quarta-feira, 17 de julho de 2024

Contribuição ao debate no Diretório Nacional do PT dia 18 de julho

Projeto de resolução 

 Apresentado por Natália Sena, Daniela Matos, Jandyra Uehara, Patrick Campos, Júlio Quadros e Valter Pomar.

 O Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores, reunido no dia 18 de julho de 2024, aprova a seguinte resolução sobre a situação política e nossas tarefas:

1. A principal tarefa do Partido dos Trabalhadores, nas próximas semanas, é disputar e vencer as eleições municipais de 2024. Trata-se de criar as condições para melhorar a vida da população, por meio da presença de petistas e aliados a serem eleitos(as) para as câmaras municipais e as prefeituras. Trata-se igualmente de derrotar as candidaturas de direita e extrema-direita que procuram eleger-se para atender a seus próprios interesses e aos das classes dominantes e oligarquias locais. Trata-se, portanto, de acumular forças para as grandes batalhas já em curso, e que devem se aprofundar, em torno do destino do Brasil. Neste sentido, reafirmamos a importância de as campanhas eleitorais combinarem a defesa de propostas municipais, com a defesa do governo Lula e de nossas propostas para o país.

2. A oposição de extrema-direita quer transformar as eleições municipais num ponto de apoio para seus objetivos políticos: anistia para os criminosos golpistas de 8 de janeiro, vencer as eleições de 2026 e implementar um programa ultraliberal e reacionário. A direita tradicional, inclusive a que faz parte do governo, também participa das eleições com o objetivo de acumular forças em defesa de suas posições. Os diferentes setores da oposição contam com o apoio do presidente do Banco Central, de grande parte do Congresso nacional, dos principais meios de comunicação e da maioria dos governadores estaduais. Derrotar o conjunto da oposição só será possível com o engajamento de todas as nossas forças, a começar pela militância do PT, partidos e movimentos do campo popular. E, também, com o engajamento do presidente da República, dos ministros petistas e aliados.

3. A maior contribuição que o governo federal pode dar para o resultado eleitoral é fortalecendo, no país, um ambiente de reconstrução e transformação. Um exemplo positivo neste sentido é a ação do governo federal no Rio Grande do Sul no imediato combate às enchentes, nas mais diversas áreas e políticas públicas, tendo rapidamente se mobilizado e tomado providências para socorrer o povo gaúcho. Entretanto, o caso do Rio Grande do Sul também confirma que não basta implementar políticas públicas; é tão ou mais necessário travar a disputa política e ideológica, contra a extrema direita e contra a direita, ambas neoliberais.

4. As pesquisas de opinião revelam que o apoio ao nosso governo e às nossas políticas segue mais ou menos no mesmo patamar, desde as eleições de 2022. Tendo em vista o tempo transcorrido desde nossa vitória e as imensas diferenças entre nosso governo e o anterior, era de se esperar que estivéssemos em melhor situação. Dentre as muitas medidas necessárias para melhorar rapidamente a situação, destacamos duas: um salto de qualidade nos investimentos públicos e outro na política de comunicação. Noutras palavras, trata-se de, simultaneamente, melhorar a vida e elevar a consciência política da população.

5. O crescimento exponencial nos investimentos públicos é uma necessidade agora e no próximo biênio. Sem isso nosso povo seguirá ultra explorado, nossa indústria seguirá minguando, nossas estatais seguirão sendo saqueadas e desvirtuadas, nossa economia seguirá primario-exportadora e dominada pela especulação financeira. Nesse sentido, reafirmamos a necessidade de uma mudança total e urgente na política do Banco Central, com uma redução imediata e substancial na taxa de juros e com uma política cambial que proteja a moeda nacional da especulação. Reafirmamos, também, que a política fiscal precisa considerar a resistência das elites à imprescindível reforma tributária. É preciso superar as limitações presentes no Marco Fiscal. A conta não pode seguir sendo paga pelo povo. Aliás, os que enfatizam a necessidade de um “pente fino” nos benefícios sociais - as vezes contribuindo, mesmo que inadvertidamente, para a ofensiva que a direita faz para desqualificar e criminalizar os direitos de que depende a sobrevivência de parte de nosso povo - deveriam focar sua atenção e esforços nos gordos subsídios e isenções que beneficiam as elites.

6. A política de comunicação do governo também deve estar à altura das necessidades do país. No mundo inteiro e também em nosso continente, há uma ofensiva das forças reacionárias, ofensiva sustentada em boa medida no controle e na manipulação das informações ― basta ver o genocídio em Gaza e a “narrativa” pró-Israel da mídia. Nesse contexto, é preciso um salto exponencial na qualidade e na potência da política de comunicação do governo. Trata-se não apenas de ampliar a potência e a audiência dos pontos de vista democráticos e populares, mas também se faz necessário compreender, de uma vez por todas, que não há assunto proibido, ou que não nos diga respeito. O governo e seus líderes no Congresso precisam tomar lado em todas as grandes questões; e precisam compreender que a pior derrota é aquela em que silenciamos nossa verdadeira posição.

7. Ao mesmo tempo que apontamos as tarefas dos petistas que estão no governo, ressaltamos as tarefas do próprio Partido. Defender o governo Lula, ao mesmo tempo que apontamos o que precisa mudar. Travar a disputa política e ideológica, a partir dos governos, das bancadas e das lideranças partidárias. Fazer a campanha das candidaturas petistas e do campo popular, enfrentando a oposição de extrema-direita e todos os que defendem o neoliberalismo. Organizando e mobilizando a sociedade, sempre respeitando a diretriz do PT, que defende a autonomia dos movimentos frente a partidos e governos. Nesse espírito, destacamos a adequada postura da Comissão Executiva Nacional do PT e das lideranças parlamentares petistas, que buscaram construir uma saída negociada e respeitosa para a greve dos trabalhadores e trabalhadoras do ensino superior público.

8.Destacamos, também, a necessidade de o Partido amplificar sua própria política de comunicação, lembrando que a propaganda do governo é tarefa do governo; ao Partido cabe outro tipo de abordagem, que inclui o enfrentamento público e permanente contra a extrema direita e os neoliberais, em todas suas matizes. É o caso, por exemplo, do debate sobre a segurança pública, tema em que nosso Partido precisa sempre reafirmar suas posições históricas, pelos direitos humanos, pela desmilitarização, contra o punitivismo e contra a política de insegurança pública das direitas, que sempre visa criminalizar a juventude negra, pobre e periférica.

9.Nesse mesmo espírito, o Partido dos Trabalhadores reafirma sua defesa dos direitos democráticos das mulheres. Reafirma, também, a defesa de um verdadeiro ensino médio, na linha sustentada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação. Nos opomos às tentativas de alterar os pisos constitucionais da saúde e da educação, bem como a tentativa de desvincular os reajustes da Previdência dos aumentos do salário mínimo. Exigimos julgamento e condenação para todos os envolvidos na intentona golpista de 8 de janeiro: sem anistia para o genocida e sua quadrilha. Reafirmamos a necessidade de um redirecionamento da política econômica, com o objetivo central de ampliar investimentos, desenvolvimento e empregos de qualidade. E seguimos lutando por mudança imediata na criminosa política de juros altos determinada pelo atual presidente do Banco Central.

10.O Diretório nacional do PT segue atento, também, à conjuntura internacional. Acompanhamos os esforços da esquerda latino-americana, em sua luta pela integração, desenvolvimento, bem estar e democracia. Saudamos a Nova Frente Popular, pelo resultado das recentes eleições francesas. Reafirmamos a defesa da paz, da interrupção da guerra entre Rússia e Ucrânia e denunciamos a escalada armamentista estimulada pela recente reunião da OTAN. Erguemos nossa voz em defesa do heroico povo palestino, vítima da opressão colonial e de um genocídio cometido pelo Estado de Israel. O PT propõe que o governo brasileiro rompa relações diplomáticas e comerciais com o Estado de Israel e que interrompa todos os convênios existentes com aquele país. 

11. Logo após as eleições municipais, ainda em 2024, o Brasil sediará a reunião do G20. Nessa ocasião, está previsto que o presidente chinês Xi Jinping faça uma visita de Estado ao Brasil. Em 2025 nosso país sediará a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, também chamada de COP 30. Num mundo atravessado por crises e conflitos cada vez mais profundos ― de que é exemplo, inclusive, o que está acontecendo na eleição dos Estados Unidos ― o Brasil tem buscado contribuir com soluções baseadas na igualdade, na democracia, no desenvolvimento, no bem estar das maiorias, no respeito à natureza e à soberania nacional. Também, por isso, as forças reacionárias não toleram que nosso Partido siga governando o Brasil. Assim sendo, é preciso que enfrentemos as eleições municipais de 2024 conscientes de que nelas está em jogo não apenas o “poder local”, mas também nossos objetivos estratégicos e históricos.

sexta-feira, 12 de julho de 2024

O PCO e a aparente ironia

O Partido da Causa Operária publicou um texto criticando a "esquerda eleitoreira".

O texto está aqui: 

https://causaoperaria.org.br/2024/a-esquerda-eleitoreira-que-nao-entende-nem-de-eleicoes/

Tirando as afirmações grandiloquentes e meramente desqualificatórias, o que o texto do PCO diz de substancial -na minha opinião- é o seguinte:

-na França e na Inglaterra, "a direita foi vitoriosa com um golpe eleitoral";

-o Labour "foi vitorioso, pois a burguesia preparou por anos o seu retorno";

-o Labour "é dirigido por um direitista pior que Macron, Keir Starmer";

-"Macron e Hollande [são] dois imperialistas neoliberais";

"o FI, caso não tivesse entrado nessa frente, teria crescido muito mais";

-"o principal motivo da derrota de Le Pen foi o sistema eleitoral antidemocrático francês";

-"caso houvesse mais democracia na França, a esquerda teria sido derrotada pela extrema direita";

-"no segundo turno, enquanto a esquerda de verdade, o FI e os outros partidos menores, deveriam apresentar um programa de esquerda, se aliaram com os antigos algozes dos trabalhadores";

Das afirmações acima, as únicas que não vejo necessidade de debater são as referentes a Starmer, Hollande e Macron.

As demais são todas questionáveis. 

Sem a Frente Popular, a esquerda não teria alcançado o primeiro lugar no segundo turno das eleições. Sem a Frente Popular, o segundo turno seria disputado entre Macron e Le Pen. Sem a Frente Popular, pouco importa o resultado individual da França Insubmissa, pois o resultado político seria a derrota global da esquerda.

O sistema eleitoral - tanto na França quanto na Inglaterra - distorce a vontade popular. No caso inglês, o sistema eleitoral superestimou o resultado dos trabalhistas. No caso francês, subestimou o resultado da extrema direita. Mas nenhuma das situações permite concluir que "a direita foi vitoriosa com um golpe eleitoral", nem permite concluir que "caso houvesse mais democracia na França, a esquerda teria sido derrotada pela extrema direita".

O Labour é o que é. Mas dizer que foi a burguesia que preparou o seu retorno é subestimar o principal recado da eleição: o protesto contra os tories. Que se manifestou de três maneiras: redução do voto na direita tradicional, vazamento de votos para a extrema-direita e voto no trabalhismo.

Enfim, o PCO faz uma salada.

Entre os vários ataques feitos ao autor dessas linhas, o PCO me acusa do seguinte: "sem aparente ironia, ele afirma que Macron, Mélenchon e Hollande são amigos! A confusão de Hollande com Mélenchon faz sentido, ambos estão dentro da mesma frente, a Nova Frente Popular (NFP). Mas é absurdo falar que Mélenchon é amigo de Macron".

Verdade seja dita, a referência aos amigos foi feita por Lula, não por mim. 

Lula, numa postagem no X, disse o seguinte: "Espero que meus amigos Macron, Melénchon e Hollande se coloquem de acordo para montar um governo que atenda aos interesses do povo francês".

Aliás, meu texto criticado pelo PCO começa exatamente citando esta postagem de Lula, como pode ser constatado no endereço a seguir: https://valterpomar.blogspot.com/2024/07/viva-parte-da-franca.html

Quem escreveu os textos do PCO não viu a citação de Lula? Ou viu e achou melhor não fazer referência ao presidente? 

Seja como for, me penitencio: eu devia ter colocado aspas, para que a ironia ficasse "aparente".

E compreendo a preocupação do PCO com as ironias, aparentes ou não. 

Recentemente o líder máximo do PCO foi fazer uma delas e o resultado pode ser visto aqui, a partir de 27:50: https://www.youtube.com/watch?v=gXayzldwxZI




Por essas e por outras (inclusive pela frase "caso houvesse mais democracia na França, a esquerda teria sido derrotada pela extrema direita"), sigo pensando o mesmo que já escrevi antes, acerca das afinidades eletivas entre o PCO e a extrema-direita. 


A pesquisa IPEC e a Faria Lima

Muita gente comemorou a pesquisa IPEC de julho de 2024.

Motivos da comemoração: melhorou a avaliação da administração do presidente Lula (de 33 para 37), melhorou a aprovação do presidente Lula (de 49 para 50) e aumentou a confiança no presidente Lula (de 45 para 46).

Como a margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentais, o que melhorou acima da margem foi a resposta dada à seguinte pergunta: "Como o(a) sr(a) classifica a administração do Presidente Lula até o momento?"

A essa pergunta, 14% dos entrevistados respondeu "ótima" e 23% respondeu "boa". Total: 37%. Um progresso em relação a pesquisa anterior, realizada em março de 2024.

Porém, quando olhamos a curva e o detalhamento, a situação aparece um pouco diferente.

Comecemos pela curva.

Em março de 2023, a administração do Presidente Lula recebia 41% de ótimo e bom. Hoje, julho de 2024, a soma de ótimo e bom alcança 37%. 

Em março de 2023, 57% aprovava a maneira como o presidente Lula governa. Hoje, julho de 2024, 50% aprova.

Em março de 2023, 53% dizia confiar no presidente Lula. Hoje, julho de 2024, 46% afirma confiar.

Portanto, podemos ter subido em relação a março de 2024, mas continuamos abaixo de março de 2023.



Vejamos, agora, o detalhamento.

A pesquisa disponibiliza respostas dadas por homens e mulheres, várias faixas de idade, regiões, nível educacional, tipo e tamanho de cidades, níveis de renda, etnia, religião, voto no segundo turno de 2024.

Há várias maneiras de analisar este detalhamento. Por exemplo, vendo as categorias em que estamos abaixo do resultado médio, descontada a margem de erro. Por exemplo: onde o resultado médio foi 37%, como a margem de erro é de 2 pontos percentuais, ver em quais categorias tivemos 34% ou menos.

Vejamos a pergunta "Como o(a) sr(a) classifica a administração do Presidente Lula até o momento?"

A resposta média foi 37%. Estamos abaixo desse resultado, já descontada a margem de erro, nas seguintes categorias: pessoas de 16 a 24 anos (33%), pessoas de 25 a 34 anos (32%), ensino médio (31%), ensino superior (29%), Sudeste (30%), Sul (26%), cidades com mais de 500 mil habitantes (32%), acima de 5 salários mínimos (28%), de 2 a 5 salários mínimos (30%), evangélicos (27%), branco e nulo (29%), não sabem em que votaram/não votaram em ninguém/não responderam (30%).

As categorias acima citadas são aquelas onde temos mais dificuldades, digamos assim.

Vejamos agora o oposto, as categorias onde temos mais fortalezas, mas desta vez no caso da segunda pergunta: "O(A) sr(a) aprova ou desaprova a maneira como o Presidente Lula está governando o Brasil?"

A resposta média foi 50%. Estamos acima desse resultado, já descontada a margem de erro, nas seguintes categorias: de 16 a 24 anos (55%), 60 anos ou mais (56%), Nordeste (67%), cidades até 50 mil habitantes (55%), até 1 salário mínimo (61%), pretos/pardos (53%) e católicos (57%).

As categorias acima são onde aparentemente temos mais gordura, digamos assim.

Agora vejamos onde não apenas temos dificuldades, mas também onde a diferença a favor deles é maior. Ou seja: onde a oposição tem mais gordura. Façamos isso tomando como base a terceira questão, a mais delicada de todos: "O(A) sr(a) confia ou não confia no Presidente Lula?"

A resposta global é que 51% não confia em Lula, 46% confia e 3% não sabe responder.

Como a margem de erro é de 2 pontos percentuais, o não confia pode chegar a 53% e o confia pode chegar a 44%, uma distância de 9 pontos percentuais. Pois bem: as categorias onde o não confia está 10 pontos ou mais acima do confia são: de 25 a 34 anos (14 pontos), ensino médio (19 pontos), ensino superior (19 pontos), sudeste (17 pontos), sul (29 pontos), capitais (12 pontos), mais de 5 salários mínimos (24 pontos), 2 a 5 salários mínimos (21 pontos), brancos (13 pontos), evangélicos (29 pontos), eleitores de Bolsonaro (74 pontos), entre os que votaram branco/nulo (42%), entre os que não votaram/sabem/responderam (14 pontos).

Um detalhe curioso: entre os que acham o governo Lula regular, 56% dizem não confiar no presidente. E também entre os que acham o governo regular, 42% desaprova  a maneira como o Presidente Lula está governando o Brasil.

Portanto, do ponto de vista político, a resposta "regular" é um copo meio vazio e meio cheio.

Destaque-se que entre os jovens de 16 a 24 anos, 40% disse que a administração Lula é "regular".

Resumo da ópera: melhoramos um pouco em relação a março de 2024, mas seguimos abaixo de março de 2023 e com problemas graves em diversos segmentos.

A rigor, só temos maioria mais ou menos confortável entre aqueles e aquelas que nos deram a vitória em 2022. Mas, considerando nossas diferenças positivas em relação ao governo anterior, o esforço feito e o tempo transcorrido, há fortes sinais de que algo precisa mudar na linha geral do governo (e da esquerda como um todo, a começar pelo PT).

Duas perguntas: por quais motivos melhoramos, ainda que pouco, em relação a março de 2024? E por quais motivos pioramos, ainda que pouco, em relação a março de 2023?

Evidentemente, ambas respostas envolvem muitas variáveis.

Dentre estas, destaco uma: a relação do governo com a Faria Lima.

Bater nos ricos melhora a situação política do governo. Servir aos ricos piora a situação política do governo.

Lula sabe disso. Quem pede que ele segure a língua, parece não saber.

Sendo que - como demonstra a situação no Sul - falar é importante, mas se verbo não vier acompanhado de muita luz, a coisa toda não funciona bem.































 









quarta-feira, 10 de julho de 2024

Camilo Santana e o "neonovo" ensino médio

O governo cavernícola deixou muitas heranças malditas.

Uma delas foi o mal denominado "novo ensino médio".

O governo Lula perdeu várias oportunidades para se livrar desta herança.

A mais recente foi perdida agora.

Diante da oportunidade aberta pelo Senado, o governo - numa parceria protagonizada pelo líder do governo e pelo ministro da Educação - preferiu a pior saída, contribuindo para a derrota da educação, na votação realizada na Câmara dos Deputados.

Os detalhes estão aqui, nesta nota da CNTE:  Mais uma vez, os privatistas impõem gravíssima derrota à educação pública - CNTE-CUT

O governo como um todo tem responsabilidade no que aconteceu.

Mas o líder do governo, deputado José Guimarães, e o ministro da Educação, Camilo Santana, têm especial responsabilidade.

Particularmente espantosas são as postagens divulgadas pelo ministro, logo depois da votação.


Atribuir o resultado ao "diálogo respeitoso" revela, na melhor das hipóteses, um total alheamento em relação aos fatos.


Ao contrário do que sugere o  ministro, o que foi aprovado não contribui para a construção de um ensino médio de qualidade.

Que o ministro não se dê conta disto e comemore o resultado, revela não apenas cretinismo parlamentar e governamental, como também confirma o quanto ele foi ganho para concepções antagônicas às que o PT sempre defendeu.

Mais uma vez, repetimos: ou muda a linha política do governo, ou mais e piores derrotas virão pela frente.





Cantalice & Margaret

Todo partido político tem uma “esquerda” e uma “direita”.

Se isso é bom ou não, depende do freguês. Mas o fato é que parece tratar-se de algo inevitável, especialmente em partidos de massa, como é o caso do PT.

Afinal, é razoável que, num partido com mais de 2 milhões de afiliados, inexista uma interpretação homogênea sobre o estado da arte ou sobre o que fazer.

Mas não importa se da “esquerda” ou “direita” - ou muito antes pelo contrario-  não há petista que não seja afetado pelas pesquisas.

Subiu, entusiasmo! Caiu, muitos entram em quase depressão!

Foi o que aconteceu agora, com a divulgação, no dia 10 de julho de 2024, de mais uma Quaest.

Nesta pesquisa, um dos resultados é: 54% aprova e 43% desaprova a gestão do presidente Lula.

Um avanço em relação a maio de 2024, quando 50% aprovava e 47% desaprovava.

Motivo de comemoração? Claro.

Mas não vamos exagerar. Afinal, já tivemos 60% de aprovação, em agosto de 2023. 

Ademais, tirando a margem de erro e as sazonalidades, o fato parece ser o seguinte: seguimos oscilando mais ou menos na mesma situação em que estávamos desde o início do governo. Com uma inclinação para baixo.

Vide as curvas na imagem a seguir:




Considerando tudo que já foi feito, mais a óbvia diferença entre nosso governo e o anterior, a conclusão é que seguimos “aquém”, como disse o próprio presidente Lula.

Não é essa a percepção de alguns integrantes da chamada “direita” do PT. É o caso do companheiro Alberto Cantalice, para quem o resultado da pesquisa Quaest deve ser interpretado assim:

“Percepção de melhora na economia aumenta aprovação de Lula. Cruzada contra os juros altos praticados pelo Banco Central tem apoio da maioria da população. Diferença entre aprovação e reprovação entre evangélicos diminui para 10 pontos. Já foram 30. A expectativa frente ao futuro também aumenta. Apoiar o Plano Econômico de Lula-Haddad é o caminho para a derrota da extrema direita. Não há outro caminho!”

A citação acima foi extraída dos Tuítes Completos de Cantalice.

Nela, há pontos corretos e outros nem um pouco. 

Por exemplo: talvez por ato falho, Cantalice faz plágio do tristemente famoso argumento de Margaret Thatcher: “there is no alternative”. 

Especialmente para alguém de esquerda, deveria ser óbvio que quase sempre há alternativas. Mesmo nos marcos do “arcabouço fiscal”, havia e seguem existindo alternativas. Déficit zero, por exemplo, só se explica devido à síndrome do bom aluno.

E a questão principal é a seguinte: todas as pesquisas realizadas desde o início de 2023 até hoje indicam que a extrema direita segue exibindo uma imensa resiliência.

Quebrar esta resiliência exige outra linha política e outra economia política. É isso que os dados indicam, mesmo que o negacionismo chapa-branca não consiga enxergar.



terça-feira, 9 de julho de 2024

Viva (parte da) França!




O presidente Lula divulgou um tuíte acerca das eleições na Inglaterra e na França, onde ele diz o seguinte: 

"Estou muito feliz com a vitória do Partido Trabalhista do Reino Unido. Eles estavam afastados há 14 anos e voltaram com uma maioria avassaladora no parlamento. É um avanço importante. E, na França, quando parecia que tudo estava confuso e dando errado, o povo se manifestou, foi para a rua e disse sim à democracia e não à extrema direita. Espero que meus amigos Macron, Melénchon e Hollande se coloquem de acordo para montar um governo que atenda aos interesses do povo francês".

De fato, o Labour conseguiu 410 cadeiras no parlamento britânico. Em 2019 e 2017, havia conseguido 202 e 262, respectivamente.

Infelizmente, esta maioria avassaladora no parlamento não foi produto de uma maioria avassaladora no eleitorado. 

Nas eleições de 2024, a participação foi menor do que nas eleições de 2019 e 2017: respectivamente, 59,9%, 67,3% e 68,8%. 

E a votação do Labour, em 2024, foi de 33,8% daqueles 59,9%, um resultado pior em termos absolutos e relativos do que o de 2017 (quando o Labour obteve 40% de 68,8%) e certamente pior em termos absolutos do que o de 2019 (quando o Labour obteve 32,17% dos votos de 67,3% do eleitorado).

Cabe responder, então, como os trabalhistas elegeram mais parlamentares agora (410) do que nas eleições de 2019 (202) e de 2017 (262).

A resposta é um combo: primeiro, o sistema eleitoral britânico (distrital) não é tão democrático assim; segundo, os conservadores desabaram; terceiro, parte do eleitorado conservador votou na extrema direita. E, com os concorrentes divididos, mesmo tendo menos votos, o Labour conseguiu eleger mais parlamentares.

No curto prazo, resta saber o que os trabalhistas farão com essa maioria avassaladora.

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A situação na França é diferente da situação na Inglaterra.

Mais gente compareceu para votar e, ao que tudo indica, esta mobilização ajudou e muito na derrota da extrema direita.

Mas é preciso estar atento e forte.

Isso por pelo menos dois motivos.

Motivo 1: na contabilidade de parlamentares eleitos, a extrema-direita ficou em terceiro lugar. Mas, nos votos populares, a extrema direita teve a maioria relativa, ficando na frente da Nova Frente Popular e na frente do macronismo.

Os números: 

#Nova Frente Popular elegeu 182 parlamentares, com 9.066.643 votos.

#Ensemble (macronismo) elegeu 168 parlamentares, com 6.984.393 votos.

#RN (extrema-direita) elegeu 143 parlamentares, com 10.691.931 votos.

Novamente, o sistema eleitoral (distrital com dois turnos) explica os resultados contraditórios.

Motivo 2: para que os amigos Macron, Melénchon e Hollande componham um governo que "atenda aos interesses do povo francês", será preciso que Macron e Hollande deixem de lado suas políticas neoliberais.

Pois foram aquelas políticas antipopulares que contribuíram no ascenso da extrema-direita. Que foi derrotada eleitoralmente, mas segue forte e pode - a depender do que faça o novo governo - voltar a ameaçar.

Aliás, cabe lembrar das atribulações enfrentadas pelo governo da Frente Popular original, governo encabeçado pelo socialista Léon Blum.

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Pelos motivos acima, acho tocante, mas um pouco exagerada, a convocatória feita pelo companheiro Tarso Genro, em artigo publicado no jornal Sul 21.

O artigo pode ser lido aqui: 


Segundo Tarso, a "estupenda vitória da democracia na França, contra a extrema direita  e os demais herdeiros de Vichy, conjugada com a vitória dos trabalhistas ingleses que voltam ao Governo depois de 14 anos,  recupera – na Europa – o oxigênio da democracia liberal". 

Em certo sentido, Tarso tem total razão. Tanto na França quanto na Inglaterra, seguimos nos marcos da democracia liberal. 

E é nisso que reside todo o perigo. Pois já vimos no passado e estamos vendo agora de novo, que em momentos de crise do capitalismo a tal "democracia liberal" - seja na forma, seja no conteúdo - contribui para o ascenso da extrema direita. 

E, como no passado e hoje, é a esquerda realmente existente que constitui a última trincheira, a última possibilidade de derrotar a extrema-direita.

O problema é: se a esquerda colocar como seu limite "defender a democracia liberal", será questão de tempo para sermos derrotados.

Uma coisa é fazer uma frente eleitoral, outra coisa é aceitar - como programa máximo - o programa dos liberais.

Tarso certamente sabe disto, tanto é que chama a atenção para o conflito entre a "Europa do Capital" (defendida por Macron e outros) e a "Europa Social".

Mas, apesar dele saber disso, sua ênfase está noutro lugar. 

Segundo Tarso, "a experiência brasileira mostra que (...) qualquer vacilação em defesa da legalidade democrática enfraquece a democracia política acaba favorecendo o fascismo".

Eu adoraria que nossa esquerda brasileira não vacilasse em defesa da democracia. Mas, infelizmente, não é isso o que acontece. 

Fala-se em democracia, mas se capitula em debates democráticos fundamentais, por exemplo na denúncia do golpe de 64, na segurança pública, na defesa dos direitos das mulheres, na aceitação do parlamentarismo lirista etc.

Para além disso, o que a experiência brasileira demonstra é o seguinte: a defesa da legalidade democrática é absolutamente insuficiente para derrotar o fascismo.

Ou temos políticas populares, ou mudamos a economia e a sociedade, ou "radicalizamos a democracia" (como no passado diziam algumas pessoas, que hoje pouco ou nada falam disso), ou o fascismo seguirá nos infernizando.

Aliás, é por isso que desta vez a esquerda francesa conseguiu liderar o enfrentamento do fascismo. 

A esquerda francesa não apenas se uniu no primeiro turno, não apenas chamou a unidade anti-fascista no segundo turno, a esquerda francesa também apresentou um programa de esquerda.

Assim, todo apoio à ideia de Tarso, de no dia 14 de julho comemorar a vitória da esquerda francesa. Mas vamos pôr a ênfase no que pode garantir nossa vitória: liberté, égalité e fraternité.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

A "absoluta certeza" de Quaquá



Está tendo grande repercussão um trecho da entrevista concedida por Washington Quaquá para a Hildegard Angel.

O Brasil 247 divulgou um recorte, que pode ser conferido aqui:

https://x.com/brasil247/status/1807355674478903575?t=9OWRq2BlHd6rEl0fSffl6g&s=08

Nele, Quaquá declara ter “certeza absoluta” de que os Brazão não são culpados pela morte de Marielle Franco.

Os Brazão podem não ser culpados? Podem.

A acusação contra os Brazão pode estar sendo utilizada para desviar a atenção dos verdadeiros culpados? Pode.

Portanto, Quaquá pode estar certo? Também pode.

Ele pode estar certo acerca do envolvimento da família cavernicola? Com certeza pode.

Mas nada disso explica a "defesa serial" que Quaquá faz dos Brazão. 

Neste particular, sua postura pública afeta negativamente o Partido ao qual ambos pertencemos.

Ademais, “certeza absoluta” acerca de quem foi o mandante só tem ou quem foi o mandante, ou quem tem provas “absolutas” sobre quem foi o mandante. 

Portanto, a ênfase “absoluta” de Quaquá neste caso revela ou que ele sabe muito mais do que diz, ou bazófia de fanfarrão.

Ao se expor tanto na defesa de dois bandidos contumazes, Quaquá passa a impressão ou de que perdeu qualquer parâmetro, ou de que deve algo, ou de que teme o que ambos possam fazer e dizer, ou que sua tática de disputar o voto do bolsonarismo o está levando longe demais.

Aliás, nenhuma das hipóteses é contraditória com as demais.

Seja como for, repito que sua conduta afeta negativamente o PT. Por conta disso, mais uma vez apresentarei, ao Diretório Nacional do Partido, a proposta de que ele seja pelo menos afastado da vice-presidência.

Esta proposta foi apresentada e derrotada em reunião anterior do Diretório Nacional. 

Pois bem: desde aquela reunião até hoje, vimos algumas lideranças públicas de nosso Partido manterem um silêncio constrangedor sobre o PL 1904. Vimos, também, uma dirigente ser injustamente afastada do DN, por causa de uma acusação sem pé nem cabeça, mas que alguns achavam poderia respingar no Partido. 

Tanto cuidado em não afetar o Partido não se verifica no caso das declarações de Quaquá. Nesse caso, que envolve Quaquá, percebo uma prudência-quase-temor quanto a tomar medidas em relação às seguidas atitudes e declarações do por enquanto nosso vice-presidente nacional. Embora imagine, não tenho absoluta certeza dos motivos. 

Mas tenho a "absoluta certeza" de que não dá para assistir calado defesa tão apaixonada dos Brazão, independente do que fizeram ou deixaram de fazer no caso Marielle.