quarta-feira, 11 de novembro de 2020

O Globo e a eleição paulistana: perdão pela falha!

Ontem participei de uma homenagem ao companheiro David Capistrano.

Ele nos deixou em 2000.

Me coube falar da relação entre Davi Capistrano e o PT.

Hoje me dei conta de que cometi uma falha grave.

Esqueci de citar uma das mais geniais (e politicamente incorretas) frases de sua lavra.

A de que o PT teria uma base composta por soldados vietnamitas, dirigentes intermediários que lembravam aqueles sargentos ianques de filme e um estado-maior composto por generais paraguaios.

Lembrei disto ao ler uma notícia, publicada no jornal O Globo, sobre uma reunião em que dirigentes do Partido teriam feito pressão pela retirada da candidatura Tatto.

Certamente a notícia é falsa.

Pois seria simplesmente inacreditável que altos dirigentes nacionais se prestassem a fazer este tipo de serviço e ainda vazassem para a imprensa... do Rio!!

Pois vamos combinar: há seis meses, quando se definia qual seria nossa tática em São Paulo, havia várias alternativas e todas eram legítimas e factíveis.

Hoje, faltando poucos dias para a eleição, só há duas alternativas.

Uma é ampliar ao máximo a campanha, conquistar o máximo de votos populares, votar em Jilmar Tatto 13.

A outra é capitular ao bullying. 

Capitulação que teria efeitos catastróficos, não apenas sobre a eleição de São Paulo. 

Pois um partido que cede a este tipo de pressão, dificilmente levantará novamente a cabeça. E muito dificilmente terá o respeito da militância vietnamita.

Mas, como já disse, certamente a notícia publicada pelo Globo deve ser falsa.

Pois nem os generais paraguaios seriam capazes de tanta torpeza.

Todo apoio ao companheiro Tatto e, principalmente, aos milhares de militantes do PT que seguem buscando voto, não entre os convertidos, mas no povão.

ps. para os que gostam de citação, vai uma adaptação bíblica: Tudo tem seu tempo. O tempo agora é de lutar, lutar e lutar. 


 

 

 

 

Tatto, Boulos e as viagens de Gulliver

Amanhecer do dia 11 de novembro.

Café antes do trabalho.

Leitura das mensagens.

Duas encabeçam a lista.

Uma, enviada por uma petista indignada com a pressão psolista nas redes sociais, traz um divertido card em que o velho Mouro pede que os petistas se unam em torno do melhor aluno de Stanislavski.

Outra, enviada por um esquerdista, que passou seus últimos 18 anos azucrinando dia e noite o PT com uma retórica haikai contra nossas "traições", mas que agora pede “lucidez” ao Partido.

O fato é que alguns dos apoiadores da campanha Boulos dedicam a maior parte do seu tempo a assediar o voto dos eleitores petistas.

Ou seja: do voto de quem, hoje, já se decidiu a votar em Tatto.

Os argumentos são variados.

Mas a prioridade é, em si mesma, um equívoco total.

Pois o que vai decidir esta eleição, tanto no segundo quanto no primeiro turno, não é o voto dos já convertidos à esquerda.

O que vai decidir esta eleição é o voto dos que ainda não votam na esquerda.

Os que não querem ir votar, os que no momento dizem que vão votar branco, nulo, em nenhuma das candidaturas. E os que votam, por enquanto, nas diferentes candidaturas da direita.

Infelizmente, a atitude de alguns dos apoiadores da campanha Boulos é, do ponto de vista estritamente eleitoral, funcional às candidaturas da direita.

Neste sentido, ao contrário das melhores intenções, esta atitude autofágica não contribui para que tenhamos segundo turno; nem contribui para que tenhamos a esquerda no segundo turno.

Mas, claro, é uma atitude funcional do ponto de vista dos que têm como objetivo real, não o de governar São Paulo, não o de ganhar as eleições, não o de levar a esquerda ao segundo turno, mas sim o de disputar com o PT.

E o PT?

A campanha de Tatto tem como prioridade conquistar os votos do povão.

E, por isso, tem que resistir calada ao bullying diário, tanto de alguns apoiadores de Boulos, quanto de militantes que estão costeando o alambrado.

Alguns, porque no fundo resolveram fazer luta interna, na hora errada e do jeito errado.

Outros, porque se curvaram tanto à lógica institucional, que acham normal sacrificar seu partido, em nome de um suposto resultado eleitoral.

E, claro, há também os “jeniais” estrategistas, que acham que as eleições são como as partidas de xadrez que jogam contra si mesmos.

Na noite de 15 de novembro veremos o que o povão decidiu. Se haverá segundo turno, quem estará no segundo turno, qual a votação efetiva do PT.

Mas qualquer que seja o resultado, ficam duas certezas. Tem gente que vai sair melhor e maior do que entrou. E tem gente que, na ânsia de ser maior, vem se apequenando e se domesticando.

É da vida.

Swift explica.

Dia 15, vamos votar no 13. Em São Paulo, com Tatto.

 

 

 

 

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A pesquisa Ibope e a eleição de São Paulo

Ontem o Ibope divulgou nova rodada de pesquisas.

No caso da cidade de São Paulo, comparando a pesquisa de 9 de novembro com a de 30 de outubro, teria ocorrido o seguinte:

1/a candidatura de Covas teria subido muito e lideraria isolado;

2/o segundo lugar estaria sendo disputado por Boulos, Russomano e França;

3/depois viria um terceiro pelotão, onde estariam Tatto e Mamãe Falei;

4/em seguida viriam as demais candidaturas.

Não cito os números, porque a pesquisa tem uma margem de erro de 3 pontos percentuais, o que torna possível qualquer malabarismo. Por exemplo: Tatto poderia ter de 3% a 9%, Boulos poderia ter de 16% a 10%.

Assim, números deixados de lado, e supondo que a pesquisa não esteja manipulada, nem contenha nenhuma falha metodológica mortal, o que podemos dizer?

1/que é provável que haja segundo turno;

2/que é muito provável que a candidatura Covas, apoiada por Doria e por Marta, esteja no segundo turno;

3/que não está decidido quem mais estará no segundo turno, disputando contra Covas;

4/que provavelmente Russomano não estará no segundo turno: aliás, em todas as partes, as candidaturas apoiadas por Bolsonaro passam por dificuldades;

5/que, a depender do que ocorra nos próximos dias, há margem estatística em alguns casos e política noutros casos para que vários postulantes consigam estar no segundo turno: Boulos, França, Tatto, Mamãe Falei e inclusive Russomano.

Entretanto, a maneira como o Ibope divulgou seus números e a maneira como as pessoas se habituaram a ler as pesquisas, induz muita gente a achar que Boulos seria o melhor posicionado para estar no segundo turno, pois supostamente estaria em segundo lugar.

Motivo pelo qual alguns de seus apoiadores tem se dedicado, diuturnamente, a conquistar votos de petistas. Acham que, fazendo isto, Boulos teria grande chance de estar no segundo turno.

Veremos, em poucos dias, se este tipo de movimentação terá efeitos eleitorais e quais efeitos eleitorais terá. Mas há fortes sinais de que os defensores do voto útil possam terminar como aquele famoso aprendiz de feiticeiro.

No Rio de Janeiro, por exemplo, a campanha pelo “voto útil” também está em marcha, mas nesse caso para tentar beneficiar a candidatura do PDT. O que, certamente, não era o resultado esperado por alguns que defendiam o voto útil com o argumento de “trocar o Rio por São Paulo”.

Já em São Paulo, os defensores do “voto útil” deveriam ficar espertos para uma informação que consta da mesmíssima pesquisa em que se baseiam, a saber: Boulos estaria congelado, sem cair, nem subir. Some-se isto com a presença de Márcio França, candidato do PDT de Ciro Gomes e do PSB de São Paulo (ou seja, dos tucanos anti-Dória); e a conclusão é de que defender o “voto útil” pode ser meio caminho andado para o voto mais inútil da história de muita gente.

Isto posto, e a bem da verdade, não é a primeira vez que o PT sofre este tipo de pressão.

Foi assim no início de nossa trajetória, quando, em nome de derrotar a direita, se pedia ao PT que abrisse mão de lançar candidaturas. Ou que as retirasse, em favor de candidaturas supostamente melhor posicionadas.

O impressionante, portanto, não é que haja campanha pelo voto útil. Nem é impressionante a crença nas pesquisas, a certeza com que algumas pessoas fazem cálculos de viabilidade e apostas neste ou naquele tipo de segundo turno, ou as certezas absolutas sobre o que vai ocorrer em 2022, à luz do resultado X ou Y em 2020.

O que impressiona é a vista curta com que alguns petistas tratam o assunto. É impressionante, mas não é surpreendente: de um lado, há setores que estão fazendo luta interna, na hora e do jeito errado; de outro lado, há setores que transformaram as disputas eleitorais no alfa e ômega da sua atividade política.

Convenhamos, não é nem um pouco misterioso o que está em jogo. Afinal, quando vários defensores do “voto útil” falam que é preciso deixar de lado os interesses partidários, eles estão expondo honestamente o núcleo do problema. Pois olhando a história dos últimos 40 anos, nada foi mais importante para a luta do povo brasileiro, nada foi mais importante para as liberdades democráticas, do que a construção de uma esquerda de massas, nucleada pelo PT.

O fato é que a pressão brutal para que o PT “desista” de sua candidatura em São Paulo visa objetivos muito mais estratégicos. Afinal, um partido de esquerda que, no auge da batalha, desiste da luta por temor da derrota, muito dificilmente voltará a levantar a cabeça.

Por isso, para além de muitos outros argumentos que já foram expostos noutros textos, fazer campanha, defender a candidatura e votar em Tatto prefeito de São Paulo tem um significado que transcende a eleição de 2020 e o município de São Paulo.

 

 

 

domingo, 8 de novembro de 2020

Ciro lambe botas?

Confesso meu espanto.

Escrever para Biden, okei.
Mas incluir nesta carta a informação de que pretende ser candidato à presidência?
Rapaz!
Essa elite brasileira realmente é colonizada.
Não bastasse um cavernícola-pró-gringo na presidência, temos agora oficialmente um pretendente vira-lata.
Para completar a ginuflexão, só faltou remeter a carta desde Paris.




quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Marcelo Freixo: "Me engana que eu gosto"

Na briga entre Trump e Biden, eu torço em primeiro lugar pela briga; em segundo lugar, torço pela derrota de Trump, inclusive porque isso aumentará a confusão.

Mas não alimento nenhuma, absolutamente nenhuma ilusão em Biden. Como não alimentei ilusões por Obama, de quem foi Biden foi vice.

Aliás, como não recordar das ilusões em Obama? 

O cara era e segue extremamente simpático, reconheço. Mas também virou campeão do assassinato-by-drone, o protetor de Wall Street depois da crise de 2008, capaz de elogiar “the guy”, declarar a Venezuela uma ameaça à segurança dos EUA e dar luz verde para a onda de golpes na América Latina.

Duvido que qualquer pessoa informada desconheça isto, ou desconheça a lista de crimes internacionais cometidos, tanto por governos Republicanos, quanto por governos Democratas.

Democratas que, no passado não muito distante, defendiam oficialmente a segregação racial. E achavam que a KKK não merecia repúdio.

Mas no Brasil existe uma certa esquerda que, frente aos Estados Unidos, está sob efeito do feitiço do tempo, daquele tipo que aparece no filme Groundhog Day.

Essa certa esquerda está torcendo por Biden nas eleições dos EUA, como se Biden fosse um Bernie Sanders. Mas de tudo o que eu tenho lido e visto esta certa esquerda postar, o prêmio “Me engana que eu gosto” cabe, sem a menor sombra de dúvida, para o companheiro Marcelo Freixo, que postou em sua conta a imagem abaixo.

 


A vitória de Biden não é a vitória da democracia, nem a garantia do futuro do planeta. É correto querer derrotar Trump, mas é um erro imenso atribuir ao seu oponente qualidades que não são suas.

domingo, 1 de novembro de 2020

Para quem não entendeu ainda, mais uma chance

Um professor amigo, acaba de me enviar um texto. O texto não é dele. Foi enviado a ele por outro professor, seu amigo. Que por sua vez não divulgou a fonte. Mas ambos garantem a veracidade. Isto posto, segue o texto.

"Eu  falo sobre a ótica de um cristão conservador. Esse governo pode ter  muitos erros, mas enquanto defender valores conservadores ele terá o  apoio de um amplo segmento da sociedade. Tal qual Donald Trump nos EUA, esse é  um momento de cisão, de divisão, de radicalismo e de luta. Não é mais  possivel que conservadores permitam que progressistas tenham a primazia e subjuguem a sociedade com  sua pauta absurda. Estamos, assim, num ponto de inflexão onde o combate  sistemático ao progressismo será feito incansavelmente. Nunca haverá paz com progressistas, pois o que estamos defendendo são os nossos próprios valores. O texto de Ec 3:1-8 serve como um chamado ao bom combate. E este combate já esta sendo feito."

Para quem não sabe, aqui vai Eclesiastes 3:1-8:

Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu:
tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou,
tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir,
tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar,
tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora,
tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar,
tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz.

Tempos de guerra. E quem quiser vencer, tem que estar disposto a vencer o bom combate. Ou sucumbir sem glória, nem pena.


Tarso Genro e o ferrão de Ciro Gomes

Há muito tempo, a long time ago, uma certa esquerda metia a boca na palavra “progresso”, acusada de sintetizar as perversões de uma estirpe do marxismo que incluiria Engels e Stalin. Hoje, 40 anos depois, encontro quem salive satisfeito toda vez que escuta a palavra “progressista”. Ver como aquilo deu nisso é uma das coisas boas no envelhecer: ver as piruetas que o mundo (e as pessoas) dão.

Pensei nisto ao ver o sempre elegante e bem escrito texto, publicado hoje no Sul21, do companheiro Tarso Genro. O texto intitula-se “Lula, Ciro: o vazamento benigno lembra Mattelart em Porto Alegre” e está reproduzido ao final.

O texto começa com uma ode a democracia liberal, que faço questão de reproduzir na íntegra: “A conversa entre líderes, o contato pessoal, o diálogo público e inclusive a controvérsia radical entre personalidades ideologicamente opostas, que integram o modo de fazer política na democracia, fazem a superioridade – em termos políticos – da democracia liberal em relação aos regimes de partido único e às ditaduras e totalitarismos em geral”.

O divertido nesses e noutros elogios à democracia liberal é que lança luz de maquiagem sobre o que ocorre nos salões de festa, mas esconde o que ocorre nas periferias. Mas claro: não devemos incomodar o intercâmbio de salamaleques, com a lembrança de que o povo não é convidado a participar deste “modo superior” de fazer política, que seria supostamente característico da democracia liberal.

Tarso, claro, lembra que as vezes a “quando a democracia é assaltada nos seus fundamentos, seja pela perversão da informação, pela violência ou pelos oligopólios midiáticos – pela força do dinheiro instalada no modo de fazer política – a democracia resseca”. 

O que Tarso não lembra é que isso não ocorre às vezes, isso ocorre o tempo todo. Não existe “democracia liberal” que não seja o tempo todo “assaltada” pela força do dinheiro, dos oligopólios, pela violência. Exatamente porque a democracia liberal é... liberal, ou seja, é uma democracia burguesa, não é para todos. Os Estados Unidos são o maior exemplo disso.

E quando aquelas medidas preventivas não funcionam, quando o povo ameaça querer participar em pé de igualdade da festa, aqueles mesmos democratas liberais, em nome de manter a democracia liberal, apelam aos cavernícolas. 

E depois que os cavernícolas fizeram o serviço sujo, os democratas liberais se dizem horrorizados com os excessos (que, claro, teriam sido causados pelos excessos originais cometidos pelo povo e/ou pela esquerda) e convocam certa esquerda a dar uma mãozinha para reestabelecer o status quo anterior. 

Status quo ante que certa esquerda passa a defender como se fosse a coisa mais linda e maravilhosa do mundo. Só Dark explica.

Mas voltemos a Tarso. 

Segundo ele, quando as instituições “são assaltados pelo medo ou pelo oportunismo e os partidos podem tornar-se amorfos e passar de uma fase de inércia para uma fase de decadência ou irrelevância”, chegaria “a hora das reservas morais acumuladas na esfera da política, dos homens e mulheres que -mais além dos curtos espaços da conjuntura- encarnam o espírito das épocas futuras, superam as suas adversidades, concertam acordos e consensos para derrotar, o mal maior: a hidra do fascismo, no nosso  caso concreto, aliada da ignorância, da má fé, do negacionismo da ciência, da razão e autor da semeadura da política necrófila”.

Teria o muito que dizer sobre esta ode ao "papel do homem na história". Mas me confesso mesmo é encantado com a porção Cervantes que se esconde em Tarso. Pois não é fácil transformar as motivações vis de uns e pueris de outros, em uma história épica. 

Como historiador bissexto, espero que algum dia seja divulgada toda a história do encontro Lula e Ciro: quem sugeriu, quem marcou, a data, o que foi dito, a quem foi informado e, principalmente, por quais motivos o encontro vazou no momento e na forma com que vazou. Quando isso ocorrer, será possível diferenciar realidade e lenda, os motivos reais e as "nobres intenções".

Mas adianto o seguinte: ao contrário do que diz Tarso, a história não foi “benignamente vazada por alguma alma inteligente”, nem foi um “acaso”. 

A história foi vazada na hora e da forma adequadas, para ajudar a candidatura do PDT no Ceará. E Ciro não é, de jeito nenhum, um dos “grandes líderes democráticos do país”. O comportamento de Ciro no segundo turno de 2018 impede que ele receba esta medalhinha. 

Mas, é claro, o coração de certos petistas é grande, grande demais, tão grande que toda vez que encontram um escorpião, sempre perguntam a ele: isto é um ferrão?

Pulo a parte erudita do artigo de Tarso e vou direto ao final: nosso companheiro acha que o “encontro de Lula com Ciro”, “se for regado pela ação consciente de ambos os líderes, pode restaurar a vontade democrática da nação e jogar a extrema direita fascistóide e seus asseclas ultraliberais no lugar da História que eles merecem: o das tristes lembranças do lixo autoritário. Flávio Dino, Requião, Freixo, Boulos, Haddad, Juliano Medeiros, Lupi, Marina, dirigentes do PSB e dos pequenos partidos de esquerda, sabem que nas circunstâncias atuais só a ampla unidade contra o fascismo é o antídoto histórico para recuperar o espaço político de lutas que foi empestado pelo fascismo”.

Deixando para outra hora os saborosos detalhes escondidos no parágrafo anterior, passo direto ao que me parece ser o 8 mental em que está presa parte da esquerda brasileira: a principal tarefa da esquerda é derrotar o fascismo;  a luta contra o fascismo exige ampla unidade; a ampla unidade exige abrir mão de posições particulares; logo, a ampla unidade se faz pelo centro e não pela esquerda. 

Esta análise contém na minha opinião quatro defeitos:

1/identifica mal nosso inimigo: o “fascismo” de Bolsonaro não é a causa, é uma das consequências da reorientação que a classe dominante brasileira e mundial fizeram a partir da crise mundial de 2008. É absolutamente insuficiente uma política focada exclusivamente numa das cabeças da hidra;

2/atribui ao centro capacidades que ele não tem: em tempos de polarização, as forças de “centro” se esvaziam. Para que as forças de centro possam de fato liderar a luta contra a direita, elas terão que se deslocar efetivamente (ou seja, programática e politicamente) para a esquerda. E o centro realmente existente no Brasil de hoje está fazendo o oposto disto: está se deslocando para a direita, assumindo o programa ultraliberal e conciliando com o bolsonarismo;

3/destrói nossas chances de futuro: o Brasil avançou, entre 1989 e 2014, porque a esquerda polarizou a disputa política. A esquerda pode perder a capacidade de polarizar? Pode, sempre pode. Mas perder a capacidade por derrota é uma coisa; perder a capacidade por capitulação, por tradição, por desistência, por inapetência, é outra coisa;

4/na prática, elimina da equação a única variável capaz de virar o jogo: não é a unidade política por cima, mas a mobilização popular por baixo que pode derrotar o "bolsonarismo", o ultraliberalismo e tudo o mais. A depender de como se construa a pretendida "unidade", o povo ficará alheio e como espectador.

Obviamente, dar conta destas questões exige uma esquerda que não esteja hipnotizada pela democracia liberal. Aliás, foi exatamente esta hipnose republicana que nos trouxe à situação atual.


Segue abaixo o texto criticado

https://www.sul21.com.br/colunas/tarso-genro/2020/11/lula-ciro-o-vazamento-benigno-lembra-mattelart-em-porto-alegre/

Lula, Ciro: o vazamento benigno lembra Mattelart em Porto Alegre

Publicado em: novembro 1, 2020

Ciro Gomes e Lula (Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula)

Tarso Genro (*)

A conversa entre líderes, o contato pessoal, o diálogo público e inclusive a controvérsia radical entre personalidades ideologicamente opostas, que integram o modo de fazer política na democracia, fazem a superioridade – em termos políticos – da democracia liberal em relação aos regimes de partido único e às ditaduras e totalitarismos em geral. Quando a democracia é assaltada nos seus fundamentos, seja pela perversão da informação, pela violência ou pelos oligopólios midiáticos – pela força do dinheiro instalada no modo de fazer política – a democracia resseca: as instituições são assaltados pelo medo ou pelo oportunismo e os partidos podem tornar-se amorfos e passar de uma fase de inércia para uma fase de decadência ou irrelevância.

Quando este fenômeno se instala é a hora das reservas morais acumuladas na esfera da política, dos homens e mulheres que -mais além dos curtos espaços da conjuntura- encarnam o espírito das épocas futuras, superam as suas adversidades, concertam acordos e consensos para derrotar, o mal maior: a hidra do fascismo, no nosso  caso concreto, aliada da ignorância, da má fé, do negacionismo da ciência, da razão e autor da semeadura da política necrófila. Por isso a conversa de Lula e Ciro, dois dos grandes líderes democráticos do país, benignamente vazada por alguma alma inteligente, pode fazer história no país.

Na sua “História da Utopia Planetária” (Sulina, P.Alegre 2002), Armand Mattelart – numa parte do seu livro em que fala da “democracia telegráfica ou do nascimento de uma utopia”- escreve o seguinte: “não
há democracia possível ‘além do alcance da voz’, acreditava Jean-Jaques Rousseau”. Esta posição é “contestada por Alexandre Theóphile-Vandermond (1735-1796) que, em março de 1795, se apóia em outra língua, a de de sinais do código telegráfico”, para  tentar desmentir Rousseau, já que o alcance da voz fora superado pelo som da linguagem cifrada.

Independentemente do sentido que Mattelart empresta ao seu raciocínio, é claro que Rousseau, o filósofo, e  Teóphile-Vandermond, o matemático-músico e químico, se confrontam no espaço da razão. Sobre o debate, prossegue o autor, “Barrére também se empolgou” (dizendo que o telégrafo é) um meio  que tende a consolidar a unidade da República, pela ligação, íntima e súbita, que ele dá a todas as suas partes…”.

Neste livro, reiterando o que já tinham expressado Castoriadis, Mário Soares, Boaventura Souza Santos, Eduardo Galeano, Ettore Scola, Mássimo Dalema, Álvaro Cunhal, Chico Buarque e muitas outras personalidades das artes, da ciência e da política, Mattelart escreveu na sua contracapa: “Sinto-me especialmente feliz por ver este livro publicado em Porto Alegre (…) porque ao organizar o I Fórum Social Mundial, em janeiro de 2001, a cidade tornou-se um símbolo universal: o da crença de que um outro mundo é possível”.

Mattelart acrescenta um dado curioso: “o templo da religião da humanidade, na capital gaúcha, e as estátuas de alguns de seus governantes não são testemunhos da influência durável, deixada aí pela utopia contista? No fim das contas, não é por acaso que esta história da utopia planetária seja lançada em Porto Alegre! A fluidez na informação do mundo, que revolucionou a distância entre as pessoas, a partir dali, reforçou a “ligação, íntima e súbita” entre os humanos.

A reflexão de Mattelart, carregada do orgulho que temos – milhares de nós – pela construção desta experiência, choca-se com o tempo vivido deste pesadelo de obscurantismo e ódio de classe, que prepararam a  política necrófila e genocida que nos sufoca. Ela se firmou com a patética empulhação dos “dois extremos”, apoiada nas classes dominantes, que agora se olham no espelho e vêem, nele, o rictus doentio do seu ídolo oco de ideias e lotado de impulsos assassinos. A estratégia da falsidade que jogou com o medo dos extremos leva-os ao abismo e saltar sobre ele exige acasos conjugados, perseverança e sobretudo recuperar o que Mattelart apontou como necessidade de renegar o aprofundamento do abismo e  das “dissociações entre os mundos sociais”.

A subjetividade política aí conquistada pode ordenar o “mapa caótico de fragmentações”, para fazer surgir os “bolsões de resistência”: os acasos, às vezes, chegam nas horas certas, a perseverança e a capacidade política -de liderar e propor- sempre são recuperadas juntando os pedaços daquele mapa fragmentado, com a voz unitária dos líderes, através de um programa mínimo de unidade imediata, para superarmos o pior das três crises: a econômica, a sanitária e a ambiental.

Chego no ponto que me interessa na atual conjuntura: o “vazamento benigno” do encontro de Lula com Ciro é um acaso que, se for regado pela ação consciente de ambos os líderes, pode restaurar a vontade democrática da nação e jogar a extrema direita fascistóide e seus asseclas ultraliberais no lugar da História que eles merecem: o das tristes lembranças do lixo autoritário. Flávio Dino, Requião, Freixo, Boulos, Haddad, Juliano Medeiros, Lupi, Marina, dirigentes do PSB e dos pequenos partidos de esquerda, sabem que nas circunstâncias atuais só a ampla unidade contra o fascismo é o antídoto histórico para recuperar o espaço político de lutas que foi empestado pelo fascismo.

(*) Tarso Genro foi governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, ministro da Justiça, ministro da Educação e ministro das Relações Institucionais do Brasil.