quarta-feira, 9 de outubro de 2024

GL3: quem nos defende de José Múcio?

José Múcio carrega o título de ministro da Defesa.

Mas a quem mesmo ele defende?

Há vários motivos para a dúvida.


Trata-se de uma fala de Múcio, feita em um evento da Confederação Nacional da Indústria.

Múcio quer que o governo brasileiro autorize a compra de equipamentos militares israelenses. 

Até aí, direito dele. 

Mas a maneira como ele apresenta a questão é totalmente absurda, especialmente num evento público.

Palavras de Múcio: "A questão diplomática interfere na Defesa.  Houve agora uma concorrência. Venceram os judeus. O povo de Israel. Mas por questão da guerra, do Hamas, os grupos políticos, estamos com esta licitação pronta, mas por questões ideológicas não podemos aprovar".

A confusão que Múcio faz entre o "Estado de Israel" e os "judeus" é reveladora. 

Quem faz esta confusão é a extrema direita, com o objetivo de tratar qualquer crítica a Israel como se fosse antisemitismo.

Também é reveladora a referência ao "Hamas" e aos "grupos políticos". 

Israel está praticando um genocídio contra o povo palestino, usando o Hamas como pretexto. Múcio repercute o pretexto e, ademais, trata o genocídio como "guerra".

Neste contexto, comprar armas de Israel é ser cúmplice, contrariando a política definida pelo presidente Lula. 

Mas Múcio desqualifica a justa posição adotada até agora e a reduz à interferência de "grupos políticos" e "questões ideológicas", termo que na boca dele tem sentido depreciativo. 

Na nossa, pelo contrário, tem valor positivo: trata-se de não contribuir com a extrema-direita, o sionismo, o nazismo, o genocídio.

Em seguida, Múcio trata do potássio, pretexto que ele usa para atacar o que a Constituição estabelece acerca dos povos indígenas.

Depois o ministro reclama da orfandade da Defesa, afirmando que "se muita gente debita às forças armadas o golpe de 64, precisava ter creditado às forças armadas não ter havido o golpe em 2023, foram as forças armadas que preservaram, que seguraram a nossa democracia".

"Muita gente" acha que Múcio não deveria ter sido nomeado ministro da Defesa.

"Pouca gente" acredita na capacidade do ministro cuidar dos temas da sua pasta.

Mas a responsabilidade das forças armadas no golpe de 64 não é assunto em debate; não se trata de saber se "pouca" ou se "muita" gente pensa isto.

Trata-se de um fato histórico.

Que um ministro da Defesa coloque este fato em dúvida, equivale a um ministro da Saúde colocar em dúvida o SUS.

Mas o mais grave não é a opinião de Múcio sobre o 1 de abril de 1964.

O mais grave é a opinião dele sobre o 8 de janeiro de 2023.

Primeiro, porque a crença de que as forças armadas seriam a mão forte e o braço amigo que defende a democracia, foi exatamente um dos argumentos utilizados para justificar o golpe de 64.

Ao contrário do que possa parecer, Múcio reverbera uma ameaça, uma chantagem, como se dissesse: agradeçam aos militares por terem agido assim, pois eles poderiam ter agido assado.

Segundo, porque Múcio disse uma mentira. 

Parte importante da cúpula do exército, mas também de outras forças, foi cúmplice passivo ou ativo da intentona de 8 de janeiro de 2023. 

Enquanto todos estes criminosos não estiveram presos, seguiremos correndo risco.

Na sua fala, Múcio também refere-se à frustrada venda, para a Alemanha, de munições que seriam transferidas para a Ucrânia usar contra a Rússia. 

Múcio considera que um "grande negócio" foi prejudicado por um "embaraço diplomático".

Embaraçoso é ter Múcio como ministro.

E tê-lo como ministro da Defesa é mais que embaraço: é um alto risco.

Mas tem gente que gosta de viver perigosamente.


 







terça-feira, 8 de outubro de 2024

Eleições 2024: sobre a nota da Executiva Nacional

A Comissão Executiva Nacional do PT, reunida no dia 8 de outubro, soltou uma nota sobre as eleições municipais.

A nota pode ser lida aqui: Nota da Comissão Executiva Nacional do PT sobre as eleições municipais | Partido dos Trabalhadores

Como é óbvio, esta nota não é um balanço do processo eleitoral, que só será possível depois que concluir o segundo turno. 

Aliás, nosso esforço principal, neste momento, é ganhar o segundo turno onde estamos disputando. Se tivermos êxito nisso - especialmente nas cinco capitais - nosso balanço será bem diferente daquele que é possível fazer agora.

Feita esta ressalva geral, alguns comentários pontuais sobre o que é dito na nota da executiva.

Primeiro, a nota está correta criticar as "emendas parlamentares bilionárias" e o uso das "máquinas públicas municipais" (e estaduais, faltou dizer. Em São Paulo, por exemplo, o governo Tarcísio foi fundamental para a ida de Nunes ao segundo turno das eleições).

Mas é preciso ir além: a distorção no sistema político é mais profunda do que isto. Para dar alguns exemplos, continuam existindo o financiamento privado, o dinheiro ilegal, a compra de votos. A violência política, o oligopólio da comunicação e as empresas de fake news agiram com toda força. E, no caso dos vereadores, o voto nominal favorece a direita. É esse conjunto de fatores que ajuda a explicar por quais motivos, quando nós somos governo, o efeito disto é um; quando a direita governa, o efeito é outro.

Segundo ponto: compreensivelmente, a nota da executiva nacional escolheu não falar nada acerca da nossa cota de responsabilidades, embora admita "eventuais equívocos".  Não sei se "equívocos" é a palavra mais adequada, mas precisamos mesmo debater questões como a escolha de candidaturas, a linha de campanha, a política de alianças, os critérios na distribuição do fundo eleitoral e a agenda do companheiro Lula. Cada um desses aspectos e outros que não foram citados, precisam ser objeto de análise detalhada de nossa parte. 

Terceiro ponto: o texto da executiva fala que o resultado de 2024 foi "o início da recuperação eleitoral do PT nos municípios". Acho prematuro concluir isso. Pois se existir um "equívoco" na linha política, a "recuperação" só vai ocorrer se a linha mudar. Aliás, mudança que na minha opinião precisa começar ontem, seja quando nos posicionarmos naqueles segundos turnos de que não participamos, seja para vencermos o segundo turno onde há candidaturas petistas disputando.

Quarto ponto: o texto da executiva fala que as eleições ocorreram num "cenário que mais uma vez favoreceu a eleição ou reeleição de candidatos das legendas da centro-direita e direita dominantes no Congresso Nacional". O problema desta formulação é que o cenário das eleições de 2024 inclui elas terem sido realizadas no meio do governo Lula 3. E nossos resultados, desta vez, foram piores do que os resultados obtidos no meio do governo Lula 1, no meio do governo Lula 2, no meio do governo Dilma 1 e foram piores, inclusive, do que os resultados que obtivemos em 2016, depois do golpe. 

Moral da história: precisamos falar do governo Lula, incluindo a sua relação com as tais "legendas dominantes" no Congresso.

Quinto ponto: o documento elenca uma série de pontos positivos no desempenho do PT. Alguns destes pontos precisam ser melhor analisados (por exemplo, a alta concentração das prefeituras em pequeno número de estados); outros pontos precisam ser debatidos em profundidade (como o desempenho desastroso em Salvador, a não ida para o segundo turno em Teresina, assim como as alianças em Recife e Rio de Janeiro); alguns precisam deixar de ser naturalizados (como é o caso de termos eleito inúmeros vices de partidos de direita). Mas há um ponto citado de passagem, que merece ser especialmente rediscutido pelo nosso Partido: trata-se da Federação, que em geral causou mais danos que vantagens.

De toda forma, são assuntos para debatermos depois do segundo turno. Até porque será melhor, para o país e para nosso Partido, que o balanço seja feito em ambiente de real vitória.


Estratégia: rascunho 2

Este texto é o segundo de uma série dedicada a debater qual deve ser a estratégia do Partido dos Trabalhadores.

Em discurso realizado na ONU, dia 24 de setembro de 2024, Lula afirmou que “2023 ostenta o triste recorde do maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial”. Os dois principais conflitos têm como epicentro a Ucrânia e a Palestina, respectivamente.

No dia 24 de fevereiro de 2022, teve início a “operação militar especial" contra a Ucrânia. Quase três anos depois, prosseguem os combates que envolvem de um lado tropas da Federação Russa e, de outro lado, tropas da Ucrânia com amplo apoio da OTAN, em particular dos Estados Unidos.

No dia 7 de outubro de 2023, combatentes do Hamas atacaram Israel, que ocupa ilegalmente território palestino desde 1948. Pretextando o direito a defender-se, Israel vem desde então promovendo terrorismo de Estado, não apenas contra a população de Gaza, de onde partiram os ataques do Hamas, mas também contra a Cisjordânia, o Líbano, a Síria e o Irã. Igual a Ucrânia, Israel conta com o apoio dos Estados Unidos.

No quesito conflitos militares, 2024 deve terminar pior do que 2023. Isso está vinculado a dois fenômenos distintos, mas interligados. Por um lado, a indústria militar e as guerras são componentes cada vez mais importantes da dinâmica capitalista moderna, especialmente nos momentos de crise. Por outro lado, a ameaça de guerra e/ou a guerra propriamente dita constituem parte essencial do esforço que os Estados Unidos fazem para tentar reverter o declínio de sua hegemonia.

A situação atual poderia evoluir para algo semelhante às duas guerras mundiais ocorridas no século passado, com o agravante de que agora armas nucleares possam vir a ser utilizadas? Ou o que teremos pela frente seria um processo mais ou menos longo de conflitos de pequena e média intensidade, regulares e irregulares, capazes de provocar grande letalidade e todo tipo de horror, mas sem chegar ao ponto de uma guerra total como a Primeira e a Segunda?

Há muitas e diferentes respostas para estas duas perguntas. A rigor, não há como ter certeza sobre o que pode vir a ocorrer, entre outros motivos porque até mesmo as justificadas medidas protetivas adotadas por quem é contra as guerras, servem de pretexto para uma escalada por parte de quem é a favor da guerra.

Mas não é certo que tudo seja incerto.

Por exemplo: em última análise, na base da militarização está a dinâmica capitalista, ou seja, a subordinação de toda a vida social ao objetivo de valorizar o Capital; as decorrências sociais e políticas das crises periódicas; o papel da indústria armamentista na acumulação em geral e nos momentos de crise em particular; a ação do imperialismo; as disputas interimperialistas e intercapitalistas. A afinidade entre capitalismo e guerra mundial é tão profunda que podemos concluir o seguinte: enquanto o capitalismo não for superado, a guerra seguirá nos assombrando.

Outro exemplo de que nem tudo é incerto: ao menos neste momento da história, a derrota do capitalismo passa por enfrentar os Estados Unidos. Os EUA são, ao mesmo tempo, epicentro do capitalismo mundial e da militarização. Seja por seu papel na desordem capitalista mundial, seja pelo estoque acumulado de armas e histórico de violência, seja pela importância que a indústria militar tem na sua dinâmica econômica, seja por usarem das armas como ferramentas para tentar interromper e reverter seu declínio como potência hegemônica, a conclusão é a seguinte: a eliminação ou pelo menos a redução dos conflitos militares passa pelos Estados Unidos.

Nesse sentido, há três possibilidades fundamentais:

i/uma pax americana, resultante da derrota da China, da Rússia e dos demais inimigos estadunidenses. Mas esse cenário seria uma paz precedida por enormes cemitérios e, muito provavelmente, acompanhada de insurgências variadas mundo afora;

ii/outra possibilidade seria uma mudança na conduta dos Estados Unidos, seja por uma vitória da esquerda estadunidense, seja por uma derrota militar do imperialismo gringo, seja por uma correlação de forças mundial que obrigasse os Estados Unidos a adotar uma postura mais comedida. A primeira hipótese ainda não se vislumbra, a segunda pressuporia a já citada pax dos cemitérios, a terceira é de difícil execução.

Sobre esta terceira possibilidade, a dificuldade reside basicamente em dois pontos:

i/os Estados Unidos não aguardam parados que se construa, ao redor deles e para nos proteger deles, um “cordão sanitário”. Pelo contrário, tomam medidas para impedir que a situação chegue ao famoso “ponto de não retorno”, a partir do qual a camisa de força se tornaria hipoteticamente insuperável;

ii/os Estados Unidos enfrentam imensas dificuldades para reverter o seu declínio nos terrenos econômico e tecnológico. Por isso, precisam criar conflitos militares, precisam deslocar os conflitos para o terreno das armas, onde ainda contam com vantagem relativa.

Os dois pontos citados anteriormente explicam por que os EUA atacam sempre, tornando de difícil execução a criação de um “cordão sanitário” que os obrigue a maior comedimento. Ao contrário de uma atitude passiva ou reativa, os Estados Unidos adotam, há tempos, a “teoria do dominó” e o “ataque preventivo”. E não se importam muito com a natureza política e social dos seus oponentes. O que lhes importa é saber se são oponentes. Motivo pelo qual sempre foi ilusão achar que seríamos tratados de forma qualitativamente diversa caso nos limitássemos a implementar um programa respeitoso ao capitalismo mais ou menos neoliberal e/ou aos marcos da democracia eleitoral modelo USA.

A natureza do nosso programa e as características de nossa democracia são variáveis importantes no que diz respeito a ganhar maioria entre nosso povo. Mas a variável principal que decide a atitude dos Estados Unidos a nosso respeito é a postura que adotamos frente ao lugar dos EUA no mundo. Na prática, um socialista revolucionário e um socialdemocrata sincero serão tratados da mesma forma caso enfrentem as regras unilaterais USA e caso questionem o papel do dólar.

A esquerda brasileira não tem uma atitude única frente aos Estados Unidos e a seus aliados. Dentre o leque de posições existentes, destacamos três:

i/aquela que não reconhece a existência do “imperialismo” ou, pelo menos, não opera com esta categoria no momento de construir e aplicar sua respectiva política externa (de governo) e internacional (de partido ou movimento). Os que pensam assim não constroem uma política para lidar com o imperialismo enquanto política de Estado; no máximo, adotam políticas para lidar com atitudes imperialistas adotadas por determinados governos. Mormente, reduzem o imperialismo ao militarismo; quando, na verdade, este último é uma decorrência daquele primeiro.

A conduta acima descrita é muito forte no ministério do governo Lula 3, inclusive entre os representantes da esquerda. É isto que explica, ao menos em parte, as expectativas (frustradas) que muitos manifestaram em torno da “revolução” que, supostamente, seria feita pelo governo Biden; as ilusões em torno da política interna e externa do Partido Democrata dos EUA; a tolerância com que são tratados os escandalosos vínculos de nossas forças armadas e de segurança com o Pentágono e com Israel; e a aposta que setores do Itamaraty seguem fazendo no relacionamento com a Europa, por exemplo no neocolonial acordo de livre comércio UE-Mercosul.

Evidentemente, tanto o imperialismo quanto as guerras do século XXI possuem diferenças frente ao que existiu no passado. E não há dúvida de que se pode e se deve explorar as divergências existentes entre os imperialismos e no interior de cada nação imperialista. Mas colocar em dúvida a existência e a relevância do imperialismo é negacionismo. E não estruturar nossa política internacional em torno do combate ao imperialismo nos torna desguarnecidos frente aos seus inevitáveis ataques. Vide, aliás, o que ocorreu no governo Dilma 2.

ii/a segunda posição é aquela que não reconhece o imperialismo estadunidense como nosso inimigo principal, atribuindo à Rússia e à China uma conduta que também deveria ser combatida com ênfase se não igual, pelo menos similar.  

Esta segunda posição - tratar todos os integrantes do Conselho de Segurança da ONU como “farinha do mesmo saco”, por serem igualmente capitalistas e/ou imperialistas - é muito forte em alguns partidos de ultraesquerda, mas também dentro do PSOL e do PT.

Evidente que nossa política internacional não pode nem deve ser “seguidista” de ninguém. Não apenas por razões de princípio, mas também porque o inimigo de nosso inimigo nem sempre é, tampouco precisa necessariamente ser nosso amigo, além de poder vir a ser o inimigo de amanhã.

Evidente, também, que há e seguirá havendo muito debate acerca da natureza do Estado e da sociedade chinesa, bem como acerca de como caracterizar sua projeção externa. Ainda a esse respeito, vale lembrar que nos anos 1960 e 1970, o Partido Comunista da China chegou a classificar a URSS como “social-imperialista”. Contudo, sem prejuízo deste debate de fundo, a questão é relativamente simples: do nosso ponto de vista – brasileiro e latino-americano – não faz sentido algum tratar de forma similar a Rússia, a China e os EUA.

Perguntamos: quantos golpes, quantas invasões, quantas ações de ingerência a República Popular da Chin e a Federação Russa (antes dela, a URSS) praticaram na América Latina e Caribe?

No caso da China, é preciso levar em conta a objeção segundo a qual a expansão econômica dos chineses seria, em si mesma, imperialista. Para facilitar o debate, admitamos que fosse assim, ainda que neste caso tivéssemos que falar de um “imperialismo com características chinesas”, que entre outras diferenças não seria acompanhado – ao menos na América Latina - da ingerência política e militar típicas do imperialismo estadunidense.

Mesmo aceita a hipótese acima, ainda assim ficaria evidente que China e EUA não são casos similares, entre outros pelos seguintes motivos: a/no plano político e militar, é para nós muito mais fácil lidar com a China do que com os EUA; b/no plano econômico, existe a possibilidade – inexistente no caso dos EUA – de propor aos chineses e com eles tentar construir outro padrão de relacionamento entre nossos países, no sentido de contribuir para a reindustrialização do Brasil; c/ademais e principalmente, China e Rússia se enfrentam, em maior ou menor medida, com os EUA. Na ausência deste enfrentamento, a pressão sobre nós e sobre a América Latina seria muito maior. Do ponto de vista estritamente pragmático, China e Rússia podem ser nossos aliados contra os EUA. Logo, se decidíssemos praticar alianças diretas ou indiretas com os EUA, tendo como alvo China e Rússia, essa decisão seria útil apenas para os Estados Unidos, não para nós.

iii/uma terceira posição é aquela que propõe organizar a política internacional da esquerda em torno da luta contra a extrema-direita (ou neofascismo, ou simplesmente fascismo). Esta terceira posição é influente inclusive entre os que são anticapitalistas, entre os que reconhecem a existência e o papel deletério do imperialismo, entre os que enfrentam os EUA, mas consideram que haveria um inimigo principal a ser combatido: o fascismo/neofascismo/extrema-direita.

Para debater esta terceira posição, é preciso começar lembrando de algo óbvio: em grande parte, senão na totalidade dos países capitalistas, convivem dentro da classe dominante diferentes posições. Dentre elas, a extrema-direita, que continuou existindo mesmo depois da derrota do nazifascismo em 1945. Continou existindo, é bom lembrar, porque foi tolerada, protegida e utilizada em nome de combater o comunismo, especialmente a União Soviética.

Pois bem: o desaparecimento da URSS, em 1991, gerou, em muitos setores da esquerda, a expectativa de que teríamos mais paz e mais liberdades democráticas. Os expectantes imaginavam que a corrida armamentista seria detida e os imensos gastos militares seriam reconvertidos em investimentos produtivos e sociais. E a derrota final (ou, pelo menos, o tremendo enfraquecimento) do socialismo como alternativa sistêmica ao capitalismo tornaria possível uma tremenda ampliação da democracia, não apenas na URSS e no Leste Europeu, mas também em muitos países capitalistas. Afinal, não estando mais em risco o capitalismo, se tornariam desnecessários os golpes, as fraudes e as distorções que maculavam os chamados regimes democráticos. Como resultado disso, aumentariam as chances de a esquerda chegar ao governo pela via eleitoral. No caso da América Latina e Caribe, onde existia uma interdição de princípio contra a chegada da esquerda aos governos nacionais, os golpes virariam coisa do passado e tudo dependeria de a esquerda ganhar para si o apoio das massas.

As expectativas eram mais ou menos essas. Mas não foi propriamente isso o que aconteceu. A coincidência entre crise do socialismo soviético, ampliação das liberdades democráticas formais e ascensão do neoliberalismo gerou efeitos colaterais que resultaram num cenário muito mais complexo do que o imaginado por muita gente de esquerda.

Acontece que o neoliberalismo implica em ampliar a exploração da classe trabalhadora pelos capitalistas e, também, ampliar a exploração da periferia do mundo pelas metrópoles capitalistas. Em decorrência, o que ocorreria seria uma escalada de conflitos, menos paz e menos democracia, sem falar das agressões ao meio ambiente.

Claro que o processo não foi linear, nem homogêneo. Mas como apontou Lula no discurso na ONU, depois de décadas de neoliberalismo, cresceu em todo o mundo a presença da guerra e da extrema-direita.

A ascensão da extrema-direita não deveria ser motivo de surpresa. Algo parecido ocorreu nas décadas de 1920 e 1930. O fato é que, em inúmeros países, o acumulado econômico e social de quatro décadas de neoliberalismo tornou muito mais difícil hegemonizar a classe trabalhadora através de fórmulas tipo “trabalhe e melhorarás de vida”, fórmulas que tinham por detrás a crença de que o capitalismo permitia a ascensão social. Os bisavós e avós das atuais gerações acreditavam que sua prole tinha grandes chances de melhorar de vida. Já a atual geração tem a certeza de que sua prole tem grande chance de ter um futuro pior do que o passado. Até porque as pessoas, quando conseguem trabalho, trabalham cada vez mais e não conseguem melhorar de forma correspondente.

Se a classe dominante não fizesse nada a respeito, esta percepção poderia servir de combustível para o crescimento da esquerda. Mas, como sabemos, a classe dominante quase nunca deixa de fazer o que precisa ser feito em benefício dela mesma. Mesmo depois da URSS desaparecer, os Estados capitalistas vêm reforçando seu aparato militar externo e de segurança interna. Mesmo depois do desmanche do socialismo soviético e da adoção de políticas de mercado na China, os oligopólios de comunicação e cultura mantiveram e ampliaram sua campanha ideológica anticomunista, inclusive tratando como farinha do mesmo saco os socialismos revolucionários remanescentes e as políticas de bem-estar social de tipo socialdemocrata. Em inúmeros países, verificou-se o fortalecimento dos mecanismos de controle sobre os processos eleitorais, via oligopólio da comunicação, marketing despolitizante, regras restritivas e grana, muita grana. Investiram pesado na destruição e desmoralização de partidos, movimentos e organizações que tivessem vínculos com a emancipação da classe trabalhadora. Estimularam organizações de tipo empresarial e religioso. E onde nada disso foi suficiente para impedir vitórias eleitorais da esquerda, retomaram fórmulas mais ou menos vintage para controlar, sabotar, cooptar e quando necessário derrubar eventuais governos de orientação popular. No final das contas, a ampliação das liberdades democráticas se limitou ao plano dos procedimentos formais: depois de 1991, mais pessoas passaram a participam de processos eleitorais ao estilo estadounidense.

Frente a tudo isso, houve diferentes reações na esquerda. Uma destas posturas foi a de mudar de lado. Outra foi rebaixar o programa. Uma terceira foi a integração no sistema político eleitoral americanizado. Mas houve também quem resistiu a isto, das mais variadas formas.

Mas quando se olha a situação do ponto de vista da classe trabalhadora, das grandes massas do povo, o que se percebe é que cresceu muito a descrença quanto aos processos eleitorais, enquanto mecanismos idôneos para melhorar a vida dos setores populares.

Claro que sempre houve setores populares absenteístas, assim como sempre houve setores populares cooptados pela classe dominante. Em cada país, apenas uma parte da classe trabalhadora tem consciência de classe. Entretanto, a hegemonia neoliberal também fez crescer a descrença com o sistema político eleitoral.

Mesmo em países como o Brasil, em que candidaturas de esquerda venceram 5 das 9 eleições presidenciais realizadas desde 1989, é óbvio que há uma crescente insatisfação com o sistema político, uma crescente degradação das liberdades democráticas, com campanhas cada vez mais custosas, com o empresariado privado seguindo na compra de mandatos, com o oligopólio da comunicação manipulando consciências, com o crime organizado interferindo, com o crescimento da violência política, com a judicialização da política e a partidarização da justiça, com a interpretação criativa da legislação eleitoral etc. Sem falar no cerco institucional e dos poderes fáticos que dificultam a vida de um governo de esquerda que queira cumprir seu programa.

Frente a tudo isto, simplesmente não dá para levar a sério quem teoriza acerca da superioridade abstrata da democracia realmente existente no mundo capitalista. Assim como não dá para aceitar a hipocrisia ou cegueira dos que exigem “normalidade exemplar” de processos eleitorais realizados sob sanções econômicas e cerco militar.

A degradação do sistema político e eleitoral típico da “democracia burguesa” não ocorre apenas na periferia do mundo capitalista. Vide o que está ocorrendo nos Estados Unidos, na disputa sem quartel entre trompistas e democratas. Não se trata de um problema deste ou daquele país, deste ou daquele líder, deste ou daquele partido. O problema é mais de fundo e já foi demonstrado nos anos 1920: em períodos normais, a democracia eleitoral burguesa talvez seja mesmo o melhor método para os capitalistas exercerem sua hegemonia; mas, em momentos de crise, parte crescente dos políticos profissionais a serviço da classe capitalista apela para a manipulação e relativização escancaradas de muitos resultados eleitorais. Vide a formação do recente governo francês.

É nesse contexto – de crise daquilo que alguns chamam de democracia liberal - que crescem as forças políticas de tipo fascista. Foi assim na década de 1920, está sendo assim um século depois.

À classe dominante, o neofascismo oferece mão dura e muita fé para manter a paz social, num ambiente de crescentes contrastes entre ricos e pobres. Aos setores médios, o neofascismo oferece menos lei e mais ordem contra os pobres. Aos setores mais lascados do proletariado, o neofascismo oferece um coquetel explosivo que inclui coachs, bets, crime, teologia da prosperidade e empreendedorismo popular. Tudo devidamente embalado como crítica de direita ao sistema. E tendo como som de fundo algo ao estilo Dança das Valquírias: o culto à violência e à morte.

Devido a esta natureza multifacetada, é ilusão achar que se pode combater e derrotar o neofascismo apenas fazendo apelos à paz e à democracia. Assim como também é ilusão acreditar que ele possar ser superado apenas pela oferta ampliada de empregos e políticas sociais. Vide o que vem ocorrendo no Brasil desde o final de 2022 até hoje. Os indicadores melhoram, mas a popularidade do governo Lula e a votação na esquerda não correspondem. Derrotar o neofascismo exige recompor o tecido econômico e social, mas no contexto de uma revolução política e cultural. Pois o neofascismo é um sintoma de um processo muito mais profundo.

Isto posto, é fato que a extrema-direita é mais ameaçadora para a esquerda, do que a direita gourmet. É mais ameaçadora, entre outros motivos, pelo círculo vicioso decorrente da existência dela: i/a extrema-direita disputa contra nós a influência sobre amplos setores populares; ii/a extrema-direita, quando vitoriosa, reduz ainda mais as liberdades democráticas do povo; iii/em nome de derrotar a extrema-direita, parcelas amplas da esquerda e da direita tradicional fazem concessões à direita; iv/e ao ficar cada vez mais parecida com a política tradicional, a esquerda perde ainda mais influência sobre amplas camadas do povo.

No plano da política externa, entretanto, a coisa é mais confusa. Tanto nos EUA quanto na Europa, o enfrentamento com a China e o apoio a Israel contra a Palestina unifica a maior parte da classe dominante. Já no caso da Ucrânia, há mais divergências. Na Alemanha, por exemplo, o partido neonazista diverge do apoio sem limites que vem sendo dado à Ucrânia contra a Rússia. Trump faz o mesmo.

A confusão também comparece no plano econômico. Na América Latina, as principais estrelas do neofascismo – Milei e Bolsonaro, por exemplo - são neoliberais, ultraliberais, libertarianos. Já na Europa e nos EUA, a extrema-direita tende a ser nacionalista e protecionista. Aliás, há crescentes sinais, em todo o espectro político vinculado à classe dominante dos grandes países imperialistas, de que o Estado como agente econômico direto está sendo reabilitado.

Moral da história: está correto tratar o neofascismo como inimigo principal; mas é indispensável enfrentar a principal causa do fortalecimento do neofascismo, a saber, as políticas econômicas neoliberais e a consequente degradação das liberdades democráticas. Por isso, o antifascismo consequente é também anti-imperialista, vincula democracia com soberania, democracia com bem-estar, democracia com desenvolvimento.

Por isso, erram os que – a pretexto de derrotar o neofascismo - adotam a “defesa da democracia” desvinculada do anti-imperialismo como critério fundamental nas alianças internacionais.

Aliás, é muito comum vermos defensores deste ponto adotando como “modelo” o sistema político existente nos EUA ou nalgum país da Europa. Ao fazerem isso cometem pelo menos três erros. O primeiro é aceitar modelos. O segundo é ocultar ou minimizar os imensos problemas existentes nos EUA e na Europa, inclusive no terreno das liberdades democráticas. E o terceiro e principal erro é não perceber que a tal “democracia eleitoral” está fazendo água por todas as partes.

Um sinal disto é que, no presente ano de 2024, a cúspide de conflitos militares coincide com uma “supermaratona eleitoral”: “da África à Ásia, das Américas à Europa (...) mais de 40 eleições nacionais ou transnacionais pelo mundo, em países que concentram mais de 40% da população mundial”. [A fonte da afirmação acima está aqui: 2024: o superano de eleições pelo mundo - Opera Mundi (uol.com.br)]

As eleições citadas são variadas e com resultados também variados. Muitas delas estão sendo diretamente afetadas pelas guerras, como é o caso das eleições nos Estados Unidos e nas europeias, onde “Palestina” e “Ucrânia” motivaram não apenas fortes debates, mas também explicam o comportamento de fatias importantes do eleitorado. Importante dizer que, nos casos citados, o comportamento de parte importante do eleitorado é forjado num ambiente em que operam mais ou menos livremente grandes empresas privadas de comunicação pró-Israel e pró-Ucrânia; ao mesmo tempo em que muitas vezes são censuradas e banidas posições em contrário ou meramente equilibradas. Aliás, em vários países autoproclamados democráticos, acontece de ser criminalizado quem se manifesta contra o sionismo.  Sem esquecer que na “democrática” Ucrânia o mandato de Zelenski expirou em 20 de maio de 2024; e o democrático Israel é conduzido por um cidadão que provavelmente estaria preso, não fosse a guerra.

A maneira como parte da mídia pró-Estados Unidos trata as ações de Israel contra a Palestina contribui para naturalizar não apenas a guerra, mas também o genocídio. Por um lado, isso legitima o desvio de crescentes recursos públicos em favor das empresas que produzem armamentos: como lembrou Lula na ONU, os “gastos militares globais cresceram pelo nono ano consecutivo e atingiram 2,4 trilhões de dólares”. Por outro lado, isso alimenta um ambiente político-cultural fascista, contribuindo para o crescimento da extrema-direita e da violência política nos processos eleitorais.

Resumo da ópera, pelo menos para nós aqui no Brasil e na América Latina e Caribe, é que precisamos saber de que lado cada movimento, partido e governo está, na batalha principal, que é contra o imperialismo. E precisamos pensar em termos de força real, não apenas institucional. Porque, no final das contas, será esta força real que vai decidir a parada, e não apenas a força institucional medida nos termos da democracia liberal.

Assim sendo, uma estratégia para estes tempos de guerra precisa prever:

-a construção das condições necessárias à defesa de nossa soberania nacional, incluindo aí forças armadas que não estejam subordinadas aos EUA, como é o caso (hoje) do alto comando das nossas;

-a construção de alianças fortes com as forças políticas antiimperialistas que atuam no nosso entorno imediato (América Latina e Caribe), motivo pelo qual o Foro de São Paulo deve continuar sendo uma prioridade na nossa política internacional e a integração regional deve ser reconstruída como viga mestra de nossa política externa;

-a construção de relações com as forças políticas antiimperialistas que atuam no chamado Sul Global (África, Ásia), com prioridade para China e Rússia;

-a solidariedade com todas as forças que lutam contra os Estados Unidos e seus aliados, a começar pelo povo palestino.

Evidentemente, há contradições entre nossos potenciais aliados anti-imperialistas. Assim como há, dentre esses aliados, forças que coincidem mais ou menos conosco no que toca à defesa do socialismo e das liberdades democráticas. Mas o tratamento dessas “contradições no seio do povo” não pode nos levar, nunca, a fazer alianças com aqueles que empurram o mundo para a catástrofe.

 

Eleições 2024: dinheiro e voto nas campanhas proporcionais da esquerda em Campinas

A eleição não terminou.

Em 52 cidades está ocorrendo segundo turno.
 
Mas antes disso, já está em curso o debate sobre quem ganhou e quem perdeu.

E por quais motivos isso aconteceu.

Há muitas variáveis envolvidas.

Uma delas é o dinheiro.

Como sabemos, continua havendo "dinheiro não declarado" (com o perdão do eufemismo) e compra de votos, sem falar de outros mecanismos que integram a chamada democracia burguesa.

Feita esta ressalva - nem todo dinheiro usado é contabilizado - vale a pena comparar os recursos que cada campanha declarou e a votação que obteve.

Como são 463 mil candidatos em todo o país, isto dá um certo trabalho, digamos assim.

Alguém - não sei quem - começou este trabalho, analisando a bancada de eleitos e primeiros suplentes da Federação Esperança Brasil na cidade de Campinas 

Vejam abaixo.


Supondo que os dados sejam corretos, o resultado é muito didático. 

Os seis primeiros nomes são os mais votados da Federação Esperança Brasil em Campinas. Cinco são do PT e 1 (Gustavo Petta) é do PCdoB. Destes seis, quatro (Petta, Guida, Paolla, Cecílio) já são vereadores. 

Quando ordenamos os seis por votação obtida em 2024, fica assim: Paolla, Guida, Wagner, Gustavo, Cecílio e Evelyn.

Quando agrupamos os seis por ordem de recursos financeiros, fica assim: Wagner, Gustavo, Evelyn, Guida, Paolla e Cecílio.

Uma conclusão possível é que, se você tem mandato, dinheiro não é o único fator. Petta já tem mandato, foi o segundo colocado em termos de recursos mas ficou em quarta posição em termos de votos. Jà Paolla foi a quinta colocada em termos de recursos, mas ficou em primeiro lugar em termos de votação.

Outra conclusão possível é: se você não tem mandato, dinheiro influi bastante. Wagner e Evelyn não têm mandato. Wagner foi o primeiro colocado em termos de recursos, mas ficou em terceira posição em termos de votos. Evelyn foi a terceira colocado em termos de recursos, mas ficou em sexta posição em termos de votos. 

Terceira conclusão: se os seis tivessem obtido o mesmo recurso, a ordem da nominata provavelmente seria outra. Mas é possível, também, que o número de eleitos fosse menor, uma vez que parte dos atuais eleitores talvez não tivesse sido contatado pelas respectivas campanhas.

O que leva à quarta conclusão é: nesse sistema eleitoral, a esquerda está fadada a sempre eleger bancadas menores do que as da direita. 

Por isso, mais importante do que brigar por ter mais recursos para X ou Y se elegerem, é mudar o sistema e instituir o voto em lista. Assim, teremos motivos institucionais para parar de brigar dentro do mesmo partido (ou dentro da Federação, para quem gosta dessa geringonça) e para voltar a lutar unidos contra nossos inimigos.















Eleições 2024: vitórias da esquerda

No dia 6 de outubro aconteceram eleições em 5569 municípios.

Os partidos de centro-direita, direita e extrema-direita foram os mais votados.

Esses mesmos partidos conquistaram o maior número de prefeituras e de mandatos de vereadores.

Os números (aproximados) são os seguintes:  

*91 milhões de votos em candidaturas vindas das direitas, 22 milhões de votos para candidaturas lançadas pelas esquerdas;

*4726 prefeituras conquistadas por candidaturas vindas das direitas, 740 prefeituras conquistadas por candidaturas lançadas pelas esquerdas;

*48.106 mandatos de vereança conquistados por candidaturas vindas das direitas, 10.308 mandatos conquistados por candidaturas lançadas pelas esquerdas.

Com base nestes dados (aproximados), fica óbvio que os partidos de centro-direita, direita e extrema-direita foram vitoriosos no primeiro turno das eleições.

Entretanto, a disputa não terminou no primeiro turno. 

Em 52 cidades haverá segundo turno, no dia 27 de outubro. Destas 52, 15 são capitais, inclusive a de maior eleitorado e população do Brasil, a cidade de São Paulo Capital.

[Ao final deste texto, está a relação de cidades onde haverá segundo turno.]

A depender de quem vença nessas 52 cidades, o balanço político das eleições municipais pode ser bem diferente do balanço do primeiro turno.

No primeiro turno, repetimos, houve uma vitória da direita. 

Mas caso – por exemplo – Boulos, Maria do Rosário, Lúdio, Evandro e Natália sejam eleitos, o balanço político será outro: vitória da esquerda.

Provavelmente com a intenção de contribuir para esta vitória no segundo turno, muitos dirigentes e analistas vinculados à esquerda estão pintando o primeiro turno como tendo sido uma “vitória”. 

Abaixo dois exemplos disto.



A verdade é um pouco diferente da descrita nos posts acima. Afinal, não estamos disputando contra nosso próprio desempenho em 2020. Nossa disputa é contra a direita em 2024. E no primeiro round dessa disputa foram eles que venceram.

Ademais, quando comparamos nosso desempenho em 2024 com nosso desempenho em eleições municipais anteriores, há certos cuidados a serem tomados. Recomendamos, a respeito, analisar as informações abaixo, divulgadas pelo Grupo de Trabalho Eleitoral do PT antes da eleição, num momento em que se fazia prognósticos muito mais otimistas do que os resultados.


Além disso, é preciso levar em consideração o contexto mais amplo. Como se pode constatar na imagem reproduzida mais abaixo, com dados também elaborados pelo GTE do próprio PT, nosso resultado em 2024 foi inferior ao obtido nas eleições municipais ocorridas no meio do governo Lula 1, no meio do governo Lula 2 e no meio do governo Dilma 1. Estamos abaixo, inclusive, do desempenho que tivemos depois do golpe de 2016,



Isso tudo considerado, sugiro reconhecer que - no primeiro turno - não fomos vitoriosos, embora tenhamos obtido algumas vitórias importantes. 

Por exemplo: ampliamos a votação das esquerdas em relação a 2020, embora em certos casos isso possa ser um efeito estatístico resultante do crescimento do eleitorado nacional. 

Elegemos mais prefeituras e vereanças do que em 2020, embora este crescimento tenha sido modesto, como já foi parcialmente demonstrado. 

Ganhamos no primeiro turno em algumas cidades simbólicas, como Juiz de Fora e Contagem, Bagé e Rio Grande. 

Fomos ao segundo turno em Camaçari/BA, Caucaia/CE, Fortaleza/CE, Anápolis/GO, Cuiabá/MT, Olinda/PE, Natal/RN, Pelotas/RS, Santa Maria/RS, Porto Alegre/RS, Diadema/SP (reeleição), Mauá/SP (reeleição) e Sumaré/SP. 

Elegemos ou projetamos novas lideranças, especialmente nas Câmara Municipais.

E, mesmo onde perdemos, mobilizamos centenas de milhares de pessoas, que dedicaram parte do tempo de suas vidas para defender nossas bandeiras, nossas cores, nossa estrela.

Apontar estas vitórias é importante, porque elas demonstram que nosso resultado - já no primeiro turno - poderia ter sido muito melhor do que foi.

As vitórias e as derrotas têm causas várias. Uma delas é a linha de campanha. E tudo indica que a linha política adotada no primeiro turno não contribuiu, na maioria das cidades, para a vitória que desejávamos. 

Assim, precisamos estar abertos para, no segundo turno, corrigir a linha política. 

Se fizermos isso, podemos vencer na maioria das cidades onde participamos do segundo turno.  A começar por São Paulo capital, Fortaleza, Cuiabá, Porto Alegre e Natal.

  

Lista de cidades onde haverá segundo turno

Manaus

Goiânia

João Pessoa

Diadema

Fortaleza

Belém

Curitiba

Limeira

Caucaia

Piracicaba

Uberaba

Cuiabá

Petrópolis

Londrina

Taboão da Serra

São João de Meriti

Paulista

Campina Grande

Santa Maria

Porto Velho

Jundiaí

Santos

Aparecida de Goiânia

Serra

Natal

Ribeirão Preto

São Bernardo do Campo

São José do Rio Preto

Camaçari

Niterói

São José dos Campos

Aracaju

Sumaré

Belo Horizonte

Barueri

Pelotas

Canoas

Mauá

Franca

Ponta Grossa

Olinda

Caxias do Sul

Porto Alegre

Taubaté

Palmas

São Paulo

Guarujá

Guarulhos

Anápolis

Campo Grande

Imperatriz

Santarém


Lista de capitais onde haverá segundo turno e quem concorre

Aracaju (SE): Emilia Correa (PL) e Luiz Roberto (PDT)

Belém (PA): Igor (MDB) e Delegado Eder Mauro (PL)

Belo Horizonte (MG): Bruno Engler (PL) e Fuad Noman (PSD)

Campo Grande (MS): Adriane Lopes (PP) e Rose Modesto (União)

Cuiabá (MT): Abilio (PL) e Lúdio (PT)

Curitiba (PR): Eduardo Pimentel (PSD) e Cristina Graeml (PMB)

Goiânia (GO): Fred Rodrigues (PL) e Mabel (União)

Fortaleza (CE): André Fernandes (PL) e Evandro Leitão (PT)

João Pessoa (PB): Cicero Lucena (PP) e Marcelo Queiroga (PL)

Manaus (AM): David Almeida (Avante) e Capitão Alberto Neto (PL)

Natal (RN): Paulinho Freire (União) e Natália Bonavides (PT)

Palmas (TO): Janad Valcari (PL) e Eduardo Siqueira (Podemos)

Porto Alegre (RS): Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT)

Porto Velho (RO): Mariana Carvalho (União) e Léo (Podemos)

São Paulo (SP): Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL)




segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Eleições 2024: vitória das direitas

No Brasil existem várias direitas. 

Tem direita no governo, tem direita na oposição. 

Tem direita gourmet e tem extrema direita. 

Tem direita ideológica e tem direita pragmática. 

Tem direita até dentro de partido de esquerda. 

Mas o que tem mesmo é direita comemorando o resultado das eleições municipais de 2024.

Pode ser injusto, mas é um fato: se somarmos os votos obtidos, na eleição de prefeituras, por todos os partidos que vão do centro até a extrema-direita (ver relação ao final), o resultado é superior a 91 milhões e 200 mil votos.

Fazendo a mesma conta, mas considerando todos os partidos que vão do centro até a esquerda, o resultado é pouco maior do que 22 milhões e 300 mil votos.

Além disso, há cerca de 42 milhões e 400 mil votos em branco, votos nulos e abstenções. Ou seja: os "nem, nem e nem fui" somam quase o dobro do eleitorado da centro-esquerda e esquerda.

Quando comparamos estes números com os de 2020, a situação fica ainda pior.

Em 2020, no meio da pandemia e do governo cavernícola, a soma dos votos das direitas foi pouco maior que 80 milhões e 100 mil votos. Agora, no meio do governo Lula 3, a votação das direitas cresceu para 91,2.

Já a centro-esquerda e esquerda cresceu de 21,9 para 22,3. 

Este crescimento foi graças à votação obtida por candidaturas do PSOL, do PSB e do PT, nessa ordem. 

O PSB cresceu de 5,2 para 6,5. O PSOL cresceu de 2,2 para 2,6. Já o PT, mesmo sem ter candidato em São Paulo capital e Rio de Janeiro capital, cresceu de 6,9 milhões em 2020 para 8,9 milhões em 2024.

Os demais partidos da centro-esquerda e esquerda - tirante PSOL, PSB e PT - perderam votação, entre 2020 e 2024. 

PDT caiu de 5,3 para 3,2. PV caiu de 0,7 para 0,6. PCdoB caiu de 1,2 para 0,3. Rede caiu de 0,4 para 0,1. UP, PSTU, PCO e PCB tiveram resultados inferiores a 100 mil votos.

Os resultados acima devem ser ponderados, levando em consideração o aumento no eleitorado, assim como o comportamento dos votos em branco, nulos e abstenções. Mas o fato político é evidente: a maior parte do eleitorado votou em candidaturas lançadas por partidos de direita e extrema-direita.

Alguém pode dizer: mas não foi sempre assim? Os partidos das direitas não foram sempre mais votados nas eleições municipais anteriores?

Os fatos indicam que isso é parcialmente verdadeiro. Há, entretanto, algumas novidades. Primeiro, a votação das direitas cresceu substancialmente, enquanto a votação das esquerdas cresceu vegetativamente. Segundo, a votação das direitas cresceu muito, no ano de 2024 em relação ao ano de 2020, apesar deles terem perdido a eleição presidencial em 2022. Terceiro e mais importante, quem mais cresceu foi o Partido Liberal, o partido do cavernícola.

Ou seja: não apenas as direitas cresceram, mas quem mais cresceu foi a extrema-direita claramente oposicionista. O PL teve 4 milhões e 700 mil votos em 2020 e 15 e 700 mil votos em 2024.

Portanto, o primeiro turno de 2024 foi uma vitória das direitas.

Se queremos mudar isso, não adianta tergiversar. Para mudar isso, é preciso ganhar o segundo turno das eleições de 2024.

*partidos considerados de centro-direita e direita: Agir, Avante, Cidadania, DC, MDB, Mobiliza, Novo, PL, PMB, Pode, PP, PRD, PRTB, PSD, PSDB, Republicanos, Solidariedade, União.





Eleições 2024: é preciso reconhecer o que ocorreu

Domingo 6 de outubro de 2024 terminou com algumas vitórias e muitas derrotas para a esquerda brasileira. 

Nos dois casos, nossa saudação a quem travou o bom combate, defendeu as causas justas, sustentou nossas bandeiras, carregou nossa estrela no peito.

Nas próximas semanas, teremos que combinar a disputa do segundo turno com o balanço dos resultados. 

Por um lado devemos trabalhar para vencer no maior número possível de cidades, a começar pelas capitais em que candidaturas de esquerda foram ao segundo turno: São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Natal e Cuiabá. Lembrando que também fomos ao segundo turno em muitas outras cidades importantes.

Por outro lado precisamos reconhecer o que ocorreu no primeiro turno: uma derrota.



Há diferentes tipos de derrota, há inúmeros aspectos e variáveis a considerar, inclusive as táticas adotadas e os prognósticos equivocados.

Em contraste com isso, há vitórias que mostram que tudo poderia ter sido diferente, como é o caso - por exemplo - de Juiz de Fora e Contagem. E como é o caso, também, de algumas cidades em que fomos ao segundo turno.

É preciso avaliar estas vitórias, assim como é preciso lutar para ampliar nosso resultado no segundo turno. Por isso mesmo, para melhorar nosso desempenho no segundo turno, é fundamental avaliarmos detidamente e não nos iludirmos sobre o que houve no primeiro turno: uma derrota.

E a pior derrota é aquela que evitamos chamar pelo nome, sem tergiversações. Pois quem tergiversa, além de passar certo rIdículo, não consegue nem mesmo extrair ensinamentos e corrigir rumos.

É a esse esforço que nos dedicaremos nos próximos dias: extrair lições do primeiro turno e vencer o segundo turno.

Esperamos que esta seja a atitude, também, do conjunto da esquerda, a começar pelo nosso Partido dos Trabalhadores. E Trabalhadoras.

Luta que segue.