sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Quaquá é um “banco grande demais para quebrar”?

Breve explicação: dia 2 de fevereiro reiniciam as aulas na Universidade Federal do ABC.

Uma das disciplinas que ministrarei chama-se Sistema Financeiro Internacional.

Na noite do dia 29 de janeiro, repassando os temas que serão abordados, me deparei com o "risco moral" (moral hazard), a saber, o comportamento irresponsável de gestores e proprietários de bancos "grandes demais para quebrar" (too big to fail). E que por isso são geralmente salvos pelo Estado, com o dinheiro do contribuinte.

Pois bem: ao ler isso, meu Tico lembrou ao meu Teco o ocorrido na tarde do mesmo dia 29 de janeiro, quando a executiva nacional do PT (CEN) decidira, mais uma vez, não decidir sobre as comissões de ética pedidas contra Washington Quaquá. 

Um dos argumentos utilizados por quem apoiou o adiamento foram as repercussões públicas de uma comissão de ética, especialmente num ano eleitoral. 

Para quem pensa assim, a situação de Quaquá parece ser vista de maneira similar a dos "bancos grandes demais para quebrar": as atitudes do atual prefeito de Maricá causam danos, mas sua punição supostamente causaria danos ainda mais graves.

Vale dizer que o próprio Quaquá contribui nesse sentido, com declarações que alguém poderia interpretar - indevidamente, é claro - como ameaças ou chantagens.

O resultado prático da atitude da CEN lembra o descrito pelo termo “moral hazard”. Afinal, considerando-se protegido, ele não se corrige, não para, não reduz a velocidade, nem mesmo baixa o tom. Pelo contrário, escala.

Aonde isso vai dar, acho que todos sabem. Mas, ao menos por enquanto, muitos parecem ter medo de fazer a coisa certa.

Espero que algum dia a esperança vença o medo. Do contrário, mais e piores problemas virão pela frente. E quem vai pagar a conta serão basicamente os mesmos que pagam pelos malfeitos dos “too big to fail”: o povo. No caso, a militância de base.

 




quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A impressionante influência do senhor Quaquá

Dois acontecimentos ocorridos hoje e ontem, 28 e 29 de janeiro, demonstraram a impressionante influência que Washington Quaquá possui entre dirigentes nacionais do PT, de todas as tendências.

No dia 28 de janeiro, um importantíssimo dirigente nacional do PT pediu para retificar uma declaração que deu a respeito de Quaquá. A referida declaração era simples: "Há um pacto para formar as maiorias para não afetar um ou outro, entendeu? Então, esse é um problema sério. Eu tenho a impressão de que o Quaquá já estaria expulso do PT". 

A retificação foi a seguinte: "Pedi a retirada da citação ao Quaquá porque seria um prejulgamento de que fui vítima já. Citei porque há quatro pedidos de comissão de ética para ele sem julgamento um faz de conta”.

No dia 29 de janeiro, a Comissão Executiva Nacional do PT debateu sobre os pedidos de comissão de ética contra Quaquá. Um desses pedidos foi feito em 2021. O estatuto do PT prevê que cabe à executiva decidir se o pedido deve ou não ser aceito. O secretário-geral de 2021 e o que veio depois e segue sendo secretário-geral, ao invés de cumprirem seu dever estatutário, adotaram a postura de engavetar o pedido. Por este motivo, toda vez que encontro o atual e de resto super simpático secretário-geral, eu sempre o chamo de "o prevaricador".

Havia a expectativa de que a executiva nacional votasse, hoje, pelo arquivamento dos pedidos ou pelo encaminhamento à comissão de ética. Mas o que prevaleceu mais uma vez foi um argumento parecido com o utilizado em 2022 e em 2024, a saber, que votar uma comissão de ética em período eleitoral causaria prejuízos ao Partido. 

No passado, este argumento foi desmoralizado pela prática, ou melhor, pelo próprio Quaquá, que seguiu causando danos ao Partido, com suas declarações e comportamentos. 

Talvez por isso tenha prevalecido, agora, uma novidade. A saber: montar uma comissão ad hoc "para tentar resolver na política a situação". A referida decisão, aprovada por esmagadora maioria pela executiva nacional do PT, mereceu a seguinte declaração de voto da companheira Natália Sena:

*Declaração de voto por escrito*

Registro minha absoluta discordância com a decisão da executiva nacional do PT, sobre as comissões de ética pendentes contra o prefeito de Maricá e vice-presidente nacional do PT, Washigton Quaquá. O primeiro pedido foi feito em 2021. O DN e a CEN não deliberaram sobre o tema, postergaram anos. Agora, ao invés de aprovar ou negar a comissão de ética, decide-se por "resolver na política" o assunto, sabe-se lá o que isso queira dizer. Na prática, criou-se uma comissão composta por vários dirigentes da CEN para tratar do tema. Mais uma vez prevalece uma imensa dificuldade em tratar as coisas com a simplicidade que elas têm: Quaquá infringiu ou não a ética do Partido? Registro por fim que apenas eu votei contra o encaminhamento. 

Natália Sena, 29 de janeiro de 2026

Os dois acontecimentos comprovam, em minha opinião, que Quaquá tem uma impressionante influência entre dirigentes de todas as tendências do Partido. A influência não vai ao ponto dele ser defendido. Pelo contrário, a impressão é que existe muita gente mal agradecida, a saber, que recebe generoso apoio material e votos decisivos, mas que prefere manter distância pública de um personagem excessivamente controverso e sem limites. Mas a distância não vai ao ponto de fazer a coisa certa, a saber, submeter Quaquá a uma comissão de ética.

Como disse o dirigente acima citado, parece mesmo haver um "pacto". Que, como se demonstrou, envolve muita gente.

 

Falta de gentileza

Nos dias 5 a 7/2 acontecerá em Salvador (BA) a comemoração do aniversário do PT.

Na programação, vários debates sobre temas interessantes.

Como sempre, há polêmicas sobre como compor cada uma das mesas.

Uma dessas polêmicas gira ao redor do seguinte: tirante quem não é dirigente do Partido, todas as demais pessoas (ou seja, os e as dirigentes) convidadas para compor as mesas do aniversário são da CNB ou de tendências que apoiaram o companheiro Edinho no PED 2025.

Este tipo de composição - 100% homogênea - é em geral algo ruim. Mas no aniversário do Partido, um momento de “celebração” e festa, é mais que ruim: é, como caracterizou alguém, uma absoluta falta de gentileza. Chato, muito chato.

Registre-se que o companheiro Edinho, alertado para o fato, concordou que esta composição não é adequada. Mas pelo menos até agora (7h36 de 29/1) a programação segue a mesma.

Motivo pelo qual faço pública a reclamação que antes (dia 25/9) fiz privadamente.


ps. aqui está a programação atual: 

https://www.instagram.com/p/DT1A1fDkvlb/?img_index=2&igsh=MXRvcmxxZXRyaHdlcA%3D%3D

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Editorial do programa Janela Internacional de 28 de janeiro de 2026

(texto sem revisão)

Olá

Iniciamos agora mais uma edição de Janela Internacional.

Janela Internacional é um programa da TV Fundação Perseu Abramo, dedicado às questões mundiais, à política externa do governo Lula e à política de relações internacionais do PT.

Esta edição irá ao ar na quarta feira, dia 28 de janeiro.

Mas está sendo gravada na segunda-feira, dia 26 de janeiro.

Pois bem: na terça feira dia 27 os Estados Unidos devem sair do Acordo de Paris sobre o clima. Esta saída faz parte de uma operação mais ampla. Trump já havia anunciado sua intenção de sair de mais de 60 organismos internacionais que, segundo ele, “já não servem aos intereses estadunidenses”. Isso inclui sair da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, de 1992. Salvo engano, os EUA foram o primeiro país a ratificar e, agora, o primeiro a anunicar sua intenção de sair.

Dito de outra forma: todo o sistema internacional montado após a Segunda Guerra, sob o protagonismo e hegemonia dos Estados Unidos, agora está sob ataque e pressão dos Estados Unidos.

Isso acontece por um motivo muito simples: dentro das regras do jogo, os Estados Unidos estão perdendo.

Declinando.

Decaindo.

E para fazer a “América grande novamente”, os Estados Unidos precisam virar a mesa, jogar o tabuleiro no chão, mudar as regras.

E fazem isso ao estilo crime organizado em filme de Batman.

Trump não esconde suas motivações, não mede suas palavras, não disfarça seus gestos.

É diferente, por exemplo, de Obama, que parecia sempre um cara simpático e iluminista, mesmo tendo sido um grande assassino em série.

Para explicar: em 2016, o próprio governo Obama assumiu a responsabilidade pelo assassinato, ao longo de oito anos, de um número entre 64 e 116 civis. Já o Bureau of Investigative Journalism afirma que foram assassinados entre 492 e 1.077 civis. Infelizmente, seja qual for o número - 64 a 1077 – é uma gota num oceano de sangue.

Para lembrar: apenas na chamada “Guerra ao Terror” os EUA causaram mais de 4,5 milhões de mortes, segundo estudo da BrownUniversity.

Portanto, o que faz Trump não é propriamente uma novidade. A novidade é porquê faz e como informa o que faz.

Porque faz? Declínio.

Como informa? De maneira descarada. 

Por exemplo, na Venezuela o que está em questão segundo Trump é petróleo, não direitos humanos nem democracia.

Pelo menos nos poupam da hipocrisia.

Até porque está difícil manter as aparências, quanto todo dia a ICE – a milícia fascista oficial do governo Trump – ataca pessoas nas cidades americanas, já tendo inclusive assassinado a sangue frio dois estadunidenses ao que tudo indica 100% WASP.

Ninguém se iluda: o descaramento, a violência explícita, não decorre apenas da personalidade do Trump. Sim, ele é um sociopata, um pedófilo e tudo de ruim. Mas por isso mesmo ele é o cara certo no lugar certo e na hora certa. Pois o objetivo é amedrontar.

Foi este um dos instrumentos mais eficazes nas recentes eleições na Argentina, no Chile e em Honduras. O medo. 

Assim, cá estamos nós outra vez, tendo que por a esperança para vencer o medo.

A vantagem é que temos ao nosso lado não apenas as coisas boas e belas do mundo, temos ao nosso lado não apenas a verdade, mas temos também um fato bem simples: os EUA estão declinando.

Isso não torna menos doloridos seus golpes, suas balas e suas bombas. Nem deve nos levar a subestimar os riscos que corremos. Afinal, está na cara que eles empurram o mundo para um estado de guerra permanente. E onde é este o clima, a qualquer momento pode ser a hora da gota dágua.

Mas o que precisamos saber e lembrar é que eles fazem tudo isso não apenas porque acham que podem, não apenas porque são poderosos, mas porque estão vendo seu tempo se acabar.

Tic tac.

Resta saber se nós faremos a coisa certa.

Pois cá entre nós, nos tempos que vivemos, não basta cantar “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”.

Nos tempos em que vivemos, é preciso lembrar daquele ditado muito antigo: queres paz, prepara-te para a guerra.

Fiquem agora com Fábio Al Khouri e o noticiário da semana.

(texto sem revisão)







Resolução sobre conjuntura

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda, reunida no dia 25 de janeiro de 2026, aprovou a seguinte resolução sobre a situação e as nossas tarefas.

1.A disputa política no Brasil de 2026 gira ao redor da eleição presidencial de outubro. Se a eleição fosse hoje, Lula seria reeleito presidente, provavelmente no final de outubro e com uma vantagem frente ao segundo colocado semelhante a vantagem obtida na eleição presidencial de 2022.

2.Entretanto, a eleição não será agora, mas em outubro. E nesses meses que faltam até a eleição há vários fatores atuando que podem produzir um resultado diferente. Isso fica evidente se compararmos a conjuntura do final do ano de 2025 com a conjuntura do início do ano de 2026, que inclui os impactos políticos da agressão militar contra a Venezuela, assim como outras ameaças do imperialismo contra México, Colômbia, Cuba, Irã e inclusive Groenlândia. Nossa obrigação, como dirigentes do PT, é analisar cada um desses fatores e tomar as medidas necessárias para garantir a nossa vitória. Entre tais fatores, destacamos a ação dos Estados Unidos, a ação da classe dominante, a ação da extrema-direita e a ação da direita tradicional.

3.Mesmo que sejam uma potência estrategicamente declinante, do ponto de vista tático os Estados Unidos estão em plena ofensiva para “voltar a ser grande”. Esta ofensiva tem como um de seus objetivos centrais recuperar o controle sobre o que eles chamam de “quintal”: a América Latina e Caribenha. Vimos os efeitos disto nas recentes eleições de Honduras e Chile, assim como no ataque militar seguido do sequestro do Presidente Maduro e da deputada Cilia Florez, cuja liberdade exigimos, sendo fundamental organizar em todas as cidades comitês de solidariedade à VenezuelaO ataque contra nosso vizinho foi só o começo: para controlar a América Latina e Caribe, os EUA precisam controlar o Brasil. Por este motivo, o governo Trump já está ingerindo nas eleições brasileiras. A extrema-direita exultou com o resultado da agressão contra a Venezuela, assim como há quem esteja emulando o comportamento da polícia antimigrantes estadunidense. A marcha fascista encabeçada por um deputado da extrema direita, concluída com uma manifestação em Brasília, se deu nesse contextoPara vencer as eleições de 2026, precisamos neutralizar e derrotar a ingerência dos Estados Unidos. Isso passa por ações internacionalistas de solidariedade, com destaque para VenezuelaCuba e Colômbia; passa pela denúncia da ingerência imperialista contra o Irã; e passa, também, pelo apoio a mobilização nos Estados Unidos, especialmente contra a ICEque atua como uma milícia do fascismo de Trump.

4.Um dos braços dos Estados Unidos é a classe dominante brasileira, cujo coração segue em Miami. Mesmo que tenha sido poupada e beneficiada pelas ações do governo Lula, a classe dominante brasileira segue insatisfeita e trabalha para recuperar o controle absoluto da administração federal. Por este motivosegue atuando para impedir a reeleição de Lula. Com este propósito, lança mão dos métodos que já vimos operando noutras eleições, desde a sabotagem econômica até o crime eleitoral, passando pela influência no debate político. Para vencer as eleições de 2026, precisamos neutralizar e derrotar classe dominante.

5.Outro dos braços dos Estados Unidos é a extrema-direita. Mesmo depois da prisão do cavernícola e de seus principais cúmplices na fracassada intentona golpista, a extrema-direita continua recebendo o apoio de mais de 35% do eleitorado brasileiro e segue trabalhando para recuperar a presidência da República. Mas para isto, “elle$” precisam levar a disputa para o segundo turno, onde buscarão unificar toda a oposição. Um dos motes da extrema-direita é estimular o medo e a insegurança, para em seguida se apresentar como uma suposta alternativa. A ingerência dos Estados Unidos contribui nesse sentido, à medida que o governo Trump tem se notabilizado por fazer ameaças e tentar atemorizar quem dele discorda. É nesse contexto que reafirmamos a necessidade urgente de criar o Ministério da Segurança Pública, ao mesmo tempo que reafirmamos que a única maneira de derrotar a extrema-direita neste tema é se contrapondo às políticas de insegurança pública adotadas em governos como os do Rio de Janeiro e São Pauloentre outros. Ganha grande importância, nesse contexto, o combate ao feminicídio, que tem crescido no país, como decorrência direta da influência da extrema-direita e facilitado pelas políticas armamentistas do governo cavernícola. Para vencer as eleições de 2026, precisamos neutralizar e derrotar extrema-direita.

6.A extrema-direita consegue, em vários temas, polarizar a direita tradicional. Este é o caso, exatamentedo debate sobre a segurança pública. Mesmo possuindo uma força eleitoral reduzida, a direita tradicional tem muita força nas instituições, na mídia e junto ao empresariadoResponsável pelo golpe de 2016 e pela prisão de Lula, além de cúmplice de boa parte da gestão bolsonaristaa direita tradicional sabe que a eleição presidencial de 2026 será decidida por pequena diferença. As lideranças da direita tradicional estão divididas entre apoiar Lula, apoiar quem vier a ser candidato pela extrema-direita, lançar uma candidatura própria ou aguardar para decidir depois. Para vencer as eleições de 2026, muito mais importante do que eventuais alianças é atrair o voto da base social e do eleitorado que hoje segue esta direita tradicional, sem que isso nos faça perder o voto dos setores populares, que são os que decidiram a eleição em 2022 e voltarão a decidir em 2026.

7.Além dos Estados Unidos, da classe dominante, da extrema-direita e da direita tradicional, há um quinto fator que pode dificultar nossa vitória nas eleições presidenciais de 2026. Trata-se da capacidade que o governo e a esquerda possuem de cometer erros. Esses erros podem contribuir para um resultado eleitoral distinto daquele que hoje é o mais provável. Entre esses erros destacamos as concessões feitas em favor do agronegócio e ao capital financeiroa entrega do Banco Central a um inimigo do povo, uma política fiscal que atrapalha a reindustrialização e a ampliação das políticas sociais, incapacidade de viabilizar reformas estruturais, a demora em fazer a coisa certa, o medo de politizar e de polarizar, a ilusão em que as eleições presidenciais serão fáceis. Para vencer as eleições de 2026, precisamos fazer prevalecer no governo, no PT e naesquerdas a tática correta, o que começa afirmando que a eleição presidencial não está decidida e será preciso um imenso esforço para vencerA tática correta inclui, também, colocar em debate questões centrais como o fim da escala 6x1, a redução da jornada de trabalho, uma reforma tributária que faça os ricos pagarem impostoso fim das emendas parlamentares impositivas vinculadas ao inconstitucional parlamentarismo de fato que vem sendo implantado desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff.

8.Vencer as eleições presidenciais de 2026 será fundamental para a classe trabalhadora, para futuro do Brasil e para a luta pelo destino do mundo. Entretanto, não basta vencer. É preciso vencer em condições de fazer um mandato programaticamente superior ao atual. Não queremos ganhar como em 2014: naquele ano, nossa vitória foi seguida de um ajuste fiscal ortodoxo, que facilitou a brutal contraofensiva desencadeada por nossos inimigos. Tampouco queremos vencer como em 2010: naquele ano, achamos que bastaria dar continuidade às mesmas políticas adotadas no segundo governo Lula. O resultado foi que, quando a “marolinha virou um tsunami”, não tínhamos preparado aesquerdas e nem preparado o povo para o salto de qualidade que seria necessário na ação do governo. Em 2026, queremos vencer como vencemos em 2006, ou seja, fazendo uma inflexão na política e criando as condições para um quarto mandato Lula melhor do que o terceiro.

9.Para que Lula 4 seja superior a Lula 3, é preciso em primeiro lugar, como é óbvio, vencer. Mas precisamos vencer com uma vantagem significativa de votos em relação ao segundo colocado; ampliando nossas bancadas parlamentares e o número de governadores de esquerda ou pelo menos progressistas; com apoio popular mobilizado e organizado; e com um rumo estratégico claro, que passa por uma campanha politizada e polarizada, apoiada na mobilização popular e na defesa de um programa de reformas estruturais. Fazendo isso, venceremos em condições não apenas de fazer um mandato superior ao atual, mas também chegaremos em 2030 em condições de seguir governando o Brasil. 

10.Na atual conjuntura mundial, continental e nacional, a eleição presidencial no Brasil adquire um significado transcendental. Um governo de esquerda no Brasil é um ponto de apoio para a luta por outra ordem mundial e por uma integração regional latino-americano e caribenha. Ao mesmo tempo, a reeleição de Lula constitui uma pré-condição para que possamos implementar reformas que mudem o Brasil e que mudem o lugar do Brasil no mundo.

11. Coexistem, na esquerda brasileira, diferentes visões estratégicas, assim como diferentes posições acerca de qual deve ser nossa tática frente às eleições de 2026. Essas diferenças se expressam na política de alianças, na escolha das candidaturas, na linha de campanha e no programa. As diferenças se expressam, também, no papel atribuído aos movimentos e às lutas sociais, especialmente num ano eleitoral. Se queremos mudar a correlação de forças, é preciso estimular ao máximo a conscientização, a organização e a mobilização de todos os setores da classe trabalhadora.

12.Trabalharemos para que prevaleçam em todos os casos saídapela esquerda, pois este é o caminho para conquistar e solidificar o apoio à Lula entre as camadas populares, que nos deram a vitória em 2022, nos darão novamente a vitória em 2026 e criarão as premissas necessárias para nova vitória em 2030.

13.Além de eleger Lula e obter vitórias nas eleições para governos, senado, câmara dos deputados e assembleias legislativas, é fundamental fortalecer as organizações coletivas da classe trabalhadora. Chamamos o processo eleitoral tradicional de “burguês por vários motivos, sendo o principal deles a influência do poder econômico na definição de quem se elege ou deixa de se eleger. Mas há outro motivo que precisa ser lembrado: o estímulo ao individualismoàs carreiras pessoais, à oligarquização da políticaO único antídoto contra isso é fortalecer organizativa e ideologicamente nossas organizações coletivas, com destaque para o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras.

A direção nacional da tendência petista Articulação de Esquerda

Brasília, 25 de janeiro de 2026


quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Roteiro da exposição de Valter Pomar no 14 encontro nacional do MST

 Roteiro da exposição de Valter Pomar no 14 encontro nacional do MST 

(Sem revisão)

Bom dia a todas e todos. Eu sou professor na Universidade Federal do ABC e sou diretor da Fundação Perseu Abram, que é vinculada ao Partido dos Trabalhadores. Quero agradecer ao convite para participar aqui nesse décimo quarto encontro e compor a mesa com o Sérgio e com a Juliana.

 

Minha tarefa aqui é contribuir com a análise da conjuntura política. A análise da conjuntura não é apenas a descrição dos acontecimentos. A análise da conjuntura visa descobrir tendências e cenários. A análise da conjuntura visa identificar quais são as alternativas em disputa. A análise da conjuntura serve para ajudar a formular uma linha política, com o objetivo de que prevaleça a nossa alternativa.

 

Nessa  linha política, o grande tema é descobrir qual é o “centro da tática”. Qual é aquela disputa que a gente não pode perder, a disputa essencial do período.

 

O centro da tática nesse ano de 2026 é a eleição presidencial. Nela, a preços de hoje, o Lula será candidato e o Lula será reeleito.

 

Por que “a preços de hoje”? 


Primeiro, porque nós temos inimigos.


 Segundo, porque nós cometemos erros. 


Terceiro, porque às vezes a vida imita a ficção. Vide o que aconteceu no dia 3 de janeiro com o sequestro do nosso companheiro Nicolás Maduro e da nossa companheira Cilia


Em função disso, eu vou comentar a seguir 5 fatores que podem fazer com que as coisas não saiam como a gente precisa que saiam. 


Vou falar dos Estados Unidos, vou falar da classe dominante, vou falar da extrema direita, vou falar da direita tradicional e vou falar de nós.


#

 

O primeiro fator, os Estados Unidos. Eles precisam controlar o Brasil. Porque eles precisam controlar a América Latina e, sem controlar o Brasil, eles não controlam a América Latina.

 

Por isso, os Estados Unidos já estão interferindo no processo eleitoral brasileiro. Através da classe dominante, através das duas direitas - a extrema direita e a direita tradicional -, através das instituições estatais, com destaque para as Forças Armadas e através dos meios de comunicação, não só os tradicionais mas principalmente as chamadas Big Techs


Um dos principais argumentos que os Estados Unidos usam quando influenciam a política brasileira é o medo.

 

“Primeiro Gaza, depois Caracas, depois aqui”. A maioria das pessoas reage a isso com medo, não com disposição de luta. 

 

O medo impacta a massa. Reforça na massa o impacto que já vem da questão da segurança pública, que a extrema direita manipula o tempo todo. 


O medo também impacta setores em disputa entre nós e a extrema direita.

 

Vejam o que aconteceu na Argentina e em Honduras, onde os Estados Unidos abertamente disseram “votem nesse candidato ou o pior pode acontecer”.


O medo impacta também a esquerda. 


Nós não estamos habituados aqui no Brasil com uma ingerência direta e explícita dos Estados Unidos no processo eleitoral.

 

Essa ingerência direta e explícita é o que acontece na Venezuela, acontece na Colômbia, acontece em El Salvador. Aqui no Brasil sempre foi disfarçado, agora deixou de ser. 


Agora em 2026 estamos tendo ingerência direta e explícita.

 

Convenhamos: uma coisa é cantar bem alto o hino brasileiro - “ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil” - e outra coisa é ser valente na hora da faca, tiro, porrada e bomba, quando começa a ter conflito mesmo. 


Além disso, é importante lembrar que não precisamos apenas da valentia dos combatentes 


A gente gosta muito de lembrar dos soldados soviéticos, que deram a vida para derrotar o nazismo.

 

Mas devemos lembrar que a gente precisa também e muito da valentia nas tarefas cotidianas e indispensáveis. 


Quem produziu as armas que os soldados soviéticos usaram para matar nazistas? Quem costurou as roupas que os soldados soviéticos vestiam? Quem plantou e colheu o alimentos dos soldados soviéticos? 


Nós precisamos ter dezenas de milhões de pessoas no Brasil dispostas a levar a sério aquele verso que está no nosso hino. Dezenas de milhões.

 

E, quando eu vejo a capacidade que o nosso governo e a nossa esquerda têm de deixar as Big Techs agirem com muita liberdade no Brasil, isso faltando poucos meses para as eleições, quando eu vejo o governo federal entregar para o Google ou para a Palantir dados essenciais da população brasileira, dados que vão permitir a eles chegarem a cada cidadão brasileiro com ainda mais facilidade, eu chego à conclusão que a gente está correndo muito risco. 


E a pressão dos Estados Unidos vai continuar, porque a eleição nossa aqui no Brasil será em outubro e a eleição dos Estados Unidos, a eleição de meio termo, onde eles renovam parte do legislativo deles, será em novembro. E o Trump, como toda extrema direita, quando está sob ameaça, não recua. Ataca.

 

Quando está sob ameaça, ataca mais ainda. É isso que eles fizeram na Venezuela, estão fazendo na Groenlândia, ameaçando Cuba, Colômbia, etc. 


Inclusive por conta da disputa interna nos Estados Unidos, não apenas por conta da disputa geopolítica, eles vão incidir pesadamente aqui no processo eleitoral. 


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O segundo fator que eu quero comentar é a ação da classe dominante brasileira. 


Especialmente do agronegócio e do capital financeiro, que são as frações que mandam na classe dos capitalistas brasileiros.

 

O nosso governo faz um esforço muito grande para atender esses setores. Mas mesmo assim, mesmo quando eles estão ganhando bastante, mesmo quando eles ganham muito com a China por exemplo, o coração da classe dominante brasileira continua batendo por Miami. 


A gente viu isso em 2018 e vimos também isso em 2022.

 

A maior parte das pessoas ricas no Brasil votou em Bolsonaro. E grande parte das pessoas ricas no Brasil admira Donald Trump, que é um fascista, um pedófilo, tudo de ruim. E essa admiração tem que ver com motivos materiais, não só culturais.

 

A classe dominante brasileira está vinculada, por mil e um laços econômicos, à dinâmica dos Estados Unidos. 


No momento da disputa, e a disputa está se acentuando, eles seguirão correndo para o lado com quem eles têm lados mais profundos. 


E além de mais, venhamos e convenhamos: para quem gosta de ganhar dinheiro, o risco de um enfrentamento com o imperialismo é muito alto. Do ponto de vista deles, não vale a pena correr esse risco.


 Por isso, a classe dominante brasileira vai trabalhar ativamente para nos derrotar nas eleições de 2026.

 

Não importa o que o nosso governo faça. 


Vejam as pesquisas. Vejam qual é a opção de voto das pessoas que ganham mais e que têm mais dinheiro. É sempre contra nós. 


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Terceiro fator: a extrema-direita. 


Eu tenho ouvido e lido companheiros e companheiras dizerem, depois da prisão do cavernícola,, que é como eu chamo o Bolsonaro, eu tenho visto companheiros e companheiras dizerem que com a prisão do cavernícola  a extrema-direita e o Bolsonarismo teriam se transformado em um

“cadáver político”.

 

Efetivamente, o cavernícola cheira mal. Efetivamente, a extrema-direita cheira mal. Mas eles não estão mortos.

 

Eu tenho visto companheiros falarem também sobre as divisões da extrema-direita. Por exemplo, a briga entre Flávio Bolsonaro e Tarcísio. A disputa pelo apoio da Michele Bolsonaro a esse ou aquele candidato da extrema-direita.

 

Essas disputas existem. Elas lembram um pouco as disputas que aconteceram na esquerda brasileira e nos setores de centro quando Lula foi preso em 2018. Por exemplo, entre aqueles que diziam que a gente devia apoiar o Ciro e não uma candidatura do PT.

 

As disputas que existem dentro da extrema-direita me recordam um pouco aquela polêmica entre nós São disputas táticas sobre como lidar com a situação. Não necessariamente vão enfraquecer a extrena-direita.

 

Pelo contrário, na minha opinião, uma disputa entre eles pode ajudá-los a fazer algo muito importante, a saber: levar a disputa pela presidência para o segundo turno. Facilitando a unificação deles, no segundo turno, contra o inimigo comum que somos nós.

 

É importante dizer que a extrema-direita brasileira tem uma imensa força. Todos os candidatos que a extrema-direita apresenta como alternativa obtém 35% dos votos ou mais nas pesquisas de opinião feitas agora. Apesar de todos os crimes e barbaridades  que eles cometeram.

 

A gente não pode subestimar gente assim. Aliás, em algum sentido a força de massa da extrema-direita lembra a força de massa da “nação petist aqui no Brasil. 


Elle$ são muito mais fortes e resilientes do que a gente imagina.

 

Eles são muito maiores do que os seus líderes. E eles são maiores do que os seus erros. E também por isso não devem ser subestimados.

 

E vão trabalhar pesadamente para nos derrotar na eleição de 2026. 



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Um quarto fator que eu quero comentar é sobre a direita tradicional. 


Quem eu chamo de direita tradicional? 


Os que deram o golpe contra a presidenta Dilma em 2016.

 

Os que colocaram Lula na cadeia em 2018.


 Os que apoiaram Bolsonaro contra Fernando Haddad na eleição daquele ano. 


Os que na pandemia começaram a mudar de posição.

 

Parte desses resolveram, em 2022, apoiar Lula para impedir uma segunda vitória do cavernícola.


A direita tradicional controla grande parte das instituições do Brasil. A começar pelo Supremo Tribunal Federal.

 

Hoje eles seguem divididos, como estiveram no período anterior. Uma parte quer ter uma candidatura própria. Uma parte quer apoiar o Lula. Uma parte quer apoiar a extrema direita. 


Se, por exemplo, o Tarcísio ou o Ratinho forem candidatos, boa parte da direita tradicional vai para essas candidaturas. 


E tem uma parte bastante expressiva que vai esperar para ver como as coisas ficam, antes de tomar uma posição na disputa presidencial.

 

O esforço nosso deve ser para atrair esses setores para apoiar o Lula. Mas é preciso lembrar do custo que isso tem.

 

Esses setores têm uma força eleitoral muito pequena. Muito pequena. Nós estamos falando de menos de 10 milhões de votos.

 

Claro que eles chantageiam com o fato de que a disputa eleitoral esse ano vai ser resolvida como foi em 2022, por uma pequena diferença de votos. Não vai ser uma vitória avassaladora. Vai ser uma disputa duríssima. Duríssima. E eles, sabendo disso, chantageiam e se vendem por um preço muito alto em comparação com a força eleitoral que eles têm.


O preço é alto mesmo.

 

Vou listar concessões que foram feitas nos últimos anos em nome de atrair esse pessoal.


 A política do déficit zero.


O acordo da União Europeia com o Mercosul e vice-versa. 


As emendas parlamentares.

 

A composição do Ministério.


 A postura moderada, inclusive nos ministérios que estão sob comando da esquerda e do PT, como é o caso do Ministério do Desenvolvimento Agrário. 


O apoio que eles exigem de nós nos estados e nas eleições congressuais.

 

E as concessões programáticas. “Não pode falar isso aqui no programa. Se falar, os aliados da direita moderada tradicional não vão gostar.”

 

Portanto, pessoal, vamos disputar o apoio dessa gente até o último dia do segundo turno. Mas nessa disputa a gente tem que lembrar de algo que em 2022 comprovou: NÃO são eles que nos dão a vitória. 


O que nos deu a vitória em 2022 foi a classe trabalhadora, especialmente os setores mais pobres, mais periféricos, mais negros, mais femininos, mais jovens da classe trabalhadora, especialmente no Nordeste.


É a classe trabalhadora, não a direita tradicional, nem tampouco os setores médios que nos deram a vitória.

 

E por isso, tudo vale a pena se ajudar a reafirmar e ampliar o apoio da classe trabalhadora


E nada vale a pena, nem acordos nem concessões que nos fazem perder o apoio da classe trabalhadora.

 

Um exemplo: o Novo Marco Fiscal e o Banco Centram contribuem para impedir as reformas de fundo que o Brasil precisa.

 

Impedem a reindustrialização que o Brasil precisa.


 E tem efeitos conjunturais péssimos também,  por exemplo a redução da atividade econômica, os contingenciamentos orçamentários, os cortes orçamentários.


Alguém pode dizer: “os indicadores econômicos são bons”. É verdade, mas a percepção das pessoas não é tão boa assim. Nas pesquisas, as pessoas reclamam da economia.

 

E por quê? Porque as pessoas passaram seis ou sete anos piorando de vida. Aí os indicadores melhoram. Mas isso não significa que a pessoa recuperou aquele prejuízo acumulado durante os anos de Temer e Bolsonaro. Nem o prejuízo material foi recuperado, nem o prejuízo espiritual. Para isso seria preciso muito mais mudança, mas o BC, o Déficit Zero e os acordos com a direita tradicional reduzem as mudanças.


O resultado disso é que, nas pesquisas de opinião, apesar de tudo o que fizemos, a gente não consegue superar um teto muito baixo.


Tudo isso junto e misturado faz com que o cenário eleitoral desse ano de 2026 seja bem difícil. Nós vamos ganhar a eleição presidencial por muito pouco.

 

Além disso, a preços de hoje a eleição de governadores promete ser terrível para nós. Estados onde hoje estamos bem ou onde temos grandes possibilidades são, hoje, exceções.

 

E a eleição para o Senado contém uma ameaça, porque a extrema-direita trabalha para ter maioria qualificada no Senado e com isso poder não só obstruir e opor-se, mas também mudar a composição do Supremo Tribunal, entre outros objetivos, como o de facilitar um impeachment.


E não há, sempre a preços de hoje, nenhum sinal de que a gente vai conseguir superar a maioria de direita na Câmara dos Deputados.


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Como é que a gente reage a isso? 


A gente reage a isso em parte por ação do nosso governo e em parte por ação nossa. E na ação nossa quero enfatizar a luta política ideológica. 


Não basta falar o que nós fizemos.

 

Não basta dizer que a gente não pode deixar o cavernícula voltar.


 Não basta falar de democracia ou de soberania. 


Precisamos oferecer algo mais, o compromisso de construir um país profundamente diferente.


Se não ampliarmos o “horizonte de expectativas”, a gente pode ter notícia ruim nesse processo eleitoral.

 

É preciso oferecer de maneira muito concreta para as pessoas uma oferta de um país diferente. 


Quando a gente fala de acabar com a escala seis por um, quando a gente fala de reduzir a jornada de trabalho, quando a gente fala de fazer reforma agrária, quando a gente fala de fazer uma reforma tributária de verdade no país, para fazer os ricos pagarem a conta, é disso que a gente está falando: de fazer um Brasil profundamente diferente.


Levando em consideração esses fatores que eu comentei, inclusive um que eu saltei de propósito - o fator “nossos erros” - eu repito que a preços de hoje Lula é candidato e Lula será reeleito, mas também a preços de hoje tem muita coisa que pode dar errado.


Alguns acham que falar disso é pessimismo.

 

Mas depois do que aconteceu no dia 3 de janeiro, é melhor para nós sempre lembrar que os nossos inimigos não são tigres de papel. 


Os nossos inimigos são poderosos, são terríveis, têm muitos meios e operam impiedosamente.


 E por isso é melhor a gente ficar alerta para todos os problemas que podem ocorrer, do que a gente ficar se enganando, achando que está tudo fácil, está tudo garantido, está tudo sob o nosso controle.

 

Como eu suponho que quando me convidaram para esta mesa, vocês queria uma análise absolutamente honesta, então quero enfatizar que as coisas tendem a piorar antes de melhorar de verdade. 


Por isso vamos precisar de muita organização, muita luta, muita disposição de combater de verdade o inimigo. 


E mesmo que corra tudo bem, ou seja, mesmo que a gente ganhe as eleições presidenciais de 2026, os problemas não vão acabar.

 

Pelo contrário: ganhando, as pressões sobre nós vão continuar e vão aumentar. 


Inclusive porque todo mundo sabe, não apenas nós, que um dos fatores que nos ajuda na disputa eleitoral, um fator chamado Luiz Inácio Lula da Silva, não estará na urna em 2030. 


E isso significa dizer que se tudo correr bem, o período que se abre no dia 1º de janeiro de 2027 vai ser de muita disputa, muito mais dura do que a gente viu até agora.

 

Nesse sentido, muita coisa vai depender da gente ganhar, mas muita coisa vai depender de COMO a gente vai ganhar. 


Com que discurso a gente vai ganhar? 


Com que maioria eleitoral a gente vai ganhar? 


Com que aliados a gente vai ganhar?


 Com que força no Congresso e nos governos estaduais a gente vai ganhar? 


Com que base organizada a gente vai ganhar?


 E com que capacidade de luta e com qual estratégia a gente vai ganhar?


 Para resumir numa imagem: nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2006? Nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2010? Ou nós vamos ganhar como a gente ganhou em 2014? 


Para quem não lembra, em 2014 a gente ganhou mas com a corda no pescoço. E no dia seguinte os problemas se aprofundaram violentamente, porque o nosso governo resolveu fazer um ajuste fiscal ortodoxo, que causou problema na nossa base social mas não ganhou um voto do lado de lá. 


Em 2010, para quem não lembra, a gente ganhou dizendo que nós íamos dar continuidade às coisas que já se faziam, porque se acreditava - não era o meu caso - que as coisas iam continuar mais ou menos como sempre.

 

E o que aconteceu? Aconteceu que a “marolinha” que o Lula dizia ter ocorrido devido a crise de 2008 virou um “tsunami”, nas palavras da Dilma. E como não  nos preparamos para isso, o nosso primeiro governo Dilma foi muito difícil


Eu prefiro ganhar como a gente ganhou em 2006. Em 2006, nós ganhamos e fizemos um segundo mandato do Lula muito melhor do que o primeiro.

 

Aliás, a memória é uma coisa enganosa.


A gente lembra com saudade dos mandatos do Lula, mas na verdade o que a gente lembra é do segundo mandato do Lula, porque o primeiro mandato do Lula, cuja política econômica foi controlada por um bandido chamado Antônio Palocci, um cara que resolveu usar a política ganhar dinheiro, que traiu as pessoas que confiaram nele e que se aliou ao capital financeiro.

 

Aquele primeiro mandato do Lula foi muito difícil, mas no segundo demos um salto de qualidade. 

 

Em 2006 aconteceu aquele segundo turno em que conseguimos o prodígio de fazer o candidato da direita, o Alckmin, diminuir de votação.


 

Pois muito bem: em 2026 nós queremos ganhar como a gente ganhou em 2006, para que o quarto mandato do Lula seja superior, seja muito melhor, seja qualitativamente melhor que este terceiro mandato que está terminando agora.


 E como é que nós podemos contribuir nesse sentido? Primeiro, obviamente, trabalhando muito para ganhar. Em segundo lugar, colocando em pauta duas questões.

 

A primeira delas: se não tiver luta de massa nesse país durante o ano de 2026, a correlação de forças não se alterará substancialmente a nosso favor. 


Se a gente quer de verdade um quarto mandato do Lula superior ao terceiro, precisa ter mobilização e luta de massa no ano de 2026. 


Em segundo lugar, nós precisamos voltar a falar em reformas estruturais, voltar a falar em mudanças profundas, voltar a falar, por exemplo, em reforma agrária, que é uma dívida do governo do meu partido, com este movimento sem terra e com o povo brasileiro.

 

Se a gente não voltar a falar em reformas estruturais, nós corremos o risco de terminar como o Congresso Nacional Africano, aquela organização a qual pertencia Nelson Mandela. A gente corre o risco de ter “um grande passado pela frente”.

 

Nós podemos continuar a ter o maior líder da história do país, como era o Nelson Mandela, mas a África do Sul continua neoliberal, o povo sul-africano continua sofrendo na mão do capital financeiro, do agronegócio, da mineração.


Se a gente não mudar o modelo, a gente não muda o Brasil e não muda o lugar do Brasil no mundo.

 

Esse é, na minha opinião, o maior desafio nosso nas eleições de 2026. Não só ganhar, mas ganhar do jeito certo. Ganhar para que a gente tenha um quarto mandato superior e muito melhor do que o atual.

 

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A preços de hoje, Lula será candidato, Lula será eleito, mas há pelo menos cinco fatores que podem atrapalhar isso: os Estados Unidos, a classe dominante, a extrema-direita, a direita tradicional e os nossos erros, sobre os quais eu preferi não falar.

 

Evidente que, entre nós, na esquerda brasileira, há divergências estratégicas. Por exemplo, sobre como lidar com o imperialismo e como defender a integração regional.

 

Se eu acho que a integração regional é decisiva para o Brasil, eu vou reconhecer a eleição do Maduro em 2024, eu vou incorporar a Venezuela nos BRICS e eu vou defender a soberania da Venezuela nas eleições de 2026, sem ter vergonha disso. 


Outro tema: como lidar com o Trump? Tem muita gente que, frente ao Trump, adota a mesma política da maior parte da classe dominante britânica e francesa frente ao nazismo, na época de Munique, na véspera da Segunda Guerra Mundial.

 

Era a chamada “política de apaziguamento”: “vamos conter, vamos tratar com cuidado, vamos colocar limites e assim no final ele (Hitler)vai cair na real. E o que aconteceu? A Segunda Guerra Mundial.

 

Uma situação parecida acontece agora, frente ao Trump. Muita gente acha legal falar em

“ter química” com o cara. Nós não achamos isso. Ao contrário, nós temos que nos preparar e preparar o povo para o inevitável.

 

Quando a gente falava, alguns anos atrás, que estávamos  em “tempos de guerra”, muita gente achou esquisito e exagerado. Acho que hoje ninguém mais acha nem esquisito, nem exagerado. Mas não basta admitir o inegável: a gente tem que se preparar.

 

Preparar os nossos espíritos, preparar o nosso povo, preparar o nosso país.


 Triunfar no Brasil é o caminho para derrotar os Estados Unidos.

 

Derrotar os Estados Unidos é o caminho para o mundo um dia ser socialista. 


Esse é o tamanho da nossa tarefa histórica. 


E para isso, nós temos que voltar a falar de luta pelo poder, não apenas de eleição de governos.

 

E voltar a praticar luta de massa, não apenas falar em luta de massa. 


Sem lutar pelo poder e sem fazer luta de massa, não tem chance de triunfo aqui no Brasil. 


A gente pode ganhar eleição, mas ganhar eleição, a gente já constatou isso nos últimos anos, é muito diferente de mudar o Brasil.

 

Para mudar o Brasil, precisa ter poder, precisa fazer reformas estruturais. E eu quero dar um número. A classe dominante brasileira, os “chefes de família” da classe dominante brasileira, são cerca de 35 mil pessoas.

 

É disso que nós estamos falando: derrotar 35 mil pessoas que hoje detêm o controle político, econômico, social e cultural desse país. 


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Foi perguntado sobre como ampliar a popularidade do governo Lula.

 

Veja, três anos atrás eu faria uma lista de sugestões. Agora, janeiro de 2026, é ir para a luta política, é ir para a luta ideológica, é ir para a campanha. Não tem mais tempo a não ser o tempo da disputa política direta.

 

E tem que ser de polarização. Polarização. Porque não adianta ficar na defensiva e dizer que “poderia ser pior”. Nós temos que dizer que vai melhorar muito e vai mudar conosco. E que o lado de lá é o mal, é a destruição do país, representa tudo que a gente quer mudar. 


Um último comentário: quando o Lula esteve preso, o governo da Venezuela foi solidário, e o Maduro e a Cilia pessoalmente foram solidários. Por isso, para além das obrigações políticas e estratégicas, eu quero pedir a cada um, e pedir ao companheiro Lula, que esteja à altura do que eles fizeram por nós. Sejamos pelo menos solidários. 

 

Maduro livre, Cilia livre, viva o MST, viva o PT, viva a esquerda brasileira, viva o presidente Lula e todos nós.