segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Venezuela: Tarso e o monopólio da violência

O governador Tarso Genro nunca apreciou o bolivarianismo de Chávez e Maduro.

Direito dele e de quem mais assim pensar.

O problema é que do outro lado estão os gringos e a extrema-direita.

Talvez por isso, o mais recente artigo de Tarso se dedique a um debate político de fundo, acerca da aliança "militar-policial-popular" que, segundo Maduro, existiria na Venezuela.

Na opinião de Tarso, seria uma estranha aliança, confirmando que o confronto na Venezuela é "entre dois blocos políticos indiferentes à democracia ancorada num Estado de Direito".

Tarso contrapõe a isto a "defesa da democracia sem adjetivos de despistes – que garanta a rotatividade no poder, baseada em eleições periódicas com resultados verificáveis". 

Segundo Tarso, esta "democracia sem adjetivos de despistes" seria "a barreira mais eficaz para arquivar tanto o caudilhismo militar-policial, como a besta-fera do nazi-fascismo, em alta em todo o globo".

Isto pode, no futuro, vir a ser verdadeiro? Talvez.

Mas foi verdadeiro no passado, seja no passado mais recente, seja no passado mais passado? Não, não foi.

O que derrotou a besta-fera do nazi-fascismo não foi o "estado de Direito", nem a "democracia sem adjetivos de despistes".

Quem derrotou a fera, foram os ferros empunhados por gente disposta a matar nazi-fascistas. 

As vezes os ferros não precisaram cantar, pois a sua existência e a determinação de quem os empunhava contribuíam para evitar o confronto final.

Mas onde os ferros faltaram, onde a defesa da democracia dependeu apenas e tão somente do Direito, o golpismo foi vitorioso ou segue ameaçador (como é o caso, diga-se, de nosso sempre simpático país).

Por esses motivos, é preferível a "aliança militar-policial-popular" venezuelana do que a situação de vários outros países, onde grande parte das forças armadas e das polícias segue hegemonizada pelos inimigos da democracia, que ademais contam com muita gente desfardada, mas armada.

No fundo, Tarso sabe disto tudo. 

O problema é que ele parece acreditar que, no caso venezuelano, a "aliança militar-policial-popular" tem farda demais e povo de menos. 

Ou seja, se entendi direito, ele acha que Maduro ainda não provou que sua vitória tem "pressupostos de legitimidade", "através da apresentação das atas eleitorais".

Aceita esta premissa, pergunto: a verificação explícita da vontade popular seria capaz, sozinha, de impedir um golpe da extrema-direita apoiada pelos Estados Unidos? 

A minha resposta, baseada no que sei acerca da história da Venezuela e da América Latina, é que não seria capaz de impedir. Uma revolução pacífica, mas desarmada, será sempre derrotada.

Entretanto, algumas das preocupações de Tarso fazem sentido, pois a história também mostra que armas não bastam para sustentar um regime, seja qual for. Mas é preciso sempre lembrar que, sem elas, o melhor dos regimes será derrubado.

Portanto, ao menos neste momento histórico, nas atuais condições, a existência da tal "aliança" não é uma ameaça à democracia. Pelo contrário, é uma garantia da democracia.

Sem elas, a “verificação” da vontade popular venezuelana seria feita em Washington.

Alias, o problema de fundo é que, ao contrário do que Tarso afirma, a Venezuela não "soube se livrar das suas velhas oligarquias". Elas continuam lá, tem prefeitos, governadores, parlamentares, meios de comunicação, dinheiro, apoio internacional e mais de 40% dos votos presidenciais. 

Estas oligarquias não têm e nunca tiveram nada que ver com a democracia, no sentido popular da palavra. Seu Estado é de direita, não de direito. 

Por isso mesmo, ou o bloco popular mantém o monopólio da violência, ou seu destino estará traçado.


Abaixo o texto citado 

https://sul21.com.br/opiniao/2024/08/foi-maduro-quem-disse-alianca-militar-policial-popular-por-tarso-genro/

Foi Maduro quem disse “aliança militar policial-popular” (por Tarso Genro)

Governar com uma “aliança militar-policial-popular”- como insiste Maduro - não investe nenhum Governo de legitimidade para liderar um país

Tarso Genro (*)

Não fui eu que disse, foi o Presidente Maduro que classificou esta estranha aliança, onde estado e sociedade, sociedade civil e sociedade política, não são separadas pelo perímetro da lei. Ele falou para o mundo que a sua aliança venceria qualquer contenda contra a aliança da direita, do conservadorismo tradicional, da centro-direita, da extrema direita, parte dela organizada com bandos sabidamente golpistas – sempre atuantes na Venezuela – (venceria) porque seu Governo era resultado de uma aliança militar-policial-popular, de caráter nacional e anti-imperialista, para construir um regime socialista na Venezuela.

Socialismo a parte, se tivéssemos alguma dúvida sobre se o confronto na Venezuela era entre dois blocos políticos indiferentes à democracia ancorada num Estado de Direito, esta dúvida terminaria ali, com estas declarações de Maduro. A declaração é, todavia, a base sobre a qual se pode evitar uma Guerra Civil na Venezuela, com a verificação independente dos seus resultados e uma auditagem nos seus mecanismos de proteção às fraudes. Pelo histórico do conflito, as duas partes podem ter fraudado ou tentado fraudar os resultados depois de uma revolução popular, como se pode deduzir do que ocorreu na Revolução Sandinista da Nicarágua.

Faço esta premissa como ponto-de-partida de um raciocínio político de fundo, porque a defesa da democracia sem adjetivos de despistes – que garanta a rotatividade no poder, baseada em eleições periódicas com resultados verificáveis – é a barreira mais eficaz para arquivar tanto o caudilhismo militar-policial, como a besta-fera do nazi-fascismo, em alta em todo o globo.

Afirmo isso por dois motivos: primeiro, porque a depender da situação da economia e da política global, que transita pelo mercado da mídia tradicional, não se criarão condições suficientes de convivência democrática, que excluam a possibilidade da extrema direita chegar legalmente ao poder; e, segundo, porque as classes médias altas serão majoritariamente uniformes, na sua adesão ao fascismo, se ele se revelar novamente como possibilidade real de poder. Já ocorreu no Brasil, na Argentina e em outros países do globo.

Uma aliança militar-policial-popular (tomado aqui como “popular” a parte do povo armado pelo Governo Bolsonaro, somado aos setores pobres atingidos pelo dinheiro desviado das suas finalidades orçamentárias para comprar votos) – esta aliança – poderia ter sido instalada no Brasil. Bastaria o polo golpista ter no seu Comando quadros de prestígio de dentro das próprias corporações de Estado que o Golpe, com a vitória desta turba nas eleições do Brasil, ou mesmo com a desconfiança de que a eleição seria roubada por Lula, seria aberta a via de um banho de sangue e se instalaria aqui uma ditadura de fato, por dentro de um Estado de Direito vulnerável.

A nota da Executiva do PT foi omissa ao não ressaltar claramente a necessidade de que se firmassem pressupostos de legitimidade de um novo Governo na Venezuela, através da apresentação das atas eleitorais, que Maduro não fez e a oposição também não fez. A corajosa decisão do Governo Lula, juntamente com os Governos do México e da Colômbia foi, portanto, certeira, quando substituiu a valentia “militar-policial” de quem está no poder e detém mecanismos de controle da administração do Estado, pela verificação explícita da vontade popular.

A Guerra Fria instaurou em várias gerações uma moralidade histórica bastante convincente, baseada em pressupostos éticos e em observações empíricas, comprováveis a “olho nu”: a URSS e seus “satélites” representavam a resistência ao nazismo, comprovada na 2ª. Guerra Mundial, quando o imperialismo mostrava – pensava-se à época – o clímax da sua desumanidade ao atacar o Vietnam, que buscava – com sua resistência heroica construir (e construiu) – uma nação livre e soberana, através de uma justa guerra de libertação nacional.

Essa constatação se torna importante para analisar os fenômenos políticos desta etapa da globalização, porque é impossível usar as mesmas categorias analíticas da época da “guerra fria”, para compreender o presente, onde os supostos “bem” e o “mal” estão fundidos – no ciclo atual – nos interesses das grandes nações que são dominantes sobre o segundo e o terceiro mundo. Por acaso a China, por exemplo, não é a maior nação detentora de títulos públicos do Império Americano? Não é verdade, por acaso, que tanto a China como os EEUU têm relações econômicas e de “bem-estar político”, com governos ditatoriais sórdidos, de todo o mundo, para protegerem seus interesses históricos imediatos?

As relações de apoio recíproco entre os “grandes” do capitalismo globalizado são conformadas em torno dos temas mais imediatos do processo de dominação imperial-colonial, não mais pelas grandes narrativas civilizatórias em nome da democracia, do socialismo ou dos projetos reverenciais do paternalismo de Sua Majestade Inglesa, com a iluminação fictícia da igualdade e da democracia.

Numa passagem do texto “Introdução à Leitura de Winckelmann”, escrito pelo Professor Gerd Bornheim (Reflexões sobre a arte antiga, Ed. Movimento, 1975, pg.12), está relatado o célebre encontro de Goethe com Napoleão em Iena. É o encontro de dois símbolos de uma época na qual o Imperador, que na sua juventude acalentava a ideia de se tornar um Cézar europeu, “como que pede a Goethe” a sua glorificação, a ser feita através de um “drama” histórico, que seria escrito pelo genial poeta e filósofo alemão.

Goethe, o grego homérico, reluta em comprometer-se com Napoleão, o romano épico: “como glorificar quem desfigura o Grego”, perguntou-se o filósofo, olhando a poesia de fora dos encantos da subjetividade romântica. Trump, Putin e Zelensky, são as faces mais agudas que transitam no mundo, com diferentes moedas de valorização da revogação do humanismo moderno e com as diferentes formas de apropriação – pelas filiais do capitalismo financeiro – em diferentes continentes do mundo. Seus esteios são as guerras, o que não é épico nem homérico, mas trágico.

Uma outra memória que me assalta é uma passagem dos “Dez Dias que abalaram o mundo” (John Reed) que logo após a tomada do poder pelos bolcheviques fez uma reportagem histórica sobre a grandeza, os problemas e as tragédias iniciais, daquele momento da história europeia e mundial, que varria o czarismo, sua autocracia e a servidão camponesa que a sustentava. Falo da resposta automática, dada por um operário-soldado da Revolução, que respondia às indagações sobre a as dificuldades da implantação do socialismo, com uma frase monocórdia: “só tem dois lados, a burguesia e o proletariado!”. É o que conta Reed.

A dominância desta contradição política e material não desapareceu em termos absolutos, mas mitigou-se – por um largo período ainda não definido – dando lugar às formas políticas, ditadura ou democracia, que seriam aptas – em cada país – ou para impedir uma aliança estratégica da extrema direita com a direita, e com o centro pálido (tradicional) em suas várias gradações, ou para o trânsito à barbárie. Esta possibilidade pode ocorrer em qualquer país em que a eleição seja considerada ilegítima, pela maioria da população ou que ela seja roubada pela extrema direita, como Bolsonaro tentou fazer no Brasil, para dar solidez à aliança já na formação de um novo Governo.

Na unidade dos dois episódios de Goethe e John Reed, é possível notar convergências e diferenças. Napoleão e Goethe conversavam sobre o sentido do iluminismo democrático na Europa – com as suas promessas de liberdade, igualdade e fraternidade – sobre as quais poder-se-ia dizer que alargariam as liberdades. E também as opções postas pelo individualismo moderno, as relações mercantis com sujeitos “livres” (da opressão feudal) num Estado organizado pelo Direito, com normas representativas destes interesses, que fariam a repartição do consumo para “dar algo” às “sobras” humanas do exército de reserva do proletariado e dos demais pobres e desvalidos.

John Reed e o seu operário politizado, de outra parte, perscrutavam sobre um “mundo ainda não existente”, uma utopia potencialmente livre de toda a opressão e exploração, que oporia – sempre – duas classes fundamentais em confronto, o que deveria ocorrer até a chegada “ideal” do proletariado no controle total do Estado. Ocorre que o proletariado, que sempre foi adjudicado a uma teoria do poder revolucionário, representar-se-ia – nas práticas do governo estatal – por uma burocracia superior, que reproduziria – a partir do próprio Estado – uma casta superior aos operários reais do socialismo real, que não interferiam sequer nas normas de repartição das carências dentro do regime.

Nos seus territórios dominantes, para firmar os interesses dos Estados-nação hegemônicos no mundo contemporâneo, o iluminismo democrático organizou uma Europa vocacionada para a Guerra. Um modelo subserviente aos modelos de exploração coloniais-imperiais – originários dos interesses econômicos e territoriais dos seus Estados – aliados entre si e coniventes com as monarquias feudais árabes, ou não coniventes, quando seus interesses imediatos são feridos.

De outra parte, a Revolução Russa se tornou uma revolução do iluminismo tardio, onde foram sepultadas não só as conquistas sociais em saúde, cultura, educação e combate à pobreza da Revolução Bolchevique, mas também as liberdades democráticas, ainda vigentes no Estado de Direito formal dos países constitucionalizados pelo centro democrático, em conjunto com as forças da esquerda tradicional.

Assim como a Ucrânia, todavia, tem o seu Batalhão Azov, composto por nazistas e fascistas, a Rússia tem seus batalhões de mercenários fascistas, bem pagos pelo Governo Putin, acertados em contratos privados com o Estado russo, dominado pela nova burocracia do sistema do capital ali instalada. A oposição Venezuelana, que agora pede as atas e também não as apresenta, é a mesma que já tentou golpes cruentos contra o regime de Chaves e Maduro e que, com Trump, designou o risível Guaidó, como Presidente da nação, sem eleições e fora da lei.

De outra parte, Governar com uma “aliança militar-policial-popular”- como insiste Maduro – não investe nenhum Governo de legitimidade para liderar um país em que a própria Constituição foi produto de um processo reconhecido, em todo o mundo, como democrático e que através de sucessivos pleitos desbancou as elites superiores das oligarquias tradicionais, que sequer se preocupavam com a alternância do poder, pois era certo que, nas eleições viciadas, o poder ficaria sempre nas mesmas mãos privilegiadas.

Recontagem e verificação independente, acordo de transição dentro da democracia, novas eleições com ou sem Governo de transição, são algumas das possibilidades para reestruturar a democracia na Venezuela, que soube se livrar das suas velhas oligarquias políticas e econômicas, mas não pode deslanchar para uma situação de guerra civil permanente e não declarada, que pode desestabilizar uma grande parte da América Latina, que lentamente se ergue para sua soberania com estabilidade democrática.

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.


 

domingo, 4 de agosto de 2024

Venezuela: a diplomática nota do PSOL (ou as voltas que o mundo dá)

No dia 2 de agosto, a executiva nacional do PSOL divulgou sua posição sobre a situação na Venezuela.

A nota está aqui: Nota do PSOL sobre a situação na Venezuela (psol50.org.br)

Deixo aos entendidos comentar como se construiu esta nota, quem votou e quem não votou etc.

Me limito ao que está escrito.

A nota “manifesta apoio” à posição dos governos do Brasil, Colômbia e México; considera justa a “cobrança por mais transparência endereçada às instituições eleitorais daquele país”; condena a “política de embargos econômicos e a ingerência estrangeira”; mas também considera “justa” a proposta de  “acompanhamento internacional independente”; adianta que apoiará “qualquer medida que possa contribuir para legitimar uma saída que respeite a vontade e a soberania popular e a institucionalidade do país barrando as ameaças golpistas – sempre sustentadas pela direita venezuelana"; e termina dizendo que seguirão trabalhando na direção da “superação do impasse na Venezuela”. 

Uma nota politicamente correta, vazada em termos diplomáticos.

O cuidado foi tanto, que a nota do PSOL nem ao menos inclui a palavra "Maduro".

Nem cita a posição dos EUA, adotada no dia 1 de agosto, nomeando Guaidó Segundo.

Que um candidato, seja do PSOL ou de outro partido menos afortunado, evite certas polêmicas, é compreensível e em alguns casos pode ser até recomendável.

Foi o que fez Boulos, com menos diplomacia do que a nota do PSOL, como se pode ver aqui: Metrópoles Política | Candidato à Prefeitura da capital paulista, o deputado federal Guilherme Boulos (PSol) classificou como “extremamente preocupante” a… | Instagram

Mas que um partido evite certas questões, aí são outros quinhentos. Trata-se principalmente de uma escolha, não de uma contingência.

E a escolha que o PSOL fez, ao menos até o momento, foi se colocar sob a proteção de uma nota diplomática negociada (arduamente) por três governos.

Sobre o mérito, já comentei noutro lugar.

Sobre o método, são as voltas que o mundo dá.

Quando surgiu, o PSOL demarcou com o PT de diversas maneiras. Uma delas era nos acusar de institucionalismo.

Vinte anos depois, algo está mudando. E bem rápido, eu diria.



sábado, 3 de agosto de 2024

Venezuela: a imprensa e o “racha” do PT

Os principais meios de comunicação brasileiros deram grande destaque à nota aprovada pela comissão executiva nacional do PT, na segunda 29 de julho, acerca da eleição venezuelana.

A nota da CEN pode ser lida aqui: 

No início os tais meios foram na linha de contrastar a posição adotada pela executiva e a posição de Lula.

Quando se verificou que algum contraste existia, mas não renderia o que certos meios esperavam, a embocadura mudou: passou a ser contrastar a posição da executiva com a posição de alguns parlamentares.

Curiosamente, todo espaço foi dado para aqueles parlamentares que divergem da posição da executiva. Há inclusive o curioso caso de um cidadão que votou a favor da nota, mas que na imprensa comparece se posicionando contra.

Detalhe: pelo menos um dos veículos recebeu cópia (print) do grupo de zap do Diretório Nacional do PT. E, ao que tudo indica, vários receberam um relato detalhado do debate na executiva, com direito a hora e minuto em que começou e terminou a aprovação da supostamente polêmica nota. 

Apesar destas informações, boa parte do que se escreveu e falou na imprensa parece obra de quem se surpreende e acha extraordinários procedimentos absolutamente comuns ao dia-a-dia de um Partido que tem 44 anos e que discute o assunto Venezuela pelo menos desde 1999.

Aliás, surpreende o esforço de apresentar (mais esta) divergência de opinião como se fosse um “racha”. Um dos motivos desta interpretação descabelada é a explicita tentativa de certos meios, no sentido de interferir na eleição. Não apenas na eleição da Venezuela, mas também na eleição da futura direção do PT.

Exemplo disto é o seguinte trecho, de uma matéria publicada no “meio”: “Hoje, a crítica de que existe um abismo entre as decisões da Executiva do partido e as posturas defendidas por quem tem mandato é crescente dentro da legenda. (…) Há no partido questionamento do que se chama de “democracia das correntes”, que permite que tendências não tão representativas dentro da legenda ocupem cargos na estrutura partidária e contribuam com posicionamentos, como ocorreu na nota sobre a Venezuela”.

A tese acima precisa ser desenhada: a tal nota da CEN foi aprovada por unanimidade. Portanto, não foi uma decisão marcada por divergência entre as tendências. Logo, a solução para o suposto “esquerdismo” da executiva estaria em entregar a direção do Partido para os parlamentares. Como isto subverteria a tradição democrática do PT desde 1980, sai das tumbas o “argumento democrático” segundo o qual os parlamentares teriam “voto”, os dirigentes não.

O argumento não é novo. E, como sempre, há quem busque respaldo para ele em pessoas que estudam o PT, como é o caso de Lincoln Secco, a quem se atribui a afirmação de que “a composição da Executiva do PT é muito diferente da dos petistas que vão para os governos”. 

Não sei se Lincoln disse efetivamente isto; mas os fatos são bem mais complexos. Afinal, tanto na bancada quanto na direção do Partido, a tendência (relativamente) majoritária é a mesma. 

Ademais, se a “política externa” do Partido “apresenta-se muito mais à esquerda no partido do que as posições tomadas no cotidiano do governo ou no Congresso”, é entre outros motivos porque um Partido de esquerda pode e deve ter - em diversas questões- posições relativamente diferentes das posições expressas por quem está ocupando postos nas instituições.

Por exemplo: Lula, quando se posiciona como presidente da República, necessariamente tem que fazer inúmeras mediações derivadas do cargo que ocupa; já o Partido tem muito mais liberdade para se posicionar.

O que no fundo certa imprensa quer é que o PT se adeque ao que é possível dizer e fazer nos marcos da atual correlação de forças. Se fizéssemos isso, o PT deixaria de contribuir para uma mudança na tal correlação de forças. 

Portanto, o questionamento feito por certos meios transcende e muito a polêmica sobre a Venezuela. O que eles pretendem é a transformação do PT num partido tradicional, uma legenda meramente eleitoral.

O PT nunca aceitou isso. Aliás, ao contrário do que também é atribuído a Lincoln Secco, a nota petista não se dirigiu apenas à base militante interna. Aliás, a repercussão da nota nos grandes meios de comunicação prova o óbvio: tudo o que um partido de massas faz, dialoga direta e indiretamente com grande parte do povo brasileiro, muito além da militância.

Finalmente, tenho a impressão de que os comentários atribuídos a Lincoln Secco são muito marcados pela visão que o professor parece ter sobre a situação da Venezuela.

A saber: “É preciso, por exemplo, levar em conta que a Venezuela de hoje não é a mesma de Chávez”, ao que ele acrescenta inúmeros comentários sobre…. a Nicarágua!

Certamente a situação da Venezuela mudou muito muito desde 1999. Mas muitas coisas seguem como eram na época de Chávez, por exemplo a ingerência praticada pelos Estados Unidos. Aliás, os que tanto falam de atas, esquecem geralmente das sanções.

Por isso mesmo, é um erro achar que estamos diante de uma “crise entre Maduro e Edmundo González Urrutia”. Estamos diante de um conflito entre esquerda e extrema-direita, entre soberania nacional e imperialismo.

Muitos parlamentares podem não entender isto, muitos acadêmicos podem sublimar isto e muitos jornalistas podem achar que isto não faz o menor sentido.

Felizmente, a executiva nacional PT entendeu corretamente o que está acontecendo e fez a coisa certa.

As citações feitas são de texto publicado no Meio: https://www.canalmeio.com.br/o-meio-e-uma-nova-forma-de-se-informar/

quinta-feira, 1 de agosto de 2024

Venezuela: as opiniões do senador Randolfe

Conheci o Randolfe nos tempos em que ele era do PT, se não me engano militante da tendência Força Socialista, integrante da chamada esquerda petista.

Aí Randolfe saiu do PT e foi para o PSOL. 

Saiu pela esquerda.

Depois saiu do PSOL e foi para a Rede.

Então saiu da Rede e ficou um tempo sem partido.

Agora voltou ao PT.

Entrou pela outra porta.

Hoje Randolfe é senador eleito pelo estado do Amapá.

E tem a importante função de líder do governo.

Nessa condição, suas opiniões têm grande repercussão.

É o caso do que ele disse, neste 1 de agosto de 2024, sobre a Venezuela.

Segue segundo foi publicado:

""Lamentavelmente, a Venezuela não é mais uma democracia, e enquanto não forem apresentadas as atas que comprovem a verificação do resultado eleitoral, não é possível o reconhecimento do regime do senhor Nicolás Maduro".

"A eleição ocorreu no domingo, já se passaram quatro dias e o Conselho Nacional Eleitoral, que é comandado por Nicolás Maduro, ainda não apresentou a ata que efetivamente o consagra como vencedor. O que temos presenciado e que está sendo veiculado por todos os meios de comunicação internacional é uma escalada de violação de direitos humanos."

Não sabia que o senador acompanhava "todos os meios de comunicação internacional".

Eu não consigo acompanhar tantos assim. Do pouco que consigo, percebo que há um discurso único nos meios influenciados pelos Estados Unidos (como a Globo, onde o senador deu a entrevista citada).

Este discurso único visa criar um ambiente favorável para aquilo o que o Departamento de Estado dos Estados Unidos acabou de fazer: considerar eleito o candidato da oposição.

Visa criar, também, um ambiente favorável para a extrema-direita venezuelana seguir atacando, sempre fora-da-lei.

Imagino que o senador não concorde com esta Operação Guaidó Segundo.

Mas, mesmo que não concorde, o fato é que afirmações do tipo "a Venezuela não é mais uma democracia" e "escalada de violação dos direitos humanos" ajudam a operação dos EUA e da extrema direita venezuelana.

No passado aconteceu a mesma coisa com as declarações que Randolfe deu contra o PT.

Para quem não lembra, seguem dois exemplos de 2012, citados pela lamentável revista Veja: 

“O escândalo do Mensalão foi uma das razões da nossa ruptura com o PT. O ocorrido é lamentável para a política. O Mensalão foi um divisor de águas. Feriu de morte um partido um partido político que representava a aspiração de ética na política para milhões de brasileiros. Isso é o principal ponto do processo envolvendo o Mensalão. É um golpe contra a esperança na política de milhões de brasileiros”.

“(A condenação dos mensaleiros pelo STF) É um símbolo importante para o país. Se convenciona dizer que só quem vai para a prisão é o ladrão de galinha, que o corrupto que participa de esquema de corrupção nunca é punido. Então, nesse sentido, eu considero um marco importante do judiciário brasileiro” 

Randolfe, imagino, mudou de ideia sobre o PT. Mas afirmações como as suas custaram caro, não apenas para o PT, mas para a maioria da população brasileira.

Quero crer que, assim como mudou de opinião sobre o PT, Randolfe também vai mudar de opinião sobre a Venezuela. 

Peço apenas que desta vez mude de opinião mais rápido. 

Pois a extrema-direita fascista na Venezuela, assim como no Brasil, não dá a mínima para a democracia, nem para os direitos humanos. Mas se beneficia muito com certos discursos feitos do alto do pedestal.



Venezuela: o papo (quase) reto de Roberto Robaina

Roberto Robaina é do PSOL.

Mais precisamente, da tendência MES.

Que, segundo dizem os entendidos em PSOL, seria parte da ala esquerda daquele partido.

Segundo Robaina, a “posição da diplomacia brasileira sobre a crise da Venezuela é muito inteligente”. 

É uma posição “de difícil execução, mas a única que poderia ser adotada capaz de preservar a defesa das liberdades democráticas e a soberania do processo eleitoral, não fazendo, tampouco, o jogo da extrema direita”.

Seria diferente da “posição da direção nacional do PT", que segundo Robaina "é de respaldo incondicional ao presidente Maduro e a legitimidade de sua reeleição”.

Sempre segundo Robaina, a posição da diplomacia brasileira “busca colocar o Brasil num lugar que lhe permita mediar o conflito”.

A partir deste ponto, Robaina começa um exercício de interpretação, que vou resumir abaixo a meu modo (na dúvida, confiram a versão original). 

Para Robaina, mediar o conflito seria “evitar uma guerra civil”.

Mas atenção: esta guerra civil poderia ter como pólos “uma insurreição cuja direção seja da extrema direita ultraliberal e um autogolpe do próprio Maduro”.

Ou seja: tratamento equivalente às partes.

Robaina especula, ainda, o seguinte: uma “hipótese em que a diplomacia certamente está trabalhando seria a substituição do governo Maduro via um processo de negociação e transição que permita anistia, exílio, manutenção de privilégios à cúpula militar etc.”

"Certamente", nessa "hipótese", a equivalência some.

"Anistia" e "exílio" são para os apoiadores do governo. Nada se fala sobre o destino da oposição de extrema direita. 

Para Robaina, a hipótese de substituição do governo Maduro poderia “se fortalecer à medida em que as mobilizações populares cresçam e que exista um polo diplomático capaz de ser um mediador, justamente o lugar que o Brasil quer ocupar”. 

Mobilização popular, pelo menos até agora, foram as guaribas promovidas pelo crime e pela extrema-direita. 

Substituição do governo Maduro por quem? Não se explicita.

Robaina especula sobre qual seria a posição dos EUA. 

Segundo Robaina, “a ligação telefônica entre Lula e Biden mostra que os EUA têm também interesse nesse papel do Brasil – consciente de que  a simples derrubada do governo é uma hipótese cuja realização é muito difícil, tem alto custo humano, político e econômico". 

Notem o que está escrito: por este caminho proposto por Robaina não teríamos uma “simples derrubada do governo Maduro”.

De fato! Seria uma derrubada. Só não seria “simples”. 

Notem, também, uma nova equivalência. Antes seria entre Maduro e a extrema-direita. Agora, seria entre Brasil e EUA: "para os EUA, a saída negociada pode ser também a melhor”. 

A candura de Robaina para com o imperialismo se estende à oposição venezuelana. 

Segundo Robaina, se “Lula consegue essa posição, mesmo a direita da Venezuela terá que ressaltar seu papel de mediadora e irá enfraquecer o discurso anti-Lula da extrema direita – e mesmo da ignorante e/ou reacionária burguesia liberal e sua mídia corporativa que ataca Lula".

Ou seja: segundo interpreto eu, Robaina acredita que se Lula agisse como Boric, a direita trataria Lula bem. 

(Que com Boric não aconteça assim isto, deve ser porque é Boric, ou porque é o Chile, ou por algum motivo misterioso qualquer.)

Robaina apresenta mais alguns argumentos, que podem ser verificados diretamente no texto, que está no endereço abaixo:

https://movimentorevista.com.br/2024/07/uma-breve-nota-sobre-venezuela/

Deles, destaco a afirmação com que Robaina fecha seu texto: “o sucesso da via diplomática, aliás, seria justamente reverter o fluxo migratório, permitindo que milhões de venezuelanos voltem para suas casas e suas famílias. Eis o que seria uma vitória para o povo da Venezuela.”

Traduzindo em papo reto,com palavras que tenho impressão de já ter ouvido em alguma campanha da direita: "Tiremos Maduro, acabemos com a instabilidade e milhões poderão voltar às suas casas!"

(As aspas acima não são de Robaina.)

Três comentários finais.

Primeiro, lamento que Robaina não tenha assumido para si a paternidade daquilo que ele atribui à diplomacia brasileira. Mas entendo sua postura. Trata-se daquele tipo de recato que leva certas pessoas a atribuírem algumas de suas realizações a terceiros.

Segundo, agradeço a Robaina por seu papo quase reto. Graças a isso, fica demonstrado que uma parte dos que pedem atas, na verdade já "apuraram" a eleição e já estão compondo outro governo.

Terceiro, comprova-se mais uma vez que o mundo é redondo. O que faz com que, começando pela esquerda, se possa terminar na extrema-direita.

Pois como sabe todo mundo, se vingar a proposta de Robaina, o que virá não será um governo de esquerda, nem de centro-esquerda, nem de centro, nem mesmo de direita.

Robaina, claro, não acha que isto faça o "o jogo da extrema direita”. 

Mas como Robaina mesmo disse, faz o jogo dos EUA, para quem "a simples derrubada do governo é uma hipótese cuja realização é muito difícil, tem alto custo humano, político e econômico".

E depois de derrubado o governo, não tenho dúvida sobre quem será chamado para por ordem em casa. 

Motivo pelo qual a proposta de Robaina é útil para a extrema-direita. Não sei por qual motivo não me surpreendo com isso.



 

Venezuela: o impressionante informe do Centro Carter

Até hoje, só ouvi elogios acerca do Centro Carter.

Inclusive de venezuelanos. 

Entre outros motivos, porque o Centro Carter deu declarações muito positivas acerca do sistema eleitoral venezuelano.

Sendo assim, suspeito que para os apoiadores de Maduro, a "declaração" do Centro Carter sobre a eleição na Venezuela deve ter caído como um banho de água fria.

Fui ler a dita cuja e fiquei impressionado.

A declaração tem 9 parágrafos.

Um deles é apenas um expediente, informando o que é e o que faz o Centro Carter.

Seis parágrafos desancam as eleições de 2024 na Venezuela. 

Nenhuma, absolutamente nenhuma observação sobre algum comportamento inadequado da oposição. E muitas, inúmeras críticas ao comportamento do governo e da justiça. Impressionante.

Dada a importância que tudo que vem dos EUA têm, na formação da opinião pública mundial, inclusive de gente de esquerda, a Declaração reforça as denúncias e reclamações da oposição venezuelana, bem como as dúvidas e suspeitas de quem as têm.

Mas na Declaração há dois parágrafos (o penúltimo e o antepenúltimo) que me deixaram com uma pulga atrás da orelha (não, não é uma referência oculta ao Trump).

Explico. Mas, antes, uma preliminar.

Não sei quais são os "estándares internacionales de elecciones democráticas", com base nos quais o Centro Carter analisou o processo venezuelano, concluindo que "la elección presidencial de Venezuela de 2024 no se adecuó a parámetros y estándares internacionales de integridad electoral y no puede ser considerada como democrática".

Segundo os meus "estándares" pessoais, é mesmo muito difícil achar - neste mundo em que vivemos, especialmente em 2024 - processos que possam ser considerados idealmente "democráticos". De toda forma, repito, não sei quais são os "estandáres" adotados pelo Centro Carter. Assim, não tenho como fazer comparações. Mas é com base nesses padrões que eles fazem uma série de críticas ao que teria ocorrido na Venezuela.

E a pulga?

A pulga deve-se a três trechos que estão no final da declaração. A saber:

"(...) Pese a este contexto, la ciudadanía venezolana se movilizó masiva y pacíficamente el 28 de julio para expresar sus preferencias. La jornada de votación transcurrió de una manera cívica, pese a restricciones (...)"

"(...) En el número limitado de recintos visitados, los equipos de observadores del Centro Carter comprobaron la voluntad de la ciudadanía venezolana por participar en un proceso electoral democrático y demostrando su compromiso cívico como integrantes de mesa, testigos de partidos y observadores. Estos esfuerzos fueron desmerecidos por la ausencia de transparencia del CNE en la difusión de los resultados (...)". 

"(...) El Centro Carter desplegó 17 expertos y observadores a partir del 29 de junio, con equipos en Caracas, Barinas, Maracaibo y Valencia. La misión se reunió con una amplia gama de actores, incluyendo el CNE, candidatos, partidos políticos, organizaciones de la sociedad civil, grupos de observación ciudadana, representantes de los medios de comunicación, funcionarios gubernamentales, las fuerzas armadas y expertos electorales. Dada la cantidad de integrantes, las observaciones directas del Centro Carter fueron limitadas, especialmente el día de las elecciones (...)".

Se entendi direito, o Centro Carter deixou para o final de sua impactante declaração a informação de que suas opiniões sobre o ocorrido decorrem, não tanto da observação direta, mas principalmente de entrevistas com X pessoas. Impressionante.

Agregam ainda que, nos limitados momentos em que houve observação direta, as coisas transcorreram de forma "cívica" e "pacificamente". Mas que, no desfecho, houve "ausencia de transparencia del CNE en la difusión de los resultados". 

Esta conclusão acima transcrita encerra a parte principal da Declaração.

A pulga me faz perguntar: que peso teve esta "ausencia de transparência" na conclusão final do Centro Carter, segundo a qual "la elección presidencial de Venezuela de 2024 no (...) puede ser considerada como democrática"?

Ou seja, em que medida a crítica ao processo deriva do processo e em que medida a crítica deriva resultado do resultado anunciado?

E em que medida as conclusões derivam de quem foi entrevistado ou deixou de ser, do que disse ou deixou de dizer?

Para saber isto, mas também para saber todo o restante, prefiro aguardar a publicação das atas. 

Não a publicação das atas da eleição - pois segundo se diz, a justiça venezuelana seria toda bolivariana e, portanto, inconfiável.

Prefiro aguardar a publicação das "atas" do próprio Centro Carter. 

Afinal, como eles mesmos informam ao final de sua "Declaração", o Centro Carter "publicará un informe final de su misión de observación en Venezuela, detallando todos los hallazgos en este comunicado".

Seguramente será um informe tão impressionante quanto a declaração preliminar.

Mas sem este detalhamento, fico em situação similar ao que o Centro Carter ficou frente ao anúncio do resultado pelo CNE: não tenho como conferir a veracidade das afirmações.

Assim, como pau que bate em Chico bate em Francisco, sigo no aguardo das atas do Centro Carter.

 








Venezuela: Lula, Thiago Amparo e o que a imprensa não revela

Gerou grande rebuliço a declaração de Lula sobre a situação venezuelana.

Um dos que não gostou foi um cidadão chamado Thiago Amparo.

Um trecho de seu texto na Folha de S.Paulo diz que Lula inventou que o Judiciário venezuelano —cooptado pelo chavismo— poderia servir de alguma solução para a crise. Não serve: a receita chavista foi a de cooptar, como Trump, os tribunais. Lula, não há juízes em Caracas e pensar que há é, no mínimo, ingênuo, e, no máximo, hipócrita.

Infelizmente, Amparo não desenvolveu o raciocínio. Assim, deixamos a pergunta: se não há juízes em Caracas e se Maduro não foi reeleito, por qual motivo mesmo a oposição de extrema-direita está clamando por atas?

A resposta é: para a extrema-direita, falar de atas visa apenas criar o clima para um golpe, com o devido beneplácito internacional.

Golpe que, se acontecer, será amparado pelos "democratas" de todo o mundo.

A imprensa devia contar tudo. Assim, quem sabe, os que sinceramente tem dúvidas e legitimamente pedem por atas, perceberiam o que de fato está em curso.