segunda-feira, 6 de julho de 2026

Análise crítica do texto “Queremos um Brasil cada vez mais importante no mundo”

 Este texto não foi revisado.

Faço a seguir uma análise crítica do texto “Queremos um Brasil cada vez mais importante no mundo”.

Este texto foi produzido por um grupo de trabalho e encaminhado ao companheiro José Gabrielli, responsável por coordenar o programa de governo 2027-2030.

Anteriormente já encaminhei duas outras análises críticas, que podem ser lidas aqui:

Comentários sobre as contribuições do Núcleo MAG

https://valterpomar.blogspot.com/2026/06/comentarios-sobre-as-contribuicoes-do.html?m=1

Glosando a minuta de programa 2027-2030

https://valterpomar.blogspot.com/2026/06/glosando-minuta-de-programa-2027-2030.html?m=0

A seguir meus comentários sobre o texto “QUEREMOS UM BRASIL CADA VEZ MAIS IMPORTANTE NO MUNDO”.

O início do texto busca apresentar uma definição o mais ecumênica possível da situação mundial e da política externa brasileira, sobre a qual se ressalva apenas a “profunda ruptura entre 2019 e 2022”. Essa ruptura ocorreu, mas daí não decorre que devamos fazer tabula rasa das profundas diferenças entre as políticas externas dos governos tucanos e petistas. Na conjuntura de crise que vivemos, uma política externa meio tucana seria o caminho seguro para a derrota. 

O texto afirma, corretamente, “que não há política externa soberana sem um Estado forte”, o que inclui o “fortalecimento da indústria”. Este é o elo mais fraco de nossa política externa. E a política meio tucana nos levaria a quê? Por exemplo a subestimar as possibilidades da China, a superestimar as possibilidades da Europa, a não perceber o potencial da integração com ALC e com África e, principalmente, a achar que o conflito com os EUA é apenas com o governo de plantão (mais ou menos o que alguns pensam sobre Israel: o problema seria apenas Bibi).

O texto fala do que fizemos no governo Lula - e fizemos muito - mas opta por não falar do que não fizemos, nem tampouco fala do que fizemos errado. Alguém pode pensar que isto seria inapropriado para um texto de programa. Enganam-se: o povo é inteligente, os apoiadores querem respostas. Há maneiras de fazer isso, sem abrir o flanco. Nada dizer não é alternativa. Até porque não é correto dizer que “em pouco tempo, o país voltou a ocupar seu lugar como protagonista na política internacional”. Não “voltamos”: o mundo mudou, o Brasil mudou, nós mudamos, a situação piorou e estamos mais fracos que antes.

Pergunto, por exemplo: o que resultou de prático da excelente reunião com “os líderes de toda a América do Sul no Consenso de Brasília”? Quais foram os desdobramentos?

O texto afirma, corretamente, que as “disputas geopolíticas, a corrida tecnológica, a transição energética, a reorganização das cadeias produtivas e a emergência climática exigem uma política externa capaz de antecipar desafios, criar oportunidades e fortalecer a posição do Brasil em uma ordem internacional em transformação”. E afirma, também corretamente, que “o quarto governo do presidente Lula (…) deve consolidar um projeto de inserção internacional voltado à promoção do desenvolvimento nacional”. E a seguir apresenta uma lista de desejos, na maioria meritórios, jargões e cacoetes à parte.

A porca torce o rabo quando se detalha os “cinco eixos complementares: a reforma da governança global; a integração regional; a defesa, a segurança e a soberania; a cooperação internacional; e o comércio exterior e as finanças internacionais”. 

Na Cooperação Internacional se fala tudo que queremos fazer. Pergunto, copiando a blague clássica: combinamos com os russos?  

Como falar de “consolidar o Atlântico Sul como uma região de paz” e de “fortalecer a cooperação internacional no combate ao crime organizado” e não falar nenhuma vez de Trump, da ingerência e da militarização em curso na região??

Sobre Integração Regional, o texto diz corretamente que se trata de “uma prioridade estratégica”. 

Mas salvo tenhamos um santo milagreiro para ocupar o proposto cargo de “Enviado Especial”, estamos diante de um desafio para o qual ainda teremos que criar as políticas e os meios, que na minha opinião passam por um “Cinturão e Rota” impulsionado pelo Brasil.

Se não entendi errado, o texto insinua algo parecido, quando fala de “integração física, energética e digital”. Assim como sugere o tamanho da encrenca, quando fala Que “a defesa dos interesses nacionais em um mundo instável exige também capacidades próprias de dissuasão e proteção do território”. Infelizmente, a opção por uma linguagem ecumênica e pela lista de desejos faz o texto perder força política.

A questão política central é a defesa da soberania contra a ingerência do imperialismo estadunidense. Ou explicitamos a questão e a tratamos publicamente, ou só teremos os ônus da situação, sem nenhum bônus.

Sobre a Reforma da Governança Global, o texto reprisa e repisa muitas de nossas posições tradicionais. Mas ao fazer isso, explícita o paradoxo implícito na sua própria abordagem. 

Vejam o seguinte trecho: “A construção de uma ordem internacional mais democrática, representativa e multipolar é condição para que o Brasil e os demais países em desenvolvimento enfrentem os grandes desafios do século XXI”.

Se esta é a condição, então estamos perdidos. Porque o que está em curso é a desconstrução de uma ordem que não nos era favorável e a construção de uma desordem que tampouco nos favorece. Portanto, nosso problema é como enfrentar os desafios do século XXI num cenário profundamente adverso. O que exige reafirmar, mas também rever alguns “princípios” (entre eles, os da Defesa).

Sendo este o quadro, como entender a frase “Queremos fortalecer o papel dos BRICS, do G20 e das demais coalizões do Sul Global”???

Como “conjuminar” a “reforma da arquitetura financeira internacional” - o que exige rebaixar o papel do dólar - com a defesa da “democratização do Fundo MonetárioInternacional, do Banco Mundial e dos demais bancos multilaterais de desenvolvimento e o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento, do Arranjo Contingente de Reservas dos BRICS e de outros mecanismos capazes de ampliar a autonomia financeira dos países do Sul Global e reduzir sua vulnerabilidade diante de crises internacionais”. 

Este tipo de texto - que propõe tudo de bom junto ao mesmo tempo - não confunde os inimigos, mas atrapalha na definição de prioridades realistas.

No cenário mundial vislumbrável, não haverá “a construção de uma governança internacional das tecnologias digitais e da inteligência artificial, baseada na democracia, na soberania digital, na proteção de dados, na cooperação científica e na redução das desigualdades tecnológicas”. O que pode haver é a formação de blocos. Mas o texto, assim como não fala dos EUA, não fala da China, único “adulto na sala” com capacidade de ancorar um movimento desta natureza.

Sobre “Defesa, Segurança e Soberania”, o texto fala - muito corretamente- que não “há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”.  Verdade. Mas contra quem? O texto não diz. A opção - mesmo nesse tópico - foi não dar nome aos bois. Não se fala dos EUA, de Israel, da Ucrânia, da marcha de vários países europeus rumo a uma guerra contra a Rússia. Nem se fala das bases militares que cercam o nosso Brasil.

O texto fala, corretamente, que queremos “assegurar que a Inteligência de Estado seja exercida em caráter civil, regida pelos princípios constitucionais, pela prevalência do Estado Democrático de Direito, pelo profissionalismo, pela transparência institucional, pela neutralidade político-partidária, pela proteção dos direitos fundamentais e pelo controle social e democrático, sempre orientada pela defesa do interesse nacional”. Mas como fazer isso, se nossa política de Defesa é “hemisférica”, como a dos EUA? E colo lidar com o detalhe de que as Forças Armadas realmente existentes no Brasil seguem aprendendo e ensinando “as velhas lições” de que falava Vandré??

A opção do texto - não falar dos monstros que estão dentro do armário e embaixo da cama - enfraquece inclusive as propostas corretas por ele feitas.

Finalmente, sobre Comércio Exterior e Finanças Internacionais, o texto reafirma a centralidade do desenvolvimento nacional. Diz que queremos superar a dependência da exportação de produtos primários e densificar as cadeias produtivas nacionais, algo difícil de conjuminar com o Acordo Mercosul-União Europeia. O que o resto admite, implicitamente, ao reivindicar a “conclusão e a implementação de todos os seus pilares — não apenas o comercial”. Mas sobre esta passagem do texto, prefiro não comentar, pois nossas debilidades externas nesse terreno derivam da situação econômica do país, tema que deve ser tratado por outro capítulo do programa.

Em resumo, o texto proposto ganharia muito se fosse menos ecumênico, menos politicamente correto. Nesse terreno, comprova-se mais uma vez que o excesso de velas põe fogo na igreja. Não li, espero ter lido errado, o texto falar uma única vez a palavra Palestina. Uma das mais belas passagens da política externa do governo Lula 3 foi a condenação do genocídio em Gaza. Ao não falar disso, ao não citar o genocídio praticado pelo Estado sionista de Israel, ao não falar desta manifestação concreta do fascismo que nos ameaça, o texto consegue – de tanto tentar ser politicamente correto – cometer uma incorreção política.

Como disse no início, este texto não foi revisado. Agradeço críticas destrutivas.

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