quarta-feira, 2 de abril de 2025

Um combo chamado Quaquá




O Diretório Nacional do PT mantém um grupo de zap.

São muitas mensagens todo santo dia.

Inclusive as tradicionais saudações.

Várias destas mensagens rendem polêmicas.

Algumas destas polêmicas são barulhentas.

Mas as vezes reina o silêncio. Ou quase.

É o que aconteceu no caso das declarações recentes de W. Quaquá acerca da segurança pública.

Não cabe reproduzir aqui as declarações privadas de Quaquá. 

Mas algumas de suas declarações foram públicas e podem ser lidas aqui: 

https://platobr.com.br/vice-presidente-do-pt-diz-que-em-sua-cidade-vagabundo-vai-para-a-vala/

Acerca do tema, eu escrevi duas mensagens no grupo de zap do Diretório Nacional do PT.

Como as mensagens são de minha lavra, as reproduzo a seguir:

(...) Eu não sei se efetivamente o Quaquá falou a frase "bandido vai para a vala". Se falou, registro minha opinião de que este tipo de linguajar não é de esquerda, mas sim da direita. Entretanto, mesmo que não tenha falado, acho errada a linha de segurança pública explicitada na entrevista. O caso da Bahia já demonstrou que este tipo de "mão dura" é só retórica, não resolve os problemas e acaba causando o oposto do que promete. (...)

(...) “Atirando e matando”: isso é o que já se faz. Não resolve o problema da segurança pública. Mas mata muita gente inocente, pobre, preta e periférica. É terrível ver que a fórmula bolsonarista de segurança pública tem adeptos entre nós. (...) 

Lendo suas opiniões sobre segurança pública, chego à conclusão de que Quaquá é um combo.

Talvez por isso muitas pessoas prefiram o silêncio.

Compreensível: para algumas pessoas pode ser difícil polemizar com pessoa tão eloquente, prefeito recém-eleito com ampla maioria, cabeça de uma administração tida e havida como exemplar, animador de um camarote no Sambódromo, de uma escola de samba e de um time de futebol. 

Sem falar que parece ser um empresário de sucesso, além de formulador de uma estratégia para o Brasil. Portanto alguém extremamente versátil, digamos assim. E que além de tudo promoveu uma ampla campanha de filiação, não apenas em sua cidade mas também em outras cidades do estado do Rio de Janeiro.

Pode não ser fácil discordar de pessoa tão proativa, mas é necessário. Pois se as posições de Quaquá prevalecerem, várias linhas vermelhas terão sido cruzadas.

Inclusive por isso, espero que o presidente do Partido e o secretário-geral cumpram o compromisso firmado na recente reunião do Diretório Nacional e submetam à comissão executiva nacional os dois pedidos de comissão de ética a respeito, um deles pendente desde 2021.











Rochinha, Lula e Edinho

Há um ditado segundo o qual não se deve usar o nome de Deus em vão. 

Não acredito, mas inclusive por respeito aos que acreditam em Deus levo aquele ditado a sério. E me espanto como há crentes que fazem o oposto.

Por motivos similares, acho espantoso ver como autoproclamados lulistas usam e abusam do nome de Lula.

Não sou lulista, sou petista. Entrei no PT porque acreditava e sigo acreditando que um partido de massas é muito útil na luta da classe trabalhadora brasileira pelo socialismo.

Fui da mesma tendência de Lula - a Articulação dos 113 -até 1993, mas desde então sou de outra tendência. Além disso, ao contrário do companheiro Francisco Rocha, não privo da intimidade de Lula, condição básica para falar publicamente em nome dele.

Isto posto, acho normal e legítimo que Lula lute para fazer prevalecer suas ideias, tanto dentro da CNB quanto dentro do Partido. Assim como acho normal e legítimo que os integrantes da CNB se apresentem como sendo da tendência de Lula.

Mas há maneiras e maneiras de fazer isso, sob pena do excesso de velas por fogo na igreja. Por isto deploro a declaração publicada no texto que copio e colo ao final e que também pode ser lida aqui:

 https://www1.folha.uol.com.br/colunas/painel/2025/04/lancar-candidato-contra-edinho-sera-contrariar-lula-diz-petista.shtml

Na luta “interna” da CNB, torço pela luta. Não vejo em nenhuma das alas em pugna a orientação política necessária para o PT, nesses tempos de guerra em que estamos. 

E tampouco vejo em Edinho - inclusive pelos motivos explicitados no texto publicado pela Folha - a autonomia que um presidente do Partido precisa ter, inclusive para melhor defender Lula e o governo.

Evidente que tudo pode não passar de uma fake news da Folha. Mas temo que esta vez seja uma exceção.


Segue abaixo o texto comentado:

Lançar candidato contra Edinho será contrariar Lula, diz petista

2 de abril de 2025

Um dos caciques da tendência petista Construindo um Novo Brasil (CNB), que controla o partido há 20 anos, Francisco Rocha diz que não haverá divisão na corrente em razão da escolha do novo presidente da legenda, marcada para julho. A CNB vive um racha em torno da candidatura do ex-ministro Edinho Silva para o cargo. “Quem da CNB for lançar outro candidato vai enfrentar resistência da militância e se

resolver com o terceiro andar do Palácio do Planalto", diz Rochinha, como é conhecido,

em referência a Lula, que apoia Edinho.

O candidato, que até o ano passado era prefeito de Araraquara (SP), tem apoio, além do presidente, de ministros como Fernando Haddad (Fazenda), Alexandre Padilha (Saúde) e Camilo Santana (Educação), além do ex-ministro José Dirceu.Edinho enfrenta resistência de uma ala formada, entre outros, pela ministra Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), o líder do governo na Câmara, José Guimarães (CE), o deputado federal Jilmar Tatto (SP), o prefeito de Maricá, Washington Quaquá e a tesoureira 

, Gleide Andrade. Segundo Rochinha, a disputa interna não se deve a questões de ideologia, mas a apego

interno por cargos. O mais disputado é a tesouraria. Ele prevê que Edinho terá cerca de 53% na eleição interna, evitando assim a

necessidade de segundo turno. Outros nomes já lançados por tendências minoritárias são o secretário de Relações

Internacionais da legenda, Romênio Pereira, e o dirigente Valter Pomar. O deputado

federal Rui Falcão, ex-presidente do PT, também cogita se candidatar.


Pesquisa Genial/Quaest: como fechar a boca do jacaré?

Teria sido sido melhor que a nova pesquisa Quaest (ver ao final) fosse divulgada no dia primeiro de abril.

Assim fora, certamente teria prevalecido a graciosa performance dos violinistas do Titanic.

Mas como a pesquisa saiu hoje, 2 de abril, as reações entre os dirigentes petistas com quem tenho contato foram mais equilibradas.

Entre essas reações, cito três.

A encantadora tranquilidade dos que continuam seguros de que estão fazendo a coisa certa e que, portanto, depois de amanhã tudo será melhor do que anteontem.

O silêncio atordoado dos que não sabem o que fazer, quase em compasso de espera para o desespero e/ou a depressão.

E o entusiasmo frenético pela bala de prata, aquela medida que supostamente vai virar o jogo.

Embora compreenda a lógica de cada uma destas posições, estou na turma minimalista, adepta do manual do mochileiro das galáxias: não entrar em pânico e seguir o protocolo. 

Para começo de conversa, fazer algo que não fazemos há meses, para não dizer anos: convocar uma reunião presencial do diretório nacional do PT, com dois dias de duração, para fazer uma análise da situação e discutir como reagir.

Afinal, está óbvio que nosso governo precisa de ajuda. Mas para dar esta ajuda, para que o Partido cumpra seu papel, é preciso que a direção nacional comece fazendo algo óbvio: encontrar, refletir e deliberar. 

É preciso por fim ao modus operandi que vem de antes, mas foi aprofundado durante e depois da pandemia, a saber: o de fazer reuniões pro forma da direção nacional do Partido, onde o debate político é mal feito, resultando em resoluções elaboradas e aprovadas no afogadilho, que as vezes parecem ter como principal objetivo demonstrar que a maioria do Diretório apoia inclusive os erros do governo.

Isto posto, acerca do mérito, a pesquisa confirma o curso das anteriores, a saber, crescimento da desaprovação. Comprovando que existe um problema político, não apenas um problema de comunicação. Motivo pelo qual, como já dissemos algumas vezes, a situação tenderia a piorar antes de melhorar. 

Uma dúvida é: vai mesmo melhorar? E ainda: melhorará o suficiente e em tempo hábil para vencermos as eleições de 2026?

Em tese, sim. Podemos vencer em 2026. Aliás, podemos vencer em melhores condições do que em 2022.

Entre outros motivos porque parte expressiva da insatisfação está entre os que votaram em Lula em 2022, assim como entre os que não votaram em ninguém. Portanto, pessoas que podem ser mais facilmente conquistadas do que o eleitorado do cavernícola. 

Mais “fácil” apenas e tão somente se tivermos a disposição de polarizar contra o neoliberalismo das duas direitas, tanto da tradicional quanto da extrema. Especialmente em momentos de crise, sem polarização e tesão não haverá solução nem salvação para a esquerda!

Mas para melhorar o suficiente e em tempo hábil, é preciso - entre muitas outras coisas - disposição para dar cavalo de pau na linha política do governo. 

Além de ser necessário parar de acreditar que existe, em algum lugar, alguém que supostamente sempre acerta e cuja proverbial genialidade vai nos tirar dos palpos de aranha. 

A inteligência coletiva do petismo saberá fechar a boca do jacaré.


Copio e colo abaixo um “fio” do Felipe Nunes, publicado no X. Não por concordar, mas por dar um quadro sintético da coisa toda:



1/ Pesquisa Genial/Quaest mostra que a desaprovação do governo Lula foi de 49% para 56% entre jan/25 e mar/25; enquanto a aprovação caiu de 47% para 41%. O esforço de comunicação com o anúncio de novas medidas ainda não gerou os efeitos positivos na popularidade do governo. Segue o fio pra entender as razões…

2/ A queda na aprovação aparece de forma simétrica em todas as regiões do país. No Nordeste, principal reduto eleitoral de Lula, a vantagem que era de 35 pp caiu para 6 pp entre Dez/24 e Mar/25. No Sudeste, a desaprovação está 23 pp maior que a aprovação. No Sul, a diferença é de 30 pp.

3/ Entre as mulheres, é a primeira vez que a desaprovação chega a 53% e supera a aprovação, que está em 43%. O gap eleitoral entre homens e mulheres foi decisivo para a vitória de Lula em 2022. Entre os homens, a desaprovação cresceu e chegou a 59% e a diferença de gênero diminuiu.

4/ A aprovação está em 34% para quem tem renda familiar de mais de 5 salários, em 36% para quem tem renda de 2 a 5 SM e chegou a 52% para quem tem renda de até 2 salários. O impressionante, neste caso, é a mudança drástica nesse último grupo. A vantagem em aprovação que já foi de 43 pp em jul/24, está em 7 pp.

5/ Na comparação entre os tipos de eleitores, a desaprovação ao governo Lula chegou a 92% entre eleitores do Bolsonaro, a 62% entre quem não foi votar ou votou branco/nulo, e a 26% entre os eleitores de Lula. Há, portanto, 1/4 do eleitorado de Lula insatisfeito com o seu governo neste momento.

6/ Parte da explicação para a alta desaprovação do governo está na quebra de confiança do eleitorado com o presidente Lula. Além de não conseguir cumprir as promessas de campanha, cada vez menos gente vê o presidente como bem intencionado.

7/ E ao contrário do que acontecia no passado, aumentar a exposição de Lula por meio de entrevistas e eventos não tem conseguido produzir melhora na percepção sobre o presidente. Metade do país acredita que tais aparições tem piorado a percepção sobre ele.

8/ A incapacidade de reverter o quadro de desaprovação também é fruto da piora na percepção sobre a economia. No último mês, saiu de 39% para 56% o percentual que afirma que a economia piorou no último ano.

9/ Boa parte dessa percepção negativa está relacionada ao alto patamar do preço dos alimentos nos supermercados…

10/ ...ao aumento na percepção de que os combustíveis estão mais caros nos postos de gasolina…

11/ ...o que produz uma percepção generalizada de que o poder de compra dos brasileiros hoje é menor do que era a um ano atrás.

12/ Soma-se a esses fatores a baixa eficácia política dos programas de governo. Embora 67% dos brasileiros reconheçam que algum programa do governo impacta de forma positiva sua vida hoje, com destaque para o Bolsa Família…

13/ ...a maioria acredita que os programas sociais do governo são direitos, que não serão retirados por nenhum governo. Ou seja, acabam virando políticas de Estado, que existirão independentemente do governo de ocasião. É o processo de extinção da gratidão automática.

14/ Mas será que Lula consegue virar esse jogo? Considero crucial para essa virada que o governo consiga mudar a percepção majoritária da população de que o Brasil está indo na direção errada.

15/ Além disso, Lula terá que fazer um governo diferente do que vem fazendo nos últimos 2 anos se quiser mudar esse quadro tão negativo. Não dá pra continuar com as mesmas soluções se quiser alcançar resultados distintos.

16/ Há duas medidas concretas que foram tomadas recentemente pra tentar mudar esse quadro. Primeiro veio a extinção na taxação de alimentos importados. A medida ainda não é tão conhecida e divide o eleitorado sobre sua eficácia

17/ Entre quem desaprova o governo, 37% acreditam que a medida vai ajudar a reduzir os preços dos alimentos. Mesmo não sendo a maioria, se fizer efeito na percepção, pode alterar a avaliação de um grupo numericamente significativo.

18/ A outra aposta do governo é a reforma da renda. A expectativa de 23% dos brasileiros é que eles sejam integral ou parcialmente beneficiados pela proposta de isenção do governo. Estamos falando de aproximadamente 46 milhões de pessoas que tem a expectativa de algum benefício.

19/ Entre quem acredita que vai passar a ser isento, metade espera que a melhora da renda seja significativa. Entre quem acredita que vai ser parcialmente beneficiado, 35% esperam uma melhora significativa da renda a partir do novo benefício.

20/ A outra parte da proposta tem amplo apoio popular: quase 60% dos brasileiros concordam com a tributação adicional de 10% para quem ganha altos dividendos.


sábado, 29 de março de 2025

Edinho e a selfie com Bolsonaro

Uma parte da tendência Construindo um Novo Brasil realizou, na sexta-feira 28 de março, uma reunião para dar apoio a pré-candidatura de Edinho Silva à presidência nacional do PT.

Há controvérsias sobre as consequências práticas do conclave. Uns falam que teria sacramentado o lançamento de duas chapas da CNB, outros dizem que teria acelerado a costura de um acordo entre as partes. Em qualquer dos casos, parece existir muito ressentimento acumulado.

Quanto à política que embasa a existência de duas ou mais “bandas” na CNB, recomendável ouvir no Instagram os “melhores momentos” do discurso feito no conclave por Edinho, para quem “derrotar o fascismo” ocupa lugar importante. 

É interessante contrastar esse “bordão” com a posição que o hoje pré-pré-candidato assumiu em 2022, quando propôs que Lula e Bolsonaro tirassem uma foto juntos, com o fito de “baixar a temperatura”.

Embora na época tenha lido a insólita proposta, apaguei a lembrança até que a provocação de alguém mais atento me fez ir atrás e confirmar.

Os bastidores não sei, só sei que foi publicado assim no UOL dia 4/11/2022:  Edinho disse que “o presidente Lula tem que tomar posse no ambiente de estabilidade institucional. Temos que criar as condições para tanto. Eu defendo que se abra um amplo diálogo com as próprias forças que foram derrotadas (…) Isso não é sequer consenso no meu partido, mas é a minha posição. Se existiu uma foto de Fernando Henrique e Lula na transição de 2002, por que nós não podemos construir essa foto agora com Bolsonaro e Lula, mostrando ao país que existe uma transição madura, adulta, dentro de um ambiente democrático? Isso seria um gesto que efetivamente baixaria a temperatura do Brasil".

Edinho comparou esta sua proposta com o que supostamente teria sido feito pelo “ex-chanceler alemão Konrad Adenauer, [que] quando foi empossado, se encontrou com lideranças do nazismo para depois destruir o nazismo. Do ponto de vista histórico, o encontro Lula e Bolsonaro pode ser importante e não significa nenhuma concessão".

Na história que estudei, Adenauer não “destruiu o nazismo”, muito antes pelo contrário. Mas o mais importante é que - como ficou demonstrado pelas investigações do STF - no momento em que Edinho queria fazer uma foto, Bolsonaro e os seus estavam (como seguem estando) numa vibe pouco amigável, digamos assim. 

Edinho aprendeu a lição? Pela ênfase beirando a temerosa que ele dá ao fascismo, pareceria que sim. Mas suas declarações acerca da “polarização” & outros assuntos mostram que ele segue não entendendo que para “destruir o nazismo” é preciso um partido para tempos de guerra, onde ninguém ache boa ideia fazer selfie com fascista.

O artigo citado pode ser lido aqui:

https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2022/11/04/coordenador-petista-defende-foto-de-lula-com-bolsonaro-transicao-madura.htm





quarta-feira, 26 de março de 2025

Juliano Medeiros e as armas

Viva Vera Colson Valente!

Vida eterna a todas e todos que lutaram contra a ditadura!

E pena, muita pena daqueles que acham necessário ressalvar a forma da resistência, como se isso a tornasse menos ou mais legítima.

Contra uma ditadura militar, toda forma de resistência é legítima, inclusive a armada!





segunda-feira, 24 de março de 2025

A grana e a luta "interna" da CNB

Saudades dos tempos em que nos engalfinhávamos publicamente em torno da estratégia, do programa, da tática, da política de alianças.

Agora para alguns a pauta principal é outra: o fundo eleitoral, o fundo partidário, a grana.

Não deixa de ser uma homenagem torta ao Lênin, que dizia algo mais ou menos assim: organização é política concentrada e política é economia concentrada. Mas tenho a impressão de que, ao falar de economia, Lênin tinha em vista algo um pouco mais amplo do que a tesouraria do Partido.

Saudades dos tempos, também, em que a luta interna se dava entre as chamadas esquerda e direita do Partido. Hoje, grande parte da disputa pública está se dando entre dois setores da CNB, que ao menos aparentemente estão de acordo quanto à linha política, mas também aparentemente divergem quanto ao controle da tesouraria.

Destaco o aparentemente, porque é óbvio que também existem divergências políticas. Mas infelizmente para eles e para o Partido, não é isso que sobressai, como se pode ler nas imagens que ilustram este texto.

Estou entre aqueles que acham legítimo debater as finanças do Partido. Mas é preciso fazer o debate de conjunto. Por exemplo: além de debater o que fazer com os fundos públicos, é preciso debater como reconstruir as finanças militantes.

Nosso partido tem 3 milhões de filiados. Com uma pequena doação de cada um, seria possível arrecadar uma soma muitas vezes maior do que o fundo partidário. Isso nos permitiria fazer mais política nos anos ímpares e, óbvio, chegar em melhores condições nos anos pares. Mais importante ainda, ter finanças militantes nos libertaria da dependência em relação ao Estado. Sem falar do constrangimento implícito na defesa de um fundo eleitoral bilionário e, também, do erro político que consiste em defender que partidos recebam recursos públicos para seus gastos cotidianos.

Infelizmente a CNB apoiou, no congresso partidário realizado em 2015, uma resolução que eliminava a obrigatoriedade da contribuição militante, que passou a ser restrita a apenas alguns segmentos do Partido. A CNB quer debater as finanças partidárias? Então sugiro começar pelo começo, reconstruindo nossas finanças militantes.

A CNB, ou uma parte dela, considera que há problemas na distribuição do fundo partidário e do fundo eleitoral? Perfeito, debate legítimo e necessário. Mas que tal começar admitindo ser inaceitável que desde 1995 uma mesma e única tendência controle a tesouraria? Explico: desde 1995, o setor do Partido que hoje usa o nome de CNB já abriu mão de todos os cargos partidários, já abriu mão até mesmo da presidência do Partido. Mas nunca, nunca, absolutamente nunca abriu mão da tesouraria.

No congresso do PT realizado em 2017, diante da enorme gritaria contra este monopólio, a CNB aceitou a instituição de algum tipo de controle. Mas o tesoureiro da época esvaziou este controle e absolutamente nada mudou. Portanto, no que me diz respeito, o principal problema existente na condução da secretaria não está nesta ou naquela pessoa, nesta ou naquela decisão: o problema está no monopólio da CNB. 

A tudo isso adiciono outra questão: a tentativa que faz uma parte da bancada de deputados federais, de assumir o controle do fundo eleitoral. Há outras questões que precisam ser debatidas quando se fala de finanças, mas paro por aqui.

Entretanto, para não dizer que não falei de flores: o presidente Humberto Costa afirmou - em entrevista ao jornal Valor, conforme matéria publicada no dia 24 de março - que "todos os atos da Secretaria de Finanças nas eleições foram votados e referendados pelo diretório nacional e pelo GTE". Há pelo menos um caso em que isto não ocorreu: a doação feita à Marta Suplicy, para ajudar na campanha de Boulos.

Havia divergências no GTE, ficou combinado que seria convocada uma reunião da executiva do Partido para deliberar. Mas antes que a reunião da executiva ocorresse, a transferência financeira foi feita. Dado o montante envolvido (dezenas de milhões de reais) e dada a divergência, é um escândalo que isso tenha sido feito desta forma. Mais escandaloso ainda fica, quando lembramos que bastaria convocar uma reunião virtual da executiva. 

Entretanto, vejam que curioso: neste caso o atropelo não foi cometido apenas pela atual tesoureira ou apenas por um setor da CNB. O atropelo foi cometido pelo conjunto da CNB, que agiu com base na teoria da maioria presumida. O que só confirma o que foi dito antes: o problema está no monopólio, monopólio que vem desde 1995. E o uso do cachimbo, como se sabe, deixa a boca torta.










 



domingo, 23 de março de 2025

Edinho e o fascismo

Nos dias 21 e 22 de março, o companheiro Edinho Silva esteve em Aracaju (SE). 

O tema central do discurso de Edinho foi o “fascismo”.

O problema central do discurso é que Edinho não respeita a premissa que ele próprio estabeleceu, a saber: “a gente não pode errar no diagnóstico”.

Edinho comete diversos erros no diagnóstico do fascismo e, portanto, erra no procedimento que propõe ao Partido.

Alguns dos erros de diagnóstico escapam da minha compreensão; é o caso, por exemplo, de suas afirmações sobre o sindicalismo e sobre o símbolo adotado pelos fascistas italianos nos anos 1920. 

Disse Edinho: “como nasce o fascismo? nasce no movimento popular nasce numa articulação do movimento sindical italiano aquele feixe que é o símbolo do fascismo é o símbolo do movimento sindical italiano”.

[estas e outras transcrições são de minha responsabilidade e podem conter alguns erros, mas nada que altere o sentido do que foi dito]

Mas o que realmente importa é o que Edinho não disse.

Edinho não disse uma palavra sobre a guerra mundial, que foi decisiva no surgimento da “primeira geração” do fascismo e do nazismo. 

Edinho também não falou nada sobre o ascenso revolucionário ocorrido - tanto na Alemanha quanto na Itália - depois da Grande Guerra. Foi em parte como reação a este ascenso que a classe dominante passou a financiar e a apoiar o fascismo e o nazismo.

E aí está outro silêncio de Edinho: zero referência sobre o papel das classes dominantes na ascensão da extrema-direita. 

O curioso é que Edinho fala da crise de 1929, mas não fala do que fizeram as classes dominantes frente àquela crise. Sua “análise” resume-se ao seguinte: “o mundo empobrece e nasce um nacionalismo de direita e o fascismo vai crescendo, crescendo”.

E quando fala do “que caracteriza o fascismo”, Edinho (supostamente apoiado em Gramsci) diz o seguinte: “culto à personalidade”, “expansionismo, portanto imperialismo, ocupar outros territórios a não aceitação do diferente e uma concepção extremamente autoritária”. E quem “eram os diferentes" na primeira metade do século XX? Eram "os imigrantes, os ciganos e os judeus”.

Nessa caracterização, desaparecem totalmente o capital e o trabalho. E desaparecem a esquerda, o socialismo, o comunismo, o marxismo, que também foram alvos prioritários do ataque da extrema-direita.

Finalmente, mas não menos importante, Edinho não fala nada sobre como o nazifascismo assumiu o controle institucional e depois total do Estado italiano e alemão. Nem fala sobre como o nazifascismo surgido nos anos 1920 foi derrotado. 

Dos anos 1920 Edinho pula para o início do século 21, dizendo o seguinte: a “crise econômica de 2008 (…) é uma crise longa do capitalismo e o que que acontece no pós 2008? O capitalismo, os capitalistas do começo do século XXI diziam não existe mais estado nacional, a dinâmica do capitalismo vai se dar pelas grandes corporações, são as grandes empresas do planeta que vão dar a dinâmica do capitalismo (...) o conceito de globalização é derrotado, a crise do capitalismo derrota o conceito de globalização. E o que que emerge com a derrota do conceito de globalização? …um nacionalismo xenofóbico”.

Não estou seguro de que eu tenha conseguido entender o que Edinho disse ou quis dizer. Mas tenho certeza acerca do que ele não disse: não há uma única palavra acerca do papel jogado pela China, pela Rússia, pelo Brasil, pela América Latina, pelos BRICS.

Certo ou errado, o “diagnóstico” de Edinho se limita a Europa e aos Estados Unidos. 

Talvez por isso ele não se dê conta de que sua crítica ao “nacionalismo xenofóbico e racista” presente nos slogans “Itália pros italianos a Espanha pros espanhóis a França pros franceses a Inglaterra pros ingleses  a Alemanha pros alemães e os Estados Unidos pros americanos e assim por diante” poderia ser estendida ao slogan “Brasil é dos brasileiros”.

Mas há outras limitações no diagnóstico de Edinho. Por exemplo: ele simplesmente não trata da dimensão econômica do que ele chama de nacionalismo xenofóbico e fascista. 

Sua caracterização do fascismo - culto a personalidade, expansionismo, não aceitação do outro e autoritarismo - omite completamente os interesses econômicos envolvidos.

Essa omissão, como é óbvio, é bastante confortável para quem mantém ou pretende manter boas relações com o capital financeiro e com o agronegócio. Assim como é conveniente para quem deseja manter boas relações com a direita neoliberal tradicional.

Nesse particular, chega a ser tocante ver a passada de pano que Edinho dá em Macron (“o Macron faz piruetas na França para que os fascistas não se tornem maioria no parlamento francês”)  e nos Democratas gringos (“a ofensiva do Trump contra o partido democrata americano é algo inédito na história dos Estados Unidos, ele foi pra cima pra aniquilar o partido democrata, que é uma instituição secular”). 

Na vida real, precisamos lembrar, Macron e Biden pavimentaram o caminho para a extrema-direita. 

Edinho diz que o “erro" do "mundo democrático” foi achar que “o Trump estava enterrado”. Da minha parte, acho que o erro de parte da esquerda (inclusive Edinho) foi e pelo visto segue sendo não perceber que Trump e outros iguais a ele expressam uma tendência do capitalismo contemporâneo. 

Perceber isto leva a seguinte conclusão: a presença de uma grande mobilização anticapitalista aumenta as chances de vitória da luta contra o neofascismo.

Dito de outra forma: se queremos triunfar, não basta contrapor democracia versus neofascismo. Aliás, se adotarmos o “procedimento” proposto por Edinho, o que aconteceu nos Estados Unidos - o regresso da extrema direita - tem grandes chances de também acontecer aqui no Brasil.

De maneira geral, o raciocino de Edinho me recorda aquela frase: “ouviu o galo cantar e não sabe aonde”. 

Por exemplo: Edinho comenta a relação entre “as mobilizações de junho de 2013” e a “criação do bolsonarismo”. E diz que - “via redes sociais” - aquele movimento girou para a direita. Edinho omite completamente o papel da Rede Globo naquele episódio. 

Outro exemplo: Edinho diz que “a gente vê o momento de junho de 2013 sendo a base da direita que se mobiliza contra a reeleição da Dilma e dá sustentação pro golpe”. Edinho esquece que entre 2013 e 2016 nós vencemos a eleição de 2014. E omite que em 2015 implementamos uma politica econômica ortodoxa que confundiu, desmobilizou e dividiu nossa base, facilitando a ação dos golpistas.

As omissões de Edinho, como se vê, são frequentes. Ele geralmente esquece de tudo que contradiz a linha politica que sua tendência defende.

Por exemplo: a “teoria” de Edinho sobre a “direita anti-sistema”. 

Qualquer análise séria sobre o tema deveria reconhecer que a extrema-direita está profundamente enraizada e apoiada em instituições totalmente sistêmicas: as polícias, as forças armadas, as igrejas, os meios de comunicação, as empresas, o congresso nacional, a burocracia de Estado. 

Mas como Edinho quer ser o campeão do “sistema”, ele não pode reconhecer que o neofascismo é um dos filhos do grande capital com as instituições do Estado.

Um segundo exemplo: a “crise na democracia representativa”. 

Edinho fala da superfície do problema - as abstenções, a descrença popular etc.- mas não se pergunta sobre as causas de fundo. Entre as quais a incompatibilidade entre capitalismo e democracia popular, especialmente nos momentos de crise.

Com um diagnóstico tão cheio de lacunas, não admira que Edinho diga tolices como a seguinte: “em 2018 elege um presidente da república com 25 segundos de televisão e sem nenhuma aliança num voto anti-sistema, num voto contra o sistema”. 

A verdade é outra: o cavernícola foi eleito pelo sistema, parte dele pelo menos, contra nós. O discurso anti-sistema foi, digamos assim, uma ferramenta política utilizada para cooptar setores da classe trabalhadora e para confundir dirigentes que tem mais empáfia que estofo.

O único remédio contra a demagogia antisistêmica da extrema-direita é a sinceridade antisistêmica da esquerda. Nós somos anti-sistema e devemos agir de acordo com isso. 

Seja como for, como Edinho não conseguiu diagnosticar o problema, tampouco consegue explicar corretamente nossa vitória de 2022. 

Segundo ele: “impusemos uma derrota ao fascismo porque era o Lula e porque era o Brasil pós pandemia, porque o bolsonaro errou terrivelmente na pandemia”.

Ser o Lula ajudou, óbvio. Mas por que os mesmos que prenderam tiverem que soltar Lula? Por que parte dos golpistas de 2016 se aliou aos então golpeados? A resposta não é apenas nem principalmente a política do cavernícola na pandemia. A resposta está, ao menos em parte, nas contradições no interior da classe dominante. 

Ademais, Lula ajudou na vitória por qual motivo? É óbvio que pesou a reação popular contra a economia política ultraliberal. O que deveria nos levar a ganhar total distância de qualquer tipo de austericidio neoliberal. Assunto que não aparece no discurso de Edinho.

Edinho fala de racismo, de homofobia, de machismo, de misoginia. Mas não fala nada acerca do neoliberalismo, do capital financeiro, do agronegócio. E quando fala de algo correlato, Edinho erra na mão. 

Exemplo: segundo Edinho, o “pior” do bolsonarismo seria não permitir e não aceitar a “ascensão social”. A rigor, a extrema direita defende um tipo de ascensão social: meritocrática e baseada na prosperidade exclusivamente individual. 

Isto tudo posto, Edinho conclui que “o PT tem que estar mais organizado do que ele está hoje para enfrentar e derrotar o fascismo”. Isto é verdade, mas está muito longe de ser toda a verdade. A rigor o PT precisa estar mais organizado para derrotar o neoliberalismo, seja na vertente  neofascista, seja na vertente direitista tradicional.

No discurso de Edinho em Aracaju, é como se o neoliberalismo não existisse. Ou, se quisermos falar do mesmo assunto, mas a partir de outro ângulo, é como se não existissem a hegemonia do capital financeiro e do agronegócio, em consórcio com o imperialismo. 

Para além deste torcicolo estratégico, Edinho adota um procedimento irresponsável: ele fala dos problemas do PT como se ele e sua tendência não fossem os principais responsáveis pelos problemas que cita.

Por exemplo: “não existe partido forte se as instâncias não funcionarem, para o partido ser forte tem que ter democracia interna, para ter democracia interna as instâncias tem que funcionar, diretório tem que se reunir, executiva tem que se reunir e o partido tem que ter organização popular”; “temos que perguntar por que nós estamos perdendo base social e base eleitoral”.

Ao invés de falar da linha política e organizativa hegemônica no Partido, Edinho faz uma catilinária diversionista sobre “o processo de modernização do sistema produtivo", "a robótica avançou as novas tecnologias”. 

Claro que o tema é muito relevante, mas não é a IA nem a uberização que explicam o déficit organizativo do Partido. 

Tanto isto é verdade que Edinho corretamente defende medidas “nostálgicas”, que poderiam estar sendo implementadas se o grupo atualmente hegemônico no Partido e ele próprio não tivessem adotado o método de falar uma coisa e fazer outra. 

Outro exemplo deste discurso de PED é a crítica que Edinho faz acerca da relação entre mandatos e instâncias.

Registre-se que, sobre o chamado mundo do trabalho e sobre o sistema prisional, Edinho emite várias opiniões  corretas. Assim como ele está certo ao falar da importância da economia solidária. Mas de nada adianta falar de economia solidária e não falar nada contra o capital financeiro, contra o agronegócio. Ou nada falar a favor da industrialização.

No fundo, Edinho capitula frente a atual correlação de forças. E como capitular é politicamente incorreto, ele tenta naturalizar o status quo

Um exemplo dessa naturalização é o seguinte: "muitas vezes a gente fica reclamando do governo do presidente Lula (…) o governo do presidente Lula é um governo de coalizão (…) o Brasil não é mais presidencialista, nós não somos mais presidencialistas, quando o congresso executa mais de 50 bilhões em emendas esse regime é qualquer coisa menos presidencialista (…) como é que você volta para trás e traz de novo a capacidade de execução orçamentária para a mão do executivo? só se fizer uma reforma constitucional, mas se for fazer uma reforma constitucional hoje o Brasil será pior do que hoje, porque o Chile a gente viu isso, o Chile foi fazer uma reforma constitucional, o Chile saiu mais de direita do que era, então nós não temos correlação de força para fazer reforma constitucional, portanto a gente vai viver o próximo período em um governo de coalizão”.

A lógica é paralisante: a direita está cometendo uma ilegalidade, esta ilegalidade causa imensos danos, mas se tentarmos acabar com isso a coisa pode piorar, logo vamos atuar nos marcos das coisas como elas são. E como faríamos isso?

Edinho diz assim: "governo de coalizão é um governo onde vários partidos estão nos ministérios, a pergunta que a gente tem que fazer é qual é o papel do PT no governo de coalizão, o papel do PT é disputar os rumos do governo via os nossos parlamentares que são parlamentares combativos".

Confesso que é impressionante ouvir isso: vamos disputar o governo através de nossos parlamentares. Zero menção a pressão e mobilização social, zero menção a ação do próprio governo, que tem muita margem de manobra.

Edinho, corretamente, cita bandeiras do Partido que devem ser defendidas. Mas ele diz assim: "temos que pautar no governo a universalização da educação integral, que a gente coloque até 2035, não sei quando, mas coloque lá que o Brasil vai ter educação integral (...) mesmo que a gente tome pau na comissão de justiça, tome pau na comissão de finanças, mas até o projeto morrer a gente já fez 20 audiências públicas, nessas 20 audiências públicas que nós vamos levar o debate pra dentro do congresso".

Sobre o tema das creches, Edinho diz assim: "eu acho que a gente tem que ir pra dentro do congresso e debatermos com os nossos parlamentares".

Ou seja: vamos disputar o governo de coalizão no congresso e através do Congresso. Zero menção à pressão social, à mobilização popular. Não sei como, agindo desta forma, vamos conseguir "polarizar com o fascismo".

Para não dizer que não falei de flores, Edinho diz que o tema da segurança pública deve ser discutido "com a sociedade brasileira, porque se nós tivermos uma agenda, a gente fura a bolha da polarização que hoje é como se a gente vivesse num grande estádio de futebol de um lado a torcida A grita do outro lado a torcida B grita e a gente fica vendo quem é que grita mais alto e num estádio onde todo mundo grita ninguém conversa, e onde não conversa ninguém convence a gente precisa convencer quem votou no Bolsonaro na última eleição a gente tem que convencer da nossa proposta e aí nós temos que conversar".

Claro que devemos conversar. Mas a polarização que existe na sociedade não vai desaparecer, se nós da esquerda conversarmos. A polarização é um efeito colateral da crise do capitalismo, mais precisamente da estratégia que o grande capital adotou frente a esta crise, a saber: aumentar a exploração do trabalho. É isso que causa polarização. Não há "conversa" que resolva isto. O grande capital e quem os representa na disputa política precisam ser derrotados.

Portanto, uma coisa é a necessidade de "conversar" com o conjunto da classe trabalhadora, inclusive com aqueles que votam e apoiam nossos inimigos. Outra coisa é a postura que devemos adotar frente ao grande capital e a seus representantes. Aqui fica evidente o problema criado quando, na análise do fascismo, Edinho omite totalmente a relação entre a extrema-direita e a classe dominante.

Edinho terminou seu discurso dizendo que "o centro da nossa tática é a gente derrotar o fascismo em 2026" e que "só tem uma figura capaz de derrotar o fascismo é o presidente Lula".

Curiosamente, Edinho incorre aqui no erro que ele diz ter criticado num texto elaborado em 2018. A saber: derrotar o fascismo é uma coisa, derrotar eleitoralmente o fascismo é outra coisa. Óbvio que precisamos vencer em 2026, óbvio que Lula é nossa melhor candidatura. Mas deveria ser óbvio, também, que para derrotar o fascismo, é preciso fazer muito mais do que vencer eleições, é preciso fazer muito mais do que administrar.

Infelizmente, desse muito mais que é preciso fazer, Edinho só fala de uma: "pra derrotar o fascismo o PT sozinho não consegue", "o PT sozinho não derrota o fascismo". Isto é verdade. Mas a questão é: a depender das alianças que façamos, a depender do programa adotado, não criaremos as condições econômicas, sociais e políticas necessárias para derrotar o fascismo.

Dizendo de outra maneira: aqui no Brasil, o fascismo se alimenta do neoliberalismo, o fascismo defende bandeiras neoliberais. Por isso, se queremos derrotar o fascismo, é preciso derrotar o neoliberalismo. E isso impõe limites às alianças que podemos fazer.

Assim, o problema para "nossas gerações" vai além de "derrotar o fascismo no Brasil". Se queremos derrotar a extrema-direita, teremos que enfrentar o capitalismo realmente existente no Brasil,  a começar pelo capital financeiro e o agronegócio.

Se queremos "ter unidade", se queremos caminhar "com um único projeto e um único objetivo", se queremos ser não um partido "democrata" e "progressista", mas sim um partido das trabalhadoras e dos trabalhadores, então é preciso atacar o fascismo, mas também o capitalismo realmente existente em nosso país.