quarta-feira, 9 de outubro de 2024
GL3: quem nos defende de José Múcio?
terça-feira, 8 de outubro de 2024
Eleições 2024: sobre a nota da Executiva Nacional
A Comissão Executiva Nacional do PT, reunida no dia 8 de outubro, soltou uma nota sobre as eleições municipais.
A nota pode ser lida aqui: Nota da Comissão Executiva Nacional do PT sobre as eleições municipais | Partido dos Trabalhadores
Como é óbvio, esta nota não é um balanço do processo eleitoral, que só será possível depois que concluir o segundo turno.
Aliás, nosso esforço principal, neste momento, é ganhar o segundo turno onde estamos disputando. Se tivermos êxito nisso - especialmente nas cinco capitais - nosso balanço será bem diferente daquele que é possível fazer agora.
Feita esta ressalva geral, alguns comentários pontuais sobre o que é dito na nota da executiva.
Primeiro, a nota está correta criticar as "emendas parlamentares bilionárias" e o uso das "máquinas públicas municipais" (e estaduais, faltou dizer. Em São Paulo, por exemplo, o governo Tarcísio foi fundamental para a ida de Nunes ao segundo turno das eleições).
Mas é preciso ir além: a distorção no sistema político é mais profunda do que isto. Para dar alguns exemplos, continuam existindo o financiamento privado, o dinheiro ilegal, a compra de votos. A violência política, o oligopólio da comunicação e as empresas de fake news agiram com toda força. E, no caso dos vereadores, o voto nominal favorece a direita. É esse conjunto de fatores que ajuda a explicar por quais motivos, quando nós somos governo, o efeito disto é um; quando a direita governa, o efeito é outro.
Segundo ponto: compreensivelmente, a nota da executiva nacional escolheu não falar nada acerca da nossa cota de responsabilidades, embora admita "eventuais equívocos". Não sei se "equívocos" é a palavra mais adequada, mas precisamos mesmo debater questões como a escolha de candidaturas, a linha de campanha, a política de alianças, os critérios na distribuição do fundo eleitoral e a agenda do companheiro Lula. Cada um desses aspectos e outros que não foram citados, precisam ser objeto de análise detalhada de nossa parte.
Terceiro ponto: o texto da executiva fala que o resultado de 2024 foi "o início da recuperação eleitoral do PT nos municípios". Acho prematuro concluir isso. Pois se existir um "equívoco" na linha política, a "recuperação" só vai ocorrer se a linha mudar. Aliás, mudança que na minha opinião precisa começar ontem, seja quando nos posicionarmos naqueles segundos turnos de que não participamos, seja para vencermos o segundo turno onde há candidaturas petistas disputando.
Quarto ponto: o texto da executiva fala que as eleições ocorreram num "cenário que mais uma vez favoreceu a eleição ou reeleição de candidatos das legendas da centro-direita e direita dominantes no Congresso Nacional". O problema desta formulação é que o cenário das eleições de 2024 inclui elas terem sido realizadas no meio do governo Lula 3. E nossos resultados, desta vez, foram piores do que os resultados obtidos no meio do governo Lula 1, no meio do governo Lula 2, no meio do governo Dilma 1 e foram piores, inclusive, do que os resultados que obtivemos em 2016, depois do golpe.
Moral da história: precisamos falar do governo Lula, incluindo a sua relação com as tais "legendas dominantes" no Congresso.
Quinto ponto: o documento elenca uma série de pontos positivos no desempenho do PT. Alguns destes pontos precisam ser melhor analisados (por exemplo, a alta concentração das prefeituras em pequeno número de estados); outros pontos precisam ser debatidos em profundidade (como o desempenho desastroso em Salvador, a não ida para o segundo turno em Teresina, assim como as alianças em Recife e Rio de Janeiro); alguns precisam deixar de ser naturalizados (como é o caso de termos eleito inúmeros vices de partidos de direita). Mas há um ponto citado de passagem, que merece ser especialmente rediscutido pelo nosso Partido: trata-se da Federação, que em geral causou mais danos que vantagens.
De toda forma, são assuntos para debatermos depois do segundo turno. Até porque será melhor, para o país e para nosso Partido, que o balanço seja feito em ambiente de real vitória.
Estratégia: rascunho 2
Este texto é o segundo de uma série dedicada a debater qual deve ser a estratégia do Partido dos Trabalhadores.
Em discurso realizado na ONU, dia 24 de setembro de 2024, Lula afirmou que “2023 ostenta o triste recorde do maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial”. Os dois principais conflitos têm como epicentro a Ucrânia e a Palestina, respectivamente.
No dia 24 de fevereiro de 2022, teve início a “operação
militar especial" contra a Ucrânia. Quase três anos depois, prosseguem os
combates que envolvem de um lado tropas da Federação Russa e, de outro lado,
tropas da Ucrânia com amplo apoio da OTAN, em particular dos Estados Unidos.
No dia 7 de outubro de 2023, combatentes do Hamas atacaram
Israel, que ocupa ilegalmente território palestino desde 1948. Pretextando o
direito a defender-se, Israel vem desde então promovendo terrorismo de Estado,
não apenas contra a população de Gaza, de onde partiram os ataques do Hamas,
mas também contra a Cisjordânia, o Líbano, a Síria e o Irã. Igual a Ucrânia,
Israel conta com o apoio dos Estados Unidos.
No quesito conflitos militares, 2024 deve terminar pior do
que 2023. Isso está vinculado a dois fenômenos distintos, mas interligados. Por
um lado, a indústria militar e as guerras são componentes cada vez mais importantes
da dinâmica capitalista moderna, especialmente nos momentos de crise. Por outro
lado, a ameaça de guerra e/ou a guerra propriamente dita constituem parte essencial
do esforço que os Estados Unidos fazem para tentar reverter o declínio de sua hegemonia.
A situação atual poderia evoluir para algo semelhante às
duas guerras mundiais ocorridas no século passado, com o agravante de que agora
armas nucleares possam vir a ser utilizadas? Ou o que teremos pela frente seria
um processo mais ou menos longo de conflitos de pequena e média intensidade,
regulares e irregulares, capazes de provocar grande letalidade e todo tipo de
horror, mas sem chegar ao ponto de uma guerra total como a Primeira e a
Segunda?
Há muitas e diferentes respostas para estas duas perguntas.
A rigor, não há como ter certeza sobre o que pode vir a ocorrer, entre outros
motivos porque até mesmo as justificadas medidas protetivas adotadas por quem é
contra as guerras, servem de pretexto para uma escalada por parte de quem é a
favor da guerra.
Mas não é certo que tudo seja incerto.
Por exemplo: em última análise, na base da militarização
está a dinâmica capitalista, ou seja, a subordinação de toda a vida social ao
objetivo de valorizar o Capital; as decorrências sociais e políticas das crises
periódicas; o papel da indústria armamentista na acumulação em geral e nos momentos
de crise em particular; a ação do imperialismo; as disputas interimperialistas
e intercapitalistas. A afinidade entre capitalismo e guerra mundial é tão
profunda que podemos concluir o seguinte: enquanto o capitalismo não for
superado, a guerra seguirá nos assombrando.
Outro exemplo de que nem tudo é incerto: ao menos neste
momento da história, a derrota do capitalismo passa por enfrentar os Estados
Unidos. Os EUA são, ao mesmo tempo, epicentro do capitalismo mundial e da militarização.
Seja por seu papel na desordem capitalista mundial, seja pelo estoque acumulado
de armas e histórico de violência, seja pela importância que a indústria
militar tem na sua dinâmica econômica, seja por usarem das armas como
ferramentas para tentar interromper e reverter seu declínio como potência
hegemônica, a conclusão é a seguinte: a eliminação ou pelo menos a redução dos
conflitos militares passa pelos Estados Unidos.
Nesse sentido, há três possibilidades fundamentais:
i/uma pax americana, resultante da derrota da China,
da Rússia e dos demais inimigos estadunidenses. Mas esse cenário seria uma paz
precedida por enormes cemitérios e, muito provavelmente, acompanhada de
insurgências variadas mundo afora;
ii/outra possibilidade seria uma mudança na conduta dos
Estados Unidos, seja por uma vitória da esquerda estadunidense, seja por uma
derrota militar do imperialismo gringo, seja por uma correlação de forças
mundial que obrigasse os Estados Unidos a adotar uma postura mais comedida. A
primeira hipótese ainda não se vislumbra, a segunda pressuporia a já citada pax
dos cemitérios, a terceira é de difícil execução.
Sobre esta terceira possibilidade, a dificuldade reside basicamente
em dois pontos:
i/os Estados Unidos não aguardam parados que se construa,
ao redor deles e para nos proteger deles, um “cordão sanitário”. Pelo
contrário, tomam medidas para impedir que a situação chegue ao famoso “ponto de
não retorno”, a partir do qual a camisa de força se tornaria hipoteticamente insuperável;
ii/os Estados Unidos enfrentam imensas dificuldades para
reverter o seu declínio nos terrenos econômico e tecnológico. Por isso,
precisam criar conflitos militares, precisam deslocar os conflitos para o
terreno das armas, onde ainda contam com vantagem relativa.
Os dois pontos citados anteriormente explicam por que os EUA
atacam sempre, tornando de difícil execução a criação de um “cordão sanitário”
que os obrigue a maior comedimento. Ao contrário de uma atitude passiva ou
reativa, os Estados Unidos adotam, há tempos, a “teoria do dominó” e o “ataque
preventivo”. E não se importam muito com a natureza política e social dos seus
oponentes. O que lhes importa é saber se são oponentes. Motivo pelo qual sempre
foi ilusão achar que seríamos tratados de forma qualitativamente diversa caso nos
limitássemos a implementar um programa respeitoso ao capitalismo mais ou menos
neoliberal e/ou aos marcos da democracia eleitoral modelo USA.
A natureza do nosso programa e as características de nossa
democracia são variáveis importantes no que diz respeito a ganhar maioria entre
nosso povo. Mas a variável principal que decide a atitude dos Estados Unidos a
nosso respeito é a postura que adotamos frente ao lugar dos EUA no mundo. Na
prática, um socialista revolucionário e um socialdemocrata sincero serão
tratados da mesma forma caso enfrentem as regras unilaterais USA e caso questionem
o papel do dólar.
A esquerda brasileira não tem uma atitude única frente aos
Estados Unidos e a seus aliados. Dentre o leque de posições existentes,
destacamos três:
i/aquela que não reconhece a existência do “imperialismo” ou,
pelo menos, não opera com esta categoria no momento de construir e aplicar sua
respectiva política externa (de governo) e internacional (de partido ou
movimento). Os que pensam assim não constroem uma política para lidar com o
imperialismo enquanto política de Estado; no máximo, adotam políticas para
lidar com atitudes imperialistas adotadas por determinados governos. Mormente,
reduzem o imperialismo ao militarismo; quando, na verdade, este último é uma
decorrência daquele primeiro.
A conduta acima descrita é muito forte no ministério do
governo Lula 3, inclusive entre os representantes da esquerda. É isto que
explica, ao menos em parte, as expectativas (frustradas) que muitos manifestaram
em torno da “revolução” que, supostamente, seria feita pelo governo Biden; as
ilusões em torno da política interna e externa do Partido Democrata dos EUA; a
tolerância com que são tratados os escandalosos vínculos de nossas forças
armadas e de segurança com o Pentágono e com Israel; e a aposta que setores do
Itamaraty seguem fazendo no relacionamento com a Europa, por exemplo no
neocolonial acordo de livre comércio UE-Mercosul.
Evidentemente, tanto o imperialismo quanto as guerras do
século XXI possuem diferenças frente ao que existiu no passado. E não há dúvida
de que se pode e se deve explorar as divergências existentes entre os
imperialismos e no interior de cada nação imperialista. Mas colocar em
dúvida a existência e a relevância do imperialismo é negacionismo. E não
estruturar nossa política internacional em torno do combate ao imperialismo nos
torna desguarnecidos frente aos seus inevitáveis ataques. Vide, aliás, o que
ocorreu no governo Dilma 2.
ii/a segunda posição é aquela que não reconhece o
imperialismo estadunidense como nosso inimigo principal, atribuindo à Rússia e
à China uma conduta que também deveria ser combatida com ênfase se não igual,
pelo menos similar.
Esta segunda posição - tratar todos os integrantes do
Conselho de Segurança da ONU como “farinha do mesmo saco”, por serem igualmente
capitalistas e/ou imperialistas - é muito forte em alguns partidos de
ultraesquerda, mas também dentro do PSOL e do PT.
Evidente que nossa política internacional não pode nem deve
ser “seguidista” de ninguém. Não apenas por razões de princípio, mas também
porque o inimigo de nosso inimigo nem sempre é, tampouco precisa
necessariamente ser nosso amigo, além de poder vir a ser o inimigo de amanhã.
Evidente, também, que há e seguirá havendo muito debate acerca
da natureza do Estado e da sociedade chinesa, bem como acerca de como
caracterizar sua projeção externa. Ainda a esse respeito, vale lembrar que nos
anos 1960 e 1970, o Partido Comunista da China chegou a classificar a URSS como
“social-imperialista”. Contudo, sem prejuízo deste debate de fundo, a questão é
relativamente simples: do nosso ponto de vista – brasileiro e
latino-americano – não faz sentido algum tratar de forma similar a Rússia, a
China e os EUA.
Perguntamos: quantos golpes, quantas invasões, quantas
ações de ingerência a República Popular da Chin e a Federação Russa (antes
dela, a URSS) praticaram na América Latina e Caribe?
No caso da China, é preciso levar em conta a objeção
segundo a qual a expansão econômica dos chineses seria, em si mesma,
imperialista. Para facilitar o debate, admitamos que fosse assim, ainda que neste
caso tivéssemos que falar de um “imperialismo com características chinesas”,
que entre outras diferenças não seria acompanhado – ao menos na América Latina
- da ingerência política e militar típicas do imperialismo estadunidense.
Mesmo aceita a hipótese acima, ainda assim ficaria evidente
que China e EUA não são casos similares, entre outros pelos seguintes motivos: a/no
plano político e militar, é para nós muito mais fácil lidar com a China do que
com os EUA; b/no plano econômico, existe a possibilidade – inexistente no caso
dos EUA – de propor aos chineses e com eles tentar construir outro padrão de
relacionamento entre nossos países, no sentido de contribuir para a
reindustrialização do Brasil; c/ademais e principalmente, China e Rússia se
enfrentam, em maior ou menor medida, com os EUA. Na ausência deste
enfrentamento, a pressão sobre nós e sobre a América Latina seria muito maior.
Do ponto de vista estritamente pragmático, China e Rússia podem ser nossos
aliados contra os EUA. Logo, se decidíssemos praticar alianças diretas ou
indiretas com os EUA, tendo como alvo China e Rússia, essa decisão seria útil
apenas para os Estados Unidos, não para nós.
iii/uma terceira posição é aquela que propõe organizar a
política internacional da esquerda em torno da luta contra a extrema-direita
(ou neofascismo, ou simplesmente fascismo). Esta terceira posição é influente
inclusive entre os que são anticapitalistas, entre os que reconhecem a
existência e o papel deletério do imperialismo, entre os que enfrentam os EUA, mas
consideram que haveria um inimigo principal a ser combatido: o fascismo/neofascismo/extrema-direita.
Para debater esta terceira posição, é preciso começar
lembrando de algo óbvio: em grande parte, senão na totalidade dos países
capitalistas, convivem dentro da classe dominante diferentes posições. Dentre
elas, a extrema-direita, que continuou existindo mesmo depois da derrota do
nazifascismo em 1945. Continou existindo, é bom lembrar, porque foi tolerada, protegida
e utilizada em nome de combater o comunismo, especialmente a União Soviética.
Pois bem: o desaparecimento da URSS, em 1991, gerou, em
muitos setores da esquerda, a expectativa de que teríamos mais paz e mais
liberdades democráticas. Os expectantes imaginavam que a corrida armamentista
seria detida e os imensos gastos militares seriam reconvertidos em
investimentos produtivos e sociais. E a derrota final (ou, pelo menos, o tremendo
enfraquecimento) do socialismo como alternativa sistêmica ao capitalismo
tornaria possível uma tremenda ampliação da democracia, não apenas na URSS e no
Leste Europeu, mas também em muitos países capitalistas. Afinal, não estando mais
em risco o capitalismo, se tornariam desnecessários os golpes, as fraudes e as
distorções que maculavam os chamados regimes democráticos. Como resultado
disso, aumentariam as chances de a esquerda chegar ao governo pela via
eleitoral. No caso da América Latina e Caribe, onde existia uma interdição de
princípio contra a chegada da esquerda aos governos nacionais, os golpes
virariam coisa do passado e tudo dependeria de a esquerda ganhar para si o
apoio das massas.
As expectativas eram mais ou menos essas. Mas não foi propriamente
isso o que aconteceu. A coincidência entre crise do socialismo soviético,
ampliação das liberdades democráticas formais e ascensão do neoliberalismo
gerou efeitos colaterais que resultaram num cenário muito mais complexo do que
o imaginado por muita gente de esquerda.
Acontece que o neoliberalismo implica em ampliar a
exploração da classe trabalhadora pelos capitalistas e, também, ampliar a
exploração da periferia do mundo pelas metrópoles capitalistas. Em decorrência,
o que ocorreria seria uma escalada de conflitos, menos paz e menos democracia,
sem falar das agressões ao meio ambiente.
Claro que o processo não foi linear, nem homogêneo. Mas
como apontou Lula no discurso na ONU, depois de décadas de neoliberalismo, cresceu
em todo o mundo a presença da guerra e da extrema-direita.
A ascensão da extrema-direita não deveria ser motivo de
surpresa. Algo parecido ocorreu nas décadas de 1920 e 1930. O fato é que, em inúmeros
países, o acumulado econômico e social de quatro décadas de neoliberalismo
tornou muito mais difícil hegemonizar a classe trabalhadora através de fórmulas
tipo “trabalhe e melhorarás de vida”, fórmulas que tinham por detrás a crença
de que o capitalismo permitia a ascensão social. Os bisavós e avós das atuais
gerações acreditavam que sua prole tinha grandes chances de melhorar de vida.
Já a atual geração tem a certeza de que sua prole tem grande chance de ter um
futuro pior do que o passado. Até porque as pessoas, quando conseguem trabalho,
trabalham cada vez mais e não conseguem melhorar de forma correspondente.
Se a classe dominante não fizesse nada a respeito, esta
percepção poderia servir de combustível para o crescimento da esquerda. Mas,
como sabemos, a classe dominante quase nunca deixa de fazer o que precisa ser
feito em benefício dela mesma. Mesmo depois da URSS desaparecer, os Estados
capitalistas vêm reforçando seu aparato militar externo e de segurança interna.
Mesmo depois do desmanche do socialismo soviético e da adoção de políticas de
mercado na China, os oligopólios de comunicação e cultura mantiveram e
ampliaram sua campanha ideológica anticomunista, inclusive tratando como
farinha do mesmo saco os socialismos revolucionários remanescentes e as
políticas de bem-estar social de tipo socialdemocrata. Em inúmeros países,
verificou-se o fortalecimento dos mecanismos de controle sobre os processos
eleitorais, via oligopólio da comunicação, marketing despolitizante, regras
restritivas e grana, muita grana. Investiram pesado na destruição e
desmoralização de partidos, movimentos e organizações que tivessem vínculos com
a emancipação da classe trabalhadora. Estimularam organizações de tipo
empresarial e religioso. E onde nada disso foi suficiente para impedir vitórias
eleitorais da esquerda, retomaram fórmulas mais ou menos vintage para
controlar, sabotar, cooptar e quando necessário derrubar eventuais governos de
orientação popular. No final das contas, a ampliação das liberdades
democráticas se limitou ao plano dos procedimentos formais: depois de 1991, mais
pessoas passaram a participam de processos eleitorais ao estilo estadounidense.
Frente a tudo isso, houve diferentes reações na esquerda. Uma
destas posturas foi a de mudar de lado. Outra foi rebaixar o programa. Uma
terceira foi a integração no sistema político eleitoral americanizado. Mas houve
também quem resistiu a isto, das mais variadas formas.
Mas quando se olha a situação do ponto de vista da classe
trabalhadora, das grandes massas do povo, o que se percebe é que cresceu muito a
descrença quanto aos processos eleitorais, enquanto mecanismos idôneos para
melhorar a vida dos setores populares.
Claro que sempre houve setores populares absenteístas,
assim como sempre houve setores populares cooptados pela classe dominante. Em
cada país, apenas uma parte da classe trabalhadora tem consciência de classe.
Entretanto, a hegemonia neoliberal também fez crescer a descrença com o sistema
político eleitoral.
Mesmo em países como o Brasil, em que candidaturas de
esquerda venceram 5 das 9 eleições presidenciais realizadas desde 1989, é óbvio
que há uma crescente insatisfação com o sistema político, uma crescente degradação
das liberdades democráticas, com campanhas cada vez mais custosas, com o
empresariado privado seguindo na compra de mandatos, com o oligopólio da
comunicação manipulando consciências, com o crime organizado interferindo, com
o crescimento da violência política, com a judicialização da política e a
partidarização da justiça, com a interpretação criativa da legislação eleitoral
etc. Sem falar no cerco institucional e dos poderes fáticos que dificultam a
vida de um governo de esquerda que queira cumprir seu programa.
Frente a tudo isto, simplesmente não dá para levar a sério
quem teoriza acerca da superioridade abstrata da democracia realmente existente
no mundo capitalista. Assim como não dá para aceitar a hipocrisia ou cegueira
dos que exigem “normalidade exemplar” de processos eleitorais realizados sob
sanções econômicas e cerco militar.
A degradação do sistema político e eleitoral típico da “democracia
burguesa” não ocorre apenas na periferia do mundo capitalista. Vide o que está
ocorrendo nos Estados Unidos, na disputa sem quartel entre trompistas e
democratas. Não se trata de um problema deste ou daquele país, deste ou daquele
líder, deste ou daquele partido. O problema é mais de fundo e já foi
demonstrado nos anos 1920: em períodos normais, a democracia eleitoral burguesa
talvez seja mesmo o melhor método para os capitalistas exercerem sua hegemonia;
mas, em momentos de crise, parte crescente dos políticos profissionais a
serviço da classe capitalista apela para a manipulação e relativização
escancaradas de muitos resultados eleitorais. Vide a formação do recente governo
francês.
É nesse contexto – de crise daquilo que alguns chamam de democracia
liberal - que crescem as forças políticas de tipo fascista. Foi assim na década
de 1920, está sendo assim um século depois.
À classe dominante, o neofascismo oferece mão dura e muita
fé para manter a paz social, num ambiente de crescentes contrastes entre ricos
e pobres. Aos setores médios, o neofascismo oferece menos lei e mais ordem contra
os pobres. Aos setores mais lascados do proletariado, o neofascismo oferece um
coquetel explosivo que inclui coachs, bets, crime, teologia da prosperidade e empreendedorismo
popular. Tudo devidamente embalado como crítica de direita ao sistema. E tendo
como som de fundo algo ao estilo Dança das Valquírias: o culto à violência e à morte.
Devido a esta natureza multifacetada, é ilusão achar que se
pode combater e derrotar o neofascismo apenas fazendo apelos à paz e à
democracia. Assim como também é ilusão acreditar que ele possar ser superado
apenas pela oferta ampliada de empregos e políticas sociais. Vide o que vem
ocorrendo no Brasil desde o final de 2022 até hoje. Os indicadores melhoram, mas
a popularidade do governo Lula e a votação na esquerda não correspondem. Derrotar
o neofascismo exige recompor o tecido econômico e social, mas no contexto de
uma revolução política e cultural. Pois o neofascismo é um sintoma de um
processo muito mais profundo.
Isto posto, é fato que a extrema-direita é mais ameaçadora
para a esquerda, do que a direita gourmet. É mais ameaçadora, entre outros motivos,
pelo círculo vicioso decorrente da existência dela: i/a extrema-direita disputa
contra nós a influência sobre amplos setores populares; ii/a extrema-direita,
quando vitoriosa, reduz ainda mais as liberdades democráticas do povo; iii/em
nome de derrotar a extrema-direita, parcelas amplas da esquerda e da direita tradicional
fazem concessões à direita; iv/e ao ficar cada vez mais parecida com a política
tradicional, a esquerda perde ainda mais influência sobre amplas camadas do
povo.
No plano da política externa, entretanto, a coisa é mais
confusa. Tanto nos EUA quanto na Europa, o enfrentamento com a China e o apoio
a Israel contra a Palestina unifica a maior parte da classe dominante. Já no
caso da Ucrânia, há mais divergências. Na Alemanha, por exemplo, o partido
neonazista diverge do apoio sem limites que vem sendo dado à Ucrânia contra a
Rússia. Trump faz o mesmo.
A confusão também comparece no plano econômico. Na América
Latina, as principais estrelas do neofascismo – Milei e Bolsonaro, por exemplo
- são neoliberais, ultraliberais, libertarianos. Já na Europa e nos EUA, a
extrema-direita tende a ser nacionalista e protecionista. Aliás, há crescentes
sinais, em todo o espectro político vinculado à classe dominante dos grandes
países imperialistas, de que o Estado como agente econômico direto está sendo
reabilitado.
Moral da história: está correto tratar o neofascismo como
inimigo principal; mas é indispensável enfrentar a principal causa do
fortalecimento do neofascismo, a saber, as políticas econômicas neoliberais e a
consequente degradação das liberdades democráticas. Por isso, o antifascismo
consequente é também anti-imperialista, vincula democracia com soberania, democracia
com bem-estar, democracia com desenvolvimento.
Por isso, erram os que – a pretexto de derrotar o neofascismo
- adotam a “defesa da democracia” desvinculada do anti-imperialismo como
critério fundamental nas alianças internacionais.
Aliás, é muito comum vermos defensores deste ponto adotando
como “modelo” o sistema político existente nos EUA ou nalgum país da Europa. Ao
fazerem isso cometem pelo menos três erros. O primeiro é aceitar modelos. O
segundo é ocultar ou minimizar os imensos problemas existentes nos EUA e na
Europa, inclusive no terreno das liberdades democráticas. E o terceiro e
principal erro é não perceber que a tal “democracia eleitoral” está fazendo
água por todas as partes.
Um sinal disto é que, no presente ano de 2024, a cúspide de
conflitos militares coincide com uma “supermaratona eleitoral”: “da África à
Ásia, das Américas à Europa (...) mais de 40 eleições nacionais ou
transnacionais pelo mundo, em países que concentram mais de 40% da população
mundial”. [A fonte da afirmação acima está aqui: 2024:
o superano de eleições pelo mundo - Opera Mundi (uol.com.br)]
As eleições citadas são variadas e com resultados também
variados. Muitas delas estão sendo diretamente afetadas pelas guerras, como é o
caso das eleições nos Estados Unidos e nas europeias, onde “Palestina” e
“Ucrânia” motivaram não apenas fortes debates, mas também explicam o
comportamento de fatias importantes do eleitorado. Importante dizer que, nos
casos citados, o comportamento de parte importante do eleitorado é forjado num
ambiente em que operam mais ou menos livremente grandes empresas privadas de
comunicação pró-Israel e pró-Ucrânia; ao mesmo tempo em que muitas vezes são
censuradas e banidas posições em contrário ou meramente equilibradas. Aliás, em
vários países autoproclamados democráticos, acontece de ser criminalizado quem
se manifesta contra o sionismo. Sem
esquecer que na “democrática” Ucrânia o mandato de Zelenski expirou em 20 de
maio de 2024; e o democrático Israel é conduzido por um cidadão que
provavelmente estaria preso, não fosse a guerra.
A maneira como parte da mídia pró-Estados Unidos trata as
ações de Israel contra a Palestina contribui para naturalizar não apenas a
guerra, mas também o genocídio. Por um lado, isso legitima o desvio de
crescentes recursos públicos em favor das empresas que produzem armamentos:
como lembrou Lula na ONU, os “gastos militares globais cresceram pelo nono ano
consecutivo e atingiram 2,4 trilhões de dólares”. Por outro lado, isso alimenta
um ambiente político-cultural fascista, contribuindo para o crescimento da
extrema-direita e da violência política nos processos eleitorais.
Resumo da ópera, pelo menos para nós aqui no Brasil e na
América Latina e Caribe, é que precisamos saber de que lado cada movimento,
partido e governo está, na batalha principal, que é contra o imperialismo. E
precisamos pensar em termos de força real, não apenas institucional. Porque, no
final das contas, será esta força real que vai decidir a parada, e não apenas a
força institucional medida nos termos da democracia liberal.
Assim sendo, uma estratégia para estes tempos de guerra precisa
prever:
-a construção das condições necessárias à defesa de nossa
soberania nacional, incluindo aí forças armadas que não estejam subordinadas aos
EUA, como é o caso (hoje) do alto comando das nossas;
-a construção de alianças fortes com as forças políticas
antiimperialistas que atuam no nosso entorno imediato (América Latina e
Caribe), motivo pelo qual o Foro de São Paulo deve continuar sendo uma
prioridade na nossa política internacional e a integração regional deve ser reconstruída
como viga mestra de nossa política externa;
-a construção de relações com as forças políticas
antiimperialistas que atuam no chamado Sul Global (África, Ásia), com
prioridade para China e Rússia;
-a solidariedade com todas as forças que lutam contra os
Estados Unidos e seus aliados, a começar pelo povo palestino.
Evidentemente, há contradições entre nossos potenciais
aliados anti-imperialistas. Assim como há, dentre esses aliados, forças que
coincidem mais ou menos conosco no que toca à defesa do socialismo e das
liberdades democráticas. Mas o tratamento dessas “contradições no seio do povo”
não pode nos levar, nunca, a fazer alianças com aqueles que empurram o mundo
para a catástrofe.
Eleições 2024: dinheiro e voto nas campanhas proporcionais da esquerda em Campinas
Eleições 2024: vitórias da esquerda
No dia 6 de outubro aconteceram eleições em 5569 municípios.
Os partidos de centro-direita, direita e extrema-direita foram os mais votados.
Esses mesmos partidos conquistaram o maior número de prefeituras e de mandatos de vereadores.
Os números (aproximados) são os seguintes:
*91 milhões de votos em candidaturas vindas das direitas, 22 milhões de votos para candidaturas lançadas pelas esquerdas;
*4726 prefeituras conquistadas por candidaturas vindas das direitas, 740 prefeituras conquistadas por candidaturas lançadas pelas esquerdas;
*48.106 mandatos de vereança conquistados por candidaturas vindas das direitas, 10.308 mandatos conquistados por candidaturas lançadas pelas esquerdas.
Com base nestes dados (aproximados), fica óbvio que os partidos de centro-direita, direita e extrema-direita foram vitoriosos no primeiro turno das eleições.
Entretanto, a disputa não terminou no primeiro turno.
Em 52 cidades haverá segundo turno, no dia 27 de outubro. Destas 52, 15 são capitais, inclusive a de maior eleitorado e população do Brasil, a cidade de São Paulo Capital.
[Ao final deste texto, está a relação de cidades onde haverá segundo turno.]
A depender de quem vença nessas 52 cidades, o balanço político das eleições municipais pode ser bem diferente do balanço do primeiro turno.
No primeiro turno, repetimos, houve uma vitória da direita.
Mas caso – por exemplo – Boulos, Maria do Rosário, Lúdio, Evandro e Natália sejam eleitos, o balanço político será outro: vitória da esquerda.
Provavelmente com a intenção de contribuir para esta vitória no segundo turno, muitos dirigentes e analistas vinculados à esquerda estão pintando o primeiro turno como tendo sido uma “vitória”.
Abaixo dois exemplos disto.
A verdade é um pouco diferente da descrita nos posts acima. Afinal, não estamos disputando contra nosso próprio desempenho em 2020. Nossa disputa é contra a direita em 2024. E no primeiro round dessa disputa foram eles que venceram.
Ademais, quando comparamos nosso desempenho em 2024 com nosso desempenho em eleições municipais anteriores, há certos cuidados a serem tomados. Recomendamos, a respeito, analisar as informações abaixo, divulgadas pelo Grupo de Trabalho Eleitoral do PT antes da eleição, num momento em que se fazia prognósticos muito mais otimistas do que os resultados.
Além disso, é preciso levar em consideração o contexto mais amplo. Como se pode constatar na imagem reproduzida mais abaixo, com dados também elaborados pelo GTE do próprio PT, nosso resultado em 2024 foi inferior ao obtido nas eleições municipais ocorridas no meio do governo Lula 1, no meio do governo Lula 2 e no meio do governo Dilma 1. Estamos abaixo, inclusive, do desempenho que tivemos depois do golpe de 2016,
Isso tudo considerado, sugiro reconhecer que - no primeiro turno - não fomos vitoriosos, embora tenhamos obtido algumas vitórias importantes.
Por exemplo: ampliamos a votação das esquerdas em relação a 2020, embora em certos casos isso possa ser um efeito estatístico resultante do crescimento do eleitorado nacional.
Elegemos mais prefeituras e vereanças do que em 2020, embora este crescimento tenha sido modesto, como já foi parcialmente demonstrado.
Ganhamos no primeiro turno em algumas cidades simbólicas, como Juiz de Fora e Contagem, Bagé e Rio Grande.
Fomos ao segundo turno em Camaçari/BA, Caucaia/CE, Fortaleza/CE, Anápolis/GO, Cuiabá/MT, Olinda/PE, Natal/RN, Pelotas/RS, Santa Maria/RS, Porto Alegre/RS, Diadema/SP (reeleição), Mauá/SP (reeleição) e Sumaré/SP.
Elegemos ou projetamos novas lideranças, especialmente nas Câmara Municipais.
E, mesmo onde perdemos, mobilizamos centenas de milhares de pessoas, que dedicaram parte do tempo de suas vidas para defender nossas bandeiras, nossas cores, nossa estrela.
Apontar estas vitórias é importante, porque elas demonstram que nosso resultado - já no primeiro turno - poderia ter sido muito melhor do que foi.
As vitórias e as derrotas têm causas várias. Uma delas é a linha de campanha. E tudo indica que a linha política adotada no primeiro turno não contribuiu, na maioria das cidades, para a vitória que desejávamos.
Assim, precisamos estar abertos para, no segundo turno, corrigir a linha política.
Se fizermos isso, podemos vencer na maioria das cidades onde participamos do segundo turno. A começar por São Paulo capital, Fortaleza, Cuiabá, Porto Alegre e Natal.
Lista de cidades onde haverá segundo turno
Manaus
Goiânia
João Pessoa
Diadema
Fortaleza
Belém
Curitiba
Limeira
Caucaia
Piracicaba
Uberaba
Cuiabá
Petrópolis
Londrina
Taboão da Serra
São João de Meriti
Paulista
Campina Grande
Santa Maria
Porto Velho
Jundiaí
Santos
Aparecida de Goiânia
Serra
Natal
Ribeirão Preto
São Bernardo do Campo
São José do Rio Preto
Camaçari
Niterói
São José dos Campos
Aracaju
Sumaré
Belo Horizonte
Barueri
Pelotas
Canoas
Mauá
Franca
Ponta Grossa
Olinda
Caxias do Sul
Porto Alegre
Taubaté
Palmas
São Paulo
Guarujá
Guarulhos
Anápolis
Campo Grande
Imperatriz
Santarém
Lista de capitais onde haverá segundo turno e quem concorre
Aracaju (SE): Emilia Correa (PL) e Luiz Roberto (PDT)
Belém (PA): Igor (MDB) e Delegado Eder Mauro (PL)
Belo Horizonte (MG): Bruno Engler (PL) e Fuad Noman (PSD)
Campo Grande (MS): Adriane Lopes (PP) e Rose Modesto (União)
Cuiabá (MT): Abilio (PL) e Lúdio (PT)
Curitiba (PR): Eduardo Pimentel (PSD) e Cristina Graeml (PMB)
Goiânia (GO): Fred Rodrigues (PL) e Mabel (União)
Fortaleza (CE): André Fernandes (PL) e Evandro Leitão (PT)
João Pessoa (PB): Cicero Lucena (PP) e Marcelo Queiroga (PL)
Manaus (AM): David Almeida (Avante) e Capitão Alberto Neto (PL)
Natal (RN): Paulinho Freire (União) e Natália Bonavides (PT)
Palmas (TO): Janad Valcari (PL) e Eduardo Siqueira (Podemos)
Porto Alegre (RS): Sebastião Melo (MDB) e Maria do Rosário (PT)
Porto Velho (RO): Mariana Carvalho (União) e Léo (Podemos)
São Paulo (SP): Ricardo Nunes (MDB) e Guilherme Boulos (PSOL)
segunda-feira, 7 de outubro de 2024
Eleições 2024: vitória das direitas
No Brasil existem várias direitas.
Tem direita no governo, tem direita na oposição.
Tem direita gourmet e tem extrema direita.
Tem direita ideológica e tem direita pragmática.
Tem direita até dentro de partido de esquerda.
Mas o que tem mesmo é direita comemorando o resultado das eleições municipais de 2024.
Pode ser injusto, mas é um fato: se somarmos os votos obtidos, na eleição de prefeituras, por todos os partidos que vão do centro até a extrema-direita (ver relação ao final), o resultado é superior a 91 milhões e 200 mil votos.
Fazendo a mesma conta, mas considerando todos os partidos que vão do centro até a esquerda, o resultado é pouco maior do que 22 milhões e 300 mil votos.
Além disso, há cerca de 42 milhões e 400 mil votos em branco, votos nulos e abstenções. Ou seja: os "nem, nem e nem fui" somam quase o dobro do eleitorado da centro-esquerda e esquerda.
Quando comparamos estes números com os de 2020, a situação fica ainda pior.
Em 2020, no meio da pandemia e do governo cavernícola, a soma dos votos das direitas foi pouco maior que 80 milhões e 100 mil votos. Agora, no meio do governo Lula 3, a votação das direitas cresceu para 91,2.
Já a centro-esquerda e esquerda cresceu de 21,9 para 22,3.
Este crescimento foi graças à votação obtida por candidaturas do PSOL, do PSB e do PT, nessa ordem.
O PSB cresceu de 5,2 para 6,5. O PSOL cresceu de 2,2 para 2,6. Já o PT, mesmo sem ter candidato em São Paulo capital e Rio de Janeiro capital, cresceu de 6,9 milhões em 2020 para 8,9 milhões em 2024.
Os demais partidos da centro-esquerda e esquerda - tirante PSOL, PSB e PT - perderam votação, entre 2020 e 2024.
PDT caiu de 5,3 para 3,2. PV caiu de 0,7 para 0,6. PCdoB caiu de 1,2 para 0,3. Rede caiu de 0,4 para 0,1. UP, PSTU, PCO e PCB tiveram resultados inferiores a 100 mil votos.
Os resultados acima devem ser ponderados, levando em consideração o aumento no eleitorado, assim como o comportamento dos votos em branco, nulos e abstenções. Mas o fato político é evidente: a maior parte do eleitorado votou em candidaturas lançadas por partidos de direita e extrema-direita.
Alguém pode dizer: mas não foi sempre assim? Os partidos das direitas não foram sempre mais votados nas eleições municipais anteriores?
Os fatos indicam que isso é parcialmente verdadeiro. Há, entretanto, algumas novidades. Primeiro, a votação das direitas cresceu substancialmente, enquanto a votação das esquerdas cresceu vegetativamente. Segundo, a votação das direitas cresceu muito, no ano de 2024 em relação ao ano de 2020, apesar deles terem perdido a eleição presidencial em 2022. Terceiro e mais importante, quem mais cresceu foi o Partido Liberal, o partido do cavernícola.
Ou seja: não apenas as direitas cresceram, mas quem mais cresceu foi a extrema-direita claramente oposicionista. O PL teve 4 milhões e 700 mil votos em 2020 e 15 e 700 mil votos em 2024.
Portanto, o primeiro turno de 2024 foi uma vitória das direitas.
Se queremos mudar isso, não adianta tergiversar. Para mudar isso, é preciso ganhar o segundo turno das eleições de 2024.
*partidos considerados de centro-direita e direita: Agir, Avante, Cidadania, DC, MDB, Mobiliza, Novo, PL, PMB, Pode, PP, PRD, PRTB, PSD, PSDB, Republicanos, Solidariedade, União.
Eleições 2024: é preciso reconhecer o que ocorreu
Domingo 6 de outubro de 2024 terminou com algumas vitórias e muitas derrotas para a esquerda brasileira.





