Roteiro da exposição de Valter Pomar no 14 encontro nacional do MST
Bom dia a todas e todos. Eu sou professor na Universidade Federal do ABC e sou diretor da Fundação Perseu Abram, que é vinculada ao Partido dos Trabalhadores. Quero agradecer ao convite para participar aqui nesse décimo quarto encontro e compor a mesa com o Sérgio e com a Juliana.
Minha tarefa aqui é contribuir com a análise da conjuntura política. A análise da conjuntura não é apenas a descrição dos acontecimentos. A análise da conjuntura visa descobrir tendências e cenários. A análise da conjuntura visa identificar quais são as alternativas em disputa. A análise da conjuntura serve para ajudar a formular uma linha política, com o objetivo de que prevaleça a nossa alternativa.
Nessa linha política, o grande tema é descobrir qual é o “centro da tática”. Qual é aquela disputa que a gente não pode perder, a disputa essencial do período.
O centro da tática nesse ano de 2026 é a eleição presidencial. Nela, a preços de hoje, o Lula será candidato e o Lula será reeleito.
Por que “a preços de hoje”?
Primeiro, porque nós temos inimigos.
Segundo, porque nós cometemos erros.
Terceiro, porque às vezes a vida imita a ficção. Vide o que aconteceu no dia 3 de janeiro com o sequestro do nosso companheiro Nicolás Maduro e da nossa companheira Cilia.
Em função disso, eu vou comentar a seguir 5 fatores que podem fazer com que as coisas não saiam como a gente precisa que saiam.
Vou falar dos Estados Unidos, vou falar da classe dominante, vou falar da extrema direita, vou falar da direita tradicional e vou falar de nós.
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O primeiro fator, os Estados Unidos. Eles precisam controlar o Brasil. Porque eles precisam controlar a América Latina e, sem controlar o Brasil, eles não controlam a América Latina.
Por isso, os Estados Unidos já estão interferindo no processo eleitoral brasileiro. Através da classe dominante, através das duas direitas - a extrema direita e a direita tradicional -, através das instituições estatais, com destaque para as Forças Armadas e através dos meios de comunicação, não só os tradicionais mas principalmente as chamadas Big Techs.
Um dos principais argumentos que os Estados Unidos usam quando influenciam a política brasileira é o medo.
“Primeiro Gaza, depois Caracas, depois aqui”. A maioria das pessoas reage a isso com medo, não com disposição de luta.
O medo impacta a massa. Reforça na massa o impacto que já vem da questão da segurança pública, que a extrema direita manipula o tempo todo.
O medo também impacta setores em disputa entre nós e a extrema direita.
Vejam o que aconteceu na Argentina e em Honduras, onde os Estados Unidos abertamente disseram “votem nesse candidato ou o pior pode acontecer”.
O medo impacta também a esquerda.
Nós não estamos habituados aqui no Brasil com uma ingerência direta e explícita dos Estados Unidos no processo eleitoral.
Essa ingerência direta e explícita é o que acontece na Venezuela, acontece na Colômbia, acontece em El Salvador. Aqui no Brasil sempre foi disfarçado, agora deixou de ser.
Agora em 2026 estamos tendo ingerência direta e explícita.
Convenhamos: uma coisa é cantar bem alto o hino brasileiro - “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” - e outra coisa é ser valente na hora da faca, tiro, porrada e bomba, quando começa a ter conflito mesmo.
Além disso, é importante lembrar que não precisamos apenas da valentia dos combatentes
A gente gosta muito de lembrar dos soldados soviéticos, que deram a vida para derrotar o nazismo.
Mas devemos lembrar que a gente precisa também e muito da valentia nas tarefas cotidianas e indispensáveis.
Quem produziu as armas que os soldados soviéticos usaram para matar nazistas? Quem costurou as roupas que os soldados soviéticos vestiam? Quem plantou e colheu o alimentos dos soldados soviéticos?
Nós precisamos ter dezenas de milhões de pessoas no Brasil dispostas a levar a sério aquele verso que está no nosso hino. Dezenas de milhões.
E, quando eu vejo a capacidade que o nosso governo e a nossa esquerda têm de deixar as Big Techs agirem com muita liberdade no Brasil, isso faltando poucos meses para as eleições, quando eu vejo o governo federal entregar para o Google ou para a Palantir dados essenciais da população brasileira, dados que vão permitir a eles chegarem a cada cidadão brasileiro com ainda mais facilidade, eu chego à conclusão que a gente está correndo muito risco.
E a pressão dos Estados Unidos vai continuar, porque a eleição nossa aqui no Brasil será em outubro e a eleição dos Estados Unidos, a eleição de meio termo, onde eles renovam parte do legislativo deles, será em novembro. E o Trump, como toda extrema direita, quando está sob ameaça, não recua. Ataca.
Quando está sob ameaça, ataca mais ainda. É isso que eles fizeram na Venezuela, estão fazendo na Groenlândia, ameaçando Cuba, Colômbia, etc.
Inclusive por conta da disputa interna nos Estados Unidos, não apenas por conta da disputa geopolítica, eles vão incidir pesadamente aqui no processo eleitoral.
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O segundo fator que eu quero comentar é a ação da classe dominante brasileira.
Especialmente do agronegócio e do capital financeiro, que são as frações que mandam na classe dos capitalistas brasileiros.
O nosso governo faz um esforço muito grande para atender esses setores. Mas mesmo assim, mesmo quando eles estão ganhando bastante, mesmo quando eles ganham muito com a China por exemplo, o coração da classe dominante brasileira continua batendo por Miami.
A gente viu isso em 2018 e vimos também isso em 2022.
A maior parte das pessoas ricas no Brasil votou em Bolsonaro. E grande parte das pessoas ricas no Brasil admira Donald Trump, que é um fascista, um pedófilo, tudo de ruim. E essa admiração tem que ver com motivos materiais, não só culturais.
A classe dominante brasileira está vinculada, por mil e um laços econômicos, à dinâmica dos Estados Unidos.
No momento da disputa, e a disputa está se acentuando, eles seguirão correndo para o lado com quem eles têm lados mais profundos.
E além de mais, venhamos e convenhamos: para quem gosta de ganhar dinheiro, o risco de um enfrentamento com o imperialismo é muito alto. Do ponto de vista deles, não vale a pena correr esse risco.
Por isso, a classe dominante brasileira vai trabalhar ativamente para nos derrotar nas eleições de 2026.
Não importa o que o nosso governo faça.
Vejam as pesquisas. Vejam qual é a opção de voto das pessoas que ganham mais e que têm mais dinheiro. É sempre contra nós.
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Terceiro fator: a extrema-direita.
Eu tenho ouvido e lido companheiros e companheiras dizerem, depois da prisão do cavernícola,, que é como eu chamo o Bolsonaro, eu tenho visto companheiros e companheiras dizerem que com a prisão do cavernícola a extrema-direita e o Bolsonarismo teriam se transformado em um
“cadáver político”.
Efetivamente, o cavernícola cheira mal. Efetivamente, a extrema-direita cheira mal. Mas eles não estão mortos.
Eu tenho visto companheiros falarem também sobre as divisões da extrema-direita. Por exemplo, a briga entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio. A disputa pelo apoio da Michele Bolsonaro a esse ou aquele candidato da extrema-direita.
Essas disputas existem. Elas lembram um pouco as disputas que aconteceram na esquerda brasileira e nos setores de centro quando Lula foi preso em 2018. Por exemplo, entre aqueles que diziam que a gente devia apoiar o Ciro e não uma candidatura do PT.
As disputas que existem dentro da extrema-direita me recordam um pouco aquela polêmica entre nós São disputas táticas sobre como lidar com a situação. Não necessariamente vão enfraquecer a extrena-direita.
Pelo contrário, na minha opinião, uma disputa entre eles pode ajudá-los a fazer algo muito importante, a saber: levar a disputa pela presidência para o segundo turno. Facilitando a unificação deles, no segundo turno, contra o inimigo comum que somos nós.
É importante dizer que a extrema-direita brasileira tem uma imensa força. Todos os candidatos que a extrema-direita apresenta como alternativa obtém 35% dos votos ou mais nas pesquisas de opinião feitas agora. Apesar de todos os crimes e barbaridades que eles cometeram.
A gente não pode subestimar gente assim. Aliás, em algum sentido a força de massa da extrema-direita lembra a força de massa da “nação petist aqui no Brasil.
Elle$ são muito mais fortes e resilientes do que a gente imagina.
Eles são muito maiores do que os seus líderes. E eles são maiores do que os seus erros. E também por isso não devem ser subestimados.
E vão trabalhar pesadamente para nos derrotar na eleição de 2026.
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Um quarto fator que eu quero comentar é sobre a direita tradicional.
Quem eu chamo de direita tradicional?
Os que deram o golpe contra a presidenta Dilma em 2016.
Os que colocaram Lula na cadeia em 2018.
Os que apoiaram Bolsonaro contra Fernando Haddad na eleição daquele ano.
Os que na pandemia começaram a mudar de posição.
Parte desses resolveram, em 2022, apoiar Lula para impedir uma segunda vitória do cavernícola.
A direita tradicional controla grande parte das instituições do Brasil. A começar pelo Supremo Tribunal Federal.
Hoje eles seguem divididos, como estiveram no período anterior. Uma parte quer ter uma candidatura própria. Uma parte quer apoiar o Lula. Uma parte quer apoiar a extrema direita.
Se, por exemplo, o Tarcísio ou o Ratinho forem candidatos, boa parte da direita tradicional vai para essas candidaturas.
E tem uma parte bastante expressiva que vai esperar para ver como as coisas ficam, antes de tomar uma posição na disputa presidencial.
O esforço nosso deve ser para atrair esses setores para apoiar o Lula. Mas é preciso lembrar do custo que isso tem.
Esses setores têm uma força eleitoral muito pequena. Muito pequena. Nós estamos falando de menos de 10 milhões de votos.
Claro que eles chantageiam com o fato de que a disputa eleitoral esse ano vai ser resolvida como foi em 2022, por uma pequena diferença de votos. Não vai ser uma vitória avassaladora. Vai ser uma disputa duríssima. Duríssima. E eles, sabendo disso, chantageiam e se vendem por um preço muito alto em comparação com a força eleitoral que eles têm.
O preço é alto mesmo.
Vou listar concessões que foram feitas nos últimos anos em nome de atrair esse pessoal.
A política do déficit zero.
O acordo da União Europeia com o Mercosul e vice-versa.
As emendas parlamentares.
A composição do Ministério.
A postura moderada, inclusive nos ministérios que estão sob comando da esquerda e do PT, como é o caso do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
O apoio que eles exigem de nós nos estados e nas eleições congressuais.
E as concessões programáticas. “Não pode falar isso aqui no programa. Se falar, os aliados da direita moderada tradicional não vão gostar.”
Portanto, pessoal, vamos disputar o apoio dessa gente até o último dia do segundo turno. Mas nessa disputa a gente tem que lembrar de algo que em 2022 comprovou: NÃO são eles que nos dão a vitória.
O que nos deu a vitória em 2022 foi a classe trabalhadora, especialmente os setores mais pobres, mais periféricos, mais negros, mais femininos, mais jovens da classe trabalhadora, especialmente no Nordeste.
É a classe trabalhadora, não a direita tradicional, nem tampouco os setores médios que nos deram a vitória.
E por isso, tudo vale a pena se ajudar a reafirmar e ampliar o apoio da classe trabalhadora.
E nada vale a pena, nem acordos nem concessões que nos fazem perder o apoio da classe trabalhadora.
Um exemplo: o Novo Marco Fiscal e o Banco Centram contribuem para impedir as reformas de fundo que o Brasil precisa.
Impedem a reindustrialização que o Brasil precisa.
E tem efeitos conjunturais péssimos também, por exemplo a redução da atividade econômica, os contingenciamentos orçamentári
Alguém pode dizer: “os indicadores econômicos são bons”. É verdade, mas a percepção das pessoas não é tão boa assim. Nas pesquisas, as pessoas reclamam da economia.
E por quê? Porque as pessoas passaram seis ou sete anos piorando de vida. Aí os indicadores melhoram. Mas isso não significa que a pessoa recuperou aquele prejuízo acumulado durante os anos de Temer e Bolsonaro. Nem o prejuízo material foi recuperado, nem o prejuízo espiritual. Para isso seria preciso muito mais mudança, mas o BC, o Déficit Zero e os acordos com a direita tradicional reduzem as mudanças.
O resultado disso é que, nas pesquisas de opinião, apesar de tudo o que fizemos, a gente não consegue superar um teto muito baixo.
Tudo isso junto e misturado faz com que o cenário eleitoral desse ano de 2026 seja bem difícil. Nós vamos ganhar a eleição presidencial por muito pouco.
Além disso, a preços de hoje a eleição de governadores promete ser terrível para nós. Estados onde hoje estamos bem ou onde temos grandes possibilidades são, hoje, exceções.
E a eleição para o Senado contém uma ameaça, porque a extrema-direita trabalha para ter maioria qualificada no Senado e com isso poder não só obstruir e opor-se, mas também mudar a composição do Supremo Tribunal, entre outros objetivos, como o de facilitar um impeachment.
E não há, sempre a preços de hoje, nenhum sinal de que a gente vai conseguir superar a maioria de direita na Câmara dos Deputados.
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Como é que a gente reage a isso?
A gente reage a isso em parte por ação do nosso governo e em parte por ação nossa. E na ação nossa quero enfatizar a luta política ideológica.
Não basta falar o que nós fizemos.
Não basta dizer que a gente não pode deixar o cavernícula voltar.
Não basta falar de democracia ou de soberania.
Precisamos oferecer algo mais, o compromisso de construir um país profundamente diferente.
Se não ampliarmos o “horizonte de expectativas”, a gente pode ter notícia ruim nesse processo eleitoral.
É preciso oferecer de maneira muito concreta para as pessoas uma oferta de um país diferente.
Quando a gente fala de acabar com a escala seis por um, quando a gente fala de reduzir a jornada de trabalho, quando a gente fala de fazer reforma agrária, quando a gente fala de fazer uma reforma tributária de verdade no país, para fazer os ricos pagarem a conta, é disso que a gente está falando: de fazer um Brasil profundamente diferente.
Levando em consideração esses fatores que eu comentei, inclusive um que eu saltei de propósito - o fator “nossos erros” - eu repito que a preços de hoje Lula é candidato e Lula será reeleito, mas também a preços de hoje tem muita coisa que pode dar errado.
Alguns acham que falar disso é pessimismo.
Mas depois do que aconteceu no dia 3 de janeiro, é melhor para nós sempre lembrar que os nossos inimigos não são tigres de papel.
Os nossos inimigos são poderosos, são terríveis, têm muitos meios e operam impiedosamente.
E por isso é melhor a gente ficar alerta para todos os problemas que podem ocorrer, do que a gente ficar se enganando, achando que está tudo fácil, está tudo garantido, está tudo sob o nosso controle.
Como eu suponho que quando me convidaram para esta mesa, vocês queria uma análise absolutamente honesta, então quero enfatizar que as coisas tendem a piorar antes de melhorar de verdade.
Por isso vamos precisar de muita organização, muita luta, muita disposição de combater de verdade o inimigo.
E mesmo que corra tudo bem, ou seja, mesmo que a gente ganhe as eleições presidenciais de 2026, os problemas não vão acabar.
Pelo contrário: ganhando, as pressões sobre nós vão continuar e vão aumentar.
Inclusive porque todo mundo sabe, não apenas nós, que um dos fatores que nos ajuda na disputa eleitoral, um fator chamado Luiz Inácio Lula da Silva, não estará na urna em 2030.
E isso significa dizer que se tudo correr bem, o período que se abre no dia 1º de janeiro de 2027 vai ser de muita disputa, muito mais dura do que a gente viu até agora.
Nesse sentido, muita coisa vai depender da gente ganhar, mas muita coisa vai depender de COMO a gente vai ganhar.
Com que discurso a gente vai ganhar?
Com que maioria eleitoral a gente vai ganhar?
Com que aliados a gente vai ganhar?
Com que força no Congresso e nos governos estaduais a gente vai ganhar?
Com que base organizada a gente vai ganhar?
E com que capacidade de luta e com qual estratégia a gente vai ganhar?
Para resumir numa imagem: nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2006? Nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2010? Ou nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2014?
Para quem não lembra, em 2014 a gente ganhou mas com a corda no pescoço. E no dia seguinte os problemas se aprofundaram violentamente, porque o nosso governo resolveu fazer um ajuste fiscal ortodoxo, que causou problema na nossa base social mas não ganhou um voto do lado de lá.
Em 2010, para quem não lembra, a gente ganhou dizendo que nós íamos dar continuidade às coisas que já se faziam, porque se acreditava - não era o meu caso - que as coisas iam continuar mais ou menos como sempre.
E o que aconteceu? Aconteceu que a “marolinha” que o Lula dizia ter ocorrido devido a crise de 2008 virou um “tsunami”, nas palavras da Dilma. E como não nos preparamos para isso, o nosso primeiro governo Dilma foi muito difícil.
Eu prefiro ganhar como a gente ganhou em 2006. Em 2006, nós ganhamos e fizemos um segundo mandato do Lula muito melhor do que o primeiro.
Aliás, a memória é uma coisa enganosa.
A gente lembra com saudade dos mandatos do Lula, mas na verdade o que a gente lembra é do segundo mandato do Lula, porque o primeiro mandato do Lula, cuja política econômica foi controlada por um bandido chamado Antônio Palocci, um cara que resolveu usar a política ganhar dinheiro, que traiu as pessoas que confiaram nele e que se aliou ao capital financeiro.
Aquele primeiro mandato do Lula foi muito difícil, mas no segundo demos um salto de qualidade.
Em 2006 aconteceu aquele segundo turno em que conseguimos o prodígio de fazer o candidato da direita, o Alckmin, diminuir de votação.
Pois muito bem: em 2026 nós queremos ganhar como a gente ganhou em 2006, para que o quarto mandato do Lula seja superior, seja muito melhor, seja qualitativamente melhor que este terceiro mandato que está terminando agora.
E como é que nós podemos contribuir nesse sentido? Primeiro, obviamente, trabalhando muito para ganhar. Em segundo lugar, colocando em pauta duas questões.
A primeira delas: se não tiver luta de massa nesse país durante o ano de 2026, a correlação de forças não se alterará substancialmente a nosso favor.
Se a gente quer de verdade um quarto mandato do Lula superior ao terceiro, precisa ter mobilização e luta de massa no ano de 2026.
Em segundo lugar, nós precisamos voltar a falar em reformas estruturais, voltar a falar em mudanças profundas, voltar a falar, por exemplo, em reforma agrária, que é uma dívida do governo do meu partido, com este movimento sem terra e com o povo brasileiro.
Se a gente não voltar a falar em reformas estruturais, nós corremos o risco de terminar como o Congresso Nacional Africano, aquela organização a qual pertencia Nelson Mandela. A gente corre o risco de ter “um grande passado pela frente”.
Nós podemos continuar a ter o maior líder da história do país, como era o Nelson Mandela, mas a África do Sul continua neoliberal, o povo sul-africano continua sofrendo na mão do capital financeiro, do agronegócio, da mineração.
Se a gente não mudar o modelo, a gente não muda o Brasil e não muda o lugar do Brasil no mundo.
Esse é, na minha opinião, o maior desafio nosso nas eleições de 2026. Não só ganhar, mas ganhar do jeito certo. Ganhar para que a gente tenha um quarto mandato superior e muito melhor do que o atual.
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A preços de hoje, Lula será candidato, Lula será eleito, mas há pelo menos cinco fatores que podem atrapalhar isso: os Estados Unidos, a classe dominante, a extrema-direita, a direita tradicional e os nossos erros, sobre os quais eu preferi não falar.
Evidente que, entre nós, na esquerda brasileira, há divergências estratégicas. Por exemplo, sobre como lidar com o imperialismo e como defender a integração regional.
Se eu acho que a integração regional é decisiva para o Brasil, eu vou reconhecer a eleição do Maduro em 2024, eu vou incorporar a Venezuela nos BRICS e eu vou defender a soberania da Venezuela nas eleições de 2026, sem ter vergonha disso.
Outro tema: como lidar com o Trump? Tem muita gente que, frente ao Trump, adota a mesma política da maior parte da classe dominante britânica e francesa frente ao nazismo, na época de Munique, na véspera da Segunda Guerra Mundial.
Era a chamada “política de apaziguamento”: “vamos conter, vamos tratar com cuidado, vamos colocar limites e assim no final ele (Hitler)vai cair na real. E o que aconteceu? A Segunda Guerra Mundial.
Uma situação parecida acontece agora, frente ao Trump. Muita gente acha legal falar em
“ter química” com o cara. Nós não achamos isso. Ao contrário, nós temos que nos preparar e preparar o povo para o inevitável.
Quando a gente falava, alguns anos atrás, que estávamos em “tempos de guerra”, muita gente achou esquisito e exagerado. Acho que hoje ninguém mais acha nem esquisito, nem exagerado. Mas não basta admitir o inegável: a gente tem que se preparar.
Preparar os nossos espíritos, preparar o nosso povo, preparar o nosso país.
Triunfar no Brasil é o caminho para derrotar os Estados Unidos.
Derrotar os Estados Unidos é o caminho para o mundo um dia ser socialista.
Esse é o tamanho da nossa tarefa histórica.
E para isso, nós temos que voltar a falar de luta pelo poder, não apenas de eleição de governos.
E voltar a praticar luta de massa, não apenas falar em luta de massa.
Sem lutar pelo poder e sem fazer luta de massa, não tem chance de triunfo aqui no Brasil.
A gente pode ganhar eleição, mas ganhar eleição, a gente já constatou isso nos últimos anos, é muito diferente de mudar o Brasil.
Para mudar o Brasil, precisa ter poder, precisa fazer reformas estruturais. E eu quero dar um número. A classe dominante brasileira, os “chefes de família” da classe dominante brasileira, são cerca de 35 mil pessoas.
É disso que nós estamos falando: derrotar 35 mil pessoas que hoje detêm o controle político, econômico, social e cultural desse país.
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Foi perguntado sobre como ampliar a popularidade do governo Lula.
Veja, três anos atrás eu faria uma lista de sugestões. Agora, janeiro de 2026, é ir para a luta política, é ir para a luta ideológica, é ir para a campanha. Não tem mais tempo a não ser o tempo da disputa política direta.
E tem que ser de polarização. Polarização. Porque não adianta ficar na defensiva e dizer que “poderia ser pior”. Nós temos que dizer que vai melhorar muito e vai mudar conosco. E que o lado de lá é o mal, é a destruição do país, representa tudo que a gente quer mudar.
Um último comentário: quando o Lula esteve preso, o governo da Venezuela foi solidário, e o Maduro e a Cilia pessoalmente foram solidários. Por isso, para além das obrigações políticas e estratégicas, eu quero pedir a cada um, e pedir ao companheiro Lula, que esteja à altura do que eles fizeram por nós. Sejamos pelo menos solidários.
Maduro livre, Cilia livre, viva o MST, viva o PT, viva a esquerda brasileira, viva o presidente Lula e todos nós.
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