre os partidos e, de outro lado, que coligações, percebe na atual conjuntura? Vislumbra a possibilidade de algum novo pacto para tirar o Brasil dessa situação de crise?
Valter Pomar - Pacto para “tirar o Brasil da crise”?? Só se for um pacto contra os trabalhadores, para jogar a crise nas costas da classe trabalhadora. Acontece que a crise não é a mesma para todos. Por isto, não existe uma solução que atenda a todos os setores sociais. Do ponto de vista da classe dominante, o central é realinhar o Brasil ao bloco dirigido pelos EUA, reduzir o custo da força de trabalho e diminuir o peso político da esquerda. Sem isto, não vai ocorrer o tipo de crescimento que os favorece. Do ponto de vista da classe trabalhadora, o central é ampliar a democracia popular, ampliar a remuneração direta e indireta (via políticas sociais) da força de trabalho, investir na integração regional e nos BRICs. Sem isto, não vai ocorrer o tipo de desenvolvimento que nos favorece. Não há “pacto” que resolva isto. Pelo contrário.
IHU On-Line - Com a queda de popularidade do governo e o tensionamento constante, algum grupo ou articulação política está ganhando força?
Valter Pomar - Como disse antes, há diferentes “articulações” operando, tendo como vetores o grande empresariado, os “zumbis coxinhas”, a direita partidária, o oligopólio da mídia, a alta burocracia do Estado e os gringos. O protagonismo de cada um destes setores e de suas alianças oscila muito. Mas quem mantém força, desde sempre, é o grande capital financeiro. É este setor que ganhou novamente força, com a nomeação de Levy. E é ele que deve ser derrotado, se quisermos ter um desenvolvimento democrático, popular e socialista no Brasil.
IHU On-Line - Como o senhor compreende a relação do PT (do governo) com Eduardo Cunha?
Valter Pomar - Falando em geral, o crescimento da bancada da Bíblia, do Boi e da Bala é uma reação contra o PT e a esquerda, contra nossas vitórias e programas. Mas o crescimento da bancada BBB poderia ser menor, se tivéssemos feito a coisa certa nos últimos anos. Ao contrário disto, alguns setores do governo e do PT apostaram, volta e meia, numa tentativa de conciliação. Há até quem ache que não deveríamos ter lançado Arlindo Chinaglia para disputar contra Cunha, na eleição do presidente da Câmara. Escrevo sem saber qual será o voto dos três integrantes do PT na comissão de ética, na questão da admissibilidade do processo contra Cunha. Espero que votem contra Cunha. Qualquer outra posição causará danos imensos, incalculáveis, ao país e ao Partido.
IHU On-Line - Como a Frente de Esquerda está se articulando até o momento?
Valter Pomar -  Eu acho que há vários sinais positivos na conjuntura atual. O que está acontecendo nas escolas de São Paulo, por exemplo. A reação à pauta medieval, com destaque para a reação das mulheres em geral e das mulheres negras em particular. A postura da Central Única dos Trabalhadores, que critica o golpismo da direita, sem abrir mão de criticar e mobilizar contra o ajuste fiscal. Outro sinal positivo é, exatamente, a criação da Frente Brasil Popular, para quem defender a democracia é defender outra política econômica, enfatizando a luta por reformas estruturais e insistindo na unidade de ação com outros setores da esquerda (como os que se organizam sob o nome de “Povo sem medo”). Agora, claro, há também frações de esquerda que não estão em nenhuma destas frentes. E que fariam oposição ao PT e ao governo Dilma, mesmo que estivéssemos cumprindo o programa que nos fez vencer aseleições de 2014.
IHU On-Line - O risco de impeachment desapareceu?
Valter Pomar - Não. Nem vai desaparecer totalmente, porque há uma parcela da direita que cansou de perder e aposta no tapetão, seja judicial, seja midiático. Por isto mesmo, o tema principal é, como já disse, recuperar o apoio da maioria do povo. Isto supõe mudar a política econômica, mas supõe também mudar a linha e o comportamento em geral, tanto do governo quanto do Partido. Especialmente, parar de recuar.
IHU On-Line - Vislumbra alguma perspectiva de saída para a crise política diante do atual descrédito da população com relação à política?  
Valter Pomar - Sim, claro. Não existe crise sem fim. E o cronograma de saída da crise dependerá, no fundamental, daclasse trabalhadora, especialmente da disposição de amplos setores da classe que ao longo dos últimos anos se identificaram com o PT. Se estes setores demonstrarem disposição política e energia para retomar a ofensiva através de um forte ciclo de lutas, poderão obrigar o governo e o Partido a mudar de orientação. Agora, se aqueles setores não tiverem disposição e energia suficientes, a “perspectiva de saída” será construída por protagonistas diferentes dos atuais, muito provavelmente depois de um período (talvez dez anos ou mais) de recuo, desmobilização e desorganização.
IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?
Valter Pomar - Sim, um feliz 2016 e um lembrete: logo chegará a hora de comemorar os 100 anos da revolução de Outubro de 1917. Para horror de coxinhas e cavernícolas, estamos vivos e, mais cedo ou mais tarde, venceremos.
Por Patricia Fachin

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Resolução da direção





A crise atual e o futuro do PT
 
Resolução aprovada pela Direção Nacional da tendência petista Articulação de Esquerda.
 
1. Os próximos dias, semanas e meses serão marcados por um agravamento da situação internacional e nacional. A classe trabalhadora, as organizações populares e cada militante devem preparar-se para enfrentar e vencer batalhas cada vez mais duras e perigosas. Nosso pior inimigo são os que subestimam a gravidade da situação: vivemos tempos de guerra e, por isto, precisamos de um partido para tempos de guerra.

 2. No cenário internacional, falar de guerra não é uma metáfora. Como aconteceu em outros momentos de predomínio e crise do capitalismo, a guerra econômica entre classes e nações deriva para conflitos militares cada vez mais intensos. O atentado terrorista cometido na França e a derrubada de um avião russo pela força aérea turca são peças de um quebra-cabeças cujo desdobramento lógico – que, portanto, ainda pode ser evitado-- será um conflito militar em larga escala, cujo principal motor é o esforço desesperado que as potências imperialistas fazem para reverter seu declínio e restaurar sua plena hegemonia. Como naqueles outros momentos da história, há muitos que dizem ser impossível ou improvável um conflito militar em larga escala. De nossa parte, cerramos fileiras com aqueles que lutam pela paz, mas não temos nenhuma ilusão acerca dos propósitos do imperialismo, nem dúvidas acerca dos desdobramentos cada vez mais prováveis desta escalada da insensatez.

 3. No cenário regional, falar de tempos de guerra pode deixar de ser metáfora. A vitória da direita nas eleições presidenciais argentinas -- por uma diferença menor do que a apregoada pelos meios -- foi acompanhada imediatamente de uma exibição pública dos cavernícolas. Um exemplo disto foi o editorial do jornal La Nacion, que de fato faz uma defesa aberta dos responsáveis pelo genocídio de 30 mil argentinos durante a ditadura militar naquele país. Setores da oposição de direita venezuelana dão sinais de que também pretendem, a depender do resultado das eleições parlamentares de 6 de dezembro, subir o tom e a forma de seu combate contra a República Bolivariana da Venezuela. A integração regional autônoma frente aos EUA corre sérios riscos.

 4. No Brasil, os setores de ultradireita seguem ganhando destaque no discurso hegemônico na coalizão de forças responsável pela ofensiva conservadora. Os direitos dos pobres, das juventudes, dos negros e negras, das mulheres, da classe trabalhadora, os direitos humanos e democráticos, os direitos civis, a liberdade de organização sindical e partidária, os direitos sociais, tudo vai sendo empacotado e apresentado como parte de uma grande conspiração “lulo-petista-comunista-bolivariana” que precisa ser extirpada, para que o Brasil possa seguir adiante. Com este discurso, prepara-se o terreno não apenas para uma vitória neoliberal nas eleições de 2016 e 2018, não apenas para uma supressão dos direitos previstos pela Constituição de 1988, mas também para o regresso de traços típicos do Brasil pré-revolução de 1930.

 5. Os principais traços da presente conjuntura são, portanto: acontraofensiva conservadora no plano nacional e no regional, num contexto internacional marcado pela crise do capitalismo e por ações do Estados Unidos e aliados em busca de reverter o declínio de sua hegemonia global. Nesta conjuntura, o centro da nossa tática consiste em deter a ofensiva conservadora no Brasil, recuperar protagonismo em âmbito regional e contribuir com outros BRICS, especialmente no sentido de interromper a tendência dos EUA de buscar uma saída militar para os conflitos internacionais.

 6. A contraofensiva conservadora consiste numa operação simultânea, em paralelo, de diferentes setores: a direita social (em que têm grande influência “coxinhas” e “cavernícolas”); a direita partidária (em que disputam hegemonia o PSDB e o PMDB, este último operando como quinta-coluna no interior do governo); a direita midiática (na qual também há táticas distintas, por motivações políticas ou financeiras); a direita empresarial (a quem interessa sobremaneira a redução dos ganhos da classe trabalhadora); a direita incrustrada no aparato de Estado (especialmente na Justiça e nas Forças Armadas). Paradoxalmente, a inexistência de um centro único de comando tornou-se um fator que contribui para a contraofensiva de direita, isto por três motivos principais: a) eles têm unidade estratégia; b) eles têm divergências táticas, mas suas duas táticas alimentam-se reciprocamente; c) eles enfrentam uma esquerda divida na estratégia, dividida na tática, na defensiva e na qual destacam-se uma quinta-coluna (setores de esquerda, mas cujas posições contribuem ativamente com a direita) e uma “tendência suicida” (setores de esquerda, mas cuja passividade ajuda objetivamente a direita).    

 7. As diferentes direitas estão unidas em torno dos seguintes objetivos estratégicos: realinhar o Brasil ao eixo comandado pelos Estados Unidos, nos afastando da integração regional e dos BRICS; reduzir o nível de remuneração, direta e indireta, da classe trabalhadora brasileira; reduzir o nível de liberdades democráticas, direitos humanos e sociais da população brasileira. Não se trata apenas, portanto, de reconquistar o governo; seus objetivos estratégicos supõem reduzir ao mínimo possível a influência da classe trabalhadora e da esquerda sobre os rumos nacionais. Por este motivo, iludem-se os que ainda dizem frases do tipo: “eles não terão coragem”, “eles não irão até este ponto”. Eles irão até onde for necessário, especialmente no que diz respeito ao “programa máximo” da chamada Operação Lava Jato: atingir Lula.

 8. As diferentes direitas dividem-se em torno de duas táticas: a) os que defendem concentrar energias em fazer o governo Dilma cumprir o ajuste fiscal, desmoralizando assim o PT e a esquerda e pavimentando o caminho para uma vitória eleitoral “limpa” dos neoliberais em 2018; b) os que defendem afastar o mais rápido a presidenta Dilma, assim como interditar o mais rápido tanto o PT quanto Lula, para evitar qualquer possibilidade de surpresa eleitoral por parte das esquerdas em 2018. Embora diferentes, as duas táticas alimentam-se reciprocamente: a tentativa de impeachment e operação de criminalização do PT e Lula servem para acuar setores da esquerda e empurrar o governo para uma política cada vez mais conservadora; ao tempo que um governo que promove e um partido que assiste sem reagir a uma política de ajuste fiscal recessivo tornam-se cada vez mais fáceis de interditar. Deste ponto de vista é especialmente grave que setores do governo falem em parcelar o aumento do salário mínimo e adiar reajustes já acertados com os servidores, indicando para 2016 um cenário ainda mais grave do que o atual.

 9. As diferentes direitas, apesar de divididas e sem comando único, avançam porque no fundamental não têm enfrentado reação à altura e porque contam com os efeitos corrosivos da política econômica. Os movimentos sociais, setores dos partidos de esquerda e setores do governo tentam reagir, às vezes com mais, às vezes com menos êxito. Mas o núcleo central do governo e o setor majoritário na direção nacional do PT não têm contribuído com a resistência.
 10. No caso do grupo majoritário do PT, predomina a passividade, a inércia, a reação retardada, o cálculo miúdo e a contemporização com os erros nossos (especialmente aqueles evidenciados na Operação Lava Jato) e com os crimes da direita. No caso do núcleo central do governo, predomina a política de ajuste recessivo e a atitude contemplativa frente a partidarização de setores da Justiça, do Ministério Público e da Polícia Federal, bem como frente aos crimes cotidianamente cometidos pelo presidente da Câmara e pelo oligopólio da mídia.

 11. O ajuste recessivo não vai resolver o problema fiscal, entre outros motivos devido à política de juros. Mas o ajuste recessivo provocou uma crise econômica profunda, ao reduzir a ação do Estado, exceto naquilo que favorece a especulação financeira. Como resultado, o povo vive pior do que antes, o governo se enfraquece diante dos inimigos e perde o apoio dos que o elegeram, causando ademais profunda divisão nas esquerdas.

 12. A atitude contemplativa do governo frente aos crimes cometidos por seus inimigos nos faz pensar, cada vez mais, que o ministro da Justiça optou pela inação premiada. A declaração que o ex-secretário-geral do Partido, José Eduardo Cardoso, deu recentemente à revista IstoÉ é impossível de adjetivar, salvo ofendendo sensibilidades mais refinadas. Afinal, como é possível ouvir dizer que a lei é para todos, quando todos sabem que para petistas nem mesmo a lei vem sendo cumprida??? Até mesmo a imprensa conservadora, hipocritamente, questiona os dois pesos e duas medidas, presente por exemplo na tramitação do "mensalão tucano" e do "trensalão de Alckmin", para não falar de que apenas tesoureiros do PT foram presos. No fundo da postura do ministro da Justiça e de outros setores do governo, está a crença na “neutralidade” e “imparcialidade” do Estado frente aos interesses de classe (a esse respeito, recomendamos a leitura da resolução “O PT deve expulsar Delcídio Amaral”).

13. Frente a esta situação, reafirmamos e atualizamos as posições adotadas por nós logo após o segundo turno presidencial de 2014 (“Comemoração e luta”), no 2º Congresso da Articulação de Esquerda (“Um partido para tempos de guerra”) e na resolução divulgada pela Dnae logo após o 5º Congresso do PT (“À militância petista, sobre o 5º Congresso”).

14.Enfatizamos, em especial, a necessidade do Partido elaborar e implementar outra estratégia. Desde 1995 a maioria do PT veio implementando uma estratégia que pretendia mudar o Brasil sem reformas estruturais, mediante alianças estratégicas com setores da classe dominante, sem rupturas e com o máximo de conciliação possível, superestimando a institucionalidade eleitoral e subestimando na prática a mobilização social, a organização partidária e a disputa cultural-ideológica. Esta linha política – radicalizada pela Carta aos Brasileiros e levada ao paroxismo no atual ajuste fiscal recessivo – nunca nos conduziria ao poder, nem ao socialismo. E agora está se demonstrando incapaz inclusive de produzir avanços sociais e conquistas eleitorais. O PT precisa de outra estratégia.

15.Temos pela frente pelo menos quatro grandes tarefas: mudar a orientação do Partido dos Trabalhadores, mudar a orientação do governo, construir uma frente única das forças populares e deter a ofensiva conservadora, nas ruas, em 2016 e em 2018.

16. Reafirmamos nossa proposta de convocação imediata de um Encontro Extraordinário do PT, com delegados eleitos na base, para reorientar não apenas a tática, mas também a estratégia partidária. Caso a direção nacional do PT resista às evidências de que é preciso convocar imediatamente tal encontro, os delegados e delegadas ao recente Congresso devem reunir-se para tratar de tal convocação.

17. Reafirmamos nossa proposta de que o governo mude imediata e radicalmente a política econômica, assim como abandone o comportamento contemplativo frente à ofensiva da direita. Não fazer nada frente ao "programa máximo" da Operação Lava Jato é ser cúmplice.

 18. Reafirmamos nossa proposta de Construção da Frente Brasil Popular, em defesa das liberdades democráticas, por outra política econômica e por reformas estruturais. É preciso instalar a Frente em todos os estados e em todas as grandes cidades do país, e convertê-la em dinamizadora da mobilização política e social.

 19. Afirmamos que as eleições de 2016 devem ser encaradas como parte da disputa nacional, onde seremos chamados a defender o PT e a sustentar uma mudança de rumos no governo, de que depende no fundamental o resultado eleitoral. Motivo pelo qual repudiamos com veemência propostas como as de trocar Levy por Meirelles, que implicariam em manter o governo capturado pelo setor financeiro, de cujo desmonte depende sairmos da crise.

20. Setores importantes do Partido, inclusive setores do grupo atualmente majoritário no Diretório Nacional, concordam, parcial ou integralmente, com as preocupações e propostas anteriormente expostas. Mas o que predomina, pelo menos até agora, é um comportamento burocrático, defensivista, imobilista, cujo resultado prático tem sido criar confusão na nossa base (que esperava, por exemplo, uma postura clara e taxativa em favor da cassação de Eduardo Cunha) e nos fazer perder terreno, além de sinalizar para as direitas que não haverá resistência efetiva do lado de cá, na hipótese deles consumarem seu programa máximo: afastar Dilma, interditaro PT e Lula.

21. O grupo majoritário na direção nacional do Partido precisa compreender, antes tarde do que nunca, que ter maioria nas instâncias não é a mesma coisa que ter maioria no petismo. Precisa compreender, também, que não basta ter maioria: é preciso ter uma política e um comportamento que sejam capazes de coesionar o PT e outras forças da esquerda política e social, que sejam capazes de produzir vitórias no enfrentamento da contraofensiva da direita. Sem isto, a atual maioria do DN se tornará arquiteta de derrotas cada vez mais profundas. 

22. Quanto ao "comportamento", não podemos deixar de lembrar que desde 1995 até 2015, só há um cargo na executiva nacional do PT que nunca deixou de ser controlado pelo grupo majoritário: a tesouraria. Isto é revelador de uma concepção acerca de como formar maiorias. Concepção que, se continuar predominando, provocará danos irreversíveis ao nosso Partido, situação frente a qual não é suficiente nem correto alegar "perplexidade". Afinal, quando os malfeitos são cometidos por personagens como Candido Vacarezza, André Vargas e Delcídio Amaral, personagens que nunca foram discretos no seu modus operandi e que tiveram papel tão destacado, é preciso reconhecer que há algo de errado nos controles internos e nos métodos de formação das maiorias partidárias. Reiteramos o que é dito em resolução específica: o PT deve expulsar imediatamente Delcídio Amaral.

23. Frente a esta situação tão difícil, reafirmarmos o papel estratégico do Partido dos Trabalhadores. Uma derrota estratégica do PT, sob qualquer forma que possa ocorrer, seria acompanhada de um retrocesso brutal para o conjunto da esquerda brasileira, para o conjunto da classe trabalhadora e do povo, para o conjunto dos povos que lutam contra o imperialismo na região e no mundo. Estes são motivos mais do que suficientes para que não poupemos esforços no sentido de fazer, de nosso Partido dos Trabalhadores, um partido à altura dos tempos de guerra em que vivemos.
 
Direção nacional da Articulação de Esquerda
29 de novembro de 2015