sábado, 5 de dezembro de 2015

Entrevista para jornalista da revista Caros Amigos

Seguem abaixo as perguntas feitas pela Maria Mello, da revista Caros Amigos, bem como minhas respostas.


1. A abertura do processo de impeachment contra Dilma no contexto em que ocorreu é melhor para o PT e para o governo, pelo fato de deixar de ser refém, em alguma medida, de Cunha? Se sim, em que aspectos?

“Melhor” seria Arlindo Chinaglia ser o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha estar preso e a presidenta Dilma estar aplicando o programa vitorioso nas eleições de 2014.
Isto posto, a disjuntiva era simples: ou ceder a uma chantagem explícita e pública; ou enfrentar a mentira, o crime e o golpismo.
Enfrentar é arriscado, nenhuma batalha tem desfecho garantido.
Mas imagine por um minuto qual seria a pauta nacional, se tivesse prevalecido no governo, no PT e na bancada a tese de votar em favor de Cunha no conselho de ética da Câmara dos Deputados. O Partido estaria desmoralizado, o governo enfraquecido, Cunha faria novas chantagens e mais cedo ou mais tarde enfrentaríamos de novo um pedido de impeachment.

2.     O que podemos esperar das eleições de 2016, levando em consideração uma leitura de que o processo de julgamento do impeachment poderia se dar até meados de maio?

Esta é a intenção de uma parte da oposição: fazer um processo de impeachment de longa duração. Se ao final eles não conseguirem seu intento, ao menos terão conseguido desgastar muito o governo.
Nossa intenção é oposta: que o processo seja breve. Está claro que a tentativa de impeachment não tem sustentação jurídica, legal. Cabe ao plenário da Câmara dos Deputados recusar o pedido e encerrar tudo rapidamente.
Agora, não devemos nos iludir: parte da oposição não está brincando, nem fazendo chantagem. Esta parte quer mesmo o impeachment. Não quer correr o risco de nos enfrentar em 2018. Falam que estamos derrotados, falam que estamos liquidados, mas tem medo do que possa acontecer, mais uma vez, nas urnas.
Esta parte está conspirando. E parte importante do PMDB faz parte desta conspiração.
Agora, em qualquer cenário as eleições de 2016 serão muito importantes e muito duras. Para nós do PT, será um momento de aplicar outra política de alianças, uma política de alianças com os setores populares e de esquerda. As alianças com a centro-direita geram efeitos colaterais que só não vê quem não quer ver.

3.     Você acha que Delcídio Amaral poderia agravar os problemas do partido, diante de possíveis ameaças de delação?

Eu espero que o senador Delcídio Amaral conte absolutamente tudo o que ele sabe de criminoso. Começando pela época em que ele era do PSDB e da diretoria da Petrobrás.
Eu fiz campanha contra a filiação do Delcídio Amaral ao PT. Meus motivos eram politicos: todo mundo sabia que ele era um tucano.
Hoje, depois de tudo que aconteceu, minha opinião é que ele veio para o PT na véspera da eleição presidencial de 2002 como parte de uma operação de infiltração. Não terá sido a primeira vez e não será a última que algo assim acontece.
Voltando a tua questão: a esquerda e o Partido dos Trabalhadores somos os maiores interessados em que sejam revelados e eliminados todos os esquemas de corrupção. A direita e oligopólio falam contra a corrupção, mas 99% do que dizem não passa de hipocrisia.

4.     Você fala em quatro variáveis que devem ser levadas em consideração na análise dos desdobramentos da Lava Jato: "crise de autoridade" do atual mandato de Dilma, crise da estratégia em relação à economia adotada pelo PT, crise de legitimidade do "modo americano de fazer política" e a tendência à judicialização da política. Pode explicar melhor?  Acha que o PT poderá mudar sua estratégia a tempo? Como?

O PT precisa mudar de estratégia. Hoje, por exemplo, estamos todos unidos contra o golpismo. Mas sabemos como foi construída esta unidade. E o papel fundamental que jogou a militância do Partido e os integrantes da esquerda petista para impedir a catástrofe que se anunciava no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, onde alguns deputados do PT falavam em votar em favor de Cunha.
Assim tem sido em todos os campos da atividade partidária. Os diversos setores que compõem a atual maioria do Diretório Nacional do PT oscilam muitas vezes entre a política errada e a falta de política. A atual maioria do Diretório Nacional obstrui as mudanças, resiste a adotar ou adota com atraso medidas que deveriam ter sido implementadas há meses ou anos, insiste em práticas burocráticas para manter o controle da direção, como aconteceu no recente congresso da Juventude do PT.
Frente a esta situação, defendo que o PT faça um Encontro Nacional Extraordinário, com delegados e delegadas eleitas diretamente pela base do Partido, para que estes aprovem soberanamente todas as mudanças que considerem necessárias para que o Partido possa atuar com coerência nos “tempos de guerra” que vivemos.
Para quem não é do PT, uma explicação: fizemos há poucos meses um Congresso, só que os delegados e delegadas que dele participaram eram os mesmos que tinham sido eleitos em 2013!!!
Evidente que não basta querer mudar. É preciso mudar de fato. E isto vai tomar tempo. Além disso, trata-se de mudar de estratégia num momento em que estamos sobre cerco e enfrentando tentativas de interditar o Partido e Lula. Assim, não será nada fácil. Mas neste caso não há alternativa melhor.
Quanto a segunda parte de tua pergunta: para superar sua "crise de autoridade", Dilma tem que implementar o programa com o qual venceu as eleições de 2014. Abandonar a política de ajuste fiscal recessivo e fazer o único ajuste que dá certo, do ponto de vista dos interesses da maioria da população: baixar os juros, gerar crescimento e empregos, cumprir o orçamento, ampliar as políticas sociais e o investimento.
Na hora que a presidenta fizer esta opção, a direita vai redobrar sua oposição. E só conseguiremos sustentar o governo, se o PT e a esquerda brasileira mudarem de estratégia. Temos que superar a estratégia de conciliação de classe, alianças prioritárias com setores da direita e do grande capital, tolerância com o oligopólio da mídia, prioridade para as disputas eleitorais e secundarização da luta cultura, da organização partidária e dos movimentos sociais.
Se mudarmos de estratégia, será possível vencer. Se não mudarmos, a questão será quando e como seremos derrotados.

5.     Quais os cenários possíveis para o PT e para o conjunto das forças de esquerda a partir de agora?

Eu vejo três grandes cenários. O primeiro é a esquerda conseguir derrotar a contraofensiva reacionária. O segundo é a contraofensiva reacionária ser parcialmente vitoriosa: nos derrotam, mas não somos desmoralizados nem destruídos. O terceiro é uma vitória total da direita: derrota, desmoralização e esmagamento.
Na esquerda e mesmo no PT tem gente que não acredita no primeiro cenário. Nos momentos de euforia acreditam no segundo cenário, nos momentos de pânico acham que estamos caminhando para o terceiro cenário.
Também há alguns setores que acreditam ser possível que o PT seja destruído, sem que isto cause danos catastróficos para o conjunto da esquerda, por uma ou duas décadas.
Meu ponto de vista é simples: temos que fazer absolutamente tudo que pudermos para derrotar a contraofensiva da direita. E deixar para os historiadores do futuro o julgamento: se somos uns patetas incorrigíveis ou loucos heroicos, que conseguiram fazer o que muita gente achava impossível. Como a gente costuma dizer, contra quase tudo, contra quase todos e contra a maioria de nós mesmos, venceremos!
E se vencermos, será porque a classe trabalhadora se moveu em defesa de seus interesses de curto, médio e longo prazo. É aí, portanto, que devemos concentrar nossas energias.

6.     Como ampliar a democracia popular em uma conjuntura tão difícil? As forças de esquerda estão maduras para promover ações unitárias?

Ontem eu estava tentando explicar para um economista exatamente isto: na maior parte do tempo, as coisas mudam devagar e nesses momentos a coisa mais fácil é propor reformas graduais. Mas nos momentos de crise, as coisas mudam rápido, para um lado e para o outro, para a direita ou para esquerda. Nesses momentos, fazer reformas graduais é muito mais difícil do que fazer grandes mudanças estruturais.
Os grandes avanços democráticos, de sentido popular, foram possíveis porque, em conjunturas difíceis, a esquerda decidiu não apenas defender o que possuia, mas também avançar. Aliás, para defender teve que avançar.
Sobre a unidade das esquerdas, é tão difícil hoje como nos últimos 200 anos. A questão central não é a unidade “das esquerdas”, a questão central é a unidade da classe trabalhadora. A unidade das esquerdas, ou de parte das esquerdas, facilita ou dificulta a unidade da classe.
Nesse sentido, espero que a Frente Brasil Popular, especialmente a CUT, a UNE, o MST, o PT e o PCdoB, tomem iniciativas urgentes contra o golpismo e façam isto de maneira a criar condições para uma nova política econômica.

7.     Você afirmou que o "programa máximo" da Lava Jato é atingir Lula. Como isso pode se desenrolar?

Isso não “pode” se desenrolar. Isto já está se desenrolando. Por um lado, o oligopólio da mídia atribui tudo e qualquer coisa à Lula e ao PT. Por outro lado, uma parte da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça está partidarizada, no sentido de que tem tratamento diferenciado: se é do PT, eles atropelam a legalidade. E o alvo prioritário deles é Lula.
Aliás, achei graça quando o ministro da Justiça disse que as investigações são republicanas. Se isto fosse verdade, por qual motivo não há tesoureiros de outros partidos em Curitiba?

8.     Você vê no avanço das ações da Lava Jato alguma possibilidade de mudança positiva na forma política? 


Da Lava Jato em si? Não. A Lava Jato converteu-se numa operação política, com duas dimensões: a judicialização e a partidarização. Agora, a reação da sociedade a Lava Jato pode ter dois desdobramentos. Ou bem vamos ter um ciclo de direita – que pode assumir várias formas: fundamentalismo, populismo conservador, tecnocrático-militar etc.— ou vamos ter uma radicalização popular. A prova de que este segundo desdobramento é possível pode ser vista nas escolas de SP ocupadas pela juventude, nas mulheres enfrentando a bancada BoiBalaBíblia, nas categorias de trabalhadores que estão em luta. É daí que pode vir avanço, não do “camisa negra” de Curitiba.

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