sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Mercadante e os 40 anos do PT


A Folha de S.Paulo publicou, no dia 7 de fevereiro, uma longa entrevista do companheiro Aloizio Mercadante ao jornalista Fábio Zanini.

A seguir faço alguns comentários às respostas dadas, ressaltando que o entrevistado pode ter dito algo mais e/ou algo diferente do que foi publicado.

Mercadante, perguntado sobre qual a “marca do PT aos 40 anos”, responde que foi reduzir a desigualdade e lutar pela democracia.

Entendendo “marca” como “realizações”, a resposta é correta, historicamente falando. E dela se pode deduzir algumas questões, tais como:

Por quais motivos o “eixo de nossa história sempre foi” REDUZIR a desigualdade e não ELIMINAR a desigualdade?

Por quais motivos nossa luta pela democracia “nunca” foi além de defender e/ou promover objetivos que foram alcançados, em determinados momentos históricos, em algumas sociedades capitalistas, tais como: “valores republicanos, liberdade de manifestação, de imprensa, de cátedra”, “promoção da cidadania”, “novas formas de participação popular”.

Por quais motivos um partido cuja prática seria considerada, na Europa, como “social-democrata anos 1950”, aqui no Brasil é tratado, por parte substancial da classe dominante, como comunista e revolucionário?

E, finalmente, como o Partido deve proceder frente a uma classe dominante que não aceita elevar, mesmo que pouco, os padrões de igualdade e liberdade vigentes no Brasil?

Mercadante, sobre a corrupção, diz entre outras coisas que “o problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas. A Vaza Jato explicita isso”.

Provavelmente esta resposta foi editada. Afinal, se é verdade que o financiamento empresarial da política é um problema sistêmico, o fato de um fenômeno ser sistêmico não explica, nem justifica, a adaptação, acomodação ou subordinação do PT a este fenômeno.

É normal que um partido burguês se adapte ao financiamento empresarial privado. Mas não podemos naturalizar ou minimizar que isto tenha ocorrido no caso do PT, sob o argumento de que é “sistêmico”.

Mercadante diz ser “evidente” que houve corrupção. Não acho que seja tão “evidente”, até porque seria necessário explicitar de quem e de qual corrupção estamos falando.

Claro que a manipulação jurídica, política e midiática contra o PT é inaceitável. Mas do ponto de vista do Partido, daquilo que está sob nossa governabilidade, a corrupção é ainda mais inaceitável, até porque serve de pretexto, dá alguma credibilidade, para a citada manipulação, como demonstra o caso de Palocci: os milhões que ele acumulou, sendo ele quem foi, dão “evidente” credibilidade à certas acusações contra nós. 

Mercadante diz que “seguramente” o PT é um partido socialista. E critica a mentalidade escravocrata e colonial das elites. Nada disse, ou pelo menos nada foi publicado, sobre o capitalismo.

Quando a Folha afirma que o PT “governou com banqueiros, industriais, latifundiários”, Mercadante responde com a necessidade de “realismo para governar o país”, de “maioria no Parlamento”, de “projeto estratégico e uma correlação de forças reais”. E conclui dizendo que “conseguimos colocar os pobres no Orçamento. Mas não tivemos força para fazer os ricos pagar mais impostos”.

É provável que esta resposta tenha sido editada. Mas o que foi publicado contém uma ideia muito comum: a de que nosso limite ou principal objetivo na luta anticapitalista seria “fazer os ricos pagar mais impostos”.

Mercadante afirma que o governo Bolsonaro “tem um tripé: o primeiro é o obscurantismo”, “o autoritarismo” e o “projeto neoliberal”, que segundo Mercadante  seria “o debate mais estratégico, e o mais difícil”. 

Questionado sobre a Folha acerca de uma suposta “falta de credibilidade do PT na economia, com dois anos seguidos de recessão perto de 4%”, Mercadante aponta o dedo acusador para a crise internacional e para a sabotagem do golpismo, o que em linhas gerais é correto. Mas o que foi publicado não explica adequadamente duas questões muito importantes:

1/se já em 2009 a crise atingiu a América Latina fortemente, por quais motivos nosso programa de governo para disputar as eleições presidenciais de 2010 não levou isso em devida conta?

2/se é verdade que o grande capital mudou globalmente sua atitude frente ao governo, apoiando cada vez mais o golpismo, por quais motivos o governo (e o PT) não mudaram globalmente sua atitude frente ao grande capital? 

Mercadante diz que há “dois tipos de autocrítica. Uma autocrítica autoflagelante, que é a que vocês insistem que a gente deva fazer, e uma autocomplacente, que não resolve coisa alguma”. E propõe no lugar uma “autocrítica sincera”.

No método, esta é uma discussão muita confusa dentro do PT. Há desde quem recuse a palavra mas, no mérito, faça autocrítica; até quem aceite a palavra, mas na prática não faça nenhuma autocrítica. Sem falar dos que fazem autocrítica pelos outros (os erros teriam sido cometidos pelos demais); e dos que chamam de autocrítica a genuflexão frente às elites, do tipo aceitar como verdadeira a tese de que o PT é um partido corrupto etc.

No mérito, Mercadante diz que “tínhamos que ter colocado muito mais ênfase nas reformas política e tributária. Na política econômica temos muita coisa para reconsiderar”. E fala que nossos erros “não foram poucos, nem pequenos”.

Talvez a resposta publicada não inclua tudo o que Mercadante disse à Folha acerca deste tema. Seja como for, concordando que não enfatizamos devidamente a reforma política e tributária, caberia destacar dois “erros“ anteriores a estes.

Primeiro, o de que acreditar que o grande capital estaria disposto a aceitar sem sabotar, especialmente em um momento de crise internacional, uma expansão dos direitos sociais e das liberdades democráticas (E que o imperialismo aceitaria, sem patrocinar um golpe, nossa política de integração regional e nossa participação nos BRICS).

Segundo, o de acreditar que o golpismo das elites estaria superado, seria coisa do passado, daí a crença na neutralidade do Estado e a aposta no republicanismo.

Estes erros não são coisa do passado. Vide, nesse sentido, a resposta dada por Mercadante acerca de Maduro.

Por um lado ele diz, corretamente, que Maduro não é um ditador. 

Por outro lado Mercadante afirma que “você pode falar que tem um regime autoritário“ na Venezuela, “que está tentando se defender de uma intervenção externa”.

Entre outros motivos, foi o medo de ser acusado de “autoritário” que nos levou a assistir a marcha golpista sem a necessária reação.

Se quisermos voltar a governar, e se não quisermos que a história se repita, é preciso perder esse medo. Até porque contra o golpismo das elites, a resistência popular é a máxima expressão democrática.
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Segue abaixo o texto criticado:

Fábio Zanini
SÃO PAULO
Ex-senador, ex-ministro e um dos fundadores do PT, Aloizio Mercadante, 65, diz que uma autocrítica sincera do partido na política e na economia é necessária, mas não pode ser "autoflagelante" nem "autocomplacente".

"A obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos", diz ele, ao comentar os 40 anos do partido, a serem celebrados na segunda (10).

Uma das figuras históricas do PT, Mercadante afastou-se do debate público após o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, e dedicou-se mais à agenda interna da sigla.
Agora, pretende voltar ao centro da discussão, como presidente da Fundação Perseu Abramo, braço de estudos do partido.

Mercadante diz que a esquerda tem dificuldade em debater a pauta econômica e reconhece que haverá algum crescimento econômico neste ano, embora em "voo de galinha".

No campo externo, recusa-se a chamar Nicolás Maduro de ditador, mas admite que seu governo na Venezuela é autoritário.

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Qual a marca do PT aos 40 anos? O eixo de nossa história sempre foi reduzir a desigualdade. Bolsa-Família foi uma criação do PT, salário mínimo teve crescimento real nos nossos governos. Uma segunda vertente é a luta pela democracia. Nunca abdicamos de valores republicanos, liberdade de manifestação, de imprensa, de cátedra. E a promoção da cidadania. Estimulamos novas formas de participação popular.

Muitos associam o PT à corrupção também. Sofremos uma campanha violentíssima, marcada pelo lawfare, a Justiça partidarizada para a disputa política. A direita sempre soube usar esses instrumentos.

É tudo uma campanha contra o PT? Não houve erros do partido e do governo? O problema de financiamento de campanha era sistêmico. Evidente que houve corrupção. O que é inaceitável é a ênfase que se deu ao PT e a total omissão e rigor em relação a outras forças políticas. A Vaza Jato explicita isso.

Figuras importantes da história do partido deram credibilidade a essas acusações. O Palocci, por exemplo. Tudo tem que ser apurado rigorosamente e investigado. Mas eu li parte do que ele disse, principalmente o que foi vazado na véspera de eleição pelo Moro. Tenho absoluta convicção de que são diálogos impossíveis de terem acontecido.
O jovem Mercadante, ao fundar o PT, imaginaria que 40 anos depois teria que falar sobre corrupção no partido? Quando você é jovem, nunca pensa o que você vai fazer 40 anos depois. Essa pergunta não tem o menor cabimento [risos]. A causa que me levou ao PT há 40 anos é a mesma de hoje. Não aceitamos esses valores do individualismo, do consumismo. Queremos criar uma economia mais generosa, mais solidária. 

Ainda é um partido socialista? Seguramente. Tivemos 388 anos de escravidão, 4 séculos de Colônia. Isso ainda está muito presente na cabeça da nossa elite.

Uma elite à qual o partido se aliou. Governou com banqueiros, industriais, latifundiários... Você tem de ter muito realismo para governar o país. Não consegue sem maioria no Parlamento.

Não fica contraditório o discurso com a prática? Você tem de ter um projeto estratégico e uma correlação de forças reais. No Senado, foi uma luta duríssima: ProUni, Bolsa Família, salário mínimo. Se não fizéssemos aliança, não teríamos realizado essas políticas. Nós conseguimos colocar os pobres no Orçamento. Mas não tivemos força para fazer os ricos pagar mais impostos.

Como o sr. vê o cenário econômico? O governo Bolsonaro tem um tripé: o primeiro é o obscurantismo. Nesse aspecto você tem uma frente cada vez mais robusta para enfrentar. O segundo é o autoritarismo, que reúne Moro e o núcleo militar. Aqui, já não há a mesma disposição. E o terceiro é o projeto neoliberal. Esse é o debate mais estratégico, e o mais difícil. 

Essa dificuldade não está na falta de credibilidade do PT na economia, com dois anos seguidos de recessão perto de 4%? Nós chegamos no governo [em 2003], o país estava quebrado. Não tínhamos reservas cambiais e devíamos US$ 55 bilhões ao FMI, situação semelhante à da Argentina. Em três anos pagamos o FMI, depois emprestamos recurso para o FMI. O Brasil cresceu com estabilidade. Fizemos distribuição de renda.

Aí veio a Dilma... A crise de 2009 atingiu a América Latina fortemente. O desabamento dos preços das commodities teve impacto em toda a região. Pega o Chile, modelo neoliberal, paraíso do Paulo Guedes. O cobre caiu fortemente.

Mas só o Brasil caiu 4%. Nós tivemos uma articulação golpista. Toda vez que a gente não cedia em alguma negociação não aceitável, recebíamos pauta-bomba fiscal. A política sabotou a economia e agravou a crise.

Deixamos US$ 380 bilhões de reservas cambiais. O pré-sal diziam que não tinha nada, hoje. dois terços do petróleo é pré-sal. Fiquei muito feliz de ver o Armínio [Fraga, ex-presidente do Banco Central] dizer que está preocupado com o social. Por eles são obrigados a se preocupar? Porque o povo vai voltar a cobrar distribuição de renda. Quando o [Bill] Clinton [ex-presidente dos EUA] foi reeleito, a frase que ficou famosa foi "é a economia, estúpido". Eu diria: "é a desigualdade, estúpido".

Cobra-se muito do PT autocrítica pelos escândalos. Na economia ela não é necessária? Tem dois tipos de autocrítica. Uma autocrítica autoflagelante, que é a que vocês insistem que a gente deva fazer, e uma autocomplacente, que não resolve coisa alguma.

Eu acho que a autocrítica sincera nós temos de fazer internamente, corrigir as nossas propostas, apresentar ideias novas. Nós tínhamos que ter colocado muito mais ênfase nas reformas política e tributária. Na política econômica temos muita coisa para reconsiderar, rever, erros que cometemos, dificuldades que tivemos. Mas a obra que nós construímos é muito maior do que os erros, que não foram poucos, nem pequenos, que nós cometemos. 

O pêndulo na próxima eleição voltará um pouco para a esquerda? Você tem o campo popular, em que o Lula é a grande liderança. Tem a extrema direita, hegemonizada pelo Bolsonaro. E há o bolsonarismo envergonhado, que o apoiou na eleição ou se omitiu. E que hoje está horrorizado com o obscurantismo. Na campanha, com quem estavam Doria, Eduardo Leite, Luciano Huck, que o apoiaram explicitamente?

No time dos omissos o sr. inclui o Ciro [Gomes]? Aí não é uma linha auxiliar do bolsonarismo. Mas ele se omitiu no segundo turno, o que foi muito grave historicamente.

E como evitar que esse pêndulo pare no centro, em nomes como o de Luciano Huck? O processo político está polarizado entre o legado do PT e a extrema direita. A economia vai melhorar? Ela pode melhorar. Não há condições para um crescimento sustentável, mas um voo de galinha está dado. Mesmo porque essa recessão é a mais longa da história do Brasil, a mais profunda. Você tem capacidade ociosa, alguma melhora pode ter. Não sei se suficiente para embalar esse pacote de perda de legitimidade e credibilidade. 

Ao longo de quatro décadas houve uma evidente lulodependência do PT. Isso é saudável? Os grandes ciclos de mudança numa sociedade tão autoritária como a nossa tiveram grandes lideranças no grupo popular e trabalhista. Ele [Lula] ganharia a eleição, todas as pesquisas mostraram isso.

Ele é seu candidato em 2022? Se tiver condições, seguramente é o melhor candidato que nós teríamos.

Por que o PT tem tanta dificuldade em ter postura mais crítica com relação ao Maduro? O PT tem um princípio fundamental, a autodeterminação e respeito à democracia. Eu não vejo vocês cobrarem com a mesma veemência o [Sebastián] Piñera [presidente do Chile]. Tem 160 baleados, milhares presos. Os caras atiram nos olhos dos meninos. E a repressão continua todos dias.

O sr. não considera o Maduro um ditador? Não. Você pode falar que tem um regime autoritário. E que está tentando se defender de uma intervenção externa. O Trump disse que vai esmagar o Maduro.

O Maduro impede deputados eleitos de entrar no Parlamento. Mas também não conheço ninguém que se autoproclame presidente sem ter tido um voto. A [Jeanine] Añez na Bolívia é o que? O partido dela teve 4% dos votos. E ela se instituiu presidente da República. O que nós não vamos fazer é ficar ao lado de uma intervenção externa. A Venezuela que resolva seu problema democraticamente.


Raio-X

Nome: Aloizio Mercadante
Idade: 65
Formação: graduado em economia pela FEA-USP, com mestrado e doutorado pela Unicamp; professor de Economia da Unicamp e da PUC
Cargos que ocupou: deputado federal (1991-95 e 1999-2003), senador (2003-10), ministro da Ciência e Tecnologia (2011-12), da Educação (2012-14 e 2015-16) e da Casa Civil (2014-15)

Tarso Genro e a festa do PT


No dia 7 de fevereiro de 2020, os petistas receberam dois “presentes” antecipados: uma entrevista de Aloizio Mercadante à Folha de S.Paulo e um texto de Tarso Genro publicado no UOL. 

Sobre o que diz Mercadante, tratarei noutro texto. Aqui quero comentar o que diz Tarso Genro, a quem leio (e discordo) desde os anos 1980.

Como Tarso, não participarei da festa/festival dos 40 anos do PT, no Rio de Janeiro. Mas meus motivos não têm nada que ver com os de Tarso: não vou porque sou delegado ao congresso do Andes, que vai até sábado 8 de fevereiro, de noite.

Os motivos de Tarso são outros. Segundo ele: “Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.” 

Engraçado, porque a maneira como o PT “construiu [uma visão] de si mesmo” foi uma luta interna e publica duríssima. 

E desde o início dos anos 1990, Tarso esteve ao lado dos que até agora venceram esta luta. 

Que ele não se reconheça na obra que ajudou a construir é problema dele. Mas que ele queira “jogar a criança fora, junto com a água de banho”, é problema de todos.

Afinal, um partido pode e deve ser “julgado” por vários motivos. Mas quando Tarso diz não se sentir “identificado” com as posições do PT, por conta da visão que o PT teria de si mesmo, ele está deixando de lado ou secundarizando algo a meu juízo essencial, que é o “lugar” concreto do PT na luta de classes. 

O PT merece ser defendido, entre muitos outros motivos, porque a classe dominante quer destruir o Partido, porque as elites sabem o efeito que isso teria sobre a classe trabalhadora como um todo. 

Tarso diz que o PT “teve que fazer uma série de modulações na sua linha política que bloquearem a sua renovação”. 

“Teve”???

O PT fez determinadas “modulações” (e não outras) porque “teve que fazer”? 

Ou porque, na luta interna e publica acerca dos rumos do Partido, determinadas escolhas prevaleceram? 

No fundo, Tarso parece não perceber que o problema está exatamente no seguinte: partido escolheu fazer apenas “transformações democráticas” e escolheu fazer isso através de métodos “republicanos” que o colocaram numa armadilha, da qual ainda não saímos.

Falta ao Tarso um pouco de dialética na análise da contraditória trajetória do PT. E talvez falte porque ele se julgue corresponsável pelo que foi feito de positivo; e “irresponsável” pelo que houve de negativo. 

Tarso diz que “ao longo destes 40 anos ocorreram composições e renúncias que nunca ficaram esclarecidas. Não sei se algumas destas concessões não foram renúncias de princípios”. 

Basta folhear os textos do próprio Tarso, ao longo destes 40 anos, para localizar algumas das, na minha opinião, mais importantes “renúncias de princípios”: ao socialismo, a revolução, a luta de classes, ao papel de vanguarda do partido.

Todas essas e muitas outras “composições e renúncias” foram exaustivamente “esclarecidas”, em debates dos quais Tarso foi parte muito ativa.

Aliás, como todos nós, Tarso tem memória muito seletiva. 

Ele lembra que foi presidente interino do PT “na época em que o mensalão estava no auge”. E diz que recuou de ser candidato à presidência nacional do PT porque “o pacto hegemônico do partido” (...) “não pretendia se renovar. E na minha opinião, não se renovou até hoje”.

Minha memória daqueles episódios é outra. Para poupar tempo, remeto para a leitura de dois textos que escrevi na época:

Péssima, mas previsível decisão

Texto divulgado em 29 de julho de 2005.

Alguns comentários sobre a candidatura Tarso Genro

Texto publicado em 19 de agosto de 2005.
Voltando ao texto de Tarso na UOL, ele afirma que “nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente”.

Eu adoraria que o problema real do PT fosse este. Mas não é. Simplesmente não é verdade que o pensamento médio ou o discurso oficial do Partido, hoje, seja esse.

Minha impressão é que Tarso está em “modo looping”, eternamente prisioneiro da autocrítica da variante marxista que ele próprio abraçou nos anos 1970, por exemplo repetindo mais ou menos coisas que ele já falava na época da dissolução da URSS.

O que é cômodo, pois o libera de analisar autocriticamente o que fez a partir dos anos 1990 e até hoje, substituindo isto por uma eterna autocrítica do que acha que fez ou deixou de fazer nos anos 1960-1980.

Sobre o mérito de algumas das questões enunciadas por Tarso, acerca da classe trabalhadora, remeto ao que disse aqui: 

Agrego que devemos sim “pregar a restauração da CLT”, sem prejuízo algum de defender um “sistema público protetivo que envolva” os “excluídos das legislações trabalhistas”. 

Aliás, a embocadura proposta por Tarso — em nome de um suposto realismo, tratar como inexoráveis determinados processos e situações — contribui para o quê ou quem? Para os que estão destruindo os direitos ou para os que estão defendendo estes direitos?

Não estou dizendo, óbvio, que não existam muitas questões novas. Sempre há. O que estou dizendo é que algumas destas questões não são tão novas assim. Estou dizendo, também, que algumas vezes fala-se de novidades, apresentando-se como resposta “remédios” com prazo de validade vencido.

Um exemplo indireto disso, quase um ato falho, é a referência que Tarso faz a declaração de “um amigo dirigente do Partido Socialista chileno” sobre “como eles foram atropelados pelas manifestações que assolaram aquele país”. 

Claro que foram atropelados. Mas por qual motivo foram atropelados? Porque não entendiam os novos temas e atores sociais? Ou foram atropelados porque há décadas tornaram-se agentes do social-liberalismo?

Tarso dá a entender que nosso discurso envelheceu: “Estamos falando em vão, com formas discursivas que amplos setores da sociedade não prestam mais atenção.” Mas não seria o caso de perguntar por quais motivos o neofascismo consegue êxito, adotando muitas vezes um discurso medieval? Na realidade, se quisermos mesmo derrotar o neofascismo, a reação da esquerda precisará ser mais plebeia, mais vintage digamos assim.

Tarso fala disto, mas pela negativa: “no Brasil também existe a possibilidade de movimentos de rebeldia política e econômica. Eles não têm direção, um organizador, e podem ser aproveitados pelo fascismo”. Claro que isto pode acontecer. Mas, por outro lado, não há caminho para derrotar o neofascismo, que não inclua rebeliões populares. 

Tarso diz que “a luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores”. Isto é parcialmente correto, pois não bastam “valores”, há que ter força material. Mas o problema é que no terreno dos “valores”, Tarso não enfatiza a luta pelo socialismo, pela revolução.

Pelo contrário, sua inspiração é o progressismo: “Acho que a frente ampla do Uruguai é uma inspiração”. 

Tarso não analisa por quais motivos a FA perdeu as eleições. Subestima o perigo neofascista no Uruguai. E não adota, no caso da FA, o mesmo critério que adota para criticar o PT.

Uma decorrência prática do “progressismo” que orienta a visão de Tarso é sua defesa de que, “para compor uma frente de esquerda o PT precisa trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial. E acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto”. 

Ou seja, devemos fazer voluntariamente aquilo que grande parte da direita tenta, há anos, fazer na marra. Algo totalmente artificial, sob pretexto de que “não podemos ser hegemônicos pré-datados”.

Tarso também opina sobre a necessidade de “revisão de procedimentos” nas “políticas partidárias internas”. E aponta o dedo acusador para um tal “grupo paulista”. Abordagem que, além de apresentar divergências políticas como se geográficas fossem, hoje serve para desviar o foco de posições como as implementadas por Rui Costa e Camilo Santana.

Mais infeliz ainda é o tratamento dado à ex-presidenta Dilma Rousseff. Na hierarquia dos motivos pelos quais o golpe teve êxito, é um despautério dar o destaque que Tarso dá à “enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas”.

Até porque, cabe lembrar, o quinto congresso nacional do Partido respaldou a política econômica adotada pelo governo Dilma em 2015. Para não falar de Temer na vice, da composição do STF, do republicanismo no trato com a PF e com a Lava Jato. 

De resto, espero que Tarso chegue e passe dos 90 anos e, também, que siga militando e escrevendo. Mas espero que suas atuais posições não prevaleçam futuramente, pois elas contribuíram muito para a enrascada em que estamos hoje.
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Segue abaixo o texto criticado.

O Partido dos Trabalhadores faz 40 anos na próxima segunda-feira e hoje começa uma grande festa no Rio de Janeiro. Mas eu não pretendo participar. Não me sinto identificado, hoje, com o tipo de visão que o PT construiu de si mesmo.
Acho que o partido fez transformações democráticas muito positivas na sociedade brasileira, em particular no governo do presidente Lula. Mas também acho que ele teve que fazer uma série de modulações na sua linha política que bloquearem a sua renovação.
Ao longo destes 40 anos ocorreram composições e renúncias que nunca ficaram esclarecidas. Não sei se algumas destas concessões não foram renúncias de princípios. A festa de aniversário é uma boa iniciativa e tenho certeza que nem vão dar grande importância para a minha ausência.

RAFAEL NEDDERMEYER/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

Metade da missão cumprida
Já tive muitas responsabilidades na política. Fui vereador, vice-prefeito, prefeito, governador e ministro. Também fui presidente do PT. Assumi como interino na época em que o mensalão estava no auge [2005]. Eu tinha dois objetivos. Primeiro, concorrer nas eleições internas. Foi inclusive o que o pessoal do grupo hegemônico do partido me propôs. E também chamar o PED [Processo de Eleições Diretas], que seria fundamental para reestruturar o partido nos estados e na direção nacional.
Uma missão eu cumpri: o PED foi feito, mas a ideia de reformar as estruturas do partido não foi possível. Eu bati radicalmente com a maioria que, vamos dizer assim, controlava o partido e achava imprudente um processo de renovação/refundação.
Não foram ações individuais de qualquer dirigente que impediram a reestruturação. Na verdade, era o pacto hegemônico do partido que, naquele momento, não pretendia se renovar. E na minha opinião, não se renovou até hoje.
Isto aí me fez recuar de ser candidato. Organizei as eleições internas e voltei para Porto Alegre.
Marcos Bezerra/Futura Press

PT ficou obsoleto
A "autocrítica" que eu defendi não significava transformar o partido em delegacia de polícia. Quadros do PT cometeram erros ao longo destes 40 anos e isso não é nenhuma novidade em qualquer partido de qualquer ideologia. A reestruturação que eu defendia e defendo vai bem além.
Nós temos um discurso e um programa ancorado na época em que o partido foi fundado e ainda agimos como se existisse uma classe trabalhadora nas fábricas que teria potencial hegemônico na sociedade. Operamos como se o nosso trabalho fosse organizar esta classe de pessoas para lutar por uma utopia. Isto mudou radicalmente.
Não adianta, por exemplo, o PT prometer se renovar e pregar a restauração da CLT. Os processos de trabalho foram fragmentados e hoje temos autônomos, horistas, PJs, precários, intermitentes... Trata-se, neste caso, de organizar um outro sistema público protetivo que envolva estes excluídos das legislações trabalhistas, que irão aumentar.
Acho que o partido não acompanhou estas mudanças. E, a esta nova organização do trabalho, soma-se a tensão social resultante de questões de gênero, cultura, preconceito racial e condição sexual. Precisamos absorver as suas demandas e oferecer propostas concretas.
Vou exemplificar usando a declaração de um amigo dirigente do Partido Socialista chileno sobre como eles foram atropelados pelas manifestações que assolaram aquele país. "Fomos pegos de surpresa, não sabemos o que ocorreu. Estamos fora. Queremos ficar dentro."
Isto é o que está acontecendo conosco também. Mas não é só o PT que está fora. São mudanças que atingiram o mundo todo e levam toda esquerda a dificuldades. Estamos falando em vão, com formas discursivas que amplos setores da sociedade não prestam mais atenção.
Leandro Prazeres/UOL

Luta pela hegemonia
Aqui no Brasil também existe a possibilidade de movimentos de rebeldia política e econômica. Eles não têm direção, um organizador, e podem ser aproveitados pelo fascismo, como a equipe "ideológica" em rede do [Jair] Bolsonaro está aproveitando até agora.
Temos que aprender urgentemente como falar com este mundo novo do trabalho nestes tempos de relações sociais em rede. A luta é pela hegemonia. E a luta da hegemonia se faz através de valores.
Nós, da esquerda, precisamos determinar nossos compromissos e buscar convergências com outros campos políticos. Avaliarmos as condições das alianças e decidirmos unir (ou não) forças sociais, dependendo de cada situação concreta.
Acho que a frente ampla do Uruguai é uma inspiração. É uma aliança composta por organizações sociais, partidos e personalidades. Os uruguaios, antes de nós, entenderam esta nova pluralidade, esta nova fragmentação da sociedade e constituíram uma forma de organização política que teve abrangência e princípios.
Eles perderam as eleições ano passado, mas a sua derrota não permitiu a ascensão do fascismo, que espreita sempre os momentos de crise. Eles aglutinarem mais setores sociais e por isso suas conquistas democráticas foram mantidas.
Eduardo Knapp - 9.nov.2019/Folhapress

PT tem que aprender a dividir
Para compor uma frente de esquerda o PT precisa trabalhar com a possibilidade de não indicar o candidato em uma chapa na eleição presidencial. E acho que se o PT não está preparado, tem que se preparar para isto. Eu defendo Lula ou [Fernando] Haddad como candidatos, mas nossa opinião tem que ser avalizada sinceramente por todas as forças convergentes.
Não é pelo fato de o PT ter o maior número de votos na esquerda, e ele tem de fato, que deve ter sempre as cabeças de chapas. O partido tem que conduzir o projeto de alianças pela questão programática e avaliar qual candidato tem mais chance de vencer a eleição. Não podemos ser hegemônicos pré-datados.
Esta revisão de procedimentos vale para as políticas partidárias internas também. O PT tem instâncias democráticas que funcionam, mas eu creio que existe uma hegemonia que paira sobre estas instâncias de como e "o quê" elas devem decidir. E esta capacidade de influenciar recai, principalmente, sobre grupo paulista.
Fernando Teixeira/Estadão Conteúdo

Separando funções
Nestas reflexões o PT também precisa compreender que há diferença entre política partidária e políticas de governo. Até porque as responsabilidades são diferentes. Você pode pegar a sucessão do presidente Lula como exemplo.
O nome da companheira Dilma foi aprovado pelo partido através de uma proposta do presidente Lula, sem debate. Hoje, a opinião generalizada do PT é que ela teve uma enorme dificuldade de compreender de maneira adequada as diferenças internas que o partido tinha.
Ela não sofreu golpe exclusivamente por este motivo, mas como o partido não conseguiu dialogar com a Dilma, e nem a presidenta com o partido, não foi possível formar um núcleo político dirigente que processasse a resistência. O Fernando Haddad era prefeito de São Paulo, por exemplo, e ficou meses tentando marcar uma reunião com a Dilma. Sem sucesso.
Agora, você me pergunta se a presidenta Dilma é culpada? Eu não acho isso. Acho que ela é vítima desta situação, que não foi enfrentada de maneira adequada pelo conjunto dos nossos dirigentes.

Reestruturação levará 15 anos

Na minha opinião, verei a reestruturação do PT se viver até uns 90 anos [Tarso tem 72 anos]. Acho que estamos numa fase de transição e formulação de uma nova esquerda num momento em que o próprio capitalismo não se reacomodou. As relações pessoais em rede, a fragmentação das relações de trabalho estão em curso. As mudanças continuarão em ritmo acelerado, e nós correndo atrás delas.
Acho que nos próximos 15 anos deveremos ter alguns governos mais ao centro, mais à direita e ameaças fascistas como o governo Bolsonaro. E acredito que o PT vai manter mais ou menos seu status e eleitorado, permanecendo atuante na sociedade brasileira.
Até pela força política do presidente Lula. Mas precisamos oferecer respostas mais consistentes sobre a questão democrática e a natureza da sociedade que desejamos.

Quase 60 anos de políticas
E eu trabalho para buscar estas respostas. Continuo filiado ao partido, me orgulho disso, tenho contatos com companheiros da direção nacional, deputados e, eventualmente, com o próprio presidente Lula. E pretendo continuar ajudando com as relações que mantenho.
Mas, no momento, não tenho aspirações políticas que me seduzam a concorrer nas eleições. As pessoas ouvem que não vou mais concorrer e acham que estou "aposentado". Continuo militante ativo e pensante.
Eu e um grupo de companheiros elaboramos documentos que submetemos aos partidos de esquerda. Sigo discutindo e escrevendo artigos. Pretendo ajudar, com meus limites, não somente ao PT, mas os companheiros de todos os partidos de esquerda que pensam numa renovação de paradigmas da esquerda.

A autocrítica de Tarso
Já fiz várias autocríticas nesta jornada de 58 anos de militância. Tenho meus arrependimentos. Quem não tem é porque não está na vida. O maior deles foi ter derrotado o então governador Olívio Dutra na prévia do PT em 2002. Impedi o Olívio de tentar a reeleição e perdi.
Resolvi concorrer naquela eleição porque a disputa interna no partido estava muito radicalizada. Foi um erro político de minha parte. O Olívio deveria ter sido candidato. Eu tratei de recuperar as nossas relações pessoais e políticas, mas é um período que eu guardo com uma lembrança amarga.
A minha decisão também causou um incômodo doméstico. A Luciana [Genro, filha de Tarso] deu uma declaração dizendo que achava que o Olívio deveria ter sido o candidato do PT. A partir disso, houve uma pequena rusga entre nós. Durou uns dois dias, mas foi transmitida pela mídia como se fosse uma "crise" de pai contra filha.
Eu e a Luciana temos uma relação extraordinária e amorosa. Até hoje eu brinco com a Luciana quando ela vai fazer campanha aqui em Porto Alegre. Quando ela volta de uma jornada eu pergunto: 'Dos dez votos que tu ganhaste hoje, oito não foram porque és minha filha'? Ela ri e diz: 'só metade'.

Esperança vai vencer o medo
Este episódio com o Olívio foi o ponto baixo de uma trajetória que começou na década de 1960. Quando vivia com meus pais, eu tinha aquela energia que caracteriza alguns jovens. Minha mãe pedia para meu pai me levar nos compromissos do PTB. Ele era da ala janguista do partido, foi vereador, vice-prefeito. Eu acompanhava as discussões, os debates e fui tomando gosto.
Como aquele guri que vai com o pai ao futebol e se apaixona pelo esporte. Entrei no movimento estudantil com 14 anos, fui preso no congresso da UNE em Belo Horizonte em 1966, parei no Dops em Porto Alegre e acabei por me exilar dois anos no Uruguai. Recomecei depois minha carreira advogando nos sindicatos, já em Porto Alegre.
Tudo isto para nesta fase da vida ver um integrante do governo federal fazer um vídeo copiando um líder nazista! Sobre este assunto tenho uma memória pessoal amarga porque minha família por parte de mãe descende de judeus alemães. Meu avô Herman Herz morou na nossa casa e sempre falava dos irmãos.
Um deles, o Carl Herz, era jurista, social-democrata e foi prefeito de um distrito de Berlim na época em que o Hitler tomou o poder. Precisou fugir para Inglaterra. Mas um filho dele não conseguiu escapar. Foi levado para Auschwitz [maior símbolo do holocausto] e morreu lá.
O outro irmão, o Jorge, ficou 60 anos sem conseguir ver meu avô. Então, aquele vídeo toca muito a gente e de uma maneira muito dolorosa. Tão triste, mas muito mais desconcertante, foi ver que num evento na Hebraica o Bolsonaro foi chamado de "Mito" pelo público. Mito é como o Hitler se apresentava na sociedade alemã.
Mas estes fatos só me dão mais impulsos para seguir na luta. Espero chegar aos 90 anos e ver que o PT, a esquerda e o Brasil estarão diferentes e melhores. Quem sabe até me animo, daí, a de participar da festa de aniversário do partido.