terça-feira, 6 de janeiro de 2026

A grande mídia versus Maduro

Uma das vantagens de ouvir a Jovem Pan é que ela tem lado e explicita isso.

Já a mídia tradicional tem lado, mas geralmente tenta esconder isso.

Um exemplo deste fato, colhido meio ao acaso, é o texto disponível no endereço a seguir: 

https://noticias.uol.com.br/colunas/daniela-lima/2026/01/06/politicos-venezuelanos-citam-traicao-e-infiltracao-em-captura-de-maduro.htm

Reproduzo ao final, na íntegra.

A seguir, alguns comentários.

A frase inicial do citado texto é um primor: "Políticos e autoridades venezuelanas que conversaram com integrantes do governo Lula e dirigentes de partidos de esquerda...".

Ou seja: as fontes do texto são, supostamente, integrantes do governo Lula e dirigentes de partidos de esquerda. Não são os políticos e autoridades venezuelanas. Mas para o desatento fica a impressão oposta.

Segundo fulano supostamente ouviu de beltrano, teria havido tanto "traição" de integrantes das forças de segurança nacional como "infiltração" de agentes da CIA.

A informação de que teria havido infiltração foi dada publicamente pelos Estados Unidos. E dada a natureza da operação, nada mais provável. 

O mesmo vale para a "traição". 

Para chegar a essas conclusões, não seria necessário falar com fulano nem com beltrano. Mas o texto é construído para passar a impressão de que a informação é "quente".

Em seguida ao malabarismo acima exposto, fala-se da "operação que levou à captura do ditador Nicolás Maduro". 

A referência ao "ditador" é um lixo conhecido: faz parte do Manual de Redação. 

Já a referência à "captura" é uma demonstração de total subserviência aos EUA. 

Afinal, é mais do que óbvio que o termo "captura" não dá conta do que realmente ocorreu: um ataque militar, seguido do sequestro de um presidente e de uma deputada. 

Tomando como base os tais "relatos" (fulano que teria dito a beltrano), teria havido "uma tentativa de entender se a embarcação que tirou o presidente venezuelano do país ao lado de sua esposa também levou dissidentes que colaboraram com os norte-americanos".

Num passe de mágica, os responsáveis pela suposta "traição" se convertem em "dissidentes". 

E uma operação militar brutal, em que morreram dezenas de pessoas, é resumida assim: "Maduro foi sacado de seu bunker em menos de 50 minutos".

"Sacado"...

No próximo parágrafo, as "fontes" (fulano que falou para beltrano"), agora convertidas em "relatos que chegaram a a aliados de Lula", afirmam que "nenhum dos sistemas de defesa aérea da Venezuela —um dos países da América Latina que mais investiu em armamentos nos últimos anos— foi acionado". 

Não seria preciso apoiar em "fonte" alguma um fato que é de conhecimento público. 

Mas o que parece mais importante no texto é a frase aposta: "um dos países que mais investiu em armamentos". Se o texto tivesse algum equilíbrio, diria algo como: o país que desde os anos 1940 mais gasta em armamentos derrotou um país que nos últimos anos investiu em armamentos...

O parágrafo subsequente atribui à companheira Delcy Rodríguez um "relato fático e sucinto", segundo o qual "eles entraram, derrubaram os agentes que estavam com o ditador e o retiraram em menos de 50 minutos". 

Obviamente Delcy não falou em "ditador". Embora o texto não use aspas, a malandragem é óbvia: naturaliza o termo "ditador" e tenta colocá-lo na boca da Delcy.

O quinto parágrafo diz que "a Venezuela não tem comentado abertamente a derrocada da ação dos agentes de proteção de Maduro". 

Derrocada? Houve uma agressão militar, praticada por um exército estrangeiro, na qual tombaram em combate dezenas de soldados. 

Chamar isso de "derrocada" serve para desviar a atenção em relação ao que ocorreu. 

Depois, atribuindo a fulano que falou para beltrano, o texto diz que teria havido "o mapeamento de todo o esquema de segurança do então presidente e do palácio de Miraflores", o que é atribuído aos "delatores de Maduro".

"Delatores"? Alguém que entrega aos "Estados Unidos não só mapas das instalações militares, como formas de neutralizar qualquer tipo de reação das defesas" não é um "delator", é um traidor.

O uso do termo "delator" tem o objetivo de criminalizar a vítima, livrando a cara dos verdadeiros criminosos.

Mas o pior está no último parágrafo: "nesse momento, a tese de que Delcy teria de alguma forma colaborado com a subvenção [sic] do líder venezuelano não tem respaldo na na diplomacia brasileira".

E de quem é essa "tese"??? Obviamente, dos Estados Unidos. Isso o texto não fala. No lugar disso, usa o último parágrafo para falar desta tese, que o texto mesmo diz que não tem "respaldo". 

Mas se não tem o respaldo de nenhuma fonte, porque a matéria fala disso? Simplesmente porque divulgar esta tese contribui para a guerra psicológica que estão promovendo contra o governo da Venezuela.  

A "tese" de autor desconhecido, tese que "nesse momento (...) não tem respaldo", não teria respaldo não por ser falsa, mas "inclusive porque o principal temor é o de que ela não consiga controlar o país e acabe caindo diante de conflitos internos, uma guerra civil, o que levaria inevitavelmente a outra ação armada dos Estados Unidos —tudo o que o Brasil quer evitar".

Não é genial? 

O suposto "temor" não seria de um novo ataque militar, mas sim de uma "guerra civil" que "levaria inevitavelmente à outra ação armada dos Estados Unidos". 

Ou seja: a ação armada dos Estados Unidos é apresentada não como o problema principal, mas sim como decorrência "inevitável" de um "conflito interno".

As pessoas que escrevem este tipo de texto contribuem, consciente ou inconscientemente, com a "doutrina Donroe". Melhor ouvir a Jovem Pan, antes que feche.


Segue o texto comentado

Políticos e autoridades venezuelanas que conversaram com integrantes do governo Lula e dirigentes de partidos de esquerda relatam ter havido tanto "traição" de integrantes das forças de segurança nacional como "infiltração" de agentes da CIA, a central de inteligência dos Estados Unidos, na operação que levou à captura do ditador Nicolás Maduro.

Há, neste momento, segundo esses relatos, uma tentativa de entender se a embarcação que tirou o presidente venezuelano do país ao lado de sua esposa também levou dissidentes que colaboraram com os norte-americanos. Maduro foi sacado de seu bunker em menos de 50 minutos.

Ainda de acordo com os relatos que chegaram a aliados de Lula, nenhum dos sistemas de defesa aérea da Venezuela —um dos países da América Latina que mais investiu em armamentos nos últimos anos— foi acionado.

Houve, ainda de acordo com o que foi detalhado a autoridades do Brasil, o mapeamento de todo o esquema de segurança do então presidente e do palácio de Miraflores, a sede da Presidência da República.

Os delatores de Maduro teriam entregado aos Estados Unidos não só mapas das instalações militares, como formas de neutralizar qualquer tipo de reação das defesas compradas de países como Rússia e Irã, na avaliação dos venezuelanos que buscam explicações para o fracasso completo da equipe de segurança do ditador.

Segundo apurou a coluna, na conversa que teve diretamente com o presidente Lula na manhã de sábado, após a captura de Maduro, a nova presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, não tratou das falhas na segurança. Ela fez um relato fático e sucinto: eles entraram, derrubaram os agentes que estavam com o ditador e o retiraram em menos de 50 minutos.

A Venezuela não tem comentado abertamente a derrocada da ação dos agentes de proteção de Maduro, no que está sendo considerado uma "mancha" na história do país que há anos diz estar sob a mira dos norte-americanos.

Neste momento, a tese de que Delcy teria de alguma forma colaborado com a subvenção do líder venezuelano não tem respaldo na na diplomacia brasileira. Inclusive porque o principal temor é o de que ela não consiga controlar o país e acabe caindo diante de conflitos internos, uma guerra civil, o que levaria inevitavelmente a outra ação armada dos Estados Unidos —tudo o que o Brasil quer evitar.




Um comentário:

  1. O jornalismo de fofoca levado às raias da loucura. Não há muita diferença entre a tese já sepultada da Malu Gaspar e desta colega que, credenciada pela demissão da Globo News, estaria gozando de um relativo prestígio com a esquerda, inclusive. Sempre me lembram as viúvas da lava-jato e seus programas jornalísticos, em especial a misoginia cometida contra a presidenta Dilma durante o golpe de 2016.. Notam como Delcy tem sido sutilmente desqualificada na fala das protagonistas desse jornalismo "fulano disse"? Claro que essa matéria tem roteirista, o seu patrão. Ainda bem que essa tese também ja está sepultada. Sabemos já do ataque cibernético, da morte de pelo menos 80 seguranças (32 cubanos). Todo dia uma nova versão. Uma nova verdade. Cansada já do Ano Novo.

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