Talvez nunca saibamos toda a verdade sobre o ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela, ocorrido no dia 3 de janeiro de 2026.
Mas o pouco
que sabemos, no dia seguinte ao ataque, confirma que parte da esquerda parece
mesmo acreditar que o imperialismo é um tigre de papel.
Prova disso
foi a quantidade de defensores da Venezuela que ficaram chocados com a maneira “cirúrgica”
com que tudo transcorreu, recorrendo a explicações do tipo “Maduro se entregou”,
“traição na cúpula”, “acordo por cima entre Trump, Putin e Xi” etc.
Claro que
estas e outras “teses” são totalmente compreensíveis. Em primeiro lugar, porque
quando se está à distância e em estado de choque, nada mais fácil do que "viajar
na maionese". Em segundo lugar, porque capitulações, traições e acordos espúrios muitas vezes existem. E, em terceiro lugar, como dissemos antes, porque há setores da esquerda que subestimam a
força bruta do imperialismo estadunidense, inclusive suas capacidades militares.
Ao que tudo
indica, ao menos até agora e salvo provas em contrário, o que assistimos no dia
3 de janeiro foi uma demonstração daquelas capacidades, que incluem desde alta
tecnologia até soldados de elite, passando por armas precisas e com imensa capacidade
de destruição, sem falar de uma boa ajuda de métodos clássicos e modernos de espionagem.
Aliás, por
falar em “clássico”, quantas vezes vimos ou ouvimos falar deste tipo de operação,
em que se ataca diretamente o principal comandante do inimigo, desorganizando
as suas cadeias de comando e desmoralizando as suas tropas? Motivo pelo qual é
preciso, sempre, ter direção coletiva e nunca, nunca, depositar todas as
expectativas em uma única pessoa.
O ataque e o
sequestro mostraram, também, que boa parte da esquerda tem uma crença
totalmente irrealista na capacidade (e na disposição) da China e da Rússia
servirem de contraponto tático e imediato a este tipo de intervenção estadunidense,
especialmente quando realizada em nosso continente. Não é apenas o México que
está perto demais dos EUA e longe demais de Deus.
O ocorrido no
dia 3 de janeiro confirma que, sobre tigres, o velho Mao tinha razão, quando
dizia que “de um ponto de vista de futuro, estrategicamente, o imperialismo e
todos os reacionários devem ser considerados tal como são — tigres de papel. É
nessa base que devemos assentar o nosso pensamento estratégico. Por outro lado,
porém, eles são também tigres vivos, tigres de ferro, verdadeiros tigres
capazes de devorar as pessoas. É nessa base que devemos assentar o nosso
pensamento tático”.
Do ponto de vista “tático”, o que vimos no dia 3 de janeiro foi mais uma vitória da operação de cerco e ingerência implementada pelos EUA, que tem como um de seus objetivos afastar os chineses e russos do que eles consideram ser seu “quintal”. E que tem como um de seus alvos principais o controle do petróleo venezuelano (aliás, registre-se o erro daqueles especialistas que chegaram a dizer que seria necessário "desmistificar" um "suposto interesse estratégico dos EUA nas reservas petrolíferas da nação sul-americana").
Muita gente acha que a atual operação de cerco e ingerência começou com Trump, mas na verdade começou com Obama (remember o golpe contra Dilma). Mas é fato que com Trump a operação adquiriu características muito próprias, que estão expressas na “Doutrina Donroe” (o termo foi usado pelo próprio Trump, na entrevista de 3 de janeiro, juntando o início da palavra Donald com o final da palavra Monroe).
Segundo as determinações da "Doutrina Donroe", a Venezuela é apenas a bola da vez. Cuba, Nicarágua, Uruguai, México, Colômbia
e principalmente Brasil que se cuidem. Carnívora ou vegetariana, a esquerda precisa ser derrotada. Por isso, aliás, tem pouca relevância para os gringos a discussão sobre as características de cada processo e de seus líderes. Já na esquerda tem gente que adora divagar acerca da psicologia dos líderes (mesmo que nestas divagações haja quem consiga dizer, em 2024, que Maduro teria "pregações quase caricatas" e, em 2025, dizer que o mesmo Maduro seria "o mais importante líder da esquerda da atualidade").
Como dissemos antes, uma parte da esquerda parece subestimar o imperialismo, suas capacidades e sua disposição de perseguir seus propósitos, sem dó nem piedade.
O
que vimos na Palestina, no ataque contra a Venezuela e no discurso feito por
Trump no mesmo dia 3 de janeiro demonstram mais uma vez que não se deve subestimar o
imperialismo: ele não tem nenhum pudor, nenhuma vergonha, nenhum
limite. E isto não vale apenas para o imperialismo estadunidense. Vide, por
exemplo, as declarações do “amigo Macron” em sua conta no X: “O povo venezuelano
está hoje liberto da ditadura de Nicolás Maduro”.
Mas não existe apenas a esquerda que subestima o imperialismo. Existem também outras esquerdas, entre as quais - ao menos aqui no Brasil - aquela que parece achar que o imperialismo não existe; ou que existe, mas não haveria como derrotá-lo.
Por este ou aquele motivo, não se tomam as
medidas necessárias para proteger nossas riquezas, nossa soberania, nossas liberdades,
nosso bem-estar, nosso desenvolvimento e nosso futuro. Ou, para ser mais
preciso, não se tomam as medidas necessárias, na velocidade e na profundidade
necessárias.
Um exemplo: o
que está sendo feito para eliminar a subordinação teórica e prática das forças armadas
brasileiras à doutrina de segurança hemisférica dos Estados Unidos? Outro
exemplo: o que está sendo feito para construir redes de comunicação digital
próprias, livres do controle das big techs?? Nesse caso específico, o que está sendo
feito para bloquear a ação da Palantir???
Sempre falando do caso do Brasil, parece às vezes existir, na esquerda, gente que acha que se
não provocarmos o tigre, ele não quererá nos fazer de almoço. A experiência
histórica tem mostrado outra coisa: não importa se há provocação, não importa o
tamanho da vara, o tigre só pensa naquilo. E se “pintar uma química”, vai devorar
com tempero e tudo.
Entre as muitas medidas necessárias para nos proteger do tigre, está a formação político ideológica da própria esquerda e das classes trabalhadoras.
Nesse
quesito, precisamos aprender com o modus operandi das classes dominantes,
inclusive no país sede do imperialismo. Embora seu poderio material seja
brutal, sua máquina de guerra, seus meios de comunicação e suas instituições
estatais não se movimentam automaticamente. Dependem de pessoas, que precisam
estar predispostas a cometer os mais variados tipos de violência. Esta predisposição
é produzida por vários mecanismos: a inércia, o medo, o dinheiro e, acima de
tudo, o convencimento de que “elle$” estão do lado certo da história.
A importância de Trump, neste momento da história dos Estados Unidos, talvez seja exatamente esta.
Trump e a extrema-direita dos EUA estão seguros acerca do seu “destino
manifesto” e trabalham para construir, em parte da população dos Estados
Unidos, a mesma segurança ideológica. Sem ela, a força bruta do imperialismo não
funciona direito. O Vietnã mostrou isso. E mostrou, também, que do outro lado
precisa existir uma disposição ideológica antagônica suficientemente forte e
disposta a todo tipo de sacrifício em nome de vencer o imperialismo.
Este é um dos muitos desafios da esquerda brasileira: construir, em dezenas de milhões de integrantes das nossas classes trabalhadoras, um profundo comprometimento político, ideológico, cultural, existencial, com nossa soberania, com nosso desenvolvimento, com nosso bem-estar, com nossas liberdades e com um futuro socialista para nosso país.
Sem força
material, não basta comprometimento nem disposição de sacrifício. Mas sem comprometimento e disposição de sacrifício, nunca construiremos a
força material necessária e nunca venceremos.
Uma boa medida de nosso comprometimento e disposição será o PT propor ao governo Lula que tome medidas práticas em solidariedade à Venezuela. Por exemplo: reconhecer formalmente seu governo. Outro exemplo: convidar a Venezuela para entrar nos BRICS. Terceiro exemplo: exigir a imediata libertação de Maduro, caracterizando o que ocorreu com a palavra certa, a saber, sequestro.
Aliás, sequestro seguido de chantagem: uma das coisas que Trump disse dia 3 de janeiro é que se o governo venezuelano não capitular, novos ataques (e, quem sabe, novos sequestros) virão.
Mesmo quem defende a correção das posições anteriores do Brasil frente a Venezuela precisa reconhecer que a situação mudou radicalmente, exigindo atitudes e políticas compatíveis.
Não creio que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará algum desses 3 itens. Lamentavelmente
ResponderExcluir“Porque não é comigo, não farei nada.
ResponderExcluirE quando me levarem, não terá ninguém também por mim”.
Assim poderá ficar a situação do Brasil ou de qualquer país da América Latina se não tomar atitude prática e firme em relação a esse demônio chamado Trump.
É mais que da hora de UNI-VOS TRABALHADORES‼️
Importante, neste momento, esta análise do Valter Pomar. A esquerda brasileira precisa se conscientizar dos riscos políticos que corremos, e, extrair daí, as ações práticas que devemos adotar, no aqui e agora.
ResponderExcluirO Itamarati vem pecando desde a posse de Maduro, de não reconhecer que foi eleito legitimamente.
ResponderExcluirÉ a mais pura verdade!
ExcluirExcelente análisis. Saludos solidarios desde México.
ResponderExcluirQuem aspirar, desejar, programar, querer e trabalhar para uma guerra cívil na América Latina e Caribe, quem programar guerra na Venezuela, vai ter no seu próprio povo e país metidos numa guerra cívil.
ResponderExcluirÉ o feitiço que vira contra o feiticeiro.
Tudo vai ser revertido contra a fonte de conturbação e os causadoras de caos e guerra.
Quem viver verá. Tenho dito!
Não sobrará pedra sobre pedra : https://youtu.be/3XWd2TIvcGg?si=w8KS_LfuQ8nmdG8G
É New Orden: https://youtu.be/vxrdSLce5ps?si=bHe7SzP5JdmYFwLZ
É antifa: https://music.youtube.com/watch?v=BuaU9oCL-Es&si=-NCSPZut3_iBJWwW
Com todo respeito aos companheiros, gostaria de propor uma reflexão.Quem leu a postagem do candidato Flávio Rachadinha ontem mesmo já descobriu que a ocupação da Venezuela será usada como capital político da extrema direita, subserviente ao império por todas as razões que já conhecemos. Temos uma guerra eleitoral em curso. Qualquer passo em falso poderá custar a reeleição de Lula. Sabemos qual será o movimento da imprensa. Sabemos como o parlamento vai agir. Se estivéssemos no início do século XX eu estaria mais segura para cobrar posturas ideologicamente coerentes do executivo e do Itamaraty. Acredito que nós, PT da base, que não fazemos parte do governo, temos até mais compromisso com a educação do povo trabalhador e com as posturas de apoio à Venezuela. Tal como o MST já fez publicamente. Quero menos Lula e mais PT nessa briga. O xadrez geopolítico está mais complexo do que podemos saber ou inferir. Qual acordo pode ter sido firmado por Xi e Putin com Trump? Por que a defesa de Maduro (tantos generais...) o entregou tão facilmente. Eu não tenho nem ideia de como responder. Nós, base, temos o dever de lutar ao lado do povo venezuelano e declarar total apoio a Maduro. Tenho dúvidas quanto a Lula. Sincera e fraternalmente.
ResponderExcluirConcordo com você, Simone Precioso!
ResponderExcluirA base do PT e o partido podem e devem manifestar sua posição contra o imperialismo americano, em especial contra o sequestro de Nicolas Maduro e sua esposa, mas Lula tem que ir com calma. Prefiro enfrentar o imperialismo tendo Lula na presidência, do que nas mãos da extrema-direita, que evidentemente entregará o país a quem der mais! E a campanha ligando Lula a Maduro, já está nas redes. Será mais difícil ganhar as eleições de 2026, se houver uma defesa explícita de Lula à soberania venezuelana!
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCompanheiro Valter,
ResponderExcluirQuem aspirar, desejar, programar, querer e trabalhar para uma guerra cívil na América Latina e Caribe, quem programar guerra na Venezuela, vai ter no seu próprio povo e país metidos numa guerra cívil.
É o feitiço que vira contra o feiticeiro.
Tudo vai ser revertido contra a fonte de conturbação e os causadoras de caos e guerra.
Quem viver verá.
Tenho dito!
Não sobrará pedra sobre pedra : https://youtu.be/3XWd2TIvcGg?si=w8KS_LfuQ8nmdG8G
É New Orden: https://youtu.be/vxrdSLce5ps?si=bHe7SzP5JdmYFwLZ
É antifa: https://music.youtube.com/watch?v=BuaU9oCL-Es&si=-NCSPZut3_iBJWwW
Trump fez o que Francisco Pizarro fez ao atacar os incas, que assim que viu Atahualpa o aprisionou. Depois propôs devolvê-lo em troca muito ouro. Trump também vai pedir ouro ?
ResponderExcluirhttps://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2026/01/03/mortes-venezuela.htm
ResponderExcluirCubanos, civis e militares, que faziam a segurança foram friamente eliminados pelas tropas de Trump.
Aqui cabe o registro desses heróis verdadeiros de suas ideias socialistas. Meus sentimentos aos familiares desses anônimos guerreiros que pagaram com a vida.
Morreram porque a História assim decidiu.
Duvido que um acordo secreto entre EUA, Rússia e China dividiu o mundo.
De fato não há uma boa justificação para nenhum helicóptero ser abatido,
mas não sou militar. Sei que os especialistas acharam que foi estranho e desconfiam dos militares chavistas. Se isso se comprovar, paredon é pouco.
Não sei se uma direção deve ser mais coletiva ou mais caudilhesca, ao estilo latinoamericano. Que importa se um gato é preto ou branco? Importa ao gato caçar ratos.
Essa é a hora da verdade... A hora de ser dirigente de verdade!