quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Análise da tese da CNB


SEM REVISÃO, PODE CONTER ERROS

Parte 1
Nove chapas se inscreveram para disputar a eleição de delegados/as ao 7o. Congresso Nacional do PT.

O regulamento do Congresso determinava que cada tese devia apresentar uma tese com no máximo 20 mil caracteres.

Oito chapas cumpriram o determinado. Uma descumpriu e apresentou uma tese com 100 mil caracteres.

Quem é do ramo, sabe: é mais fácil escrever muito do que pouco. Escrever pouco exige capacidade de síntese e definir prioridades. O oposto da embromação.

A tese de 100 mil caracteres foi inscrita por Luiz Soares Dulci, em nome da Coordenação Nacional da CNB (Construindo um novo Brasil). Grupo que hoje controla mais de 40% do Diretório Nacional do PT.

Isto justifica que se estude com cuidado o que a tese afirma, ao longo de 8 capítulos, intitulados: 

1. ANÁLISE DE CONJUNTURA INTERNACIONAL: AMÉRICA LATINA E O MUNDO NO SECULO XXI

2. CONJUNTURA NACIONAL E ESTRATÉGIA: RESISTIR AO AUTORITARISMO NEOLIBERAL E CONSTRUIR A ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA E POPULAR

3. LULA LIVRE: URGÊNCIA DEMOCRÁTICA E LUTA DE NOSSO POVO!

4. ELEMENTOS DE UMA PLATAFORMA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO COM JUSTIÇA SOCIAL

5. Violência e resistência nas periferias

6. O governo Bolsonaro e o direitos das maiorias

7. As eleições para prefeitos(as) e vereadores(as) em 2020. 

8. ORGANIZAÇÃO PARTIDÁRIA

Dada a extensão do texto, a análise do que propõe o grupo atualmente majoritário no DN do PT será feita em capítulos.

Parte 2
Vejamos o que diz a CNB sobre a CONJUNTURA INTERNACIONAL: AMÉRICA LATINA E O MUNDO NO SECULO XXI.

A análise da “conjuntura” tem início em... 1945, passa pela “substituição do modelo fordista” pelas “cadeias globais de produção”, desembocando na hegemonia financeira e na crise de 2008, a “maior crise econômica desde a depressão mundial dos anos 1930”, crise que “não foi totalmente superada”, com a possibilidade de “queda no crescimento do PIB mundial em 2019 e a possibilidade de início de nova recessão que o mundo estaria menos preparado para enfrentar do que a crise iniciada em 2008”. 

A análise destaca, também, “a passagem de um mundo bipolar, marcado pela presença dos campos capitalista e socialista, para um mundo unipolar sob a hegemonia imperial estadunidense num primeiro momento, embora a atualidade aponte para o surgimento de um sistema multipolar ainda em processo de consolidação”.

E salienta que o “quadro internacional de profundas transformações se completou com a crise da democracia liberal” (...) “assistimos desde o final do século XX à uma regressão na qualidade da democracia em função da ascensão da extrema direita que hoje chegou ao poder pela via eleitoral em vários países”. 

O texto afirma, ainda, que “a tática para promover mudanças de regime (regime change) atualmente é a chamada “guerra híbrida”. 

E qual a conclusão que se tira destas análises, em termos de estratégia política? 

Diz a tese: “No seu conjunto esses fenômenos, todos de caráter regressivo, geraram um novo período histórico, com uma correlação desfavorável para as classes trabalhadoras dentro de cada país, particularmente para os países do Sul do mundo e a América Latina”.

Diz também: “a direita tende a blindar-se autoritariamente nos governos, buscando impedir o retorno democrático da esquerda. As eleições de outubro na Argentina, Bolívia e Uruguai serão uma prova da capacidade da direita para se manter no governo no caso argentino ou para seguir desalojando a esquerda do governo no caso boliviano e uruguaio. É um processo aberto, inclusive no Brasil. Não está definido que a direita, de volta ao governo, consiga manter-se e a Argentina pode ser a prova disso. Nem que a esquerda consiga retornar ao governo. É uma disputa aberta onde o Brasil é um caso estratégico, pelo peso que tem o país e que tem uma esquerda relevante, além da liderança do Lula”.

No plano mundial, “as turbulências também tendem a se prolongar. A decadência relativa da hegemonia estadunidense não permite prever seu fim”.

Sendo o período histórico atual caracterizado por uma disputa de hegemonia, porque o modelo adotado pelo capitalismo neoliberal, embora ainda mais radical do que no período anterior e apesar da crise da democracia liberal, não tem poder absoluto e precisa assim buscar mecanismos cada vez mais autoritários para implementar seu projeto. (...) A America Latina e, em especial, os países que já tiveram ou ainda tem governos antineoliberais, todavia, tem condições de se situar como epicentro dessa disputa hegemônica em escala mundial, pelo aprendizado adquirido durante os anos de governo, e o extraordinário legado de crescimento econômico e inclusão social que permite comparar as políticas do passado com as do presente”.

A conclusão da tese, portanto, é que estamos diante de um “processo aberto”.

Ou, como diria o Barão de Itararé, tudo pode acontecer, inclusive nada.

Nesse “processo aberto”, a direita pode fazer quase tudo; já a esquerda deve... buscar ganhar as eleições!!

Tudo muda, o mundo não é mais o mesmo, mas a estratégia proposta pela CNB segue sendo essencialmente eleitoral.

Parte 3 

Vejamos o que diz a tese da CNB sobre a CONJUNTURA NACIONAL E ESTRATÉGIA: RESISTIR AO AUTORITARISMO NEOLIBERAL E CONSTRUIR A ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA E POPULAR”.

Vimos, no capítulo anterior, que a análise da “conjuntura internacional” da CNB começa em 1945. Já a análise da conjuntura nacional começa em janeiro de 2019. Freud explica.

O texto faz um longo discurso contra o governo Bolsonaro, incluindo passagens como: “O governo, no entanto, prefere virar as costas aos problemas reais do país, mesmo que estejam causando grande sofrimento popular, para apostar em uma verdadeira guerra ideológica e pretensamente moral, criando um clima artificial de intolerância e violência contra todos os que se mobilizam em defesa da legalidade democrática, dos direitos dos trabalhadores e dos pobres e do respeito à diversidade: negros, mulheres, comunidade LGBT, entre outros.”

A retórica parlamentar do texto da CNB confunde as coisas. O “clima” de violência não é “artificial”: está em curso uma guerra contra o povo. E o governo promove esta guerra para implantar seu programa. Ele “prefere” fazer isto, porque é através da intimidação que ele paralisa seus opositores.

Ao adotar um estilo de discurso-denúncia, o texto subestima a força do inimigo; por exemplo não percebe que, para as elites, o “fracasso” do governo Bolsonaro na área econômica não é “evidente”. As elites apoiam o governo exatamente porque ele promove com altíssimo nível de desemprego e queda na renda dos trabalhadores”. As elites não se preocupam com a difícil situação “do mercado interno”, ainda que este represente 80% da economia brasileira.

A tese da CNB critica o “descompromisso do governo com as instituições e os métodos democráticos”. A expressão “descompromisso” é evidentemente inadequada, pois logo em seguida se afirma que o Brasil está “em uma assustadora marcha para o Estado Policial. A verdade é que os comportamentos abertamente fascistas estão se tornando a regra do governo Bolsonaro e dos grupos de extrema direita que o apoiam, pondo em risco o que ainda existe de Estado de Direito em nosso país”.

Nesse contexto, qual deve ser a estratégia do PT? 

Segundo a tese da CNB, “deve ser ao mesmo tempo de resistência ao projeto destrutivo do governo Bolsonaro e de acumulação de forças para que o Brasil possa retornar o mais rápido possível o caminho da transformação social”. 

De um lado, “barrar as políticas regressivas da extrema direita”; de outro lado, é preciso “propor ao país, e trabalhar para que ela alcance progressivamente o mais amplo respaldo social e político, uma alternativa progressista consistente ao desastre civilizatório que é o governo Bolsonaro”. 

E qual seria o conteúdo dessa “alternativa progressista” que será construída “progressivamente”? 

Ela deve ser “baseada em uma Plataforma de medidas emergenciais e estruturais capazes de tirar o país da crise e recolocá-lo no caminho do verdadeiro desenvolvimento”, com “independência nacional, crescimento econômico, geração de empregos, distribuição de renda, inclusão social e vigoroso combate às mais diversas discriminações”. 

Além disso, a Plataforma de medidas emergenciais deve dar “a devida centralidade às reformas imprescindíveis para que o Brasil se torne de fato mais democrático, mais próspero e menos desigual: a Reforma do Estado, a Reforma Política, a Reforma Tributária, a reforma dos Sistemas de Comunicações, a Reforma Agrária e a Reforma Urbana, entre outras”. 

Como se não bastasse, a plataforma “emergencial” deve ser elaborada “a partir do Programa Democrático Popular – que conserva toda sua pertinência e forte sentido emancipatório – , no qual inspirou-se o nosso programa presidencial de 2018, e que pode e deve ser enriquecido no diálogo com os partidos aliados, os movimentos sociais e o conjunto da opinião pública democrática”.

E, quase calando quem acusa a CNB de moderação programática, a tese afirma que o nosso “Programa Democrático Popular, de reformas estruturais para o país, se articula do ponto de vista estratégico com o projeto histórico do Socialismo Democrático, o “Socialismo Petista”, reafirmado e consolidado ao longo de toda a trajetória do PT”.

Sendo que o socialismo é tudo de bom: “construir, com o apoio das maiorias populares, uma nova sociedade livre, plural e solidária, uma sociedade em que o direito à vida não seja objeto de compra e venda, em que o direito à felicidade não seja uma mercadoria à qual poucos tem acesso e tantos não, em que milhões de seres humanos não sejam condenados à miséria, à fome, à morte para satisfazer a ganância de lucro, o luxo e o desperdício de uma minoria de privilegiados. Uma sociedade que não seja, pela sua própria lógica, como é a sociedade capitalista, injusta, excludente, discriminatória, marginalizadora. Uma sociedade de fato sustentável, fruto de uma nova relação com a natureza. Uma sociedade humanista em que a liberdade e a igualdade de direitos não sejam uma ficção. Uma sociedade, enfim, que seja não só materialmente mais justa, mas também ética e culturalmente superior”.

Evidentemente a tese da CNB não explica por qual motivo não tentamos realizar as reformas estruturais entre 2003 e 2016; nem explica por quais motivos, naquele mesmo período, o “socialismo” perdeu tanto espaço nas formulações, preocupações e ações práticas do Partido e de seus mandatos.

Seja como for, depois da supracitada radical afirmação de princípios, a tese da CNB afirma que “para barrar a ofensiva reacionária do governo Bolsonaro e das oligarquias dominantes, o PT deve continuar empenhado em construir a unidade das forças progressistas tanto no parlamento quanto na sociedade”. 

Sendo necessária a “atuação conjunta das bancadas progressistas na Câmara e no Senado” e a “aliança entre os governadores progressistas”. E também “continuar apoiando e fortalecendo a Frente Brasil Popular e a Frente Povo sem Medo”. E a “unidade dos partidos e dos movimentos progressistas”. 

A tese da CNB usa e abusa do termo “progressista”, adotado tanto para denominar o programa alternativo de reformas democrático popular articulado com o socialismo; quanto para falar das alianças imediatas contra Bolsonaro.

E como se não bastasse, a tese da CNB esclarece que “não há contradição entre consolidar a unidade dos progressistas e, ao mesmo tempo, buscar alianças mais amplas, até com personalidades e setores de centro, em prol do Estado de Direito e de outras causas que extrapolam o campo das esquerdas”.

No papel pode não haver contradição. Mas basta lembrar da luta pela liberdade de Lula, para perceber que, entre os progressistas e setores de centro, não é consenso que Lula livre seja “crucial para a recuperação da plena democracia no país”.

A elasticidade atribuída ao termo “progressista” acaba por tornar desnecessário o uso da clássica expressão “unidade da esquerda”. Assim, a antiga estratégia de centro-esquerda converte-se numa “unidade dos progressistas” & “alianças mais amplas com setores de centro”.

A isso se agrega a “estratégia da maioria”.

A saber: “tanto na resistência ao governo de extrema direita, cujo instrumento decisivo é a mobilização massiva da sociedade, sem prejuízo da batalha institucional, quanto na acumulação de forças para retomarmos nosso projeto transformador, o PT deve reafirmar a sua estratégia de maioria, um dos elementos-chave (desde o “Manifesto de Fundação”) do ideário do partido, e dela extrair as necessárias consequências políticas e organizativas”.

E o que seria está “estratégia de maioria”? 

A tese da CNB explica assim: “Trata-se de construir uma maioria consistente na sociedade – que não seja apenas eventual, conjuntural, mas que se afirme como verdadeira hegemonia democrática de ideias e valores – se queremos chegar novamente ao governo federal com efetiva sustentação para promover as mudanças imediatas e históricas que são a própria razão de ser do PT.”

Ou seja: não se trata —como defende a esquerda do Partido — de construir uma nova estratégia; tratar-se-ia isto sim de “reafirmar” uma “estratégia de maioria” que (supostamente) o PT defenderia desde 1980.

(Aqui um p.s.: recomendamos aos curiosos que leiam as resoluções do PT entre 1980 e 1987 e se busque onde estaria a tal “estratégia da maioria”.)

E como esta “estratégia de maioria” visa “chegar novamente ao governo federal”, trata-se no final das contas de construir uma “maioria” eleitoral.

Não uma maioria eleitoral petista ou de esquerda. O objetivo proposto pela CNB é fazer com que “o PT e os partidos progressistas voltem a ser maioria”.

E para isso, “além de consolidar o apoio daqueles 47 milhões que votaram em nós, (...) precisamos também trabalhar para reconquistar aqueles setores sociais – especialmente das classes populares – que nos apoiaram em 2002, 2006, 2010 e 2014, e foram decisivos para que ganhássemos as quatro eleições e pudéssemos governar o país, e que se afastaram de nós no último período, por uma razão ou por outra, acabando por votar no candidato da extrema direita”.

Infelizmente a tese da CNB não arrisca explicar por quais motivos perdemos o apoio daqueles setores sociais. 

Seja como for, através de deslizamentos sucessivos, o nobre objetivo de construir uma “verdadeira hegemonia democrática de ideias e valores” é reduzido pela tese da CNB à construção de uma maioria eleitoral.

Evidentemente saudamos a intenção de reconquistar os apoios perdidos na classe trabalhadora. Mas a maneira como a tese da CNB aborda o problema nos mantém prisioneiros de uma “estratégia eleitoral”, que já demonstrou ser insuficiente, seja para transformar as estruturas do país, seja para nos defender da ofensiva reacionária, seja para avançar em direção ao socialismo.


Parte 4

A tese da CNB conclui sua análise da conjuntura nacional dizendo que a eleição presidencial de 2018 foi “manchada”.

A resistência em chamar as coisas por seu nome (o que ocorreu em 2018 foi uma grande fraude) se repete no item seguinte da tese: LULA LIVRE: URGÊNCIA DEMOCRÁTICA E LUTA DE NOSSO POVO!

Lá se diz que a “Lava Jato não surgiu em um vácuo político preenchido pelo voluntarismo de seus agentes diretos, ela é fruto de uma conjuntura à qual favoreceu e pela qual foi favorecida”. 

Se diz, também que a “hipertrofia do Poder Judiciário, moralmente avalizada pelo discurso do combate à corrupção e que vinha sendo gestada há pelo menos uma década, pavimentou o caminho ao poder de um projeto autoritário, obscurantista e neoliberal”.

Mas não se diz que amplos setores da esquerda, amplos setores do PT e diversas decisões de nossos governos contribuíram não apenas para tal “hipertrofia”, como também para “avalizar moralmente” a Lava Jato.

Basta lembrar o elogio feito por Fernando Haddad à Lava Jato, em pleno segundo turno das eleições presidenciais de 2018!!!

A tese da CNB pula estes “detalhes” e passa direto à uma análise das “revelações trazidas pelo site The Intercept”. Nada do que se diz a respeito é novidade.


Chama a atenção, contudo, a subestimação do problema que enfrentamos: se é verdade que a inocência do Presidente Lula fica cada vez mais comprovada, se é verdade que a aura de “combate a corrupção” da Lava Jato desmorona, também é verdade que há amplos setores da população que seguem apoiando Moro e a prisão de Lula. Assim como é verdade que a Lava Jato foi um instrumento de uma operação que contou com o apoio do conjunto da classe dominante e de seus aparatos estatais.


No que diz respeito à campanha Lula Livre, a tese da CNB reproduz posições que não vão além das resoluções já aprovadas pelo conjunto do Partido. Sendo notáveis: o silêncio acerca do Lula Livre nas eleições presidenciais de 2018 e 2022; a ausência de qualquer menção a postura de Ciro Gomes, “plano B” de tantos; e de qualquer reflexão sobre o ainda reduzido engajamento de tantos setores do PT na campanha.


Parte 5

Na reunião do DN do PT, realizada em julho de 2019, setores da CNB resistirem enfaticamente a incluir o tema “programa” na pauta oficial do 7o. Congresso. Um dos argumentos utilizados foi o de que o Partido já dispunha de um programa, inclusive aquele apresentado nas eleições presidenciais de 2018.

E, de fato, o item “ELEMENTOS DE UMA PLATAFORMA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO COM JUSTIÇA SOCIAL” parece copiar e colar o programa de 2018, com direito inclusive a uma nota de rodapé e a passagens cheias de lirismo tais como “Mobilidade e acessibilidade urbana: uma cidade ágil que valoriza a vida” e “Promover o diálogo federativo na construção de solução para os problemas regionais e locais”.

Grande parte dos “elementos” apresentados são consenso no Partido. 

Mas é impressionante que não haja nenhuma reflexão séria acerca da insuficiência do que é proposto, frente ao retrocesso produzido desde 2016.

Por exemplo: como desmontar a institucionalidade golpista?

A tese da CNB repete algumas das posições do PT, tais como “Revogar a reforma trabalhista (Lei 13.467/2017)”, Revogar a Lei 13.429/2017” e revogar a EC90.

Mas a tese da CNB não repete a posição, também adotada pelo PT, de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Se aprovada a tese da CNB, estará legalizado o ato arbitrário cometido por Fernando Haddad durante a campanha de 2018.

E sem Constituinte, como ficam temas como o poder judiciário e as forças armadas, sobre os quais a tese da CNB nada diz?

Sem a Constituinte, como “Revogar o legado do arbítrio: medidas antinacionais e antipopulares”, como “Promover Reforma Política com Participação Popular”, como “Promover a Reforma do Estado e do Sistema de Justiça”, como “Promover a Democracia, o Pluralismo e a Diversidade na Mídia”??? 

Outro exemplo da insuficiência do que é proposto pela tese da CNB: como reindustrializar o país, sem estatizar empresas que foram privatizadas e sem criar novas estatais?

A tese da CNB, repetindo o programa presidencial de 2018, parece crer que basta adotar as políticas públicas certas e será possível “reverter à desindustrialização e que contribuir efetivamente com o desenvolvimento do País, de modo a distribuir seus ganhos entre toda a sociedade e posicionando o Brasil entre as principais economias industriais do planeta”.

A questão é: as indústrias capitalistas privadas realmente existentes não possuem nem a escala, nem a “disposição” de cumprir estes objetivos.

É preciso criar novas empresas, controladas pelo Estado e, em muitos casos, protegidas de uma competição internacional mais desigual do que nunca.

A ausência desta proposta na tese da CNB reflete a influência anti-estatista neoliberal, que coloca este setor do PT numa posição mais recuada do que varios governos burgueses, no Brasil e no mundo, entre 1930 e 1980. A exceção é a proposta de “controle 100% estatal da Petrobras e Eletrobrás, empresas nacionais estratégicas para o desenvolvimento nacional”. 

Nesta mesma linha de “influência” alheia, chama a atenção o fato de que a tese da CNB não proponha uma política de enfrentamento à hegemonia do agronegócio. O que se propõe é “fortalecer a agricultura familiar”, objetivo compartilhado por todo o PT, mas insuficiente.

Sem falar do que faremos com o agronegócio, várias das propostas citadas (tais como “Desapropriar e destinar para a Reforma Agrária os latifúndios” e “atualizar os índices de produtividade”) terão o mesmo destino que tiveram entre 2003 e 2016.

Acrescente-se a estranha proposta de “combater a venda de terras para estrangeiros”. Combater? Por qual motivo não se fala em proibir??

Entretanto, o tema programático sobre o qual a tese da CNB deixa mais a desejar, onde existe menos reflexão séria acerca da insuficiência do que é proposto, é o que trata do setor financeiro.

A pergunta é: será possível financiar as políticas públicas, será possível implantar uma política de desenvolvimento, será possível ter governabilidade sobre a economia nacional, sem ESTATIZAR o oligopólio financeiro?

A tese da CNB parece acreditar que sim. Que basta “o fortalecimento dos bancos públicos e dos bancos de desenvolvimento nacional e regional, além de participação social na definição da regulação do sistema financeiro, visando coibir a especulação e o rentismo”.

Com dois “detalhes” muito sintomáticos: a tese da CNB não defende revogar a Lei de responsabilidade fiscal, nem fala explicitamente em acabar com a autonomia de fato do Banco Central. Novamente, a tese copia o programa de 2018, mas na versão que foi arbitrariamente cortada pelo candidato, durante a campanha eleitoral!

Sem estatizar o oligopólio financeiro, mesmo a mais radical reforma tributária (aliás, por qual motivo uma reforma radical como a proposta na tese, não foi pelo menos tentada entre 2003 e 2016???) será esterilizada.

Em resumo: os ““ELEMENTOS DE UMA PLATAFORMA DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO COM JUSTIÇA SOCIAL” permanecem dentro dos limites do que se fez (ou do que devia ter sido feito) entre 2003 e 2014.

Neste, como nos itens já analisados, o texto da CNB é prisioneiro do passado.

Parte 6

O item mais interessante da tese da CNB é o que trata da “Violência, cultura e trabalho nas periferias no Brasil”.

Nesse item, se comemora a “mobilidade social vertical”, a transformação física e cultural das periferias do país, ao mesmo tempo que se reconhece “a elevação das taxas de homicídios e das taxas de encarceramento”.

Frente ao paradoxo, a tese da CNB busca certo consolo em um argumento bizarro, vindo de quem desde 1994 governa varios estados do país: “Em que pese tais questões serem da alçada dos governos estaduais dentro do pacto federativo, é preciso reconhecer que a contribuição do Partido dos Trabalhadores e da esquerda como um todo sempre foi muito tímida na área da segurança pública”.

Além de bizarro, trata-se de um argumento que tenta jogar luz no lugar errado. Pois o tema dos homicídios e encarceramento só pode ser compreendido a luz da luta de classes, nos marcos de um certo padrão de “mobilidade social” instalado desde 2003.

Como reconhece a própria tese da CNB, “a presença destes problemas tem perseguido outros indicadores, como as de crescimento econômico, fazendo crer que a regulação das atividades ilegais não acompanhou o que tem sido vulgarmente chamado de desenvolvimento”. 

De toda forma, a tese da CNB faz bem ao apontar a questão, afirmando que nossa proposta deveria ser “a consolidação de um ciclo virtuoso de concertação dos subalternos”, buscando “nos movimentos sociais das periferias” um “caldo de cultura rico em ideias e ideais emancipatórios que pode – e deve, de acordo nossa ação – ser o cimento de um novo arranjo de lutas”.

Mas a tese alerta ser preciso “dar sentido e movimento estrutural a este amálgama de ativismos, que tem pés fincados no chão do seu cotidiano, mas que precisam voltar os olhos também para o roubo das elites aos fundos públicos e a atenção para a entrega das nossas riquezas. É necessário articular o ativismo espalhado pelo Brasil às lutas por soberania nacional, pois esta não existirá sem soberania popular. O mesmo vale para a defesa da democracia e dos direitos”.

A tese da CNB conclui usando termos que são muito utilizados por nós: “reconectar com essa nova classe trabalhadora, batalhadora, informal e precária”.

Curiosamente, o tema do crime organizado, das milícias e das igrejas pentecostais não é abordado. Como em outras questões, a tese da CNB possui lacunas muito sintomáticas e algumas vezes quase incompreensíveis.

Parte 7

A tese da CNB dedica um item para tratar do “governo Bolsonaro e o direitos das maiorias”.

O item começa com uma afirmação ousada: “a vitória da extrema direita no Brasil não foi alicerçada pela primazia do debate econômico, nem sobre as saídas para os verdadeiros problemas do povo brasileiro, aliás, não foi calcada por debate nenhum, uma vez que seu candidato não se colocou a disposição para debater, temendo que a sua carência de propostas para o país pudesse causar a sua derrota. Para ganhar as eleições, utilizou-se de uma estratégia testada nos EUA por Donald Trump, da abordagem predominante sobre valores, costumes e comportamento social através de uma bem articulada –– e frequentemente ilegal –– presença nas redes sociais, fazendo com que o debate sobre os problemas do Brasil se transformasse no debate sobre os “supostos” problemas das pessoas”.

Esta afirmação transforma parte da aparência em essência. Como classificar, por exemplo, o bordão: “com direitos mas sem empregos, sem direitos mas com empregos”? Isso é um debate “econômico” ou sobre os problemas das “pessoas”?

Talvez seja mais exato dizer que a campanha de Bolsonaro, ao estilo das campanhas da extrema direita noutras regiões do mundo, foi altamente ideologizada, polarizadora, confrontacionista. E manipulou temas com potencial de dividir é confundir a classe trabalhadora, aproveitando-se de que nestes temas a esquerda (ao contrário do que diz a tese da CNB) apresentava fissuras.

Por exemplo: interrupção da gravidez e programas educacionais que tratavam de orientação de gênero e sexual já vinham provocando divergências no PT, em bancadas parlamentares, governos e campanhas. A direita atacou pontos onde já havia fissuras.

Quem não recorda do presidente do PT SP embarcando na onda da “ideologia de gênero”?

Quem não recorda das posturas udenistas de diferentes setores da esquerda brasileira?

Quem não recorda das diferenças acerca de como tratar a ditadura e a segurança pública?

Quem não recorda das alianças entre candidaturas petistas com igrejas conservadoras?

Sem levar em consideração as diferenças pré-existentes na esquerda (e no PT), fica difícil compreender porque “ainda não conseguimos dar o embate condizente”. 

Isto posto, a tese da CNB está correta ao enfatizar que estamos diante de direitos que não são de “minorias”, nem “setoriais”. Mas se acreditamos mesmo nisso, temos que repensar a lógica “setorializada” com que são manejados (vide, por exemplo, o que a tese da CNB diz sobre percentuais de emendas parlamentares etc.)); e temos que reconhecer que nossos governos não conseguiram superar grande parte dos problemas que atingem as “maiorias” de nosso país. 

E como enfrentar? As propostas feitas pela tese da CNB nos parecem insuficientes, parciais ou inclusive incorretas. E citam o fato, sem oferecer uma explicação: por quais motivos outros partidos (de esquerda e mesmo de direita) estão elegendo, por exemplo, mais parlamentares negros do que nós?

Parte 8

Segundo a tese da CNB, as eleições para prefeitos (as) e vereadores (as) de 2020 serão marcadas por "conflito e insegurança", "desqualificação da política", ataques aos "direitos da maioria do povo bem como a soberania do país em benefício do capital financeiro".

A tese aponta que a "maioria das cidades brasileiras enfrenta situação muito difícil desde o golpe": finanças comprometidas, em função dos efeitos da Emenda Constitucional 95/16, resultando em desmonte de políticas. E, depois da eleição de 2018, "os efeitos da política econômica do governo Bolsonaro", "associados ao desmonte do Estado e ao ataque aos direitos e as políticas sociais", têm gerado "dificuldades imensas de financiamento dos municípios". 

O texto relata uma piora geral nas condições ambientais, econômicas, sociais, políticas e ideológicas. E conclui dizendo que, "nesse contexto, as eleições terão grande importância para denunciar as políticas antipopulares e antinacionais do governo Bolsonaro, mas também e, sobretudo, mostrar que há alternativa ao que está sendo feito. Queremos voltar a governar as cidades para trazer de volta para a maioria da população políticas de fortalecimento do direito à saúde, educação públicas, à moradia e ao transporte com qualidade, distribuição de renda, combate à fome e desenvolvimento urbano". "Vamos recuperar e aperfeiçoar as orientações e ações de nossos governos municipais e estaduais e, especialmente, dos governos Lula e Dilma que mudaram a vida da maioria do povo".

Será factível, neste cenário de terra arrasada que a tese descreve, fazer aquilo que o texto propõe? Pois uma coisa é se "inspirar" nas orientações do que foi feito, outra coisa é "recuperar e aperfeição as ações que foram feitas entre 2003 e 2016.

A tese da CNB permite, nessa questão, duas leituras. Numa delas, as eleições de 2020 são, principalmente, um momento de denúncia, mobilização, luta política. Noutra, há expectativas de fazer algo semelhante ao que fizemos desde 1989.

A tese da CNB lembra que "nas eleições de 2020 não haverá coligação na chapa proporcional"; "por essa razão, o partido enfrentará o desafio de participar das eleições lançando o maior número possível de candidaturas, de mulheres, de negros e negras, de jovens e aquelas que representam a força e o compromisso com as lutas sociais".

Ao mesmo tempo, defende "construir alianças que permitam fortalecer o polo de oposição democrática, comprometido com a defesa dos direitos, da realização da justiça social, e da soberania do Brasil".

Reaparece aqui o problema já apontado em itens anteriores: a primazia do eleitoral. 

Segundo o texto, "a derrota da ultradireita é nas próximas eleições é um dos objetivos centrais para construirmos maioria na sociedade e acumularmos forças para retomar o governo do Brasil. Precisamos mais que 30% da preferência popular. Os setores que nos apoiam têm a expectativa de que voltemos a governar o país. Devemos buscar consolidar o apoio das 47 milhões de pessoas que votaram em Fernando Haddad e ir além".  

Ou seja: o movimento principal não é a maioria na sociedade que se expressa nas urnas; o movimento principal é a maioria nas urnas que serve para construirmos maioria na sociedade.

Em decorrência deste ponto de vista, a tese da CNB propõe "manter a coesão da frente de esquerda e centro-esquerda e buscar diferentes setores da sociedade a partir do compromisso e engajamento em lutas concretas em defesa dos direitos sociais e de condições dignas de vida".

O texto não cita nomes, nem partidos, mas está claro que defende uma política de alianças para além da esquerda (que sabemos quem é) e para além da centro-esquerda (que não sabemos de quem se trata, exatamente).

Em qualquer caso, o objetivo é que "ocorram deslocamentos políticos de setores democráticos e progressistas (...)deslocamentos que favoreçam a vitória das frentes de esquerda e de centro-esquerda nas principais cidades, se possível desde o primeiro turno".

Ou seja: o que a tese da CNB defende é a política de alianças ampla, adotada entre 1996 e 2016. E qual o objetivo? Segundo diz a tese, "nossas experiências nos governos de Estado e nas Prefeituras serão decisivas para levar às urnas a esperança em 2022".

Portanto, por onde quer que se observe, o que a tese da CNB está propondo, para o período 2019-2022, é algo similar ao que foi feito nos anos 1990, na luta contra o governo FHC.

Parte 9 e última

Chegamos, finalmente, ao último item da tese da CNB, intitulado "organização partidária".

O texto exalta a importância do PT, para logo em seguida deixar clara a necessidade "de atualização do seu projeto para o país, de suas políticas de médio e curto prazo, de suas formas de organização interna e da maneira de se relacionar com a sua base social, com as outras forças progressistas e democráticas e com o conjunto da população. Isso é ainda mais necessário em tempos de grande reestruturação produtiva e inovação tecnológica, que provocam mudanças vertiginosas nas formas de sociabilidade e de comunicação entre as pessoas. E especialmente depois de o PT ter sido ilegalmente derrubado do governo pelo golpe do impeachment, de ter sofrido a mais implacável tentativa de destruição que um partido político já viveu no país, de ver a sua maior liderança perseguida, condenada e presa, de termos perdido as eleições presidenciais de 2018, não obstante o expressivo resultado conquistado e a afirmação da importante liderança nacional de Fernando Haddad".

O texto reitera: "o país vive uma mudança drástica de ciclo político que demanda do PT não só a compreensão do seu significado, mas a tomada de posições que lhe permitam resistir com eficácia ao projeto destrutivo da extrema direita e, ao mesmo tempo, disputar com sucesso a hegemonia democrática na sociedade, tal como apontamos antes". 

E caso alguém não tenha entendido, o texto desenha: "Parte indissociável desses objetivos é repensar e aperfeiçoar a estrutura organizativa do PT, seu funcionamento, sua transparência, sua permeabilidade à influência de seus militantes, filiados e simpatizantes, bem como sua relação com os movimentos sociais, com a intelectualidade, a área jurídica, a área artística, a juventude, entre vários outros setores".

E, incorporando ideais que circulam em outros setores do Partido, a tese da CNB diz explicitamente que "a questão central que deve orientar o nosso debate organizativo é como conectar de modo mais profundo (e, em muitos casos, reconectar) o partido com as percepções, sentimentos e aspirações dessa ampla e diversificada base social", não havendo "dúvida de que tal reconexão supõe uma reforma interna do PT".

 A partir deste diagnóstico, o que a CNB propõe fazer? A resposta aparece no final do texto.

Antes, neste mesmo capítulo, a tese da CNB denuncia a realidade da "nova política" proposta pela direita, contrapondo a isto o virtuosismo da vida interna do PT, que "ao se insurgir contra a velha cultura das elites, produziu uma nova forma de fazer política no Brasil. Contestando o velho mandonismo, construindo de baixo para cima e da sociedade para o Estado um partido para atuar não apenas nos períodos eleitorais, mas no dia a dia do povo trabalhador. Uma agremiação em que cada integrante tem uma parcela do poder de decisão, em que o funcionamento se dá por instâncias democráticas em todos os níveis e em que a legislação eleitoral e partidária, que deve ser cumprida por razões formais, não é limite para novos experimentos de participação interna. Vencendo as restrições da LOP, Lei Orgânica dos Partidos Políticos, herança do regime militar, o   Partido adotou o modelo de decisões coletivas e garantiu aos filiados o direito de escolher livremente os seus dirigentes e, por meio de prévias internas, seus candidatos às eleições. Um partido que nasceu das lutas sociais e delas se alimenta permanentemente, e que busca não somente representar, mas encarnar a vontade de independência política dos trabalhadores e do conjunto das classes populares".

Nenhuma palavra é dita sobre o que está ocorrendo na vida real do Partido, nos últimos anos. 

No lugar disso, se fala que o "PT rompeu também com dogmas da esquerda tradicional, construindo uma crítica consistente – e pela esquerda – às experiências do chamado “socialismo real”, afirmando um projeto alternativo de socialismo democrático e libertário, o chamado “Socialismo Petista”. Ao mesmo tempo questionou vários de seus paradigmas de organização e funcionamento, entre eles o “centralismo democrático”, substituindo-o pela discussão de seus membros nas respectivas instâncias partidárias, pela decisão coletiva e pela unidade de ação após a decisão tomada. Abriu-se ainda à existência de tendências internas e proporcionalidade nas direções, expressão da ampla diversidade que caracteriza o PT, com o papel de debater, ideias, elaborar, construir e defender posições no âmbito interno do partido. O que unifica o conjunto dos petistas não é esta ou aquela doutrina ideológica, filosófica ou religiosa – mas o seu programa político de transformações emergenciais e estruturais para o país".

E, como se fosse pouco, o texto também comemora o fato do PT ter se insurgido "contra as práticas corriqueiras das elites políticas conservadoras no Brasil tais como o fisiologismo, o assistencialismo, o clientelismo, buscando gerar cidadania e inclusão social. Construiu uma denúncia importante da apropriação do Estado brasileiro pelas classes dominantes, pregou e praticou um combate permanente contra a corrupção e em defesa da ética e da transparência na gestão pública".

Aliás, "na última década, fiel a esse compromisso visceral com a democracia, o PT fez uma nova série de inovações na sua estrutura organizativa. Instituiu, por exemplo, o sistema de cotas nas direções em todos os níveis, ampliando e fortalecendo as secretarias setoriais, para garantir às maiorias sociais e aos segmentos socialmente discriminados os seus direitos dentro do partido: aos negros e negras, à mulheres, à comunidade LGBT, à juventude". 

Assim, a primeira parte deste item diz que o mundo mudou e que o PT precisa mudar; já a segunda parte do item faz tantos elogios a nós mesmos, que cabe perguntar por que mesmo o PT deveria gastar tempo fazendo um congresso estatutário em 2021. Afinal, o partido descrito na tese da CNB parece funcionar muito bem. 

O paradoxo é (supostamente) resolvido assim: "Temos orgulho de ser uma esquerda democrática e libertária e de nossa trajetória fortemente inovadora em matéria de organização interna. Mas é preciso não esquecer que mesmo as organizações mais criativas e transformadoras sofrem os efeitos do tempo e das contradições da vida política, e podem acomodar-se, perder vitalidade e até burocratizar-se. Mesmo uma organização como a nossa, tão ousada e atenta aos fenômenos emergentes da vida contemporânea, corre o risco de ficar defasada em relação às novas realidades sociais e aos novos desafios da luta política".

Portanto, nossos problemas "podem" ocorrer; "corremos o risco" de que eles ocorram.  Não se trataria, portanto, de problemas urgentes, de cuja solução depende nossa sobrevivência.

Isto posto, a tese passa a falar da necessidade de "unir os partidos de esquerda e de centro-esquerda e os movimentos sociais e criar, no parlamento e nas ruas, um forte movimento de resistência ao desmonte da economia nacional, do Estado democrático e das políticas públicas de combate à pobreza e de inclusão social, que interessam ao conjunto das classes populares e também às classes médias assalariadas, entre outros setores".

Sendo necessário, "também", "criar um movimento mais amplo de oposição, buscando aliança com todos os que acreditam na democracia, indo além do campo da esquerda e da centro-esquerda, para barrar o avanço do Estado Policial, garantir o Estado de Direito e libertar Lula da prisão arbitrária em que se encontra".

A CNB parece esquecer que Bolsonaro não foi personagem central do golpe de 2016, nem foi Bolsonaro quem condenou e prendeu Lula. Os que fizeram isto foram, essencialmente, os setores que a CNB quer atrair para uma frente em defesa da democracia.

Em seguida, o texto volta a afirmar que "o período atual exige novas formas de organização para o PT", sendo "hora de o PT avaliar a sua organização, as condições e a efetividade da sua militância e das suas direções espalhadas por todo o país", "(re)examinar o modelo e o funcionamento da nossa organização partidária em seus vários aspectos", "avaliar com seriedade a situação das nossas instâncias de base e das direções, bem como dos setoriais, das bancadas parlamentares, dos governos estaduais e municipais liderados pelo PT", "perguntar em que medida essas instâncias estão cumprindo plenamente o seu papel, ou se o seu formato e método de funcionamento deve ser alterado para responder melhor aos desafios atuais do partido e do país", "refletir coletivamente sobre a sistemática vigente de financiamento público e de autofinanciamento do partido, assim como dos critérios de destinação de recursos. O mesmo vale para áreas estratégicas do partido, fundamentais para a qualidade e o resultado da nossa atuação coletiva, a exemplo da comunicação (interna e externa) e da formação política".

Outros temas são citados ("novos espaços de participação interna para militantes, filiados e apoiadores", "implementação de um sistema eletrônico de comunicação com o conjunto dos filiados", "envolvimento dos filiados e filiadas, inclusive de pequenos municípios, nas ações cotidianas e nas campanhas políticas gerais do partido", "organização dos setoriais nos estados e municípios", "definição de uma política específica, do conjunto do partido, para a chamada transição geracional, estimulando a filiação de jovens ao PT e favorecendo a candidaturas de jovens em todos os níveis").

Isto posto, a tese da CNB avisa que "várias medidas para melhorar a organização do partido podem ser tomadas pela própria Direção Nacional. Outras, segundo as regras do PT, exigem uma reforma estatutária propriamente dita, que deve ser objeto de um congresso específico, convocado para esse fim, com toda a necessária preparação política e técnica. Nesse sentido, propomos que o 7º Congresso convoque um Congresso Extraordinário de Reforma Estatutária para 2021".

Ou seja: existiria uma potencial necessidade de reorganizar, mas esta necessidade pode aguardar um ou dois anos. Isto supondo que este congresso não terá o mesmo fim do plebiscito sobre as eleições diretas, aprovado por unanimidade no sexto congresso, adiado diversas vezes e agora suprimido da memória.

Como já foi dito, a tese da CNB é marcada por diagnóticos próximos da realidade, aos quais seguem propostas que repetem políticas do passado.

Mas no caso da organização, o diagnóstico está muito aquém da realidade. A situação do Partido é gravíssima. O quadro pintado pela tese da CNB não corresponde a vida real. O PT tem necessidade de uma urgente revolução organizativa. Adiar isso para 2021 (ou para sabe-se lá quando) é uma atitude que revela muito não apenas sobre o que pensa a tendência atualmente majoritária, mas também sobre os interesses que movem alguns de seus dirigentes, especialmente aqueles que estão a frente de cargos nas instâncias partidárias.

SEM REVISÃO, PODE CONTER ERROS

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Resolução de conjuntura

Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato Bolsonaro dizia que o povo tinha que escolher entre ter "direitos" ou ter "empregos". Desde 1 de janeiro de 2019, o agora presidente Bolsonaro vem trabalhando ativamente para eliminar os direitos do povo brasileiro. Mas os empregos, como é óbvio, não apareceram. E não há sinais de que vão aparecer. Pelo contrário, os dois primeiros trimestres de 2019 foram de recessão. Aliás, desde que começou a operação golpista, no dia seguinte ao segundo turno de 2014, a economia brasileira vem marcando passo. 

Este é um dos motivos do crescente desgaste e queda na popularidade do governo Bolsonaro. Além de constituir o pano de fundo dos conflitos entre os diferentes setores que compõem a coalizão golpista.

Sabedor disso, o governo Bolsonaro vem adotando medidas com o suposto propósito de "estimular" a economia. Mas estes "estímulos" são limitados, inclusive porque a lógica global do governo é ultraliberal e submissa aos interesses das metrópoles.

Por isso, a principal arma do governo para enfrentar seu desgaste é a política. Neste terreno, embora haja diferenças importantes na coalizão governista, o que vem predominando é a posição do núcleo duro bolsonarista. Provas disso são o episódio da inauguração do aeroporto de Vitória da Conquista (BA); a reação às denúncias feitas pelo site Intercept; a tática adotada na reforma da previdência; a proposta denominada "Future-se"; e a indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixador junto aos EUA. Em todos estes exemplos, a linha do governo vem sendo atacar os inimigos, travar a disputa ideológica, insistir nas suas posições políticas originais. É um governo que polariza, marca posição, acumula forças, “misturar gestão e política" o tempo todo.

Frente a isto, a oposição vem adotando duas táticas diferentes. Uma tativa se materializa na greve geral, nas mobilizações em defesa da educação, no voto unido das bancadas do PT, PCdoB e PSOL contra a reforma da previdência, na campanha Lula Livre, no apoio à uma candidatura de oposição para a presidência da Câmara de Deputados. Outra tática se materializa na postura “republicana” de vários governadores "progressistas" frente ao governo cavernícola, o voto em Rodrigo Maia, a secundarização ou até negação da campanha Lula Livre.

No caso específico da reforma da previdência, as ilusões no “centro” e a subestimação da força real do governo contribuíram para que as bancadas parlamentares da esquerda fossem surpreendidas pela velocidade da tramitação e pela grande diferença final em favor da "reforma".

Como desdobramento direto e imediato destas ilusões, setores da oposição exibem desalento e a capitulação; insistem na tática de negociar detalhes de uma reforma pior do que a proposta por Temer e derrotada por nós; dizem que não haveria nada que pudesse ser feito, para impedir a aprovação da reforma no segundo turno da Câmara e do Senado. Estas atitudes são incorretas. Os governadores que defendem negociar a reforma e a estender aos estados, precisam ser enquadrados, pois esta postura contribuiu para a ampla vantagem obtida pela reforma, no primeiro turno de votação. Por outro lado, o PT precisa engajar o conjunto de suas instâncias e militância no corpo-a-corpo junto aos mais de parlamentares, pressionando e denunciando publicamente os que votaram e pretendem votar a favor da reforma. Uma tática de oposição global contribui para que, mesmo que soframos uma derrota no segundo turno da Câmara e no Senado, acumulemos forças para as batalhas futuras.

Ao mesmo tempo que trava a batalha em favor da reforma da previdência, o governo segue se movimentando em outras frentes, deixando claro que a apesar das diferenças, a linha predominante é endurecer. 

O caso Intercept é um dos exemplos disso. Frente à comprovação de que Moro e a OLJ cometeram inúmeros crimes, o governo partiu para o ataque, incluindo intimidações verbais feitas por Bolsonaro e a portaria 666 assinada por Moro. Hoje, salvo fatos novos, o governo conseguiu — através dos hackers de Araraquara — construir uma versão que coesionou sua base.

Outro exemplo é o recrudescimento da repressão legal (vide prisão de lideranças sem teto em SP) e ilegal (vide agressões e assassinatos contra indígenas, contra trabalhadores rurais, contra pessoas trans etc.).

Vista globalmente a situação, podemos dizer que —apesar das dificuldades, das divergências entre eles e de nossa resistência— o governo Bolsonaro e a coalizão reacionária que o sustenta vem conseguindo implementar seu programa antinacional, antipopular e antidemocrático. Se não forem detidos, levarão o Brasil em direção ao passado, nos colocando em uma situação similar ao dos anos 20 do século XX.

Derrotar o governo Bolsonaro exigirá alterar a estratégia adotada pelo PT desde 1995. E do ponto de vista tático, exigirá: 

-manter a linha de oposição global ao governo, a cada um de seus projetos. Não há o que negociar com a coalizão reacionária;

-denunciar a escalada repressiva, legal e ilegal, estimulada e/ou praticada pelo governo; 

-priorizar a luta de massas como o instrumento principal da oposição, ao qual devem ser subordinar a ação de nossos mandatos parlamentares e executivos;

-potencializar a Marcha das Margaridas, o terceiro tsunami da educação e a marcha das mulheres indígenas;

-converter a eleição do PT, dia 8/9, em uma grande mobilização nacional contra o governo e suas políticas;

-manter e ampliar a campanha Lula Livre, buscando atrair aqueles setores da oposição que ainda não se engajaram, ao mesmo tempo que seguiremos polemizando duro com quem se converteu em linha auxiliar da extrema direita;

-adotar uma tática nacional nas eleições 2020, com o objetivo de transformar aquelas eleições em um protesto contra o governo Bolsonaro e seus aliados estaduais.

A classe trabalhadora brasileira tem diante de si imensos desafios e ameaças. Não vivemos tempos fáceis. Vivemos tempos de guerra. O único caminho é lutar, lutar e lutar.

Direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda 
28/7/2019

terça-feira, 16 de julho de 2019

Em tempos de guerra, A Esperança é Vermelha


Primeira versão da tese que a tendência petista Articulação de Esquerda apresenta para o debate no 7º Congresso do Partido dos Trabalhadores. Com base nesta tese, será inscrita a chapa intitulada EM TEMPOS DE GUERRA, A ESPERANÇA É VERMELHA e a candidatura do companheiro Valter Pomar à presidência nacional do PT.

Vivemos tempos de guerra. Guerra de ricos contra pobres. Guerra de empresários contra trabalhadores. Guerra do agronegócio contra os camponeses, indígenas e quilombolas. Guerra de latifundiários urbanos contra o povo sem teto. Guerra de especuladores contra aposentados. Guerra de machistas contra as mulheres. Guerra de racistas contra negros e negras. Guerra dos intolerantes contra os LGBT. Guerra de conservadores contra a juventude. Guerra de fascistas contra as liberdades democráticas. Guerra da ignorância contra a educação libertadora. Guerra dos imperialistas contra as nações periféricas. Guerra do capitalismo contra a humanidade. Guerra da morte contra a vida.
A classe trabalhadora, o povo pobre, camponeses, indígenas, quilombolas, sem teto, aposentados, mulheres, negros e negras, os LGBT, a juventude, os democratas, os povos de todo o mundo precisamos vencer esta guerra. Só assim teremos um mundo em que caibam todas e todos, só assim teremos igualdade, liberdades democráticas, soberania, integração, outro mundo possível, o socialismo. Ou vencemos esta guerra, ou será a barbárie.
Nossos inimigos têm a seu favor o Estado, os grandes meios de comunicação, o poder econômico, a manipulação dos corações e mentes. Nós, das classes oprimidas e dominadas, temos a nosso favor a organização, a organização e a organização. É a organização que nos permite conscientizar, é a organização que nos permite mobilizar, é a organização que nos permite lutar, é a organização que nos permite resistir, é a organização que nos permite, mais cedo ou mais tarde, conquistar o poder para as classes trabalhadoras poderem construir um novo Brasil e um novo mundo.
Quando criminalizam o pensamento de esquerda, quando reprimem os movimentos sociais, quando sufocam o sindicalismo, quando matam Marielle, quando prendem Lula, quando tentam cassar a legenda do PT, nossos inimigos buscam inviabilizar a organização da classe trabalhadora. Frente a cada um destes ataques, nossa resposta é e continuará sendo organizar, organizar e organizar um partido para tempos de guerra.
Se quisermos vencer, devemos começar nos libertando de todas as ilusões que predominaram, nos últimos anos, no PT. A ilusão dos que acreditavam que se a esquerda desistisse da revolução e do poder, a direita desistiria dos golpes e das ditaduras militares. Que se desistíssemos da expropriação dos capitalistas, estes aceitariam a distribuição de renda e poder. Que se deixássemos de lado o anti-imperialismo, os EUA e seus amigos aceitariam a integração regional e respeitariam nossa soberania. Que se a esquerda fosse a campeã do republicanismo e do “estado de direito”, o outro lado abriria mão do “estado da direita”.
O que aconteceu, todos sabemos: o golpe de 2016, Lula preso, um cavernícola na presidência, o Brasil e a América Latina regredindo. Apesar disso, há setores do PT que resistem em fazer a autocrítica das ilusões! 
Dizem que o golpe foi causado porque Dilma não soube “dialogar”; que as forças armadas apoiaram o golpe porque foram “provocadas”; que a condenação e prisão de Lula foram obra apenas de Moro e Dallagnol, não do “partido do judiciário”, do “partido da mídia” (Globo à frente), do “partido dos generais” e do Grande Capital. Que Haddad seria eleito se atraísse o “centro”; que o governo de Bolsonaro é frágil; que a libertação de Lula depende apenas de convencer este ou aquele juiz; que o grande empresariado já se deu conta de que era feliz e não sabia.
O valor dessas ilusões, todos viram na reforma da previdência: ampla maioria a favor do governo (379x131), mostrando que não se trata de um governo fraco, mostrando de que lado está o “centro”, mostrando quem de fato é de esquerda e está ao lado do povo.
A cada derrota, a cada desmentido, os semeadores de ilusões buscam novas. Não conseguem perceber que na luta de classes vale a máxima: se queres a paz, prepara-te para a guerra. Lula pode ser libertado, Bolsonaro pode ser derrotado, nossos inimigos podem ser divididos, podemos derrotar a direita nas eleições de 2020 e 2022, podemos voltar a governar o país. Mas para isso, só há um caminho: lutar, lutar e lutar. E os que vivem no mundo das ilusões, não conseguem lutar adequadamente.
E a luta será mais ou menos longa, a depender do que ocorra no mundo, a depender das divisões na coalizão golpista e, principalmente, a depender de nossa capacidade de conscientizar, organizar e mobilizar a classe trabalhadora.
O 7º Congresso do PT será palco de muitas batalhas: da democracia contra a fraude; do debate contra a mera votação; do partido de luta, contra a legenda eleitoral; do partido antissistema, contra a politicagem tradicional e fisiológica; da oposição radical, contra a frouxidão; das reformas estruturais e do socialismo, contra a social-democracia e o social-liberalismo. Além disso, o congresso do PT será uma batalha entre quem cultiva ilusões e quem semeia esperanças.
É necessário realizar reformas estruturais
O golpe de 2016 confirmou que o fato de um partido de esquerda ter conseguido vencer por quatro vezes seguidas as eleições presidenciais, como ocorreu com o PT entre 2002 e 2014, não quer dizer que este partido e a classe trabalhadora tenham chegado ao poder.
O golpe confirmou, também, que para defender um governo eleito é essencial combinar luta institucional com mobilização social e disputa cultural, uma vez que parcelas fundamentais do aparato de Estado obedecem aos interesses da classe dominante.
O golpe confirmou, finalmente, que para transformar o Brasil não bastam distribuição de renda, políticas públicas e sociais: é necessário implementar reformas estruturais, que reduzam substancialmente o poder econômico e político dos capitalistas, inclusive para impedir golpes que não apenas desfazem os avanços, como também nos empurram de volta para uma situação em certos aspectos similar ao que era o Brasil nos anos 1920: um país internacionalmente subalterno, uma economia primário-exportadora, desindustrializado, a questão social tratada como “caso de polícia”, um Estado de exceção com forte influência dos militares.
Alguns setores argumentam que entre 2003, quando Lula tomou posse pela primeira vez, e 2014, quando Dilma conquistou o segundo mandato, a esquerda brasileira não tinha correlação de forças para fazer muito além do que fez: disputar eleições, governar, implementar políticas públicas que tiraram dezenas de milhões de pessoas do Mapa da Fome, ampliaram o acesso a educação, a moradia, a luz, geraram renda e empregos, fortaleceram a soberania e a integração.
Alguns setores argumentam que se a esquerda tivesse tentado fazer mudanças que ultrapassassem estes limites, teríamos sido derrubados! 
Acontece que a esquerda brasileira disputou eleições presidenciais em 1989, 1994 e 1998; ganhou as eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014; sempre respeitou as leis e as instituições, não fez nada além do permitido pela Constituição — e, em muitos casos, ficou aquém do que a Constituição previa. 
Entretanto, apesar deste comportamento ordeiro, mesmo assim o governo encabeçado pelo PT foi derrubado. E desde o golpe, a classe dominante vem tomando novas medidas com o intuito de impedir que possamos disputar eleições, assumir governos e adotar políticas públicas transformadoras.
O PT precisa adotar uma nova estratégia, adequada para esta nova situação política. Ou seja, precisa articular de uma nova maneira a luta cultural, a luta social, a luta eleitoral-institucional, a auto-organização da classe, as relações internacionais, a política de alianças, o programa e a questão do poder. Nossa posição é de que a esquerda como um todo e o PT em particular devem:
1) Estabelecer como principal objetivo programático implementar um conjunto de transformações para o Brasil que combine medidas democrático-populares com medidas socialistas.
O Brasil é um país de imensa desigualdade social. O caminho para superar esta desigualdade passa por derrotar o capital financeiro, os oligopólios, as transnacionais, o agronegócio, colocando a economia brasileira sob controle da classe que realmente produz as riquezas, a classe trabalhadora. Apenas nestes novos marcos estruturais, nossas políticas públicas – como o Sistema Único de Saúde – terão pleno êxito.
O capitalismo está em crise no mundo inteiro. O PT é um partido socialista, luta contra a exploração do trabalho pelo capital, defende a derrota e a superação do capitalismo.
2) Estabelecer como principal objetivo estratégico a conquista do poder, isto é: converter as classes trabalhadoras em classes dominantes, não se contentando em ser governo e sem ter ilusões no caráter supostamente neutro do aparato estatal.
No Brasil, a classe dominante sempre controlou o poder de Estado, raramente tendo perdido o controle dos governos e parlamentos. Lutamos por um Estado de novo tipo, incluindo aí a democratização e regulação dos meios de comunicação, do sistema judiciário e das Forças Armadas, de tal forma que estejam a serviço da maioria da população brasileira.
A classe dominante tem um “DNA” golpista e não tem escrúpulos em violar a lei e reprimir com máxima violência para fazer valer a sua dominação. Também por isso a classe trabalhadora deve lutar pelo poder de Estado, não apenas pelo governo. E a luta pelo poder só terá completo êxito quando a maioria do povo brasileiro fizer uma grande revolução política, social e cultural.
3) Abandonar a ilusão de que a classe capitalista, ou qualquer uma de suas frações, é ou pode vir a ser aliada estratégica das classes trabalhadoras. Não defendemos a construção, no Brasil, de um “capitalismo nacional, democrático e popular”.
A única aliança capaz de transformar o Brasil é a unidade entre a classe trabalhadora assalariada e a classe trabalhadora de pequenos proprietários. Uma frente popular que deve acolher todas e cada uma das lutas de todos os setores explorados, dominados e oprimidos. 
Nosso Partido luta com firmeza pelos direitos das mulheres, especialmente das trabalhadoras! O PT defende os direitos dos negros e das negras, que constituem a maior parte da classe trabalhadora, lembrando que o Brasil é um dos países com maior número de afrodescendentes do mundo inteiro. O PT está engajado nas lutas pelos direitos das lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros, num dos países onde mais assassinatos são cometidos contra esses segmentos da população. Nosso partido está na linha de frente das batalhas em defesa da juventude, num país em que grande parte da população tem menos de 30 anos, filhos e filhas da classe trabalhadora. O PT coloca-se decididamente ao lado dos povos indígenas, que desde a chegada dos invasores coloniais até hoje vêm sendo vítimas de expropriação, massacres e todo tipo de violência. O PT está engajado nas lutas ambientais, incluindo aí a punição dos responsáveis pelos crimes de Mariana e Brumadinho e a reestatização da Vale. O PT é parte integrante da luta dos quilombolas, dos Sem Teto e dos Sem Terra.
4) Incluir em nossa política de alianças governos, partidos e movimentos de outros países, especialmente da América Latina.
Nossa história é marcada pela subordinação e dependência às potências estrangeiras: primeiro aos portugueses, depois aos ingleses, hoje aos Estados Unidos. Subordinação que sempre incluiu a colonização do pensamento! O caminho para superar esta situação é enfrentar o imperialismo, especialmente dos Estados Unidos, afirmando nossa soberania nacional em todos os terrenos: econômico, político, militar e ideológico.
Defendemos uma política externa que, em primeiro lugar, privilegie a integração regional latino-americana e caribenha, reconstruindo instituições como a Celac e a Unasul e sustentando organizações como o Foro de São Paulo. Devemos, também, estreitar as relações com os continentes africano e asiático; com os países árabes; e valorizar os laços diplomáticos com os países que formam conosco o grupo BRICS: Rússia, China, Índia e África do Sul.
5) Situar, também no mais alto nível de importância estratégica, a luta cultural, a luta de ideias, a defesa de outra visão de mundo, em resumo: a disputa de hegemonia tão necessária para construir uma consciência de classe socialista-revolucionária, democrática-radical e nacional-popular.
Um exemplo prático da importância desta luta é a visão de mundo que está por detrás do debate sobre a reforma da previdência. Vivemos para trabalhar ou trabalhamos para viver? A sociedade deve ser baseada na solidariedade ou é cada um por si?
Outro exemplo da importância da cultura na luta de classes é a luta pela liberdade de Lula e pela anulação de suas penas: para além da importância estritamente política que possui, também possui um enorme significado cultural. A prisão de Lula não visava apenas impedir a vitória eleitoral, nem visa apenas reduzir a capacidade de luta contra as políticas do governo Bolsonaro. A condenação e prisão de Lula têm uma imensa carga simbólica: visa paralisar, amedrontar e desmoralizar a classe trabalhadora, por meio do encarceramento da figura que simboliza o que de mais avançado esta classe produziu desde os anos 1970. A luta pela libertação de Lula e anulação de sua pena possui importância transcendental para o conjunto da esquerda brasileira.
6) Entender que a luta social (a mobilização independente das classes trabalhadoras em torno de seus objetivos imediatos), a luta eleitoral (a disputa por espaços no aparato estatal) e a ação institucional (dos mandatos, governos e de outras instituições do Estado) são diferentes formas que a luta de classes assume, sendo necessário analisar concretamente a centralidade de cada uma e a relação entre elas, a cada momento dado. 
Hoje, a centralidade é da luta social. E nossa participação nas eleições de 2020 deve estar a serviço de uma tática nacionalizada de oposição radical ao governo Bolsonaro, com uma política de coligações eleitorais coerente com isso.
7) Compreender que estamos numa época internacional de crises, guerras e rupturas, que torna ainda mais atual a luta pelo socialismo.
A crise internacional de 2008 demonstrou que o capitalismo segue extremamente instável, propenso a crises brutais, que se desdobram em “guerras” comerciais, políticas, culturais — e guerras propriamente ditas. Essa crise também revelou que o capitalismo neoliberal é incapaz de reformar a si mesmo: é cada vez menor a chance de convivência pacífica entre, de um lado, o capitalismo, e de outro lado as políticas de bem estar social e as liberdades democráticas. Assim como é cada vez menor a chance de convivência pacífica das grandes potências entre si e destas com os países periféricos. A luta entre as classes sociais dentro de cada país, bem como as disputas e conflitos entre os Estados nacionais, tendem ao acirramento.
Parte da esquerda brasileira não acredita nisto. Por isso, deixa o socialismo na “fila de espera”. Antes de 2008, fazia isso porque considerava que o socialismo não seria necessário ou pelo menos não seria urgente. Afinal, do ponto de vista deste setor da esquerda, estaríamos supostamente conseguindo avançar, melhorar a vida do povo, ampliar as liberdades, afirmar a soberania, construir a integração regional, mudar pouco a pouco o mundo, mesmo sem tocar nas bases estruturais do capitalismo existente no Brasil. E agora, depois do golpe de 2016 e da eleição de Bolsonaro, aquele setor da esquerda defende continuar mantendo o socialismo na “fila de espera”, porque pensa que a luta pelo socialismo não seria factível na conjuntura atual. Afinal, dizem, a classe trabalhadora está perdendo tudo o que conquistou antes, logo a tarefa seria resistir, impedir o desmonte, recuperar o terreno perdido. E depois, quem sabe, quando tudo voltar ao normal, recolocar na ordem do dia bandeiras de mais longo prazo, tais como o socialismo.
Os que pensam desta forma convertem o socialismo em absolutamente nada. Pois ele não seria necessário quanto a classe trabalhadora está forte e não seria factível quanto a classe trabalhadora está fraca.
A experiência latino-americana (1998-2018) e, antes disso, a experiência da socialdemocracia europeia (1945-1991), demonstram que a sobrevivência das reformas e dos avanços depende não do capitalismo, mas sim da correlação de forças entre a classe capitalista e as classes trabalhadoras. E por mais que as classes trabalhadoras melhorem suas posições, se elas não avançarem sobre a propriedade dos meios de produção e dos instrumentos de poder, os capitalistas sempre terão os meios para “colocar as coisas no seu devido lugar”. Por isso é que consideramos imprescindível adotar uma estratégia socialista, ou seja: uma estratégia que visa fazer a classe trabalhadora construir e conquistar os meios de produção e os instrumentos de poder.
8) Colocar no mais alto nível de importância estratégica, a auto-organização independente das classes trabalhadores, através de seus diferentes instrumentos, com ênfase nos sindicatos e no papel do próprio PT.
O caminho para mudar o Brasil passa pela luta contra a classe dos capitalistas, e a principal arma da classe trabalhadora nessa luta é a organização: os sindicatos, os movimentos sociais, as entidades estudantis, a UNE e UBES, o MST, a CUT, a Frente Brasil Popular e, com destaque, o PT.
Todas as organizações do campo democrático, popular e socialista estão chamadas a mudar seus métodos de trabalho e atuação, especialmente em quatro terrenos: a) funcionamento e método de direção, b) organização de base e relação cotidiana com as classes trabalhadoras, c) mobilização e luta social de massa, d) práticas de comunicação de massa e de formação política.
A questão organizativa central é nosso diálogo e enraizamento junto à classe trabalhadora. É preciso começar do princípio: hoje temos uma classe trabalhadora diferente, mais precarizada, mais influenciada por pensamentos capitalistas e de direita.
O desafio de organizar a classe trabalhadora inclui políticas de comunicação de massas e a construção de núcleos de base, casas do povo e centros culturais, enraizando o petismo nos locais de trabalho, estudo e moradia. Inclui, também, políticas de assistência social e ação direta do Partido junto a quem foi empurrado para o desemprego e a miséria. Inclui, ainda, financiamento militante e de massas, bem como políticas permanentes de comunicação e de formação, tanto de massas quanto de militantes e quadros. 
Sem este nível de organização partidária, não teremos nenhuma chance contra a operação que a máquina do Estado está promovendo contra a classe trabalhadora em geral e contra o PT em particular.
As instâncias partidárias, dos núcleos até a executiva nacional, devem ser capazes de agir no dia a dia da luta de classes, dirigindo um partido que faça política também nos anos ímpares, não apenas em anos de eleição. 
As direções atuais do Partido não funcionam coletivamente, são muito pouco executivas, com dirigentes atuando como se estivessem num parlamento. Para agravar a situação, há governadores eleitos pelo PT que afrontam publicamente as posições do Partido, sem que a atual direção partidária os enquadre. E há tendências que atuam abertamente como partidos-dentro-do-partido, convertendo o PT em mera legenda eleitoral e tratando a base como “massa de manobra”, que é convocada uma vez a cada quatro anos para eleger as direções e depois é mandada de volta para casa.
Para poder dirigir a luta cotidiana e a luta pelo socialismo, o PT precisa ser de massas, mas de massas militantes, que participem de organismos de base, com acesso à comunicação e à formação política; que sustentem financeiramente o Partido; e que não apenas elejam, mas também exerçam controle sobre os parlamentares, os dirigentes e as figuras públicas do Partido.
Entre as medidas indispensáveis e urgentes, citamos:
*uma política de comunicação de massas que articule um jornal impresso nacional, revistas, rádio, televisão e redes sociais digitais;
*reconstruir a rede de organizações de base e fortalecer as instâncias partidárias em detrimento dos centros de comandos paralelos localizados, principalmente, nos gabinetes parlamentares e executivos;
*ampliar a influência do petismo na classe trabalhadora, com atenção especial para as mulheres, juventude, negros e negras, moradores da periferia e setores do povo que hoje estão sob influência de concepções políticas e religiosas conservadoras;
*construir um feminismo socialista que contribua para organizar a luta das mulheres trabalhadoras e que supere na prática o machismo que continua presente na sociedade e nas organizações do povo;
*construir uma JPT militante e de massas, que supere seu profundo processo de dispersão, desorganização e burocratização;
*retomar e massificar o trabalho de formação, da base às direções, com ênfase nos aspectos politico-ideológicos e teóricos;
*viabilizar o autofinanciamento do Partido, que não deve depender nem de recursos empresariais (como antes), nem do financiamento público (como agora).
VIVEMOS TEMPOS DE GUERRA
A coalizão responsável pelo golpe de 2016, pela prisão e interdição de Lula, e pela vitória de Bolsonaro, não quer apenas nos derrotar. Quer destruir a esquerda, a começar pelo PT. Porque a direita não tem dúvida sobre o papel histórico do PT. Sabem que sem o PT, não será possível derrotar o golpismo, nem convocar uma Assembleia Nacional Constituinte. Sabem que na história do Brasil o petismo é a mais forte e a mais importante experiência organizativa de quem vive do trabalho, sofre opressão e dominação.
Para resistir e para derrotar a coalizão golpista, o PT vai precisar de uma nova estratégia, que nos permita reconquistar o apoio da maioria da classe trabalhadora, condição para trilhar um caminho que nos leve não apenas a uma vitória eleitoral, mas ao poder e ao socialismo. Precisamos de um partido para tempos de guerra, orientado pela esperança vermelha dos que sabem que o futuro da humanidade depende da vitória do socialismo.
Lula Livre!! Viva o Partido dos Trabalhadores! e das Trabalhadoras!!!
Julho de 2019

quarta-feira, 26 de junho de 2019

A ilusão é branca. A esperança, vermelha

No dia 25 de junho, milhões de pessoas acompanharam à distância o julgamento, pelo STF, de dois habeas corpus impetrados pela defesa de Lula.

Nas redes sociais, muitas lideranças experientes manifestaram, de público e privadamente, grandes expectativas em uma vitória. Gilmar Mendes, anteontem tratado como canalha, chegou a ser citado como um grande aliado. E muita gente boa se surpreendeu com o voto contrário de Celso de Melo.

O que dizer desse comportamento, senão reconhecer que existe, na esquerda brasileira, uma corrente que simplesmente não consegue se libertar das ilusões? 

Não se trata de uma pessoa, nem de um partido específico: é toda uma corrente ideológica, que aderiu ao “pensamento positivo”, segundo o qual gentileza gera gentileza, moderação gera moderação; conciliação gera conciliação.

São os que achavam que se a esquerda desistisse da revolução e da “ditadura do proletariado”, a direita desistiria dos golpes e das ditaduras militares.

Se a esquerda parasse de defender a expropriação dos capitalistas, estes aceitariam a distribuição de renda e poder.

Se a esquerda deixasse de lado o anti-imperialismo, os EUA e seus amigos europeus aceitariam a integração regional e respeitariam a soberania nacional.

Se a esquerda acreditasse no “estado de direito”, o outro lado abriria mão do “estado da direita”.

O que aconteceu, todos sabemos: o golpe de 2016, Lula preso, um cavernícola na presidência, o Brasil e a América Latina regredindo.

Apesar disso, a turma do pensamento positivo não desiste!!! 

Nem pensar em autocrítica das ilusões!!!

Passaram a dizer que o golpe foi causado porque Dilma não soube “dialogar”; que as forças armadas apoiaram o golpe porque foram “provocadas” por certas atitudes inadequadas da esquerda; que a condenação e prisão de Lula foram obra de Moro e Dallagnol, não do partido do judiciário.

Que Lula “com certeza seria candidato”; que Haddad seria eleito se atraísse o centro; que Bolsonaro é fruto de um acidente imprevisto, não de um movimento organizado; que o governo  é frágil e a liberdade de Lula está por um triz.

Que as revelações do Intercept vão virar o mundo de ponta-cabeça, que com certeza venceremos as eleições de 2022 e — crème de la crème — que o grande empresariado já se deu conta de que era feliz e não sabia.

Os “positivistas”, quando questionados, lembram com ares inteligentes, típicos de quem leu sem entender, daquela famosa boutade do Barão de Itararé: “tudo pode acontecer, inclusive nada”. 

Os “positivistas” reclamam que não podemos ser cegos às contradições existentes no “campo adversário”. E, por fim, atacam o “negativismo” dos que supostamente acham que tudo sempre vai dar errado.

Onde estará a verdade? 

Na prática.

E “a prática”, no caso, significa a luta de classes. E na luta de classes vale a máxima: se vis pacem para bellum. Se queres a paz, prepara-te para a guerra.

Lula pode ser libertado, Bolsonaro pode ser derrotado, nossos inimigos podem ser divididos, podemos voltar a governar o país. 

Mas para isso, só há um caminho: lutar, lutar e lutar. E os que vivem no mundo das ilusões, não conseguem lutar adequadamente.

Não compreendem, por exemplo, que para derrotar o inimigo, é preciso conhecê-lo. Não subestimar sua força, não minimizar suas más intenções, não desconsiderar sua vontade de vencer.

Os que criticam as ilusões dos “positivistas” não são “negativistas”. São realistas. Não confundem seu desejo com os fatos. Guardam a vontade para organizar a luta. Luta que será mais ou menos longa, a depender do que ocorra no mundo, a depender das divisões na coalizão golpista e, principalmente, a depender de nossa capacidade de conscientizar, organizar e mobilizar a classe trabalhadora.

O sétimo congresso do PT será palco de muitas batalhas: da democracia contra a fraude; dos que desejam debate, contra os que querem uma mera votação; dos que defendem um partido de luta, contra os que defendem uma legenda eleitoral; dos que defendem um partido antissistêmico, contra os defensores de uma politicagem tradicional e fisiológica; dos que defendem uma oposição radical, contra os que defendem uma oposição frouxa; dos que defendem as reformas estruturais e o socialismo, contra os que defendem a social-democracia e o social-liberalismo.

Mas, além disso tudo, o congresso do PT será uma batalha entre “positivismo” e marxismo. Entre os cultivadores de ilusões e os semeadores de esperança. 

Em tempos de guerra, a esperança é vermelha.



segunda-feira, 24 de junho de 2019

Pepe Escobar e o Morogate

Acompanho com muito interesse tudo que Pepe Escobar escreve sobre os conflitos EUA/China/Rússia, sobre o Irã e a Eurásia. E achei ótimo que ele tenha aberto uma janela para tratar do Morogate.

Concordo com parte do que Pepe Escobar escreveu a respeito, no artigo intitulado “Brazilgate está se transformando no Russiagate 2.0”, divulgado originalmente em inglês. 

Aqui vou falar basicamente daquilo de que divirjo, baseando-me na tradução divulgada por 247.

Começo pelo menos importante: tomar como fonte confiável um mitômano e adepto de teorias conspiratórias, cujo comportamento de agente provocateur já foi denunciado inúmeras vezes, alguém que é apresentado na tradução como “advogado internacional suíço e conselheiro da ONU”.

Passo ao mais importante: o que Pepe Escobar fala acerca do Morogate.

Ele destaca que o vazamento divulgado por Intercept confirma “que a máquina judicial / de lei da investigação unilateral da lava jato era de fato uma farsa maciça e um negócio criminoso”.

Pepe Escobar lembra que “a gênese do lava jato envolve (...) o governo dos Estados Unidos. E não apenas o Departamento de Justiça (DoJ) (...) A operação foi Deep State”.

Depois de elencar os efeitos da Lava Jato, Pepe Escobar vai ao que considera o “cerne da questão do Brazilgate: (...) o confronto sem barreiras entre os EUA e a Rússia-China”. 

Pepe Escobar acrescenta: “Para o Deep State, o controle do fluxo de petróleo do Brasil para o agronegócio é igual a contenção / alavancagem contra a China”.

Em seguida ele diz que “os militares brasileiros sabem que as relações próximas com a China - seu principal parceiro comercial, à frente dos EUA - são essenciais, o que quer que Steve Bannon possa reclamar. Mas a Rússia é uma história completamente diferente.”

Tenho muitas dúvidas a respeito desta afirmação peremptória acerca da percepção dos “militares brasileiros” acerca da China. Acho que nesta percepção há excesso de “empatia antropológica”. Mas concordo com o que é dito acerca da visão deles sobre a Rússia.
É nessa dupla percepção acerca dos militares  (supostamente positiva sobre China, negativa sobre Rússia) que Pepe Escobar se baseia para afirmar que “assim, o Estado dos EUA pode estar cumprindo pelo menos parte do objetivo final: usar o Brasil em sua estratégia Divide et Impera  de dividir a parceria estratégica Rússia-China”.

Nesta chave de interpretação, o Morogate serviria para acentuar a oposição dos militares brasileiros contra a Rússia.

A maneira como Pepe Escobar argumenta sugere, segundo eu entendi, que a fonte do vazamento foi o Deep State. 

Esta é uma hipótese, claro. Conspirações existem. Mas o volume e a natureza das informações divulgadas indicam que, das duas, uma:

-ou alguém ligado a OLJ passou os últimos anos colecionando todas as mensagens trocadas pela quadrilha; 

-ou a OLJ foi alvo de espionagem sistemática, de alguém que dispõe de tecnologia e estrutura para isso. 

Neste segundo caso, as hipóteses são:  

-empresários atingidos pela operação;

-inteligência do Estado brasileiro; 

-inteligência de algum Estado que disputa com os gringos;

-inteligência gringa. 

E neste último caso, nada comprova que estejamos diante de uma operação planejada por algum setor do Deep State. Afinal, onde há um Snowden, podem existir outros.

Pepe Escobar, segundo interpreto, se concentra apenas numa destas hipóteses. 

Diz ele: “Moro era um ativo certificado pelo FBI, CIA, DoJ e Deep State. Seu uber-chefe seria, em última análise, Robert Mueller (assim, Russiagate). No entanto, para Team Trump, ele seria facilmente dispensável - mesmo que ele seja o Capitão Justice trabalhando sob o ativo real, o menino Bannon Bolsonaro. Se ele cair, Moro terá a garantia do indispensável paraquedas dourado - completo com residência nos EUA e palestras em universidades americanas.” 

Que há uma guerra na elite dos EUA, todos sabemos. Mas por qual motivo um dos setores envolvido nesta guerra lançaria uma “bomba” do tamanho do Morogate sobre o atual governo brasileiro? 

Isto não está explicado no texto de Pepe Escobar.

A relação entre o Intercept e Pierre Omidyar também é conhecida. Mas, novamente, é preciso demonstrar o que esta relação tem que ver com a tal “bomba” do Morogate.

Isto também não é explicado no texto citado de Pepe Escobar.

Pepe diz que a “questão crucial a frente é o que as forças armadas brasileiras estão realmente fazendo neste pântano épico - e quão profundamente elas estão subordinadas ao Divide et Impera de Washington”.

De fato, as forças armadas (sobre quem, reitero, é recomendável fazer uma análise mais política e menos antropólogica) voltaram a ser peça  chave na dinâmica brasileira. E, também de fato, aos militares é conveniente culpar “os russos” pelo Vaza Jato. E é igualmente correto dizer que para um setor dos EUA interessa concentrar fogo nos russos (dai a provocar o Morogate, vai uma enorme distância).

Mas nada disso que foi dito antes indica qual a fonte.

Vale dizer que Pepe Escobar, embora fale de Garganta Profunda, é cauteloso a respeito da fonte. 

Mas ele faz gozação com o “principal site militar” e sua “crença fervorosa em uma Guerra Híbrida Rússia-China contra o Brasil”; com os ataques ao Telegram; e com as teorias conspiratórias acerca da visita de Dilma à Rússia. 

E, por outro lado, diz que “o cenário de Vaza Jato como parte de uma psyops ( operação psicológica ) extremamente sofisticada, de domínio de espectro completo, um estágio avançado da Hybrid War ( guerra híbrida), deve ser seriamente considerado”.

“Seriamente considerado”, seguramente que sim! Mas é preciso considerar, também “seriamente”, as outras possibilidades citadas anteriormente, a saber:

-alguém ligado a OLJ; 

-empresários atingidos pela operação;

-inteligência do Estado brasileiro; 

-inteligência de algum Estado que disputa com os gringos;

-alguém “do bem” com acesso à inteligência gringa.

E aqui entro na minha principal divergência com o texto de Pepe Escobar: a hipótese segundo a qual “as forças armadas brasileiras - com o total apoio do Deep State dos EUA - poderiam estar instrumentalizando uma mistura de Vaza Jato e Guerra Híbrida "Russos" para criminalizar a esquerda para sempre e orquestrar um golpe silencioso para se livrar do clã Bolsonaro e seu QI coletivo de sub-zoologia”.

Esta hipótese — que Pepe Escobar toma o cuidado de tratar no condicional: “poderiam” — mistura alhos com bugalhos. E na prática pode conduzir (como fica claro na ação do agente provocador) a alimentar desconfianças no conteúdo do Morogate, em nome de um debate sobre quem seria a fonte e sobre quais seriam seus interesses mais ou menos ocultos.

O que é fato?

Fato: as forças armadas estão numa operação de criminalização da esquerda. E todo “argumento” lhes é útil.

Fato: o clã é cavernícola. E há sim diferenças entre alguns setores da cúpula militar e Bolsonaro.

Mas não é fato que esteja em curso, neste momento, um “golpe silencioso” contra Bolsonaro. O que “poderia” estar em curso é um golpe “nada silencioso” de Bolsonaro em aliança com os militares. Em sendo assim, é fundamental desmoralizar, desgastar e enfraquecer o governo. 

Objetivamente, seja qual for a fonte, e sem ingenuidade nem terceirizar tarefas para o Intercept (e seus novos e velhos parceiros), o Morogate contribui, ao menos para quem defende a palavra-de-ordem “nem Bolsonaro, nem Mourão, nem centrão, nem conciliação: Lula livre e eleições livres”.

De resto, as análises de Pepe Escobar são sempre ótimas de ler!