quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Luis Felipe Miguel ataca novamente

O professor Luis Felipe Miguel (daqui por diante LFM) acaba de publicar um texto em que responde às críticas que fiz a ele.

Meu texto está aqui: Valter Pomar: Luis Felipe Miguel, Breno Altman e o "vilão" da história

A resposta de LFM está aqui: Responsabilidade intelectual e responsabilidade política

LFM começa sua resposta afirmando que eu, Valter Pomar, considero “errado formular críticas” que atinjam “o nosso lado”. Este seria, na opinião dele, o “ponto central” de minha posição.

Como sabe quem acompanha minimamente o que eu escrevo e falo, isso simplesmente não corresponde aos fatos. Aliás, é muito comum que colegas petistas me acusem exatamente do contrário, a saber, de que eu seria excessivamente crítico, inclusive publicamente, ao PT e aos nossos governos. 

Portanto, vou divulgar amplamente esta crítica de LFM, como prova de que quase tudo é relativo.

O “ponto central” de minha divergência com LFM, exposta no texto cujo endereço postei acima, não diz respeito ao direito abstrato de criticar. Minha divergência “central” diz respeito às posições de LFM acerca da Venezuela e do sequestro de Maduro e Cilia.

Por isso mesmo, embora LFM fale sobre outros assuntos (China, Putin, Lula, Irã etc.), me atribuindo, direta ou indiretamente, posições que não são as minhas, vou tentar manter o foco no tema Venezuela.

Na sua resposta, LFM diz que na minha opinião seria “errado lembrar que o governo Maduro era uma ditadura, porque o mais importante é protestar contra a agressão do imperialismo estadunidense”.

A frase entre aspas é de LFM, mas do jeito que está escrito um desavisado pode achar que o raciocínio expresso nesta e noutras similares seria de minha lavra. Assim sendo, registro: eu não penso isso que LFM escreveu. Não considero que o governo Maduro seja uma “ditadura” e, também por isso, acho mais importante ainda protestar contra a agressão militar imperialista e contra o sequestro.

LFM diz eu me incomodo com o fato dele, “ao discutir o sequestro de Maduro”, trabalhe com “conjecturas sem provas”. E reapresenta suas razões para adotar este método. Como já expliquei anteriormente, neste caso concreto não se trata bem de um “incômodo”, mas sim de uma repulsa: afinal, considero que as conjecturas de LFM contribuem para dar credibilidade à “narrativa” apresentada pelo governo Trump.

Neste caso específico do ataque, sequestro e chantagem, LFM transforma sua ignorância acerca dos fatos em pretexto para conjecturar. E diz que fazer isso é “análise de conjuntura”.

LFM acha que esta minha crítica seria unilateral. Num certo sentido, ele tem razão; afinal eu tenho lado no conflito: estou com a Venezuela contra os Estados Unidos. Mas noutro sentido LFM está errado: minha posição acerca do que ocorreu não é apriorística, mas sim baseada nas fontes de que disponho, que me levam a concluir que as especulações de LFM estão erradas.

O problema é que LFM age, nesse caso, como se ignorância fosse argumento. Ao mesmo tempo, desqualifica quem tem certezas a favor da Venezuela como “militância”. 

Muitas vezes acontece de nós militantes confundirmos desejo com realidade. Mas neste caso concreto, quem está transformando “desejo” em realidade é LFM.

LFM também me atribui a seguinte posição: “qualquer análise sobre os acontecimentos deve ser guiada pela conveniência de não prejudicar o ‘lado bom’ da disputa”. 

Como já comentei anteriormente, essa não é minha posição. Pelo contrário, acredito que se o “lado bom” não tiver a verdade ao seu lado, a tendência é que ele venha a ser derrotado. Nesse sentido, eu considero que a verdade tem um valor “instrumental” para nós: é uma arma preciosa. Mas buscar a verdade não é igual a fazer especulações sem consistência.

LFM, obviamente, acha que a sua (dele) análise é consistente. 

Segundo ele, se depender do que ele insiste ser minha posição, “não se pode discutir se houve ou não algum tipo de acerto de Delcy Rodríguez com Donald Trump”.

Veja: poder discutir, pode. Tanto pode, aliás, que estamos discutindo. O problema é que os “argumentos” de LFM não procedem.

LFM, obviamente, não concorda com isso. Pelo contrário, ele chega a dizer que “não há mais dúvida de que esse acordo está em andamento; a única questão é saber se ele precedeu a operação de sequestro de Maduro ou não”.

LFM, se acompanhasse a situação da Venezuela, saberia que até a véspera de seu sequestro Maduro estava buscando negociar com Trump. As razões são óbvias. E Delcy segue tentando negociar, por razões também óbvias. 

Portanto, “não há mais dúvida” a respeito porque nunca houve dúvida a respeito, exceto para quem ouviu o galo cantar e não sabe onde.

O problema é que LFM transforma a tentativa de negociação em base para especular sobre se Delcy Rodríguez “negociou o fim” da revolução bolivariana.

Ao fazer isso, LFM se torna parte ativa de uma disputa política, na qual ele se contribui com os propagandistas do governo Trump, que desde o dia 3 de janeiro vêm sugerindo que a agressão e o sequestro tiveram a cumplicidade da cúpula bolivariana.

Há algum fato que comprove esta hipótese? Segundo tudo o que sei, não. 

É por este motivo, não por "militância", mas devido ao que eu conheço acerca da realidade, que não posso “especular” a respeito. Nem posso ficar calado quando alguém “especula”, entre outros motivos porque isso tem efeitos práticos na disputa política que está em curso.

O governo Trump partiu para a agressão militar na tentativa de obrigar o governo venezuelano a ceder. E usa o sequestro como base para fazer ainda mais chantagens. Por razões óbvias, o governo venezuelano é obrigado a continuar negociando. Quanto mais forte o governo venezuelano estiver, mais êxito ele poderá conseguir nesta negociação. Deixar correr a especulação a respeito de uma traição enfraquece o governo.

Aliás, convenhamos, como LFM reagiria se alguém começasse a "especular" a respeito de suas posições ou de suas atitudes, fazendo afirmações deletérias e justificando isso com base em que se trata apenas de uma "hipótese"?

Ademais, como disse em outro lugar, especular por que temos o direito de especular constitui, na minha opinião, uma atitude “irresponsável”, ou seja, de quem "não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno”.

LFM confirma não ser “dirigente de nenhum grupo político. Nem militante sou, na verdade”. Ele agrega que isso não o torna “irresponsável”, acusação que segundo ele eu teria feito como forma de lustrar meu “anti-intelectualismo”.

(Perdão, mas considerando o que as vezes ouço em alguns debates no meu Partido, esta acusação me dá vontade de rir. Mais uma razão para divulgar a crítica de LFM, comprovando que quase tudo é relativo.)

LFM confunde uma crítica à atitude dele, com uma crítica aos intelectuais em geral. Não tive essa pretensão, nem penso isso acerca da minha, digamos, "categoria profissional". Meu ponto é mais simples: LFM se acha no direito de especular. E ele obviamente tem esse direito: como diziam no passado certos gringos, “este é um país livre”. 

Mas quem fala o que quer, ouve o que não quer. E o que estou falando é que LFM não conhece os fatos; defende uma posição errada; sabe que sua posição é frágil; por isso usa como subterfúgio estar apenas apresentando hipóteses; e tudo isso resulta numa posição que, para ser gentil, atrapalha a luta pela soberania da Venezuela.

Se LFM fosse alguém de direita, eu acharia perfeitamente “responsável” esse comportamento. Mas ele não é. Logo, eu considero tal comportamento "irresponsável", "compreensível" só pelos motivos explicados anteriormente. Motivos que ele mesmo confirmou quanto aos fatos, embora não goste do qualificativo, o que compreendo.

LFM faz uma série de acusações a meu respeito, entre as quais a de me atribuir a opinião de que “o conhecimento da realidade deve sempre ser entendido como instrumental. O dirigente, do alto de sua sabedoria, define quais aspectos da realidade devem e quais não devem ser levados em conta. Filtra as informações para que sua massa de manobra seja guiada do jeito que ele julga útil, nunca preparada para pensar com a própria cabeça”.

Eu não acho nada disso. Repito que quem conhece minha atuação sabe o quão distante estou desta caricatura desenhada por LFM. O que eu penso e repito é que estamos no meio de uma guerra, o Brasil é alvo desta guerra e nada do que falamos é neutro, inofensivo, sem consequências. E isso vale para todo nós, intelectuais com e sem partido.

Neste particular, um dos problemas de LFM, na minha opinião, é que ele acredita que um “intelectual orgânico” deve tomar lado a posteriori e a la carte, caso a caso. Em suas palavras: “a primeira tarefa não é buscar um lado para se alinhar”. Penso diferente: estamos “alinhados” desde o início, restando saber com quem e se temos consciência disso. E este alinhamento "na prática" incide sobre como nos posicionamos sobre cada cada episódio, cada processo, cada debate.

Cito a seguir alguns exemplos de “alinhamento na prática”.

LFM diz não acreditar que “a Europa ganhe alguma coisa se abandonar a OTAN para ficar sob o tacão de Vladimir Putin”. 

Segundo esta descrição de LFM, a OTAN e a Europa seriam os polos passivos e a Rússia o polo agressor. Mas no mundo real a OTAN estava expandindo agressivamente sua presença até a fronteira da Rússia. E, como era óbvio, a Rússia tomou medidas defensivas (de uma forma que, na linguagem dos EUA e da OTAN, pode ser traduzida como "ataque preventivo"). Frente a isto, a maior parte dos governos europeus reagiu com uma histeria hipócrita e militarista, usando entre outros este discurso acerca do “tacão de Putin”, que LFM incorpora no seu texto.

LFM diz não acreditar que “o mundo esteja melhor sob uma hegemonia chinesa em vez de uma hegemonia estadunidense”. Diz também que os “princípios” da “democracia estadunidense”, de “respeito às liberdades individuais, sem dúvida nenhuma são muito melhores do que a ditadura chinesa”. 

No mundo do livre-pensar-é-só-pensar, estas ideias de LFM dariam um debate muito interessante, até porque os chineses não dizem estar buscando substituir a hegemonia dos EUA pela deles; sem falar que isso seria virtualmente impossível. Mas no mundo real, a posição de LFM na prática contribui com quem defende o status quo, em nome - vejam que interessante - do “respeito às liberdades individuais”.

LFM diz, ainda, que “do lado dos propagandistas ocidentais, os interesses são mascarados por valores humanitários. Do lado dos que se apresentam como intelectuais marxistas, os valores são desprezados em nome da realpolitik.” 

Na história, as coisas se passam de forma bem diferente: especialmente na era Trump, mas também muito antes, foi a esquerda, marxistas inclusive, quem sustentou a defesa dos valores humanitários. 

LFM diz também que “a hipocrisia ocidental é mais eficiente para ganhar a simpatia da opinião pública”. 

Que eles foram mais eficientes, na maior parte do tempo, não tenho dúvida. Que eles estejam conseguindo ser agora, já não tenho tanta certeza. Mas em nenhum caso a “eficiência” deriva da “hipocrisia”, mas sim de inúmeros mecanismos: força econômica, controle dos meios, capacidade militar etc. Entre estes mecanismos se inclui a capacidade de cooptar intelectuais mundo afora, sem os quais fica mais difícil ganhar a "simpatia" da opinião pública.

LFM diz, ainda, que não podemos “desprezar as agruras das pessoas comuns em nome de divisões pretensamente mais amplas”. 

Concordo inteiramente com ele. Mas como resolver estas agruras? Se não queremos apenas filosofar, mas também transformar o mundo, é preciso participar dos conflitos, correr riscos, fazer escolhas, tomar partido.

No lugar destas e de outras atitudes similares, LFM pelo visto prefere a cômoda posição de criticar os “dois demônios”, embora na hora de escrever sempre costeie o alambrado de um dos vários lados em disputa.

Um último comentário, este de natureza pessoal. 

Meu avô, dois meses antes de ser assassinado pela ditadura, me escreveu uma cartinha que terminava assim: "Nada temas, procura conhecer a verdade, por mais dura e desagradável que ela seja. É a verdade a coisa mais importante e mais bela da vida”.

Pelos parâmetros que muita gente sustenta hoje, meu avô era um “stalinista”. Mas, contrariando certas "hipóteses", ele dizia não ter medo da verdade. E agiu em coerência com isso. Pois bem: não tenho 1% das qualidades que ele tinha, mas procuro conhecer a verdade, mesmo que ela possa ser "dura e desagradável". Não tenho medo da verdade e acho que ela é indispensável na luta pelo socialismo. Já a mentira, especialmente quando vem disfarçada de erudição, me provoca sentimentos impublicáveis.

Maduro e Cilia livres!

 

SEGUE O TEXTO CRITICADO

 

Responsabilidade intelectual e responsabilidade política

Não é tarefa do intelectual ocultar a complexidade do mundo real, assim como não deveria ser tarefa do dirigente político alimentar mistificações.

Luis Felipe Miguel

jan 14, 2026

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Valter Pomar escreveu um longo artigo para rebater meu texto sobre a esquerda diante da Venezuela, que publiquei há uma semana. Ele dá algumas caneladas, como me acusar de abraçar uma visão idealista sobre “natureza humana”, com base na observação lateral que fiz sobre pareidolia. Mas recusar a noção de uma natureza humana anistórica não é negar que existem universais humanos, é julgar que eles não são suficientes para uma explicação abrangente do nosso comportamento em sociedade. Infelizmente, trata-se de um estratagema comum neste tipo de polêmica.

O ponto central, no entanto (e previsivelmente) é outro. Ele considera errado formular críticas que atinjam “o nosso lado”. Assim, é errado lembrar que o governo Maduro era uma ditadura, porque o mais importante é protestar contra a agressão do imperialismo estadunidense. Da mesma maneira, não se pode criticar a ditadura chinesa, porque é mais importante derrotar os Estados Unidos. Nem se pode criticar Putin, porque a prioridade é lutar contra a OTAN. Imagino que temos que aplaudir acriticamente também o governo Lula, uma vez que é imperativo derrotar o bolsonarismo. Ou que devemos nos abster de prestar solidariedade à revolta das mulheres e dos homens iranianos e de denunciar os milhares de mortes causadas pela repressão porque, afinal, o regime dos aiatolás é inimigo dos Estados Unidos e de Israel. E assim vamos.

Incomoda a ele que, ao discutir o sequestro de Maduro, eu trabalhe com “conjecturas sem provas”. No entanto, em situações que não são totalmente transparentes (isto é, virtualmente todas), operamos sempre com conjecturas. O importante, como eu já afirmava em meu texto, é que simples hipóteses sejam claramente diferenciadas de fatos estabelecidos – e que as conjecturas não sejam fantasias, mas apoiadas em elementos da realidade. Sem isso, qualquer análise de conjuntura seria impossível.

Logo o texto deixa claro, porém, que o problema não é a conjectura, é qual lado é “favorecido” por ela. As “provas” são exigidas solenemente em alguns casos, a ponto de paralisar o esforço de compreensão (e nos condenar a aceitar sem questionamento os discursos oficiais), mas alegremente dispensadas em outros. Voltamos à mesma lógica manipulativa que descrevi antes.

Eu discordo, obviamente, não apenas pelos argumentos que já desenvolvi muitas vezes, inclusive no texto que irritou Pomar, mas também porque não comungo de sua métrica de certo e errado.

Existe um tipo de arrogância, que consiste em desprezar as agruras das pessoas comuns em nome de divisões pretensamente mais amplas – afinal, o que é a vida dos ucranianos diante do equilíbrio geopolítico no Leste europeu? O que é a liberdade dos iranianos, quando está em jogo a hegemonia no Oriente Médio?

É o oposto simétrico daquilo que tantas vezes faz a propaganda ocidental. Lembro de quando a invasão ao Afeganistão era apresentada como se fosse uma incursão para libertar as mulheres do regime do Talibã (que, aliás, tinha chegado ao poder graças a essas mesmas potências ocidentais). Do lado dos propagandistas ocidentais, os interesses são mascarados por valores humanitários. Do lado dos que se apresentam como intelectuais marxistas, os valores são desprezados em nome da realpolitik.

A diferença é que a hipocrisia ocidental é mais eficiente para ganhar a simpatia da opinião pública. Já o pragmatismo desabrido dos nossos revolucionários de sofá serve só para alimentar o ego de quem se sente capaz de raciocínios “sofisticados”, livre de preocupações “pequeno-burguesas”. É o que alimenta, entre muitos outros exemplos, o “machismo-leninismo” dos neostalinistas – a inspirada expressão, vejam só, é de autoria de Valter Pomar!

Como dizia, discordo de sua métrica de certo e errado. Não creio, por exemplo, que a Europa ganhe alguma coisa se abandonar a OTAN para ficar sob o tacão de Vladimir Putin. Ou que o mundo esteja melhor sob uma hegemonia chinesa em vez de uma hegemonia estadunidense. Antes de Trump, os Estados Unidos usavam hipocritamente o discurso dos direitos humanos e da democracia. A China usa hipocritamente o discurso do socialismo. São duas potências imperialistas, dois regimes apoiados na exploração da mão-de-obra, dois Estados que negam os esforços de regulação internacional e o multilateralismo. Mesmo nos seus melhores momentos, a democracia estadunidense sempre foi mais uma farsa do que uma realidade. Mas os princípios que ostentava, de respeito às liberdades individuais, sem dúvida nenhuma são muito melhores do que a ditadura chinesa.

Na visão de Pomar, qualquer análise sobre os acontecimentos deve ser guiada pela conveniência de não prejudicar o “lado bom” da disputa. Por isso, não se pode discutir se houve ou não algum tipo de acerto de Delcy Rodríguez com Donald Trump. (Aliás, não há mais dúvida de que esse acordo está em andamento; a única questão é saber se ele precedeu a operação de sequestro de Maduro ou não.) O argumento cai em uma petição de princípio: devemos proteger Rodríguez porque ela encarna a “revolução bolivariana”; por isso, não podemos questionar se ela negociou o fim da “revolução bolivariana”.

Enfim, são diferenças já conhecidas, que não são apenas táticas – são de princípios.

Mas o mais interessante, em seu comentário, é a insistência em me chamar de “irresponsável”, depois agregando: “no sentido de não ter responsabilidades dirigentes” ou “uma pessoa que não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno”.

De fato, não sou, nem desejo ser dirigente de nenhum grupo político. Nem militante sou, na verdade. Isso não me torna “irresponsável”, acusação que Pomar faz como forma de lustrar seu anti-intelectualismo.

Ao que parece, para ele, o conhecimento da realidade deve sempre ser entendido como instrumental. O dirigente, do alto de sua sabedoria, define quais aspectos da realidade devem e quais não devem ser levados em conta. Filtra as informações para que sua massa de manobra seja guiada do jeito que ele julga útil, nunca preparada para pensar com a própria cabeça.

Eu acredito, muito ao contrário, que a verdade liberta. Que educação política se faz não vendendo contrafações pretensamente bem-intencionadas, mas operando com a complexidade do mundo. Que a compreensão deste mundo precisa aceitar as contradições, não escamoteá-las. Que a primeira tarefa não é buscar um lado para se alinhar, mas ganhar clareza sobre toda a situação – e a partir daí se alcança não a neutralidade, mas um engajamento bem fundado. Que a mirada crítica sobre o poder, sobre qualquer poder, é sempre necessária, para evitar que ele se torne tirânico. Que é preciso operar com a visão mais nítida possível da realidade, em vez de investir em fantasias, e agregar as pessoas à discussão, municiando-as de ferramentas e informações para que produzam escrutínios críticos, em vez de manipulá-las.

A responsabilidade do intelectual é contribuir para a lucidez. Mas ela não diverge da responsabilidade do dirigente político – se ele é entendido como intelectual orgânico, não como demagogo.

Georg Grosz, Lembre-se do tio Augusto, o inventor infeliz (1920)

Em uma palavra, a posição é autoritária. Há uma soberba de julgar que os outros, os “comuns”, não são capazes de suportar o “peso da consciência do mundo”, como dizia Bernardo Soares (um dos heterônimos de Fernando Pessoa). Ou, como pensavam os frades medievais, “nem todas as verdades são para todos os ouvidos” (as palavras são de Abão, personagem de O nome da rosa, de Umberto Eco). É uma postura que serve para dar razão aos intelectuais conservadores da primeira metade do século passado, que diziam que o bolchevismo era só uma outra variedade de elitismo.

Talvez mais pertinente, ainda que com menos valor literário, seja uma citação de Rubens Ricupero: “O que é bom a gente fatura; o que é ruim, esconde”. Mas o embaixador, pelo menos, precedeu sua máxima de um mea culpa disfarçado (“eu não tenho escrúpulos”).

A pergunta que atravessa todo o texto de Pomar é: a quem serve conhecer a verdade? De acordo com a resposta, devemos anunciá-la ou ocultá-la.

Eu creio que a resposta é sempre a mesma. A verdade serve ao projeto de emancipação humana. Não existe emancipação possível com base na mentira ou no ocultamento.

A postura pretensamente revolucionária é, no final das contas, a de quem se julga com o poder de decidir o que deve e o que não deve ser conhecido, logo o que deve e o que não deve pensado. Talvez por isso o autoritarismo daqueles que se considera que devemos proteger a todo custo, ainda que conjunturalmente (o regime venezuelano, a China, a Rússia), não cause desconforto.

Eu penso que o entendimento da realidade, sem máscaras, sem enviesamento, é sempre o que serve melhor ao projeto da esquerda – é mesmo um diferencial da esquerda. Ela se alimenta da realidade do mundo, da conexão entre a experiência vivida e a consciência, ao passo que a direita vive de mistificações e cortinas de fumaça.

O mundo que queremos construir, que supere a exploração, a violência, a alienação, as diferentes formas de opressão, é um mundo de pessoas emancipadas: emancipadas também de ilusões e de contos da carochinha.

 

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