sábado, 19 de setembro de 2026

Supremo contubérnio

Na sessão do Supremo Tribunal Federal em que Flávio Dino tentou heroicamente restaurar o rito, o Procurador Geral da República, senhor Paulo Gonet, doravante PGR, disse todo pimpão o que segue: 

“Não existe e nem tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que tive com o senhor Vorcaro se deu com várias autoridades em abril de 2024.”

É verdade que a foto disponível - no fone very smart de Vorcaro - demonstra que o tal encontro foi regado a uísque e charuto. 

Mas, tecnicamente, a presença de bebes e comes não desmente o dito pelo PGR.
 
Lendo essa e outras notícias sobre o ambiente festivo no qual Vorcaro fazia network, lembrei de uma palavra latina que ouvi, pela primeira vez, da boca de David Capistrano.

Não era suruba. 

Era “contubérnio”.

David usava o termo na sua acepção mais criminosa. 

Mas a origem do termo é por demais curiosa.

Segundo a Wikipédia, também conhecida como “neopAI dos burros”, contubérnio era a menor unidade militar da legião romana (algo similar ao pelotão moderno): oito legionários, uma mula, alguns escravizados e uma tenda.

E quem dirigia este grupo de “contubernais”?

Um “decano”!

Pois é, David sabia das coisas. 

Mas, tendo em vista tudo que veio e ainda virá à luz, acho que David - vivo estivesse - utilizaria outras palavras para designar as pessoas e as relações que se estabelecem na cúpula da sociedade brasileira, onde crime e dinheiro convivem de maneira indissociável.

Sendo essa a situação, Dino que me perdoe, não há rito que resolva.

E por falar em ritos e falta de rito, soube ontem de mais uma história genial acerca do “partido de lugar nenhum”.

Lembro que o que segue é ficção: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

No passado, tal partido tinha uma norma: todos os filiados tinham que contribuir para poder exercer seus direitos.

Em 2015 esta norma foi substituída por outra: só dirigentes, cargos comissionados e mandatários precisariam contribuir para poder exercer seus direitos.

Entre estes direitos estava poder concorrer às eleições em nome do Partido.

Em 2026 esta norma foi flexibilizada: inadimplentes poderiam concorrer, mas não poderiam receber recursos provenientes do fundo eleitoral.

Mas esta semana esta última norma foi mais uma vez flexibilizada: inadimplentes que “pagarem” agora, poderão receber fundo eleitoral.

Ou seja: faltando duas semanas para a eleição, se muda pela enésima vez uma regra.

E não qualquer regra, mas uma básica.

A mudança foi aprovada por maioria. 

Muitos integrantes da direção do tal “partido de lugar nenhum” votaram contra. 

E, a rigor, a decisão é ilegal, porque aprovada ao arrepio de regras aprovadas em instâncias superiores.

Como se vê, não é apenas no Supremo que falta rito.

Um comentário:

  1. "... só durante as crises é possível tomar medidas audaciosas."

    Dita em 2008 por um estadunidense que assistiu a estatização do sistema financeiro de hipotecas e seguros.

    Lula está agindo na crise com seus 4 mais próximos conselheiros, Boulos entre eles. César está no barco e os remadores não devem parar.

    O povão (ainda) não ligou para contubérnio pois não compreende o ritual da justiça.
    Nas sociedades antigas o ritual, o cerimonial, cumpria um papel de comunicação com os seres humanos, cuja maioria era analfabeta. Os rituais deveriam ser executados de maneira rigorosa na China, segundo Confúcio, para que não ocorressem as mais bizarras confusões sociais.

    O ritual com o tempo muda ou desaparece, mas é o fenômeno mais importante de uma civilização. O fim dos rituais de Eleusis na Grécia marcou a entrada na Era Cristã.

    O mito gera o ritual. O mito não muda pois é a estrutura. Estruturas não mudam: elas estão presentes ou ausentes.

    Assim a Justiça e seu sistema não podem ser reformados. De que adianta mudar um rito aqui ou ali?

    O sistema todo está em crise e os petistas devem ser audaciosos.


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