quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Avritzer, Borba Gato, a violência e a democracia

Leonardo Avritzer, professor de ciência política da UFMG, escreveu um artigo polemizando com Vladimir Safatle em torno da defumação de Borba Gato.

O artigo de Safatle foi publicado no dia 26 de julho e pode ser lido aqui: 

https://brasil.elpais.com/opiniao/2021-07-26/do-direito-inalienavel-de-derrubar-estatuas.html

O artigo de Avritzer foi publicado no dia 30 de julho de 2021 e pode ser lido aqui: 

https://www.brasil247.com/blog/bastilha-e-borba-gato

A réplica de Safatle pode ser lida aqui:

https://www.brasil247.com/blog/da-arte-de-nao-enxergar-o-fogo

Não sei se Avritzer escreveu novamente sobre o tema.

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No artigo supracitado, Avritzer lembra que “a destruição ou remoção de estátuas de personagens violadores de direitos ou símbolos das desigualdades” é um ato similar ao que tem sido praticado em outros lugares do mundo. 

Lembra também que os bandeirantes eram “bárbaros que detinham exércitos privados e escravizavam indígenas” e que são “parte central da narrativa paulista”.

Concorda, portanto, que “a estátua [de Borba Gato] materializa o discurso oficial (...) que procurou ignorar os crimes dos bandeirantes”.

Até aí, 100% de acordo.

Nesse ponto, entretanto, Avritzer afirma o seguinte: "Não há dúvidas que cabe um questionamento a Borba Gato e aos bandeirantes. A pergunta é: qual a linguagem desse questionamento e se a utilização da violência como método é a linguagem correta da disputa histórica”.

(Só mesmo no lúdico ambiente acadêmico seria possível discutir a “violência como método” nestes termos: “linguagem correta da disputa histórica”).

Segundo Avritzer “a violência não é uma categoria da política e quanto mais a política a utiliza, mais problemas ela terá na construção de uma ordem democrática posterior”. 

Talvez no mundo tal-como-deveria-ser de Avritzer a violência não seja uma categoria da política; mas no mundo da política tal-como-ela-é a violência é sim parte integrante da política, como bem resumiu um cidadão “acima de qualquer suspeita” como Weber, para quem a essência do Estado é o monopólio da violência.

Portanto, a primeira parte da frase de Avritzer só teria algum sentido se fosse reescrita como um desejo, algo mais ou menos assim: “a violência não deveria ser uma categoria da política”.

E realmente seria muito mais saudável fazer política num mundo onde só existisse a força dos argumentos, onde o argumento da força estivesse totalmente proscrito. 

Bom motivo, por sinal, para lutar por uma sociedade “sem Estado, sem classes, sem opressão, sem dominação nem exploração de nenhum tipo”.

Mas como a violência é uma “categoria” da política realmente existente em toda sociedade onde existe a luta de classes e o imperialismo, é necessário discutir o que fazer a respeito.

A resposta de Avritzer é: “quanto mais a esquerda a utiliza [utiliza a violência], mais problemas ela terá na construção de uma ordem democrática posterior”. 

Tal como está escrita, a frase descreve unilateralmente a realidade.

Afinal, há abundantes provas de que atos violentos tanto podem ajudar a limitar quanto podem ajudar a ampliar as condições de exercício da democracia.

Os golpes militares, a chamada Guerra do Paraguai, a guerra contra o terror, a violência policial na periferia e os feminicídios são alguns exemplos do primeiro tipo: limitadores.

A guerra de independência e a guerra civil nos EUA, a violência popular em 1789, as revoluções socialistas na Rússia, na China e em Cuba, e o Black Lives Matter são alguns exemplos do segundo tipo: ampliadores.

Talvez Avritzer seja unilateral na abordagem da questão, porque ele pressupõe axiomaticamente algo que simplesmente não existe: uma “ordem democrática” (portanto, um Estado) em que a “violência” não é uma “categoria” da “política”.

Na vida real, enquanto houver Estado, a política incluirá algum nível de violência. 

Portanto, se queremos intervir no mundo real, trata-se de discutir momento, forma, intensidade e – principalmente – conteúdo de classe (de quem é a violência, contra quem e a favor do quê).

A alternativa – abrir mão desta discussão, achar que a violência não é uma categoria da política – é aceitar que uma parte da sociedade tem o direito (divino?) de exercer a violência, cabendo a outra parte uma recusa por princípio. 

A única “vantagem” que esta atitude nos traria é que - derrotados por W.O. - não vamos precisar enfrentar os “problemas” sobre os quais Avritzer alerta, problemas que são reais, que aparecem não apenas na “construção de uma ordem democrática posterior”, mas também na luta aqui e agora por soberania, liberdades e direitos. 

Isto posto, é curioso que este debate sobre o papel da violência na história  - aliás, recomendo aos interessados ler o que Engels escreveu a respeito – tenha como gatilho disparador a defumação de Borba Gato.

Todo mundo sabe que parte da população de nosso país vive sob um clima de violência permanente, e isso não é de agora. Este ambiente de violência crônica se agravou depois do golpe de 2016 e da eleição de Bolsonaro. 

Parte da extrema-direita fala e uma parte dela acredita sinceramente que está se preparando um golpe da esquerda. “Argumento” parecido ao adotado em 1964. 

Neste contexto é muito sintomático que o debate sobre a violência tenha como disparador uma "ação direta" que – vamos combinar – não passou daquilo que Avritzer resume como um “acerto de contas com injustiças presentes e passadas”.

É sintomático mas é compreensível: num país em que a classe dominante não faz nenhuma concessão, em que a ditadura volta sem nunca ter ido completamente embora, qualquer ato que pareça revolucionário – e não precisa parecer ser bolchevique, basta parecer ser jacobino – causa imensa preocupação, digamos assim.

Preocupação na direita e preocupação em uma parte da esquerda.

Afinal, se o povo brasileiro resolvesse retribuir a violência de que é vítima cotidiana, a defumação pareceria brincadeira de criança.

A esse respeito, Avritzer diz o seguinte: “Trata-se sim de rever o passado e as injustiças do passado. Porém, revê-las deve necessariamente passar por categorias que não utilizam a violência porque o objetivo dessa revisão é a construção de uma ordem democrática e igualitária. Portanto, o ato de revisão e o ato de construção devem ser compatíveis e a violência não é compatível com a política democrática”.

Já observei que Avritzer está historicamente equivocado: a violência é “compatível” e uma parte inseparável da política democrática. 

Mas deixemos a história de lado e nos concentremos na política. 

Pergunto: se a esquerda agir como Avritzer sugere, a direita fará o mesmo? Se formos moderados, eles também se moderarão?  

Não concordo com parte da abordagem que Safatle dá ao problema. O esquerdismo – especialmente o estético - não resolverá nossos problemas. Mas a abordagem de Avritzer tampouco contribui para enfrentar os problemas concretos da luta contra um governo como o de Bolsonaro, nem da luta contra um capitalismo como o brasileiro. 

Não resolve porque, sem trocadilhos, nos desarma no tratamento de temas candentes como a tutela militar, a violência policial e paramilitar.

Mas não resolve, também, porque o problema de Avritzer não é com a “violência”, é com as revoluções. 

Avritzer repudia as revoluções “baseadas na violência”, que seriam incapazes de “construírem formas democráticas depois do fim dos antigos regimes”.

Confesso que é assustador ler isto, em parte porque toda a nossa tradição democrática está assentada nas grandes revoluções dos séculos 17, 18, 19 e 20, revoluções que como é óbvio envolveram alguma dose de violência, na imensa maioria dos casos tendo como gatilho disparador a violência das classes dominantes, dos contrarrevolucionários ou de potências estrangeiras.

As "formas democráticas" modernas têm origem nas revoluções "baseadas na violência".

Assusto-me, principalmente, porque não vejo a menor possibilidade de o Brasil superar as estruturas que nos oprimem – que incluem a dependência externa, a subalternidade, a desindustrialização, a política oligárquica, a destruição ambiental, a herança da escravidão, a desigualdade abissal - sem uma revolução socialista. Revolução que será profundamente democrática, mesmo que a classe dominante nos empurre para a violência.

Como se vê, Gato e a turma da "Revolução Periférica" provocaram um debate que vai muito além da defumação.

Galo livre! Brasil livre!

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Rui Pimenta e Borba Gato

O Partido da Causa Operária é um fenômeno assaz curioso. 

Os mais antigos lembram da relação tumultuada da Causa Operária com o Partido dos Trabalhadores, quando a Causa tentava atuar como uma tendência do PT.

Quem quiser saber mais a respeito desta época, pode ler aqui:

https://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/EspacoAcademico/article/download/40121/20910/

Depois de não ser reconhecida como tendência interna do PT, a Causa Operária lutou por transformar-se em Partido, conseguindo registro no TSE em 1997. 

Deste então, muita água passou por debaixo da ponte. 

Quem faz parte da tradição trotskista ou acompanha suas polêmicas, sabe que o PCO sempre foi objeto de muita controvérsia. 

Sugiro a quem quiser saber mais a respeito do PCO e da tradição "nacional trostkista" ler Osvaldo Coggiola e Valério Arcary.

Parte da controvérsia envolvendo o PCO lembra o MR8 quercista e as estridentes posições adotadas pelo jornal Hora do Povo.

Um exemplo das posições estridentes (e profundamente equivocadas) do PCO pode ser visto aqui:

https://www.causaoperaria.org.br/o-partido-da-imprensa-golpista-contra-neymar-e-a-selecao/

Outro exemplo é a defesa que Rui Costa Pimenta, presidente nacional do PCO, fez do papel histórico dos bandeirantes.

Esta defesa aconteceu no dia 27 de julho, em uma live do Brasil 247, plataforma a partir da qual Rui Costa Pimenta divulga cotidianamente sua “análise política”.

Quem quiser assistir a íntegra, pode ver aqui:

https://www.brasil247.com/brasil/bandeirantes-foram-instrumento-do-progresso-nacional-diz-rui-costa-pimenta

Segundo Pimenta, defumar Borba Gato foi algo “sem pé, nem cabeça. Tem que lutar contra a opressão que existe no mundo hoje. Porque você vai atacar um cidadão que morreu em 1718?”

Pimenta é um cara curioso. Ele acha normal elogiar Júlio César, que morreu em 15 de março de 44 “antes de Cristo”, mas acha “sem pé, nem cabeça” atacar um bandeirante "que morreu em 1718".

O caso é que “a opressão que existe no mundo hoje” inclui variáveis econômicas, políticas, militares e... culturais. 

Convencer as pessoas que o Brasil foi “descoberto”, exaltar o papel “progressista” dos bandeirantes e estimular o patriotismo paulista contribui na opressão.

O problema é que Pimenta tem uma tese. 

A tese dele no dia 27 de julho era a seguinte: “os grupos identitários que promoveram isso aí, com toda a segurança do mundo, não foi nenhum grupo periférico, não foram jovens da periferia irados, é uma política que vem da universidade, uma política de intelectuais pequeno burgueses... Revolução periférica foi para dar um ar popular para a coisa... Golpe de marketing”.

“Com toda a segurança do mundo” hoje podemos dizer que as afirmações feitas por Pimenta no dia 27 de julho estavam erradas. 

O “identitarismo” existe e, na minha opinião, pode e deve ser criticado. 

Mas a crítica de Pimenta é equivocada, pois conduz a tratar e atacar como sendo “identitária” toda e qualquer luta contra a opressão sobre negros e negras, sobre indígenas, sobre as mulheres, sobre os LGBT+.

Evidentemente, defumar Borba Gato foi uma operação que pode e deve ser analisada e criticada politicamente.

Podemos concordar ou não com o que foi feito, podemos achar que foi feita no dia certo ou não, da forma certa ou não. 

Mas Pimenta, igual a Aldo Rebelo, Renato Rovai e Gilberto Maringoni, vai além da análise política e embarca numa digressão histórica.

Segundo Pimenta: “Criaram um mito, um judas de malhação, os bandeirantes. Não sei por que direito eles selecionaram os bandeirantes, que teriam sido os vilões da história do Brasil, os menos vilões são esses aí”.

Pimenta pode achar a resposta em... Pimenta.

Afinal, o “porquê” aparece quando o próprio Pimenta deixa escapar a seguinte frase: “Eu sou paulista e paulistano, aqui em SP o bandeirantismo é o símbolo do estado de São Paulo”.

Este é o porquê: a classe dominante criou um mito e as classes dominadas precisam enfrentar este mito. 

Pimenta não entende o porquê disto, pelo simples fato de que “ele é paulista e paulistano e aqui em SP o bandeirantismo é o símbolo do estado”. 

O entusiasmo de Pimenta fica claro na sequência de sua argumentação: “Napoleão é uma pessoa crucial na história da humanidade ... foi um fator de progresso”. E o que foram os bandeirantes, também segundo Pimenta? Um fator de progresso!

O chouvinismo é mesmo uma praga, embora as vezes soe meio ridículo, como me parece ser o caso de quem discute Borba Gato à luz de Bonaparte.

Mas como a história real é muito cruel, Pimenta tem que se refugiar no seguinte raciocínio: “Os bandeirantes são figuras contraditórias.... Não se sabe muito bem o que os bandeirantes fizeram ou foram.... Precisaria de uma pesquisa maior”.

Claro que tudo merece uma pesquisa maior. 

Mas qualquer um que conheça a história - por exemplo do Quilombo dos Palmares - sabe o que foram e o que fizeram os bandeirantes.

Como diz Pimenta, “a construção da nação também é luta de classes, tudo é luta de classes”. 

E ao contar a história, também assumimos um lado. 

De que lado Pimenta está? De Palmares ou dos bandeirantes?

Pimenta afirma que “a construção da nação brasileira, um país deste tamanho, é em certo sentido produto da luta de classes, é um progresso que foi alcançado apesar de toda pressão contrária... Para o colonialismo, para o imperialismo, o ideal é que as nações oprimidas sejam pequenas e fracas... O Brasil é um país grande e isso é um progresso muito grande... A obra dos bandeirantes e eles não tinham consciência disso, a expansão foi um progresso muito grande, eles foram instrumentos do progresso econômico nacional, abriram caminho para a construção do Brasil, sem o Brasil a América Latina seria muito mais oprimida do que é hoje, o Brasil é um estorvo para a dominação política, como a China, como a Índia”.

Como se vê, na hora de criticar os bandeirantes, Pimenta diz que falta pesquisa histórica. 

Mas na hora de defender os bandeirantes, lança mão dos lugares comuns ensinados pela elite de São Paulo: “os bandeirantes foram instrumentos do progresso” e o progresso consiste em ser "grande".

Big is beautiful!

Minúsculos out!!

Esta maneira de compreender o passado e a geopolítica mistura várias coisas.

Vou falar de uma.

O fato de que o “progresso” -até o momento – ser em grande parte resultado de sangue, de lama, de suor e de sofrimento, inclusive de exploração e de opressão não pode nos conduzir a aplaudir e apoiar e ficar do lado dos que oprimiram e exploraram as classes e povos dominados do passado.

Os bandeirantes foram instrumentos de um determinado tipo de “progresso”, não do único progresso possível, nem do melhor progresso do mundo; e a exaltação contemporânea dos bandeirantes também está a serviço de um determinado tipo de “progresso”.

Quem não consegue enxergar isso é porque se deixou engolir pelo objetivismo (ou, mais simplesmente, pela cultura non ducor duco da burguesia paulista).

Pimenta diz que a “maior parte da população é indiferente a estas coisas... A cultura oficial indispõe o povo... Você vê a louvação dos governos, a escola indispõe as pessoas com a cultura nacional, porque tudo é apresentado de uma maneira muito ruim, muito separada da cultura da população... E nós temos uma cultura de uma parte da esquerda que é de procurar mostrar que tudo que aconteceu no Brasil é a pior coisa do mundo... seria melhor não existir o país”.

O “bandeirantismo” – o progresso como resultado da violência e da predação por parte das elites, assim como a cultura de que São Paulo seria superior ao restante do país – são muito influentes na cultura popular paulistana. 

Não é por acaso que desde 1982 a esquerda nunca conseguiu ter maioria na eleição para o governo do estado.

Uma parte do povo percebe que esta cultura bandeirante está a serviço das elites. 

E isso acontece apesar de uma “parte da esquerda” e a classe dominante serem cúmplices na exaltação dos valores dominantes, como ficou explícito neste episódio da defumação de Borba Gato. 

Curiosamente, Pimenta atribui a “uma parte da esquerda” uma atitude enraizada na classe dominante: afinal, vamos combinar, quem não gosta do nosso povo é quem gosta de viver em Miami, quem acha que precisamos de tutela militar. 

E quem pensa assim aplaude os bandeirantes do passado e a polícia militarizada do presente, afinal “contra a negrada, contra os bugres, contra os selvagens”, só com cuspe, porrada e bala.

Mostrando como as pessoas são complexas, Pimenta faz um ataque ao pacifismo e ao mesmo tempo aplaude o bandeirantismo. 

De certa forma, comete o mesmo equívoco de Rovai, ao equiparar a defumação de Borba Gato com os ataques a Paulo Freire. 

O equívoco de Pimenta é: em nome de defender o direito à violência por parte dos oprimidos, “passa o pano” na violência cometida no passado pelos opressores. 

E tudo isto em nome de combater... o imperialismo!

Segundo Pimenta, “grupos identitários são uma organização política concreta que atua no país, são instrumentos do imperialismo, é uma política fomentada e financiada pelo imperialismo”.

E como - também segundo Pimenta - o imperialismo não gosta de nações grandes, como o Brasil é uma nação grande, como os bandeirantes contribuíram para construir uma nação grande, logo... criticar os bandeirantes seria estar a serviço do imperialismo.

Há passagens interessantes na live de Pimenta, destacadamente sua crítica à Polícia Militar.

Mas não faz o menor sentido criticar a PM e defender o papel progressista dos que deram nome à famigerada Operação Bandeirantes.

A turma da Oban entendia de história prática.

E sabia muito bem de que lado Borba Gato está na "verdadeira luta de classes" de que fala Pimenta.




quarta-feira, 28 de julho de 2021

Uma foto que vale por mil palavras

Não é por falta de aviso.

15 meses é muito tempo.

E 2021-2023 será muito diferente de 2001-2003.

A mensagem abaixo diz quase tudo.


ps. depois que publiquei a nota acima, o Paulo Fontes me enviou a informação de que a foto teria sido comprada de um banco de imagens de um fotógrafo da África do Sul. A legenda da foto: "caçador". Para voce ver o que é o preconceito: eu achava que era uma fotografia do Borba Gato!!!




segunda-feira, 26 de julho de 2021

Cuba e o debate sobre o socialismo

No dia 26 de julho de 1953 aconteceu o assalto rebelde ao Quartel Moncada. Do episódio surgiu o nome do Movimento 26 de Julho, organização que – com aliados e no curso de uma revolução popular – chegou ao poder no dia 1 de janeiro de 1959. 

A história do que veio depois é mais ou menos conhecida. A revolução converteu-se em socialista por força de uma dupla pressão: de um lado, a luta popular em favor de suas reivindicações; de outro, a reação combinada da oligarquia cubana e do imperialismo contra a revolução. 

Que destino teria a revolução cubana se não existisse a União Soviética? Não há como saber. O que sabemos é que a URSS acabou, Cuba sobreviveu, mas os Estados Unidos não cessaram o bloqueio, nem cessou a pressão pela “mudança de regime”. Pelo contrário, com Trump e com Biden a pressão sobre Cuba aumentou. 

Que fazer diante desta situação? Antes de mais nada muita solidariedade, pelo menos da parte daqueles que percebemos que não haverá alternativa boa em caso de triunfo do imperialismo. 

Além da solidariedade, não há como escapar do debate permanente que se trava a respeito de Cuba. Boa parte deste debate é - por dever e direito - cubano: cabe aos “mambises” decidir o que farão de sua vida. 

Mas há um aspecto do debate que é universal: trata-se do que entendemos por “socialismo”. 

Há várias definições a respeito, mas tanto inimigos quando defensores giram ao redor das mesmas variáveis fundamentais: a “igualdade” e a “liberdade”.

Para os inimigos, o socialismo geraria menos liberdade e menos igualdade. Para impor a igualdade, se teria limitado a liberdade. E limitando a liberdade, cresceria a miséria e a desigualdade.

Já para os defensores, o socialismo geraria mais igualdade e mais liberdade. A libertação da maioria tornaria possível a busca da igualdade. E a igualdade tornaria possível uma liberdade de novo tipo. 

Entretanto, os defensores do socialismo não encaram de maneira uniforme a relação que existe (ou que deveria existir) entre igualdade e liberdade, especialmente em condições de imperialismo, como ficou mais uma vez evidente na polêmica recente acerca das manifestações ocorridas em Cuba.

As diferenças e divergências são variadas, muitas delas remetendo para a seguinte questão: será possível construir o “socialismo em uma só ilha”? 

Para aqueles que consideram que o socialismo é essencialmente a divisão igualitária da riqueza já existente, obviamente que sim. É verdade que restaria ao socialismo enfrentar pelo menos dois problemas: como tratar as desigualdades herdadas do passado e como impedir que surjam novas desigualdades. 

Há exemplos – especialmente no passado – de sociedades mais ou menos isoladas, com baixa desigualdade social e com diferentes níveis de liberdade. E podemos especular sobre como isto poderia ser feito no presente, se existissem condições favoráveis de temperatura e pressão. 

Mas vamos deixar de lado este mundo hipotético e coloquemos a questão nos seguintes termos: é possível construir o “socialismo em uma só ilha”, se esta "ilha" for vítima da agressão continuada de um inimigo materialmente superior?

Neste caso, além das desigualdades herdadas do passado e das que poderiam surgir de “condições normais”, teríamos novas desigualdades produto das agressões externas. E o esforço para conter estas agressões tenderia a estimular o surgimento de novas desigualdades.  

Não precisamos especular sobre como esta situação poderia ser compensada pela ajuda externa e que tipo de efeitos colaterais esta ajuda poderia causar: o estudo da relação entre Cuba e URSS nos fornece abundante material histórico. 

O que podemos especular é: no longo prazo, caso esta situação se mantivesse, resultaria no quê? Uma sociedade sob cerco eterno, compensado por um também eterno auxílio? Que tipo de igualdade e que tipo de liberdades seriam possíveis nestas condições? 

De maneira mais geral, será possível enfrentar um capitalismo em constante desenvolvimento tecnológico, se o socialismo não for também capaz de desenvolver as forças produtivas em nível pelo menos equivalente?

Voltando ao caso de Cuba, não saberemos nunca o que aconteceria caso a URSS não tivesse desaparecido. O que sabemos são os efeitos históricos derivados deste desaparecimento, combinados ao agravamento do cerco estadounidense. 

A divisão igualitária do que se possuía foi complicada pela redução substancial daquilo que se possuía. Tornou-se cada vez mais difícil superar as desigualdades anteriores à revolução. Além disso, novas desigualdades foram introduzidas pelas medidas indispensáveis adotadas para compensar o fim da ajuda externa, como o turismo, a dupla moeda etc. E as possibilidades de desenvolvimento das forças produtivas foram ainda mais reduzidas.

Para agravar a situação, as medidas políticas indispensáveis à luta contra a agressão externa continuada consomem recursos escassos (agravando a desigualdade). E as crescentes desigualdades internas provocam conflitos reais, que por sua vez são em alguma medida estimulados e até financiados pelo agressor externo. Isto por sua vez coloca a liberdade sob pressão crescente, inclusive por dificultar a atuação dos críticos socialistas do "socialismo reamente existente". Sendo que alguns chegam a afirmar que as medidas políticas adotadas para lutar contra o inimigo externo estariam, ao menos parcialmente, à serviço da manutenção do status quo, que pelos motivos já expostos não é de crescente igualdade.

Há várias conclusões a tirar desta situação. Uma delas é: a agressão imperialista torna impossível existir um caminho ótimo, perfeito, harmônico, sem contradições*.

Portanto, ao menos em países como Cuba, com limitações materiais e históricas enormes, sob pressão direta e constante de um inimigo desproporcionalmente mais poderoso, a disjuntiva fundamental é: ou 1/deixar a luta pelo socialismo para quando mudar o contexto histórico estrutural ou 2/ buscar fazer o melhor e o máximo possível nas condições dadas. 

Reconhecer as limitações históricas e estruturais não significa negar a existência de margem de manobra, nem justifica opções políticas que prejudicaram/prejudicam a luta pelo socialismo entendido simultaneamente como igualdade e liberdade. Reconhecer as limitações dadas significa apenas compreender que a derrota do imperialismo é condição sine qua non para ampliar as possibilidades do socialismo significar efetivamente a máxima igualdade e a máxima liberdade.

Podemos debater muito, contrafactualmente, acerca do que teria ocorrido em Cuba se tivesse prevalecido a alternativa de "deixar a luta pelo socialismo para outro momento". Mas por mais que se debata a respeito, não há como provar que a passividade seja superior à rebeldia, do ponto de vista político, histórico e humano.  

Pelos dois  motivos, honra eterna aos rebeldes de 1953 e a todos os cubanos e cubanas que não dobram sua espinha ao império.

Viva Cuba Livre!


*ps. é curioso como líderes e intelectuais da esquerda - que em seus próprios países são muitas vezes os primeiros a apresentar as limitações da conjuntura como explicação e justificativa para todas as concessões que fazem nos processos reformistas de que participam - sejam tão maximalistas na hora de exigir perfeição e coerência dos processos revolucionários noutros países. Mais contraditórios, só os defensores da iconoclastia-tão-somente-em-terra-estrangeira.

domingo, 25 de julho de 2021

Maringoni e a defumação de Borba Gato



São quatro parágrafos lacradores publicados no Diário do Centro do Mundo. Dizem assim:

“O incêndio da estátua do Borba Gato, na zona sul da capital paulista, no mesmo dia em que os setores democráticos realizam nacionalmente maciças manifestações pacíficas de protesto, tem toda a pinta de provocação da direita”.

“O bandeirante homenageado com a horrível escultura foi um escravocrata assassino. Trata-se de homenagem descabida. Deve ser aberto um debate público por sua remoção do local”.

“No entanto, tacar fogo na peça, como foi feito, é ato de puro vandalismo. A extrema direita se aproveitará do evento”.

“A esquerda e os setores progressistas devem imediatamente desautorizar qualquer vínculo com a mazorca”.

Vamos começar pelo começo: de onde foi que Gilberto Maringoni – cometedor dos quatro parágrafos acima - tirou que a defumação de Borba Gato tem “pinta de provocação da direita”?

Da coisa em si não foi, pois queimar pneus e defumar a estátua de um “escravocrata assassino” também têm “toda a pinta” de ser “ação direta”. 

Sem falar que tanto eu quanto Maringoni já aprendemos  - pelo menos desde a época em que o pessoal do MR8 espancava militantes da oposição metalúrgica - que para fazer merda a esquerda não precisa estar infiltrada pela polícia.

Claro, os grupos de “ação direta” também podem ser "estimulados" ou infiltrados. Se foi o caso, peo menos desta vez o vídeo da ação está esteticamente melhor, mais para Casa de Papel do que aquele feito por um P2 que registrou seu coturno numa manifestação pelo Fora Bolsonaro.

De toda maneira, volto a perguntar: de onde Maringoni tirou sua afirmação acerca da "pinta"?

A "resposta" achei num post de Cid Benjamin, outro que se incomodou com a defumação de Borba Gato. 

Neste post, Cid diz o seguinte: 

“Houve gente bem intencionada apoiando aquela ação de mascarados queimando a estátua do Borba Gato, ao melhor estilo dos provocadores a serviço da polícia. O grupo se autodenomina "Revolução Periférica". Pois bem, Gilberto Maringoni foi procurar por esse grupo nas redes sociais. Vejam o que encontrou e concluam se essa gente é de esquerda ou se estamos diante de infiltração policial. Passo a palavra ao Maringoni”.

A seguir vem as palavras do Gilberto Maringoni, tal e qual reproduzidas por Cid:

 "Fui atrás do tal grupo Revolução periférica no Facebook e no Instagram. Nesta última rede, tem 34 mil seguidores, 5 posts e dois dias de existência. Existe só para propagar a queima dos pneus (a estátua quase não sofreu danos). O Facebook é semelhante. Acabou de ser criado. Sim, é um grupo revolucionário com extenso trabalho de base. Contam com apoio do Papai Noel e do Coelhinho da páscoa..."

As referências finais são um esforço para fazer rir de piada ruim, pois do que foi descrito não há elementos para afirmar que estamos “diante de infiltração policial”.

Outros que foram de fato atrás do assunto chegaram a conclusão bem diferente, como se pode ler no texto disponível no link a seguir: 

https://jornalistaslivres.org/foraborbagato-ou-a-revolucao-sera-periferica-ou-nao-sera/

Quem tem razão nesta questão, Gilberto Maringoni ou Laura Capriglione? 

Logo saberemos, entre outros motivos porque a polícia deve estar atrás dos autores da “mazorca” (um termo que não lia faz tempo e que por sinal “tem toda a pinta” de cair bem na boca de certos meganhas).

Seja como for, de uma coisa tenho certeza: existem muitos motivos e ambiente propício para que uma parcela da militância parta para a “ação direta”, mesmo que apenas performática. 

E se esta militância for tratada e se estas ações forem interpretadas da forma como Maringoni e outros fizeram, o resultado não vai ser bom para a esquerda.

De que outros estou falando? 

Primeiro, de Aldo Rebelo, que faz tempo vem se notabilizando por confundir a defesa da soberania nacional com a defesa dos valores e das instituições da classe dominante.

Diante da defumação de Borba Gato, Aldo disparou dois tweets dizendo o seguinte:

“Canalhas, bandidos, assassinos da memória nacional. Vejam que não molestam as dezenas de imitações de “estátuas da liberdade” espalhadas pelo Brasil, escolhem a obra de artista brasileiro, um símbolo da história e da identidade da cidade de São Paulo”.

“É como o movimento não vai ter copa: filhinhos de papai de “esquerda” e de “direita” tocavam o terror nas ruas, vandalizavam, com a cumplicidade da mídia. Era a guerra híbrida contra o Brasil”.

Na interpretação de Aldo Rebelo, o “escravocrata assassino” cf. Maringoni seria um “símbolo da história e da identidade da cidade de São Paulo”. 

Num certo sentido, ambos têm razão e uma boa questão é o que faremos com este tipo de símbolos em homenagem a assassinos, escravocratas, ditadores etc.

Aldo, sempre tão generoso com a memória dos que até agora foram vencedores, talvez proponha uma coleta para restaurar a obra símbolo da "pátria" bandeirante. 

Maringoni propõe a “remoção do local” (parece que Borba Gato está lá desde 1963). Mas o que o preocupa mesmo são os efeitos políticos da defumação: “(...) tacar fogo na peça, como foi feito, é ato de puro vandalismo. A extrema direita se aproveitará do evento. A esquerda e os setores progressistas devem imediatamente desautorizar qualquer vínculo com a mazorca”.

A preocupação política é legítima. Se ela procede ou não, é um bom debate. 

Em nenhum caso, contudo, o critério pode ser apenas ou principalmente o referido por Maringoni, a saber: se “a extrema direita se aproveitará do evento”.

Claro que se aproveitará (já há posts falando de queima de igrejas). 

A direita em geral, o bolsonarismo em particular, tenta se “aproveitar” de qualquer coisa. 

Nem os que lutam certo, nem os que lutam errado, tampouco os bundões são poupados da propaganda da direita. Assim, o critério deve ser outro. 

O problema é que Maringoni acha que “tacar fogo na peça, como foi feito, é ato de puro vandalismo”. Ele não percebe que é preciso diferenciar o “puro vandalismo” de “performances” com propósito político. 

Neste caso do Borba Gato, mesmo que Maringoni tivesse razão e fosse provocação policial, em nenhum caso se trataria de “puro vandalismo”: existe um propósito político na ação. Desconhecer isto é validar o conservadorismo mais atroz. 

Por sinal, Aldo que me perdoe, em um país verdadeiramente democrático aquela estátua não teria sido construída nem estaria de pé. 

Voltando a Maringoni, ele foi um gentleman nas suas críticas, ao menos em comparação com Renato Rovai, que em artigo publicado na revista Forum disse o que segue: 

“Não foi um ato de terrorismo. Longe disso. É uma ação direta contra um símbolo cujo conteúdo histórico remete à opressão e ao genocídio. Mas é uma ação violenta contra o patrimônio histórico, mesmo que em sua base esteja a contestação à violência”.

“Não se pode escrever as regras do jogo apenas para um lado. Recentemente o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub ameaçou retirar um mural de Paulo Freire do MEC porque ele era “feio, parecia um vudu e além do que Freire era comunista”.

“Sérgio Camargo, da Fundação Palmares, usou discurso semelhante para excluir nomes de lutadores e intelectuais negros da lista de personalidades da instituição. Foram 27, incluindo Gilberto Gil, Martinho da Vila, Marina Silva, Milton Nascimento e Sueli Carneiro. O motivo é que eram de esquerda”.

“É possível debater certas homenagens e buscar corrigi-las. Evidente que sim. Defendo que podemos e devemos debater e negociar a retirada de certos monumentos históricos de lugares públicos. E inclusive considero que se deva construir espaços para que certas estátuas e obras sejam expostas e que as histórias dessas personagens sejam contadas a partir de um viés crítico”.

“Mas destrui-las é agir como os talebans procederam no Afeganistão ou como os extremistas da Ucrânia que destruíram a estátua de Lenin. Não é um bom caminho. E para a esquerda é o caminho da burrice, porque quem costuma ter a força para destruir a História são as classes dominantes. Elas é que costumam ter o poder e as armas para destruir placas como as de Marielle”.

“Não é um jogo bom para a esquerda apostar na violência. Em especial num momento em que temos um fascista no poder com um governo militarizado e que está doido para poder achar “terroristas” por aí para justificar o uso da força contra o campo progressista e os movimentos populares”.

“Mas a burrice da ação contra a estátua de Borba Gato é ainda maior porque pegou carona num dia de lutas contra Bolsonaro. O genocida da vez que nos assombra com 550 mil mortes. O fascista que precisa ser derrotado pelo seu presente e não pelo seu passado. E, por conta do que foi feito, as redes ontem falaram mais de Borba Gato do que do seu impeachment. É uma pena”.

Como já disse antes, a preocupação política é legítima, ainda que possamos tirar conclusões diferentes. 

Já a comparação com os “extremistas da Ucrânia” e com os “talebans” é de um exagero sem tamanho.

Não sei se Rovai diria (ou disse) o mesmo do que foi feito, recentemente, com estátuas similares no mundo anglo-saxão. Ou será que lá pode?

O problema não é apenas o exagero; o problema principal é tratar de maneira simétrica a violência dos opressores e a violência dos oprimidos. 

Pode ser um erro político fazer tal e qual ato, especialmente em determinada data; mas defumar a estátua de um “escravocrata assassino” é um ato que possui uma legitimidade politica incomparável com a violência da extrema direita e do fundamentalismo religioso. 

Podemos discutir o que fazer com os símbolos que a classe dominante plantou e segue plantando neste país, mas não dá para tratar como equivalentes – por exemplo - o Paulo Freire e o Borba Gato.

Ademais, o “patrimônio histórico” não caiu do céu. Como bem lembrou o Célio Turino, "antes de escandalizarem-se de forma precipitada, censurando os atos como simples vandalismo ou esquerdismo infantil, melhor buscar compreender o que motiva essa indignação em relação a determinados monumentos, que, pela força simbólica, condensam essa "raiva". A partir dessa busca por compreensão cabe o diálogo quanto à forma".

Claro que este diálogo ficará mais difícil se atos como a defumação forem classificados como "burrice", termo adotado por Rovai entre outros motivos porque "quem costuma ter a força para destruir a História são as classes dominantes. Elas é que costumam ter o poder e as armas para destruir placas como as de Marielle”.

Isto que diz Rovai sobre a força da classe dominante é verdade. O problema é que continuaria sendo verdade se a estátua não fosse defumada. Até porque temos "um fascista no poder com um governo militarizado". 

Frente a isso há diferentes reações na esquerda: os que apostam quase tudo nas eleições, os que apostam quase tudo nas instituições, os que apostam quase tudo na mobilização de massas etc. E também há quem aposte tudo ou quase na ação direta. 

E, reitero, há inúmeros motivos e ambiente propício para que ocorram atos de “ação direta”, que obviamente podem ser objeto de manipulação da direita, assim como podem ser objeto de manipulação atos que aos nossos olhos têm legitimidade social e popular, mas que aos olhos da extrema direita e de amplas camadas da população também não têm.

Se a atitude da esquerda que se acha muito sabida, sabedora - e que ainda por cima se comporta como se tivesse feito tudo certo contra a extrema direita - for denunciar estes atos como “provocação policial”, o problema não será resolvido e pode até crescer. 

E para não dizer que não falei de flores: Borba Gato fez por merecer muito mais do que uma singela defumação. 


Fontes dos textos citados

https://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-quem-interessa-incendiar-estatuas-no-mesmo-dia-de-protestos-contra-bolsonaro-por-gilberto-maringoni/

https://revistaforum.com.br/blogs/blogdorovai/fogo-no-borba-gato-nao-e-terrorismo-e-so-burrice-mesmo/

https://www.google.com.br/amp/s/www.brasil247.com/brasil/aldo-rebelo-diz-que-fogo-em-estatua-de-borba-gato-faz-parte-da-guerra-hibrida-contra-o-brasil%3famp


quinta-feira, 22 de julho de 2021

Maria Herminia, Cuba e a brutalidade

Os sandinistas tomaram o poder na Nicarágua em 1979. Adotaram um "modelo" de economia mista e pluralismo político. Não adiantou nada: desde 1981 os EUA financiaram e armaram uma guerrilha contra o regime sandinista. Mesmo assim os Sandinistas ganharam as eleições de 1984. Os EUA continuaram pressionando e apoiando os Contra. Os sandinistas não arredaram pé e mantiveram as eleições presidenciais de fevereiro de 1990. O povo votou com um fuzil apontado para a cabeça: se os sandinistas ganhassem, a guerra civil continuaria. Diferente de 1984, a oposição ganhou. “Democraticamente” tiveram início 16 anos de neoliberalismo. Mas tinha pluralismo partidário e propriedade privada que, na opinião de alguns, constituiriam a base da verdadeira democracia.

Nicarágua foi torturada pelos Estados Unidos por 10 anos. Os cubanos são torturados há uns 60 anos. Será que nessas condições seria possível manter um “socialismo libertário” e dispensar o apoio soviético?

Cuba buscou ampliar sua margem de manobra frente aos soviéticos, através do fortalecimento da esquerda na Ásia, na África e na América Latina. Em nosso continente, a quase totalidade das guerrilhas apoiadas por Cuba foi derrotada. Previsível mas infelizmente, pois nosso continente seria mais soberano, mais igualitário e mais democrático se a luta armada tivesse triunfado.

Com a crise e o desaparecimento da União Soviética, Cuba entrou no famoso “período especial em tempos de paz”. A partir de então, os danos causados pelo bloqueio estadounidense tornaram-se brutais. A situação econômica e social deteriorou-se. A situação política tornou-se mais difícil. Mas Cuba seguiu praticando a solidariedade internacional e nenhuma criança cubana dormiria na rua, entre outros detalhes que talvez não façam muita diferença para certo tipo de “ciência política”.

Cuba voltou a ter alguma folga a partir de 1998, quando por toda a América Latina começaram a surgir governos de esquerda e progressistas, que administraram seus países “com pleno respeito pelas liberdades”, mas que mesmo assim foram vítimas de todo tipo de patranha por parte da mesmíssima direita que ama os EUA e demoniza Cuba.

E o bloqueio? Seguiu, as vezes mais relaxado, as vezes mais brutal, como ocorreu durante o governo Trump e segue durante o governo Biden, que está firme no propósito de fazer uma "revolução capitalista"... em Cuba.

Aliás, se eu trabalhasse no Departamento de Estado, estaria nesse momento embrulhando um “presente” para enviar a Cuba, por ocasião do aniversário do assalto ao Quartel Moncada, ocorrido no dia 26 de julho de 1953.

É certamente um bom momento para isto: uma nova geração assumiu o comando do governo cubano, acumulam-se problemas de longa data que exigem solução para ontem, está em curso uma reforma que como todas tende a causar mais problemas antes de causar mais benefícios, a pandemia afetou pesadamente o turismo, o bloqueio endureceu, a economia está no limite, parte da população está cansada e sem perspectivas etc.

Frente a isso, o Partido dos Trabalhadores escolheu fazer a coisa certa: denunciar o bloqueio e prestar solidariedade incondicional ao povo e ao governo cubano.

Há quem escolha fazer diferente: denunciar a "ditadura", virar as costas, impor condições, dar conselhos ao estilo “engenharia de obra feita”, sugerir como modelo nossa experiência 100% exitosa de luta contra a direita brasileira, propor a eles construírem o socialismo libertário etc.

Nos últimos dias, vi, ouvi e li de tudo. O troféu "brutalidade" - por enquanto - foi para Maria Herminia Tavares de Almeida, cientista política e socióloga brasileira.

Palavras de Hermínia, em artigo publicado no dia 21 de julho na FSP: “pobre, isolada, embargada e sem a influência de outrora, Cuba não passa de um anacronismo. Mais insondáveis se tornam, por isso, as razões da tolerância retórica do PT diante das arbitrariedades cometidas pela ditadura de Havana contra seus cidadãos. Essa ambiguidade apenas gera ruído que alimenta o discurso obscurantista da extrema direita. Por isso, é pior que um erro. É um delito político. Há que dar adeus a Cuba”.

Confesso que não me surpreendo com a expressão “delito político”, afinal não faz muto tempo que os tucanos aplaudiram a prisão e condenação e interdição de Lula. Nem me surpreendo com a pressão sobre o PT: também não é de hoje que buscam nos domesticar com este tipo de demagogia.

O que considerei merecedor do troféu "brutalidade" foi a frase “Cuba não passa de um anacronismo”. Não é o PC cubano, não é o regime cubano, não é o modelo cubano. É Cuba.

Não sei que decorrência Maria Hermínia tira disto. Delenda Cuba? Cortem as suas cabeças? Enola Gay? Desert Storm? 

Seja qual for, me causa repugnância este jeito de tratar um país, uma nação, um povo, uma cultura, situação e oposição, reduzindo tudo a um "anacronismo".

Espero que tenha sido um erro do editor da Folha... 

Mas se não tiver sido, se Maria Herminia cometeu mesmo o raciocínio, só me resta apelar à frase célebre (cujo sentido, talvez por ato falho, ela inverteu no parágrafo supracitado): reduzir Cuba a um anacronismo é pior do que um crime, é um erro. 

Crimes as vezes não são punidos, vide os militares que hoje nos governam. Já erros provocam sempre consequências. Tenhamos ou não concordância com o governo cubano, é hora de defender a soberania de Cuba. Sem isto, não haverá depois disso.

Se a América Latina deixar Cuba sofrer o mesmo destino da revolução haitiana, podemos dar adeus a nosso futuro. 


Hora de dar adeus a Cuba

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/maria-herminia-tavares/2021/07/hora-de-dar-adeus-a-cuba.shtml?origin=uol

Em 1960, Jean-Paul Sartre visitou o país com a sua companheira, a escritora Simone de Beauvoir.

Os mais cultivados entre os seus admiradores brasileiros esperavam que ele falasse do existencialismo, ou de seu polêmico livro "Crítica da Razão Dialética" — aqui lido por poucos. Mas, vindo de Havana, seu assunto foi a Revolução Cubana: a seu ver, a promessa de um socialismo libertário, a léguas do modelo soviético, e o fato presente de que a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra atingia os interesses americanos no seu quintal, subvertendo a geopolítica da Guerra Fria. O fim da ditadura de Batista fez mais do que aquecer os corações da juventude rebelde e de intelectuais progressistas em muitos países: mudou a história da esquerda.

Só que o grande pensador francês estava errado. Não passou uma década para que Cuba se amoldasse ao "socialismo real", confirmando que não há espaço para a democracia e as liberdades quando as empresas são do estado e o regime é de partido único.

Sua estrela política só se apagou com a derrota dos movimentos de oposição armada aos governos militares que fizeram da América Latina dos anos 1970 uma usina de autoritarismo. Inspirados pela experiência cubana e apoiados pelo governo de Fidel, multiplicaram-se pela região focos de luta armada — de esquerda, mas também autoritários e incapazes de vencer as ditaduras de direita.

Elas, finalmente, cederam à força de ampla movimentação democrática, à qual se somavam lideranças e organizações de diferentes colorações políticas. Os partidos e agrupamentos de esquerda que dela participaram nada tinham a ver com Cuba e seu modelo socialista, ainda que contassem com a participação de ex-guerrilheiros convertidos aos valores democráticos. O chileno Partido pela Democracia (PPD), as organizações uruguaias que se reuniram na Frente Ampla e o Partido dos Trabalhadores, no Brasil, são os exemplos mais destacados dessa esquerda com inequívoco compromisso com a democracia, as garantias individuais e o reformismo social. Compromissos mais do que provados quando governaram seus países com pleno respeito pelas liberdades públicas.

Enquanto isso, pobre, isolada, embargada e sem a influência de outrora, Cuba não passa de um anacronismo. Mais insondáveis se tornam, por isso, as razões da tolerância retórica do PT diante das arbitrariedades cometidas pela ditadura de Havana contra seus cidadãos. Essa ambiguidade apenas gera ruído que alimenta o discurso obscurantista da extrema direita. Por isso, é pior que um erro. É um delito político. Há que dar adeus a Cuba.

Maria Hermínia Tavares, professora titular aposentada da USP e ex-docente da Unicamp

Sátira de autoria desconhecida

Nesta manhã de 22 de julho, logo depois de ler um texto publicado na falha de SP, recebi e socializo o texto abaixo, de autor e paradeiro desconhecido:

Uma das coisas mais encantadoras que existe é a compaixão que os bem-aventurados demonstram ter pelos danados da Terra.

O cidadão (ou cidadã) vive bem, come bem, dorme bem, se veste bem, frequentou boas escolas e tem acesso adequado à saúde, não lhe falta energia elétrica nem água limpa e - que lindo – ainda encontra tempo e energia para se preocupar com o fato de que a esmagadora maioria das pessoas que vive neste planeta não tem e nunca teve nada disso.

Às vezes a preocupação chega ao ponto de virar doação, voto ou até mesmo militância numa ONG, num partido, num mandato institucional. Se bobear, vira até intelectual globalmente conhecido por suas opiniões humanitárias e engajadas.

Mas sabe como são as coisas: não faz sentido despir um santo para vestir outro. Então, a compaixão, para ser eficaz e eficiente e efetiva, precisa ser direcionada no sentido de convencer os pobres de que - para melhorar de vida – eles têm que se esforçar, têm que demonstrar que sabem subir na vida por seus próprios méritos.

Mérito é fundamental!

E fazendo assim, veja que legal, crescerá a produtividade e a produção e – bingo – como resultado aquilo que o pobre vier a ganhar terá sido produto dele mesmo e não do rico. Mostrando que a sociedade oferece os problemas quando já tem as soluções à vista!

O que tem a vantagem adicional de contribuir para a autoestima do pobre, que desta maneira não se sentirá merecedor da caridade alheia. Por isso, gente, o negócio é ensinar a pescar, para que cada um tenha o que consiga com seu próprio esforço!

E que isto demore um pouco é algo normal, mais que isso é inclusive natural que a pobreza só possa ser reduzida bem devagar e a desigualdade as vezes nem isso, afinal veja bem: quem faz milagre em 7 dias é Deus, não gente como a gente!

Mesmo os que vieram de barco e hoje são ricos demoraram muito para juntar sua fortuna e olha que eles são em pequeno número; por isso, vamos dar tempo ao tempo!

Além do que “there is no alternative” ao método lento, seguro e acima de tudo gradual. Pois querer mudar tudo de pressa, rapidamente, de maneira atabalhoada, confusa, além de ser um horror estético – pobreza não combina com palácio – não dá certo, simplesmente não dá certo. 

Pois como sabemos, para acelerar o ritmo da ascensão social seria preciso transformar o Estado naquele Leviatã que inferniza a vida das pessoas, especialmente das pessoas de bem, que mesmo tendo os meios, não poderão mais fazer o que querem, quando querem e como querem. 

Ademais, bloqueadas as fontes de toda a riqueza e inovação – a propriedade privada, o livre mercado e a remuneração adequada pelo esforço do proprietário: o lucro” – a sociedade vai estagnar ou retroceder. E tudo isto vai prejudicar principalmente quem? Os pobres!

E tem algo ainda pior nisso tudo: essas aventuras voluntaristas, de gente apressada, que não tem aquelas qualidades que vem do berço, provocam reações dos que – diferente de nós – não têm compaixão. 

É daí que surgem os golpes militares, as ditaduras, as intervenções estrangeiras e os bloqueios: reações aos desatinos de gente apressada. 

Para evitar que os reacionários reajam, é preciso mudar lentamente, de preferência silenciosamente, para que o gigante não desperte.

Por tudo que foi exposto antes, nem que seja por compaixão aos que têm compaixão por si, os pobres da terra deveriam perceber que precisam ficar no seu lugar. Pois como sabemos, bem aventurados os pobres, pois deles é o reino de Deus.

*

Publico o texto anônimo acima como homenagem a "colegas de profissão" que são capazes de falar com sincera paixão dos jacobinos negros do Haiti e de sua revolução sufocada pelas potências do século XIX, ao mesmo tempo que contribuem – com suas palavras e atos ou falta deles– para que os gringos sufoquem a revolução cubana.

Normal: para a turma de Higienópolis, comunista bom é comunista morto, revolução boa é revolução morta!