O que está em jogo nas eleições deste ano? Ainda podemos falar em esquerda versus (extrema)-direita? Ou estamos vendo grande parte do sistema político/institucional estabelecido em 1988 unindo-se em torno de Lula para barrar uma ameaça anti-democrática, anti-sistema que não respeita as regras do jogo?
O “sistema” que foi vitorioso em 1988 ganhou as eleições de 1989, 1994 e 1998. Depois perdeu as quatro eleições seguintes. E decidiu rasgar suas próprias regras, dando o golpe contra Dilma e prendendo Lula. Quem fez isso não foi a extrema direita, foi a direita tradicional, o que incluiu naquela época o próprio Geraldo Alckmin. Esta direita tradicional achava que depois do golpe ganharia as eleições de 2018, mas enganou-se tanto quanto os “democratas” Ulysses e JK, que votaram em Castelo Branco depois do golpe militar de 1964, acreditando que ganhariam as eleições marcadas para 1965. O que ocorreu em 2018 foi a vitória da extrema-direita. E mesmo assim foi preciso a pandemia e as ameaças diretas do cavernícola contra o STF e contra a Globo, para que uma parte do “sistema” se desse conta de que eles seriam as próximas vítimas. Foi aí que esta parte do “sistema” resolveu dar cavalo de pau, libertar Lula, reconhecer que ele era elegível e inclusive apoiar sua eleição em 2022. De lá para cá ocorreram três processos que tornam tudo mais complicado. O primeiro é Trump, que faz com que parte do “sistema” esteja morrendo de medo. O segundo é a ganância do capital financeiro, que segue exigindo um ajuste fiscal totalmente contraditório com o programa defendido pelo presidente Lula. O terceiro processo é a consolidação da extrema-direita, que apesar de ter um candidato de merda, segue em condições técnicas de ganhar. Tudo isso junto cria a seguinte situação: uma parte do “sistema” está com o filho do cavernícola, outra parte está com Lula e uma terceira parte está rezando por um milagre, que permita a Caiado ir ao segundo turno. Na ausência deste milagre, o segundo turno será entre esquerda com aliados versus extrema-direita com aliados. E como entre estes aliados da extrema-direita está Trump, o dia seguinte à vitória de Lula será emocionante. Até porque o capital financeiro continuará pressionando pelo ajuste fiscal, enquanto nós seguiremos pressionando por mudanças profundas.
Como você vê a conjuntura internacional dentro do qual a eleição acontecerá? Estou especialmente pensando em Trump e suas ações e ameaças hegemônicas contra o hemisfério ocidental. Como isso vai impactar na campanha e voto? Você espera que grau da interferência e como se acha o Brasil - governo e sociedade - vai reagir?
O impacto já está ocorrendo e pode ser visto nas pesquisas. Para uma parte da população, as ameaças de Trump despertam um bom sentimento em favor da defesa da soberania. Mas, para outra parte, despertam um sentido de subalternidade, que aliás sempre foi uma característica da classe dominante brasileira. O desempate depende de nós. A vitória de Lula tem que valer a pena. Ou seja, tem que ser o passaporte para um futuro realmente melhor e diferente. Só isso fará valer a pena correr o risco. Se, pelo contrário, a nossa postura for patrioteira ou programaticamente medíocre, o medo vai prevalecer. Por isso, está certo o presidente Lula quando fala que devemos querer mais. Muito mais.
Quais são as conquistas mais importantes, na sua avaliação, que Lula e o PT estão defendendo nesta eleição, tanto nos últimos quatro anos quanto desde 2003?
Tem dois jeitos de responder esta pergunta. A primeira é fazer um rol de realizações. Mas para isso é melhor ler o programa de Lula, lá tem a lista. A outra forma de responder esta pergunta é dizendo que conseguimos manter aberta uma porta. Esta porta pode nos levar a construir um Brasil profundamente diferente e, também, a mudar o lugar do Brasil no mundo. Eleger Lula em 2026, assim como eleger a candidatura petista nas outras 5 eleições presidenciais que vencemos, não garantiu que isso virasse realidade.Mas conseguimos manter a porta aberta, na contramão do que está ocorrendo em boa parte do mundo.
O que você entende quando Lula diz que ele vai "mudar muita coisa" no país durante um quarto mandato? Tem uma frustração, ou até crítica, implicado no desempenho do PT no poder durante 17 dos quase 24 últimos anos?
Frustração não digo, mas crítica espero que sim. Pois é óbvio que precisamos ser críticos. O Brasil continua sob controle do capital financeiro e do agronegócio. O Brasil continua dependente. A democracia aqui no Brasil continua sendo oligárquica. Não conseguimos impulsionar um ciclo desenvolvimentista, sem o qual a nossa soberania nunca estará garantida. Além disso, somos socialistas. E o Brasil segue não apenas capitalista, mas um capitalismo absolutamente selvagem. Então temos que ser críticos sim. Agora, frustração é melhor deixar para quem acreditava que, indo devagar e sendo moderados, chegaríamos muito mais longe. Eu nunca acreditei nisso. E por isso mesmo acho ótimo que se fale em “mudar muita coisa”.
Qual é a sua própria avaliação do desempenho do PT no poder desde 2003? Esperou mais ou está contente dado o contexto político e a correlação de forças políticas-institucionais? Quais têm sido os principais freios ao seu projeto mesmo dentro do Planalto? Alguns são internos do partido? Poderia ter sido feito mais para removê-los?
Veja, não dá para avaliar o PT fora do contexto. O contexto é de derrotas em série: colapso do socialismo soviético, desmonte da socialdemocracia, crise do desenvolvimentismo, guinada neocolonial, neoliberalismo e agora neofascismo. Nesse contexto, o PT conseguiu sobreviver, resistir e manter a presidência da República num país decisivo no mundo. Não acho pouco. Mas uma parte da direção do Partido confundiu e segue confundindo a necessidade de flexibilidade tática, com desistir de ter um projeto estratégico. E isso impacta tudo, desde o ânimo da militância, passando pelo funcionamento do Partido, até as perspectivas de médio prazo. Sem falar em fenômenos de degeneração política e ideológica. O saldo prático disso é que temos perdido espaços em todos os terrenos, inclusive no eleitoral. Portanto, precisamos de um freio de arrumação e de um cavalo de pau, e isso começa pela reafirmação do nosso projeto estratégico socialista.
Finalmente, você vem de uma família de várias gerações da luta e sacrifício. Como você avalia as conquistas da esquerda brasileira mais ampla numa perspectiva de longo prazo, abrangendo a ditadura e a redemocratização até nosso dia? E como se vê a esquerda brasileira evoluindo num futuro pós-Lula?
Eu não concordo com este jeito de colocar o problema. Explico: Vargas se suicidou em 1954, em 1994 Fernando Henrique falava em acabar com a Era Vargas e hoje seguimos debatendo questões que envolvem o legado de Vargas. Portanto, eu não estou de acordo que o futuro visível – as próximas décadas –possam ser caracterizadas como “pós Lula”. Ademais, o fato de Lula não poder ser candidato em 2030 ou em 2034 não impedirá a esquerda e o PT de vencer as eleições presidenciais. Se o governo Lula 4 estiver bem, venceremos. Se estiver mal, não venceremos nem que Jesus Crista seja nosso candidato. Por fim, a esquerda não surgiu com Lula e não depende de Lula. Lula é que foi produto da esquerda e depende da esquerda. Portanto, o futuro da esquerda depende dela mesma, de manter os vínculos com a classe trabalhadora, de manter a luta, de manter os princípios, de manter a organização coletiva. Sem isso, não adianta termos Lula conosco. Com isso, iremos bem mesmo quando a implacável biologia fizer a sua parte.
ps. Não respondi na entrevista, mas acrescento aqui: também não concordo com o pressuposto contido na “família de várias gerações de luta e sacrifício”. A parte da “família” precisa de mediações. E a parte do “sacrifício” também precisa de muitas mediações. As pessoas que escolhem dedicar parte de sua vida à construção de um partido, à revolução, ao socialismo e ao comunismo, seguramente abrem mão de buscar e, quem sabe, abrem mão de ter algumas coisas, mas não acho adequado caracterizar isso como “sacrifício”. Além disso, ao menos para uma parte dos que escolhemos militar na esquerda, a vida segue sendo muito bela. E, ao menos as vezes, segue tão ou mais bela do que a vida vivida pela grande maioria. Por esses e por outros motivos, do pressuposto contido na parte inicial da pergunta, só concordo com uma parte: a luta. Mas o que seria da vida sem a luta?
Hoje no Brasil temos um governo de "esquerda" tentando administrar um sistema político econômico da direita, direita sem aspas. O marketing ideológico que manipula a sociedade vem estigmatizando essa "esquerda " com sucesso, imputando-lhe os "males do comunismo" (?), além da incompetência e corrupção, estas duas últimas características, meramente por projeção psicanalítica.
ResponderExcluirA direita venceu a batalha midiática na luta de classes, no tocante ao embate midiático "esquerda versus direita".
Não existe mais *esquerda* no Brasil! (Cadê a militância organizada discutindo teoria?)
É preciso quebrar esse paradigma de formulação analítica; a geopolítica do mundo de hoje retoma conceitos mercantilistas e nesse contexto, nós, brasileiros, estamos no campo das colônias.
O mundo ocidental capitaneado pelo império Yankee decadente do "rei Trump" e seus asseclas sionistas, tratam o resto do mundo como colônias.
A análise "esquerda versus direita" só serve como marketing da direita, porque hegemonizaram no "inconsciente coletivo" que o comunismo é mau...
Voltamos aos paradigmas do século XVI: Colônia x Metrópole!
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ResponderExcluirMas esse Tom (Irish Times?) sabe fazer boas perguntas. Gostei.
ResponderExcluirhttps://pt.wikipedia.org/wiki/Gens
Roma no pereat si romani non pereant