sábado, 29 de novembro de 2025

Versão inicial do texto para Alfenas

Socialismo, mapas e caminhos

Os organizadores do XV Encontro de Grupos de Estudos e Pesquisas Marxistas (EPMARX) cometeram a gentileza de me convidar, enquanto professor da Universidade Federal do ABC e também diretor da Fundação Perseu Abramo (vinculada ao Partido dos Trabalhadores), para uma mesa-redonda com Melissa Cambuhy (PPGRI/UERJ) e Francisco Xarão (Unifal-MG), para tratar do tema “crise do capital e dinâmicas geopolíticas: há uma alternativa socialista?”

A ementa da referida mesa – disponível no endereço XV Encontro de Grupos de Estudos e Pesquisas Marxistas – é a seguinte: “as causas e efeitos da crise estrutural do capital, as tensões geopolíticas atuais, [revisitar] a teoria e a prática do socialismo no século XX, [discutir] a viabilidade no século XXI da alternativa socialista à crise do capital, abordando desafios e oportunidades em um cenário global em transformação, com o objetivo de fomentar uma reflexão crítica sobre o futuro econômico e político mundial”.

Fosse crente, diria que fomos chamados a falar de “Deus e seu tempo”. Seja como for, para elaborar o roteiro de minha contribuição à referida mesa-redonda, me vali de textos que escrevi em 2006, 2016, 2021 e 2025, reproduzidos parcialmente neste material que o leitor tem em mãos. Vali-me, também, de correções e sugestões feitas por Paulo Denisar, Rita Camacho, Jonuel Gonçalves e Marly Viana, a quem agradeço e inocento do que vem a seguir.

Começo pelo texto datado de 2006, cujo título é: “Estaremos mortos, mas chegaremos lá”.

 

(...) Meu ponto de partida nesta discussão é o seguinte: temos como objetivo final construir uma sociedade mundial comunista, onde não haja exploração nem opressão, classes sociais ou Estado (... ) Sendo que nosso objetivo final é a construção de uma sociedade comunista mundial, estou certo de que não estarei por aqui se e quando este objetivo for alcançado.

Frente a este “detalhe”, é natural que muitas pessoas abandonem o objetivo final (inalcançável no tempo de nossas vidas) e estabeleçam “objetivos finais” mais palpáveis para nossa expectativa de vida.

É natural, também, que outras pessoas tentem “apressar” os processos históricos, seja através de ações voluntaristas, seja através de raciocínios simplificadores, segundo os quais a transição do capitalismo ao comunismo poderia ser um processo rápido.

É natural que as pessoas ajam assim, mas trata-se de um erro que deve ser combatido, sob pena do futuro almejado por nós nunca virar presente, seja por não o perseguirmos desde agora, seja por o perseguirmos da maneira errada.

A construção de uma sociedade sem classes e sem Estado, sem opressão nem exploração, é tarefa que exigirá séculos.

Digo que é uma “tarefa” porque o comunismo, se e quando o construirmos, não será produto de um acaso, nem tampouco resultará de processos exclusivamente objetivos.

Como indicou o velho Friedrich Engels, a construção de uma sociedade comunista terá que ser uma obra consciente da humanidade, mais precisamente de uma parcela da humanidade, as classes trabalhadoras.

Claro que esta obra consciente é possível (e necessária) graças a processos objetivos, construídos de maneira mais ou menos inconsciente pela humanidade. Mas o fator consciência, vontade, subjetivo, é fundamental na construção de uma sociedade sem classes, sem Estado, sem opressão nem exploração de novo tipo.

Neste sentido, é preciso que os comunistas tenham o máximo de consciência possível sobre o passado, o presente e o futuro de nossa ação.  Que saibamos de onde viemos, onde estamos e para onde queremos ir. O que inclui decidir sobre os “veículos”, as “estradas” e as “paradas” que faremos nesta jornada para chegar ao nosso objetivo final.

De maneira resumida: nós estaremos mortos, mas chegaremos lá. Compreender isto e participar desta jornada, sabendo que estamos contribuindo para um futuro que não será vivido por nós, individualmente, talvez seja a maior demonstração que podemos dar de que fazemos parte de uma obra coletiva, social.

Se nosso objetivo final é o comunismo (compreendido como uma sociedade sem classes e sem Estado, sem opressão nem exploração), é óbvio que entre este objetivo e a situação atual medeia um enorme intervalo social, temporal e espacial.

Social, porque se trata de transformar uma sociedade de classes & capitalista numa sociedade sem classes. Uma mudança mais profunda do que a transição do feudalismo para o capitalismo, que, ao fim e ao cabo, foi a transformação de um tipo de sociedade de classes em outro tipo de sociedade de classes.

Trata-se de organizar a produção e a reprodução da sociedade, superando mecanismos de exploração e de opressão que caracterizaram a história humana nos últimos milênios.

Alcançar este objetivo supõe um conjunto de ações articuladas entre si: 1) conscientizar amplos setores da sociedade deste objetivo; 2) fazer com que estes setores obtenham o poder necessário para implementar ações visando aquele objetivo; 3) portanto, reduzir ao máximo o poder dos setores sociais comprometidos com o capitalismo em particular e com a sociedade de classes em geral; 4) implementar as ações (econômicas, sociais, políticas, culturais) necessárias para alcançar o comunismo.

As ações acima envolverão tempos e espaços muito diferentes.

O trabalho de conscientização (luta ideológica, propaganda de ideias, construção de uma visão de mundo comunista em amplas camadas de nossa sociedade) é permanente; continuará sendo necessário no próprio comunismo.

Já a luta política (poder para os trabalhadores, tirar o poder dos capitalistas) e a construção das bases materiais de uma nova sociedade são de longa duração, mas não são permanentes. A política, tal como a conhecemos, desaparecerá numa sociedade comunista. E o comunismo supõe que a desigualdade (não a diferença) tenha sido eliminada.

Como tempo e espaço mantêm conexões, podemos especular sobre os diversos “momentos” da nossa jornada em direção ao comunismo. Esta especulação, baseada na observação da transição do feudalismo ao capitalismo, mas também na observação da primeira tentativa de transição do capitalismo ao comunismo (as revoluções socialistas ocorridas no século XX), aponta para a existência de quatro “momentos” básicos:

a) o momento em que as relações capitalistas de produção são hegemônicas em todos os países do mundo;

b) o momento em que as relações capitalistas são hegemônicas, mas em que os trabalhadores conquistam o poder político em algumas regiões (países, conjunto de países) e começam a tentar construir relações sociais de novo tipo;

c) quando os trabalhadores, a partir das posições conquistadas no momento anterior, cercam a partir de fora e atacam a partir de dentro as regiões (países, conjunto de países) e forças sociais onde o capitalismo segue hegemônico. E/ou onde as regiões/forças sociais capitalistas conseguem cercar a partir de fora e atacar a partir de dentro as forças sociais/regiões onde se está tentando construir um novo tipo de sociedade;

d) o momento em que as relações sociais de tipo capitalista se tornam residuais, até desaparecer.

Nós estamos num momento de tipo “a” (situação semelhante ao movimento socialista no início do século XX).

Durante o século XX, vivemos durante mais ou menos 70 anos um momento de tipo “b”. Como sabemos, as forças pró capitalistas conseguiram evitar o cerco, derrotar os ataques a partir de dentro (feitos pelos trabalhadores dos países capitalistas) e nos impuseram uma grande derrota.

Há vários motivos para esta derrota, entre os quais os descaminhos seguidos nas tentativas de construir relações sociais de novo tipo; e os limites estabelecidos e erros cometidos, na maioria dos países capitalistas, pelos que estavam atacando “a partir de dentro” (comunistas e social-democratas).

Com esta derrota, voltamos a viver um momento de tipo “a”. Do que se trata, portanto, quando discutimos nossa estratégia, é como passar do momento “a” para o momento “b”.

Claro que a discussão sobre a estratégia (como tomar o poder em determinadas regiões e dar início à construção de relações sociais de novo tipo) deve levar em conta o “momento” seguinte: como cercar/atacar o capitalismo.

Até porque, tão logo cheguemos ao poder em um determinado país, tem início o cerco dos capitalistas. Aliás, o "cerco" começa antes mesmo disto, pois, como sabemos, a "Internacional Capitalista" opera pesadamente para evitar que tomemos o poder.

Nossa estratégia tem como objetivo passar do momento “a” para o momento “b”. Trata-se, neste sentido, de uma estratégia principalmente nacional (como “tomar o poder” em um determinado país). Mas precisamos construir uma estratégia nacional que leve em conta ser fundamental evitar a concentração de forças (em escala internacional) do inimigo contra nós. Ou seja, precisamos de uma estratégia para passar do momento “a” para o “b”, mas com olhos postos na necessidade de passarmos urgentemente para o momento “c”. Pois quem não passa é passado.

Discutir estratégia é discutir poder político. Alguns (...) confundem poder político com ocupação do aparelho de Estado (eleger parlamentares, prefeitos, governadores, presidente). A confusão é compreensível, mas é danosa.

Em primeiro lugar, se é verdade que o Estado cristaliza uma determinada correlação de forças entre as classes sociais, também é verdade que as relações sociais capitalistas são muito mais amplas e poderosas do que o Estado.

Em segundo lugar, porque se é verdade que os cargos eletivos fazem parte do Estado e, portanto, concentram algum poder, também é verdade que o poder de Estado é muito mais amplo do que os cargos eletivos.

Em terceiro lugar, se a ocupação do aparelho de Estado pode fazer parte da estratégia, a estratégia sempre será muito mais ampla do que a ocupação do aparelho de Estado. Aliás, dependendo de como façamos essa “ocupação”, podemos colocar a perder toda a estratégia.

Qual deve ser, então, o objetivo da nossa estratégia? Fazer com que as classes trabalhadoras detenham o poder necessário à mudança das relações sociais, num duplo sentido: dissolver as relações capitalistas de produção e construir relações sociais de novo tipo.

Esta é, aliás, uma diferença fundamental entre a transição do feudalismo para o capitalismo versus a pretendida transição do capitalismo para o comunismo.

No primeiro caso, as relações sociais de tipo capitalista se desenvolveram largamente, antes mesmo de os capitalistas deterem poder político equivalente; no segundo caso, as relações sociais de novo tipo só poderão se desenvolver depois que os trabalhadores tenham acumulado o poder político necessário para tal.

Sempre é bom lembrar que o poder é uma relação entre classes. O fortalecimento dos trabalhadores é o enfraquecimento dos capitalistas. Mas também é bom lembrar que, como qualquer relação social, o “poder” se “cristaliza” sob determinadas formas.

A forma mais geral de “cristalização” do poder é o que conhecemos como “poder de Estado”. É por isso que a discussão da estratégia de poder muitas vezes se reduz ao tema da “conquista do poder de Estado”. Esse reducionismo é um equívoco; mas equívoco muito maior é achar que seja possível acumular poder sem enfrentar o tema do Estado.

O Estado é a cristalização (datada, historicamente determinada) das relações existentes entre as classes sociais. Na origem (e aqui apelamos de novo para Engels), quando a sociedade se divide em classes, o Estado é uma necessidade. Sem ele, a vida social seria uma guerra civil aberta e permanente entre as classes. (...) Ocorre que esta instituição (o Estado) se dedica a manter as condições gerais de produção e reprodução de uma sociedade determinada, uma sociedade de classes; e, neste sentido, a ação do Estado resulta na reprodução de uma sociedade de exploração e opressão, atendendo aos interesses de uma determinada classe social.

O Estado tem, portanto, desde o surgimento, duas dimensões: uma “pública” e outra “privada”. A importância de uma ou de outra dimensão varia, de acordo com a força das classes em luta. Mas, em última análise, a dimensão dominante é “privada”, ou seja: o Estado está a serviço dos interesses de uma determinada classe social e não a serviço de toda a sociedade.

No século XX, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, a dimensão “pública” do Estado ampliou-se muito. Por um lado, através da atividade econômica direta (em que o Estado se tornava uma espécie de “capitalista coletivo”). Por outro lado, através das políticas sociais (que, em última análise, constituem uma espécie de “salário indireto” pago às classes trabalhadoras). E, finalmente, mediante o acesso (através dos processos eleitorais) de classes não capitalistas a espaços importantes do aparelho de Estado.

Esta ampliação, embora cheia de percalços, gerou enormes expectativas em uma parcela dos comunistas e no conjunto dos social-democratas, que acreditaram ser possível uma ampliação contínua da dimensão pública da ação do Estado.

Esta ampliação da dimensão pública poderia se dar de duas formas: o crescimento das atribuições do Estado, em detrimento das áreas de atuação das empresas privadas capitalistas; ou a redução das atribuições do Estado, em benefício do (suposto ou real) autogoverno direto da sociedade.

Sob uma ou outra forma, entretanto, o fundamental seria a ampliação da dimensão pública do Estado, tendo em perspectiva fazer com que o Estado deixasse de ser, em última análise, um defensor dos interesses capitalistas.

Qual o balanço que podemos fazer desta estratégia de “ocupação” do Estado?

Historicamente, ela fracassou, pelo menos até o momento. Não há um único caso em que a ocupação do Estado por forças anticapitalistas tenha conseguido transformar este Estado num instrumento a serviço da construção de novas relações sociais.

Mas o fracasso histórico não pode ser o único critério. É preciso ver se este fracasso se deveu a causas conjunturais, a erros táticos ou se há algum problema estratégico envolvido.

Em minha opinião, há um problema estratégico, a saber: a ampliação da dimensão pública do Estado só pode ser feita afetando os interesses dos capitalistas, seja limitando sua ação, seja cobrando impostos.

Isso gera uma reação econômica e política dos capitalistas. Economicamente, temos fuga de capitais, fuga da tributação, quebra de empresas e desemprego. Politicamente, temos do confronto eleitoral até os golpes.

Nesse último caso (embora isso também ocorra em situações de conflito menos extremadas), uma parcela do aparato de Estado é convocada a agir contra os setores sociais e políticos que buscam ampliar a dimensão pública do Estado.

Mesmo supondo que as forças anticapitalistas tenham sucesso neste momento de enfrentamento, a conclusão é: mais cedo ou mais tarde, o núcleo duro do Estado (as forças armadas, a alta burocracia estatal) se “revoltará” contra os setores que pretendem mudar a natureza do Estado.

Derrotar o núcleo duro do Estado dependerá, principalmente, do contrapoder não estatal de que disponham as forças anticapitalistas (...)

Ou seja: mais cedo ou mais tarde, fica claro que não é possível ampliar a dimensão do caráter público do Estado até o ponto de ele deixar de ser um Estado a serviço de uma determinada classe social (...) a questão fundamental (sobre a natureza ou caráter de classe do Estado) terminará se impondo. E, nesse momento, a vitória das forças anticapitalistas dependerá da força que tenham construído dentro do Estado, mas principalmente fora dele.

Por isso, a discussão da estratégia de poder deve ser mais ampla do que a discussão sobre a ocupação de espaços no Estado. E, mesmo ao discutir esta ocupação, ela deve estar focada em como colocar os espaços conquistados no aparelho de Estado a serviço da estratégia geral.

Quando falamos em estratégia revolucionária, estamos falando exatamente disto: de uma estratégia de poder que considera indispensável, à construção de novas relações sociais, a substituição do Estado burguês por um Estado que represente os interesses das classes trabalhadoras.

Substituição esta que não pode ser feita através da metamorfose do Estado atual, mas sim através de uma ruptura provocada e sustentada, principalmente, por uma ação de fora para dentro.

Esta ação “de fora para dentro” pode ser uma guerra contra a ocupação estrangeira, uma guerra civil (seja sob a forma de guerra popular prolongada, seja sob a forma de uma guerra de guerrilhas de curta duração) ou uma insurreição popular (contra ou a favor de um governo, mas sempre contra o núcleo duro do Estado).

Qualquer que seja a “forma” desta ação “de fora para dentro”, sem ela não se destrói o Estado capitalista e não se constrói um Estado de novo tipo, que possa impulsionar a criação de relações sociais não capitalistas, pós-capitalistas e anticapitalistas.

O grande problema é que uma estratégia revolucionária depende, para seu sucesso, de condições políticas e sociais muito especiais e muito raras. Entre estas condições, é preciso que o nível de mobilização política das classes trabalhadoras, por seus interesses, tenha atingido níveis que transbordem a capacidade de contenção do Estado capitalista. Quando isto ocorre, a vitória ou a derrota da revolução passam a depender da luta política no sentido mais forte deste termo, em particular da existência (ou não) de uma força política (um partido) capaz de dirigir o enfrentamento com o Estado burguês.

O problema é que esta ação consciente é decisiva nos momentos finais do processo; mas não é decisiva nos momentos iniciais. Noutras palavras: nas suas fases iniciais e por muito tempo, a mobilização política das classes trabalhadoras depende mais de processos objetivos e espontâneos (ou, falando de outro modo, depende mais dos ataques do capitalismo contra o nível de vida das massas e das reações destas mesmas massas), do que de processos (...) organizados.

Um partido pode dirigir a fase final de um processo revolucionário, mas não pode dar origem a um processo revolucionário. (...) As organizações revolucionárias não se forjam fora da luta política, mas na luta política. Isto cria um grande problema, menos perceptível quando a luta política assume “formas” revolucionárias (a clandestinidade, a guerra contra a ocupação, a autodefesa armada que evolui para um exército popular); e muito perceptível quando a luta política assume “formas” não revolucionárias (o trabalho sindical e partidário legal, a propaganda política e as disputas eleitorais, o exercício de governos e mandatos parlamentares).

Neste segundo caso, há uma grande contradição: a ação prática dos revolucionários não apenas tem como objetivo conquistar reformas, mas também assume formas “reformistas”, ou seja, formas de luta que são, no limite, absorvíveis pelo Estado burguês e pela ordem capitalista.

Como resultado, ao invés de derrubar ou metamorfosear o Estado, a esquerda que se pretendia revolucionária acaba sendo metamorfoseada. Deixa de ser revolucionária, deixa de ser socialista e, às vezes, deixa de ser de esquerda.

O desafio, pois, é o seguinte: construir uma estratégia que permita que as classes trabalhadoras se organizem e se fortaleçam politicamente, nos tempos de luta de classes mais ou menos pacífica, sem perder a capacidade de atuar revolucionariamente em tempos revolucionários. Será possível fazer isto?

Comecemos reconhecendo que, se é possível, trata-se, com certeza, de algo muito difícil e raro. Para começo de conversa, quanto maior a duração dos “tempos de paz”, maiores as chances de cooptação da esquerda revolucionária (e/ou de sua redução à uma minoria radical, porém inexpressiva).

Por outro lado, na medida em que os tempos de paz forem sendo substituídos por uma luta de classes mais conflitiva, há grandes riscos de a política de acúmulo de forças “reformista” ter corrompido tanto a esquerda que ela perca as condições de implementar uma estratégia revolucionária.

De toda forma, fica claro que a questão é: que tipo de “política em tempos de paz” nos prepara para a guerra? Ou ainda: que tipo de política reformista cria melhores condições para que possamos desempenhar um papel revolucionário, no momento em que isso se tornar possível?

Uma estratégia revolucionária para tempos reformistas precisa ser capaz de, partindo das condições concretas em que vivemos, construir um caminho para o poder (...)

 

A íntegra do texto cujos trechos transcrevemos acima pode ser lida no endereço Valter Pomar: Um texto de 4 de junho de 2006. O principal reparo que faço a este texto, quase 20 anos depois de tê-lo escrito, é que faltou enfatizar algo básico: na história, pouco ou quase nada acontece tal como foi planejado e desejado. Apesar disso, ou por isso mesmo, é necessário e muito útil desejar, planejar e trabalhar em favor de um plano. Mesmo que algumas metas só possam ser atingidas no longuíssimo prazo e inclusive possam parecer contraditórias com nossos objetivos de curto prazo – como é o caso da “abolição do Estado” vis a vis com as necessidades de quem luta contra o “estado mínimo neoliberal” e também por uma transição socialista onde o Estado cumprirá papel fundamental – falar e lutar por aquelas metas é indispensável caso queiramos que a resultante histórica seja mais próxima daquilo que buscamos. A respeito, lembro do “sastre de Ulm” (Valter Pomar: Sobre "O alfaiate de Ulm").

Entre as muitas dificuldades enfrentadas por quem quer orientar sua ação na luta de classes a partir de um plano estratégico, cito o imperfeito conhecimento da realidade, da evolução dos fatos, da luta de classes, da luta entre Estados, das tendências de desenvolvimento do capitalismo. Ao menos no caso daquela parte da esquerda brasileira que se organiza no Partido dos Trabalhadores, sabemos menos do que o necessário e muito menos do que é possível, entre outros motivos porque nosso método de funcionamento não contribui nesse sentido. Mas houve momentos na história do PT em que tentamos fazer diferente. Um exemplo disso foi o caso da “comissão de teses” do 6º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores. Integrei esta comissão e ajudei a elaborar um texto (disponível aqui: Valter Pomar: Cenário internacional) que fazia o seguinte “resumo da situação” internacional:

 

(...) é preciso levar em consideração um conjunto de fatores, surgidos em diferentes momentos da história recente, mas que hoje conjugam-se na composição do cenário internacional. Citamos entre estes fatores:

a) a hegemonia do capitalismo: na história, nunca como antes os capitalistas e o capitalismo como modo de produção foram tão hegemônicos quanto hoje;

b) a natureza do capitalismo contemporâneo: com a financeirização e a especulação, há uma contradição e dissociação cada vez maior entre os circuitos da produção material e os circuitos da valorização do capital. Sendo importante lembrar que, depois de 2008, os “bancos grandes demais para quebrar” se tornaram ainda maiores, produto da inexorável tendência à concentração e centralização do capital;

c) a crise do capitalismo: desde os anos 1970, convivem níveis de crescimento muito baixos, a ocorrência em espaços de tempo cada vez menores de crises de variados tipos e profundidades, desembocando em 2008 em um colapso geral que recorda o de 1929. As causas que produziram a crise de 2008 não foram superadas, pelo contrário;

d) o declínio da potência hegemônica: embora seja a principal potência militar e emissora da moeda de maior trânsito internacional, os Estados Unidos perderam peso econômico, vivem uma crise interna de grandes proporções e têm sua hegemonia crescentemente contestada, motivos que tornam possível falar do declínio relativo de sua hegemonia;

e) a ascensão de outros polos de poder: ao contrário do unilateralismo pretendido pelos EUA após o fim da URSS, o mundo atual é crescentemente multipolar, com destaque para os BRICS. Mas um mundo multipolar não é necessariamente um mundo pacífico, como demonstram os acontecimentos que precederam as Guerras Mundiais;

f) a formação de blocos e acordos: como o cenário internacional é profundamente diferente daquele prevalecente no imediato pós-Segunda Guerra, as instituições multilaterais como a ONU, o FMI, o Banco Mundial e mesmo a Organização Mundial do Comércio vão perdendo peso e importância frente a uma multiplicidade de acordos e tratados, que – como ocorreu antes da Primeira e da Segunda Guerra Mundial – são sintomas de desarranjo e crise, não de ordem e estabilidade;

g) a disputa entre diferentes vias de desenvolvimento capitalista: enquanto no período 1945-1991 os conflitos internacionais estavam fortemente atravessados pela luta entre capitalismo e socialismo, hoje o conflito dominante se dá entre diferentes maneiras de organizar o capitalismo, cabendo às alternativas socialistas uma pequena influência. Dito de outra forma, algumas das forças que impunham limites às forças destrutivas do capitalismo são mais fracas atualmente do que já foram antes;

h) a defensiva estratégica da classe trabalhadora: aumento das taxas de exploração, redução na remuneração, piora nas condições de trabalho, reversão de direitos sociais, estreitamento das liberdades democráticas, enfraquecimento dos sindicatos e partidos, perda de espaços institucionais, fortalecimento de valores individualistas, ampliação dos conflitos entre os diferentes segmentos de trabalhadores e recomposição da própria classe trabalhadora. As derrotas e as dificuldades da classe trabalhadora são um fator fundamental para compreender o que está ocorrendo hoje no cenário internacional. Afinal, a luta da classe trabalhadora sempre foi um fator de civilização e humanismo contra a barbárie do capital.

Como o mundo hoje é mais capitalista que nunca, é fundamental compreender o que está ocorrendo hoje com este modo de produção baseado na exploração do trabalho assalariado.

O cerne da questão está no atual estágio de desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo, especialmente nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Quanto mais se eleva a produtividade do trabalho e, portanto, a extração de mais-valia relativa, mais o capitalismo se enreda em suas variadas tendências estruturais:

a) decréscimo de sua taxa média de lucro;

b) concentração, centralização e exportação de capitais, tanto na forma financeira quanto na forma de transferência de plantas industriais, promovendo crescente globalização do capitalismo;

c) redução da participação de trabalho vivo no processo produtivo;

d) crescente desemprego estrutural e pauperização das massas trabalhadoras das sociedades capitalistas, tanto desenvolvidas quanto periféricas e avassaladas ao capitalismo central;

e) acentuação da natureza de classe do Estado;

f) incompatibilidade crescente entre capitalismo, bem-estar, democracia e soberania nacional.

Essas tendências foram acirradas a partir de 2008, com as crises financeiras e econômicas globais que tiveram como epicentros os Estados Unidos, a Europa e o Japão.

No imediato pós-crise de 2008, muito se falou em abandonar as chamadas políticas neoliberais. Mas as políticas efetivamente adotadas foram no sentido de reafirmar o que já vinha sendo feito: parques industriais serem desmontados por políticas de “relocalização” de unidades fabris, e/ou concentração na produção de commodities minerais e agrícolas, e/ou disseminação do rentismo como forma de reprodução do capital, e/ou destruição das políticas sociais e trabalhistas. Características comuns tanto aos países capitalistas desenvolvidos quanto àqueles que se subordinaram ao “Consenso de Washington”.

Esse conjunto de processos leva à acumulação, em extratos diminutos da população, da maior parte das riquezas real e fictícia produzidas pelas corporações e sociedades capitalistas. Noutras palavras, uma burguesia mundial cada vez mais rica e cada vez menos numerosa.

Ao mesmo tempo, aquele conjunto de processos faz com que encolha a capacidade social de consumo ao serem criadas massas cada vez maiores de trabalhadores deserdados e/ou mal remunerados.

Nos Estados Unidos, Europa e Japão, a questão do desemprego, inclusive de trabalhadores qualificados – até então considerados como parte de uma suposta “classe média” –, tornou-se um dos aspectos mais grotescos da crise, em contraste com a riqueza acumulada por 1% a 2% da população.

Frente a este quadro que recorda o que ocorreu no princípio do século XX, alguns acreditam que a solução poderia vir da adoção de políticas semelhantes as que foram implementadas, nos anos 1930, durante o New Deal de Roosevelt.

Noutras palavras, alguns acreditam que a solução estrutural para a crise atual poderia resultar da ampliação dos investimentos públicos, que resultariam na melhoria das condições sociais dos milhões de desempregados e “excluídos”, produzindo um efeito “dinamizador” sobre a economia e a geração de empregos, contribuindo assim para superar a crise.

Evidentemente, somos a favor de ampliar os investimentos públicos. Mas tomado isoladamente, isto é insuficiente para enfrentar a crise atual. Aliás, cabe lembrar que nos Estados Unidos dos anos 1930:

a) para ampliar os investimentos públicos, foi necessário enfrentar a oposição dos capitalistas, que tudo fizeram para impedir que as ações do Estado tivessem um efeito positivo real na dinamização da produção e do emprego;

b) apenas a participação na Segunda Guerra Mundial retirou a economia capitalista dos EUA da crise iniciada em 1929.

Talvez nada explicite melhor o caráter destrutivo e mortífero do capitalismo: sua dependência frente à guerra, a produção de armas, a destruição total de cidades, o assassinato em escala industrial de dezenas de milhões de pessoas, a destruição das riquezas até então acumuladas, os lucros produzidos pelo mercado paralelo e pela reconstrução posterior, a nova correlação de forças internacional derivada da Segunda Guerra, a Guerra Fria e as guerras quentes ocorridas depois, as novas tecnologias, inclusive digitais e nucleares resultantes. A guerra, nas suas variadas formas, jogou um papel fundamental na criação das condições para um novo ciclo de crescimento econômico capitalista, que se estendeu até o final dos anos 1960, início dos anos 1970.

O complexo industrial-militar – absolutamente irracional do ponto de vista dos interesses da sociedade como um todo – é extremamente “eficiente” para os fins da acumulação de capitais.

Mas a indústria bélica também experimenta – em escala ainda mais acelerada – as mesmas transformações científicas e tecnológicas do conjunto da “indústria produtiva”. Aliás, a indústria bélica é uma das que mais reduz o uso de força de trabalho em seu processo produtivo. Ou seja, é uma das indústrias que mais tende a elevar a produtividade do trabalho e a extração da mais-valia relativa. E, portanto, é uma das indústrias que tende a adotar níveis muito acelerados de descarte do trabalho vivo, agravando os distúrbios sociais e econômicos típicos – como o desemprego – do capitalismo.

Uma das perguntas que se pode fazer é por quais motivos os capitalistas e o modo de produção capitalista, mesmo quando estão em crise, não adotam “natural” e “espontaneamente” políticas de emprego e renda, que poderiam resultar em ampliação do consumo e da produção, reestabelecendo assim os ciclos econômicos, cuja interrupção constitui a causa e o efeito da crise. 

A resposta é simples: o grande capital, especialmente aquele situado nas altas esferas financeiras, prefere produzir mais-valia sem passar pelo processo de produção material. Dito de outra forma, prefere transformar o conjunto da mais-valia anterior em mais-valia ampliada, sem “desperdiçar” nada disto em salários diretos e indiretos.

(...) Este é um dos motivos pelos quais clamam no deserto aqueles que pretendem civilizar e humanizar o capitalismo e os capitalistas, tentando convencê-los de que eles poderiam lucrar mais se todos vivessem melhor. Claro que o chamado keynesianismo pode se converter, novamente, em uma opção para setores do capital, mas isto só acontecerá se e quando a classe trabalhadora colocar sobre a mesa uma alternativa mais radical, que converta – aos olhos da burguesia – a intervenção do Estado na economia em “mal menor” que protegerá o capitalismo de seus próprios demônios.

Isto ajuda a entender por quais motivos a especulação financeira e o saqueio direto de riquezas, como é o caso dos recursos naturais, assumem crescente importância a partir dos anos 1970. O capitalismo maduro assume formas que lembram cada vez mais a violência brutal da acumulação primitiva de sua infância. Isto vai das patentes, licenças e propriedade intelectual que recordam os monopólios contra os quais se levantou a burguesia nascente, passa por uma divisão internacional do trabalho de tipo colonial, por uma destruição implacável da natureza que rememora o ocorrido em países onde se instalaram os latifúndios escravistas, tudo isto se combinando com as formas mais extremadas de extração da mais-valia relativa, com novidades tecnológicas como as nanotecnologias e a biotecnologia.

Também por isto, o complexo industrial-militar dos Estados Unidos e da Europa Ocidental continuam sendo desenvolvidos como pilares estratégicos. Isto não só para a defesa de seus territórios e sociedades, mas principalmente para a subordinação de outros territórios e sociedades.

Estados Unidos e Europa Ocidental necessitam de recursos minerais e energéticos de outros países, assim como de mercados, e áreas de contenção ou de ataque. Não por acaso, os Estados Unidos têm mais de mil bases militares em todo o mundo, e há muito interferem militarmente em toda parte onde seus interesses estejam, real ou imaginariamente, em perigo (...)

Em 2008, a crise econômica teve como epicentro os Estados Unidos. Hoje, a crise política mundial também tem seu epicentro lá. Crise que tem na incerteza um componente adicional, uma vez que há uma grande dose de imprevisibilidade no comportamento do futuro presidente dos EUA. A eleição de Donald Trump nas recentes eleições [o texto refere-se às eleições de 2016] para a Presidência dos Estados Unidos é um símbolo dos tempos em que vivemos (...)

Quem (...)preste atenção séria às entrevistas e aos discursos de Trump e os compare ao que diziam os populistas de direita na Alemanha e na Itália dos anos 1920 e 1930 encontrará muitas semelhanças. Como também encontrará muita semelhança entre as massas populares alemãs daquela época, desempregadas e desesperadas, que se deixaram envolver pelo hitlerismo, do mesmo modo que os desempregados e desesperados brancos norte-americanos, assim como parcelas dos setores médios e inclusive de migrantes legalizados, estão sendo envolvidos pelo “trumpismo”, ou pelo Tea Party norte-americano.

Evidentemente, há imensas diferenças entre Trump e Hitler, entre os anos 1930 e a época atual. Entretanto, é preciso estar alerta para o fato de que estamos vivendo um momento internacional que possui semelhanças inquietantes com o que ocorreu na crise dos anos 1930 e, de forma mais ampla, no período entreguerras (1914-1945).

Naquela época, sob hegemonia do liberalismo, ocorreu uma imensa crise econômica e social, política e militar. Por diversos motivos, as revoluções socialistas não foram vitoriosas, senão na Rússia de 1917. De conjunto, tanto a social-democracia quanto o comunismo fracassaram em transformar aquela crise em ponto de partida para a superação do capitalismo. Seja para superar a crise, seja para debelar a ameaça de uma revolução social, parcelas crescentes do grande capital e da direita tradicional foram aderindo às teses do populismo de direita, que também atraíram parcelas importantes das classes trabalhadoras. Estas foram algumas das causas da ascensão do fascismo na Itália, do franquismo na Espanha e do nazismo na Alemanha. O populismo de direita não era liberal: pelo contrário, fez crescer o papel do Estado, do planejamento e do protecionismo nacionalista. Mas o populismo de direita, na medida que estava à frente de grandes potências capitalistas, era também expansionista, imperialista, racista, antidemocrático, antissocialista e anticomunista. O resultado disto foi a Segunda Guerra Mundial.

Como dissemos, há muitas diferenças entre aquela época e os tempos atuais. Não se deve concluir daí que os riscos do nazifascismo sejam menores ou inexistentes. Seria mais correto dizer que as grandes crises econômicas e sociais estimulam as tendências fascistas. E que estas tendências se tornam mais fortes, a depender da política adotada pelas forças democráticas e de esquerda.

(...) a combatividade é muito mais eficaz do que a capitulação quando se trata de combater a ascensão da direita. O compromisso de amplos setores da esquerda europeia com as políticas neoliberais, a dificuldade de tratar o tema das migrações, o bom-mocismo frente às forças de direita e extrema-direita, a acomodação crescente a uma democracia cada vez menos democrática, o compromisso com determinadas políticas imperialistas, tudo isto contribuiu para o crescimento da extrema-direita (...)

Só as forças de esquerda, populares e democráticas têm condições de deter a contraofensiva reacionária que empurra o mundo para crises cada vez maiores e nos ameaça com guerras cada vez mais destrutivas.

Mas, para isto, será preciso que a classe trabalhadora e seus representantes políticos percam todas as ilusões em que será possível defender o bem-estar social, defender as liberdades democráticas, defender a soberania nacional e defender uma nova ordem mundial, sem impor uma derrota profunda às forças capitalistas e a seus representantes políticos, sem oferecer uma alternativa nova e radical para o mundo em que vivemos.

Nunca o mundo foi tão capitalista quanto é hoje. E é exatamente por isto que nunca o mundo foi tão desigual, conservador e violento. Devemos tirar todas as consequências desta verdade simples: é preciso colocar a luta pelo socialismo na ordem do dia, como uma alternativa realista aos problemas que estamos vivendo.

É preciso recolocar em debate uma alternativa global ao sistema dominante no mundo. Até para evitar o “mal maior”, até para conseguir as mínimas reformas, é preciso lutar por transformações efetivas no modo de produzir e distribuir as riquezas em nossa sociedade, na maneira como as pessoas se relacionam entre si e com a natureza.

A crise que o capitalismo enfrenta desde 2008 pode ser enfrentada de duas maneiras fundamentalmente diferentes:

a) ou rebaixando ainda mais o nível de vida dos trabalhadores, causando catástrofes sociais e ambientais, jogando para a direita o ambiente ideológico e político, empurrando o mundo para a guerra;

b) ou transformando as riquezas acumuladas nas mãos do capital oligopolista e financeiro em investimento público, em ampliação do bem-estar e recuperação do meio ambiente, desmontando os arsenais militares e "girando" para a esquerda o ambiente ideológico e político.

Não existe caminho do meio num momento de crise como o que vivemos. As políticas de “ganha-ganha” são possíveis quando tanto os de baixo quanto os de cima têm mais paciência que medo, mas principalmente quando há crescimento econômico que torne factível redistribuir a renda futura. Ou seja: quando, apesar da manutenção do status quo ante, há uma expectativa de que no futuro as coisas vão melhorar, que o crescimento será acompanhado por alguma redistribuição. Mas quando não há crescimento econômico, quando há decrescimento, não há expectativa de melhora futura. Neste cenário, a luta é por fatias de um bolo que está diminuindo de tamanho. Então se estabelece uma luta pela expropriação, o medo toma conta e se fecham os “caminhos do meio”.

Tampouco existe reforma pelo alto capaz de resolver a situação que estamos vivendo. As forças que causam a crise e que se beneficiam dela são as mesmas que dominam o poder político, econômico, militar e ideológico nos Estados Unidos. É por isto que as ações práticas do governo dos EUA ampliam a crise, seja quando estimulavam o globalismo, seja agora em que parece predominar o protecionismo. Ambas vertentes inviabilizam as liberdades democráticas: tanto na Europa quanto nos Estados Unidos a democracia liberal abre caminho, tanto na forma quanto no conteúdo, para regimes cada vez mais autoritários. A globalização hegemonizada pelo capital financeiro não é compatível nem mesmo com os níveis de democracia existentes antes da crise dos anos 1970.

Os Estados Unidos, ainda a maior potência do mundo, mas que está vendo sua hegemonia declinar, não têm unidade e/ou capacidade para construir uma alternativa à crise que vivemos. Mas ainda têm os meios para tentar bloquear ou retardar a mudança, ou pelo menos matar e morrer tentando.

Lembremos, mais uma vez, que aquele país só superou a crise dos anos 1930 graças à Segunda Guerra Mundial. E, quando a Segunda Guerra terminou, o complexo industrial-militar continuou apostando em novas guerras e na corrida armamentista. (...)

No ambiente estratégico dos anos 1990, a maioria dos partidos e organizações de esquerda da América Latina e Caribe foi convergindo na prática e, também, no plano das formulações para uma estratégia que consistia – malgrado profundas diferenças históricas, sociais, políticas e ideológicas – em buscar melhorar a vida do povo através de políticas públicas que seriam implementadas a partir de espaços legislativos e executivos conquistados através de processos eleitorais.

Tais políticas públicas foram de diferentes tipos (universais/distributivas e/ou focalizadas/compensatórias) e foram implementadas com diferentes graus de confronto, negociação e aliança com as “elites” locais e com os “imperialismos”.

Em alguns casos, aquelas políticas públicas foram precedidas ou acompanhadas de processos constituintes, que resultaram em reformas importantes e foram acompanhadas de uma retórica radicalizada, embora em nenhum caso tenham implicado em revoluções no sentido clássico deste termo (ou seja, na expropriação econômica e política da classe dominante). Noutros casos, aquelas políticas públicas foram implementadas sem processos constituintes, sem nenhuma tentativa de reforma nas estruturas políticas, sociais e econômicas, no Estado e na relação entre as forças sociais, além de acompanhadas de uma retórica explícita e assumidamente “moderada”.

Apesar destas múltiplas e importantes diferenças, havia um núcleo comum, o que permite dizer que estávamos diante de variantes de uma mesma estratégia. Este núcleo consistia, como já foi dito, na implementação de políticas públicas a partir de posições conquistadas através de processos eleitorais. Neste aspecto, esta estratégia e cada uma de suas variantes eram todas elas profundamente diferentes da estratégia adotada pelos que dirigiram a Revolução Cubana de 1959.

No caso cubano, tivemos a conquista do poder (e não do governo), pela luta armada (não pela via eleitoral), a partir da qual se introduziram não apenas novas políticas públicas, mas também transformações estruturais e revolucionárias no padrão de desenvolvimento vigente até então em Cuba, mudanças que incluíram da reforma agrária à transição socialista.

Entretanto, as grandes revoluções – como a haitiana, a mexicana e a cubana – não são planejadas: elas acontecem devido à condensação de contradições internas a cada país. Evidentemente, o acontecer das revoluções tem relação direta com os estímulos maiores ou menores fornecidos pelo ambiente regional e mundial. Por exemplo, nos dias de hoje, o ambiente de instabilidade internacional é acompanhado pela interdição posta, pelas classes dominantes da região, a qualquer política de reformas. Em qualquer caso, para que as revoluções não apenas ocorram, mas para que também sejam vitoriosas, é necessário que exista na esquerda quem trabalhe por esta vitória.

Apesar da oposição da maior parte da classe dominante e de seus representantes políticos, os governos progressistas e de esquerda de 1998 a 2016 obtiveram êxito – maior ou menor em cada caso – no que diz respeito a melhorar a vida do povo, ampliar as liberdades democráticas, afirmar a soberania nacional e ampliar a integração regional.

Entretanto, a partir de um determinado momento – que variou de país para país, mas que em todos os casos ocorreu depois da crise internacional de 2008 –, os governos progressistas e de esquerda passaram a enfrentar crescentes dificuldades, que resultaram em perda de apoio popular e no crescimento da oposição de direita.

Como no Chile dos anos 1970, predominou na classe dominante dos países latino-americanos e caribenhos a política de enfrentamento contra os governos progressistas e de esquerda. Utilizou-se de tudo um pouco: oposição política e midiática, sabotagem burocrática e econômica, ações diplomáticas abertas ou encobertas, mobilização de massa e ações subversivas clandestinas.

Aliás, a esquerda latino-americana e caribenha que chegou ao governo de 1998 a 2016 tem muito a aprender com a experiência da chamada “via chilena para o socialismo”. Inclusive com o fato de sermos vítimas de uma campanha anticomunista, que atinge inclusive partidos que – ao contrário do que fizeram o presidente Salvador Allende e o governo da Unidade Popular (1970-1973) – nunca vincularam sua ação governamental ao objetivo de chegar ao socialismo.

Frente a uma nova situação estratégica, a esquerda da região está chamada a produzir uma nova estratégia. Ontem como hoje, um dos componentes desta estratégia continuará sendo a integração da América Latina e do Caribe, variável fundamental para o êxito da estratégia democrático-popular e socialista no Brasil e para o êxito da estratégia que a esquerda venha a adotar em cada país da região (...)

 

O texto transcrito acima, elaborado como parte dos trabalhos da comissão de teses do 6º Congresso do PT (2017), conclui reafirmando o que disseram as resoluções do 3º Congresso do Partido dos Trabalhadores (este realizado no ano de 2007) acerca do socialismo. A saber:

 

(...) Os principais traços do socialismo são assim resumidos pelas resoluções do 3º Congresso do Partido dos Trabalhadores:

a) “A mais profunda democratização. Isto significa democracia social; pluralidade ideológica, cultural e religiosa; igualdade de gênero, igualdade racial, liberdade de orientação sexual e identidade de gênero. A igualdade entre homens e mulheres, o fim do racismo e a mais ampla liberdade de expressão sexual serão traços distintivos e estruturantes da nova sociedade. O pluralismo e a auto-organização, mais que permitidos, deverão ser incentivados em todos os níveis da vida social. Devemos ampliar as liberdades democráticas duramente conquistadas pelos trabalhadores na sociedade capitalista. Liberdade de opinião, de manifestação, de organização civil e político-partidária e a criação de novos mecanismos institucionais que combinem democracia representativa e democracia direta. Instrumentos de democracia direta, garantida a participação das massas nos vários níveis de direção do processo político e da gestão econômica, deverão conjugar-se com os instrumentos da democracia representativa e com mecanismos ágeis de consulta popular, libertos da coação do capital e dotados de verdadeira capacidade de expressão dos interesses coletivos;

b) “Um compromisso internacionalista. Somos todos seres humanos, habitantes de um mesmo planeta, casa comum a que temos direito e de que todos devemos cuidar. O capitalismo é um modo de produção que atua em escala internacional e, portanto, o socialismo deve também propor alternativas mundiais de organização social. Apoiamos a autodeterminação dos povos e valorizamos a ação internacionalista no combate a todas as formas de exploração e opressão. O internacionalismo democrático e socialista é nossa inspiração permanente. Os Estados nacionais devem ter sua soberania respeitada e devem cooperar para eliminar a desigualdade econômica e social, bem como todos os motivos que levam à guerra e aos demais conflitos políticos e sociais. Os organismos multilaterais criados após a Segunda Guerra Mundial deverão ser reformados e/ou substituídos, capazes de servir como superestrutura política de um mundo baseado na cooperação, na igualdade, no desenvolvimento e na paz;

c) “O planejamento democrático e ambientalmente orientado. Uma economia colocada a serviço não da concentração de riquezas, mas do atendimento às necessidades presentes e futuras do conjunto da humanidade. Para o que será necessário retirar o planejamento econômico das mãos de quem o faz hoje: da anarquia do mercado capitalista, bem como de uma minoria de tecnocratas estatais e de grandes empresários, a serviço da acumulação do capital e, por isso mesmo, dominados pelo imediatismo, pelo consumismo e pelo sacrifício de nossos recursos sociais e naturais;

d) “A propriedade pública dos grandes meios de produção. As riquezas da humanidade são uma criação coletiva, histórica e social, de toda a humanidade. O socialismo que almejamos só existirá com efetiva democracia econômica. Deverá organizar-se, portanto, a partir da propriedade social dos meios de produção. Propriedade social que não deve ser confundida com propriedade estatal; e que deve assumir as formas (individual, cooperativa, estatal etc.) que a própria sociedade, democraticamente, decidir. Democracia econômica que supere tanto a lógica do mercado capitalista quanto o planejamento autocrático estatal vigente em muitas economias ditas socialistas. Queremos prioridades e metas produtivas que correspondam à vontade social, e não a supostos interesses estratégicos de quem comanda o Estado. Queremos conjugar o incremento da produtividade e a satisfação das necessidades materiais com uma nova organização do trabalho, capaz de superar a alienação característica do capitalismo. Queremos uma democracia que vigore tanto para a gestão de cada unidade produtiva quanto para o sistema no conjunto, por meio de um planejamento estratégico sob o controle social;

e) “o conceito de sustentabilidade socioambiental, redefinindo o socialismo petista como socialismo democrático e sustentável”; “a superação do capitalismo como pressuposto para o combate ao racismo”; e a “defesa da paz” como parte de nosso projeto socialista;

É por isto que lutamos: desenvolvimento, democracia, direitos humanos, bem-estar, soberania, integração, paz, um Brasil, América Latina e Caribe, um mundo sem nenhum tipo de opressão nem exploração, o socialismo.

 

Chama atenção, tanto no texto de 2006 quanto no texto de 2016 a, digamos, desatenção concedida à República Popular da China. Mas a China entrou oficialmente no radar do Partido dos Trabalhadores desde 1984, como pode ser conferido aqui: Ao infinito e além: sobre o PT, o Brasil e a China. Valter Pomar - Cooperação internacional. Um dos textos inseridos nesta coletânea é um artigo que escrevi, no ano de 2021, comentando um texto do professor José Luís Fiori. Transcrevo a seguir alguns trechos:

 

(...) Segundo Fiori, “a elite política e militar americana e europeia segue prisioneira do seu sucesso e de sua vitória na Guerra Fria, e não consegue perceber as diferenças essenciais que distinguem a China da antiga União Soviética”.

Que estas diferenças existem, não há dúvida.

Mas acho que Fiori as descreve de modo inadequado; e, por este motivo, subestima as possibilidades de êxito da estratégia estadunidense.

Segundo Fiori, a China é hoje “um sucesso econômico indispensável para a economia capitalista internacional” e “já foi a economia mais dinâmica do mundo ao longo dos últimos vinte séculos”.

Nesta definição sintética, falta um pequeno detalhe: a “civilização milenar” chinesa quase colapsou entre 1839 e 1949. Foi a revolução dirigida pelos comunistas que salvou a China da destruição causada pelo choque entre o imperialismo capitalista e o feudalismo chinês. E foi a política adotada pelos comunistas desde 1978 que salvou a China do destino sofrido pela URSS em dezembro de 1991.

Podemos discutir em que medida estes dois processos (simbolizados nas datas 1949 e 1978) se vinculam com a “natureza milenar” da sociedade chinesa; mas é simplesmente impossível não enfatizar na equação o papel dos comunistas.

Fiori faz isto?

Vejamos o seguinte trecho: “Além do sucesso econômico, o que realmente distingue a China da antiga URSS, e a situação atual da antiga Guerra Fria, é o fato de a China ser uma ‘civilização milenar’ muito mais do que um Estado nacional. E uma civilização que nasceu e se desenvolveu de forma inteiramente independente da civilização ocidental, com seus próprios valores e objetivos que não foram alterados por seu novo sucesso econômico”.

Os “valores e objetivos” de uma “civilização milenar” são muitos e contraditórios. Mas os valores e objetivos predominantes naquela civilização conduziram a China a ser ultrapassada pelo capitalismo e quase destruída pelo imperialismo. Foi necessário que outros valores e objetivos se tornassem predominantes para que a China mantivesse a unidade nacional e atingisse o atual sucesso econômico. E estes outros valores e objetivos não se desenvolveram de forma “inteiramente independente da civilização ocidental”. Para simplificar, sem Marx e Engels, não haveria Mao e Deng.

Fiori afirma que o que “realmente distingue” a China da antiga URSS é a “civilização milenar”. Certamente esta é uma das distinções. Mas para que esta distinção possa ser citada, foi preciso que ela sobrevivesse. E o que impediu que aquela “civilização milenar” desaparecesse, no período 1839-1949, não foram valores e objetivos “inteiramente independentes” da “civilização ocidental”. O que impediu que a China se fragmentasse foi um longo processo revolucionário em que se combinaram valores e objetivos de vários tipos, alguns dos quais “milenares” e outros desenvolvidos primeiramente no “Ocidente”.

E o que permitiu que a China não sofresse a mesma debacle da URSS não foi a “civilização milenar”, mas a política adotada a partir de 1978, política que não foi inspirada em valores e objetivos “inteiramente independentes” da “civilização ocidental”; novamente, houve um combinado em que valores e objetivos “milenares” e “ocidentais” jogaram grande papel.

Por qual motivo é relevante levar isto em conta?

Entre outros motivos porque, hoje como no passado, não será a “civilização milenar” que vai garantir a vitória da China no atual embate com os Estados Unidos. Claro que os últimos 100 ou 70 anos da história chinesa não se explicam sem o passado milenar; mas o passado milenar pré-1921 não foi suficiente para superar a situação semifeudal e semicolonial, não bastou para derrotar o capitalismo e o imperialismo, não bastará para derrotar a atual ofensiva dos Estados Unidos, nem muito menos para enfrentar as contradições derivadas do próprio sucesso chinês.

Pois cabe lembrar que a China – com todo seu “sucesso econômico indispensável para a economia capitalista internacional” – é uma nação... socialista. Motivo pelo qual existe uma contradição entre a dinâmica interna da sociedade chinesa e sua projeção externa, entre o sucesso contínuo da China e a economia capitalista internacional.

Fiori afirma que “soa absurdo aos ouvidos chineses quando os governantes ocidentais falam de uma luta que os separa da China, entre a democracia e o autoritarismo, sem que os ocidentais consigam se dar conta de que esta polaridade é inteiramente ocidental. E que, na verdade, trata-se de uma disputa que está sendo travada neste momento dentro das próprias sociedades ocidentais, sobretudo nos Estados Unidos, mas também em alguns países europeus, onde a democracia vem sendo ameaçada pelo avanço de forças autoritárias e fascistas. A civilização chinesa não tem nada a ver com isso, nem pretende se envolver com essa briga interna do Ocidente. Sua história e seus princípios éticos e políticos nasceram e se consolidaram há três mil anos, muito antes das civilizações greco-romana e cristã do Ocidente”.

Na minha opinião, Fiori está completamente equivocado. Para começo de conversa, a luta entre democracia e ditadura não é um fenômeno “ocidental”. Na própria China, esta luta foi um dos componentes das várias guerras civis travadas entre 1911 e 1949. Em segundo lugar, não é verdade que a “civilização chinesa” não tenha “nada a ver com isso”, nem pretenda “se envolver com essa briga interna do Ocidente”. Alguém acredita mesmo que a luta contra o neofascismo e contra o imperialismo podem ser vistas como uma “briga interna” de terceiros? Fiori confunde a política externa de não intervenção nos assuntos internos de outros países com a bizarra concepção acerca de uma “briga interna do Ocidente”.

Finalmente e mais importante, historicamente falando, Fiori erra quando fala que a história e os princípios éticos e políticos da China moderna “nasceram e se consolidaram há três mil anos, muito antes das civilizações greco-romana e cristã do Ocidente”. Se ele tivesse dito “parte” ou até mesmo “parte importante”, eu poderia concordar. Mas a China moderna é incompreensível sem o Partido Comunista e os “princípios” deste partido não “nasceram e se consolidaram há três mil anos”.

Claro que há uma tradição política e historiográfica que pretende apresentar o PC chinês como uma espécie de mandarinato moderno. Mas mesmo esta tradição não pode omitir que exista algo de moderno, com menos de três mil anos, no comunismo chinês. Tampouco pode omitir que houve uma revolução no meio do caminho.

Se o que Fiori fala fosse verdade, a revolução de 1949 não teria sido necessária. Refiro-me à frase: “Durante suas sucessivas dinastias, o império chinês foi governado por um mandarinato meritocrático que pautou sua conduta pelos princípios da filosofia moral confuciana, laica e extremamente hierárquica e conservadora, que foi adotada como doutrina oficial pelo Império Han (206 a.C.-221 d.C.), e depois se manteve como a bússola ética do povo e da elite governante chinesa até os dias de hoje”.

Dizer que a “bússola ética do povo e da elite governante é a mesma” desde 206 a.C. até os dias de hoje é dizer, por tabela, que os motivos que tornaram necessária a revolução foram todos externos à sociedade chinesa, que não havia uma classe dominante que explorava brutalmente a imensa maioria do povo chinês. Fiori reduz tudo ao “assédio e humilhação por parte das potências ocidentais”, como se não houvesse contradições internas brutais que inclusive ajudam a entender a penetração imperialista.

Óbvio que há elementos de continuidade na história chinesa; mas há também elementos de ruptura. Fiori some com estes últimos e deixa só os primeiros. Por exemplo: depois de dinastias sucessivas, a “China foi derrotada pela Grã-Bretanha e pela França, nas duas Guerras do Ópio, em 1839-1842 e 1856-1860, e foi submetida a um século de assédio e humilhação por parte das potências ocidentais, até os chineses reassumirem seu próprio comando após a sua revolução republicana de 1911, e a vitoriosa revolução comunista de 1949”.

Por qual motivo as dinastias tão supostamente exitosas do passado fracassaram frente às potências ocidentais? E por qual motivo falar que os chineses “reassumiram seu próprio comando” em 1911 e 1949, como se houvesse uma volta dos que nunca foram? E por que apresentar as revoluções de 1911 e 1949 apenas como continuidade? Todas estas perguntas remetem ao seguinte: a “civilização milenar” chinesa era um poço de contradições de classe brutais. Esquecer destas contradições e apresentar o PC chinês como uma continuidade do mandarinato meritocrático imperial é errado historicamente e politicamente desastroso, pois, na prática, contribui para o discurso segundo o qual a “democracia” capitalista ocidental seria expressão da modernidade, enquanto a China seria expressão do passado.

O texto de Fiori conclui com um sumário dos triunfos recentes da China e com a seguinte síntese de sua estratégia: “Assim, apesar de todo o estrondoso sucesso social, econômico e tecnológico, a China não está se propondo ao mundo como um modelo de validade universal, nem está se propondo substituir os Estados Unidos” como centro articulador do “poder global”.

Isto é verdade? Sim.

Mas isto resolve a contradição? Não.

O problema é que Fiori vê a contradição assim: “o que mais aflige os governantes ocidentais é o sucesso de uma civilização diferente da sua e que não mostra o menor interesse em disputar ou substituir a tábua de valores da Cornuália. O que parece que as potências ocidentais não conseguem perceber inteiramente é que está instalada no mundo uma nova espécie de ‘equipotência civilizatória’ que já rompeu com o monopólio ético do Ocidente (....)”.

Que isso faz parte do problema, não tenho dúvida. Mas discordo que isto seja a parte principal do problema. O problema principal é riqueza e poder, não o “conflito de civilizações”. A China está superando os EUA no quesito economia e por isso constitui uma ameaça mais perigosa – para os Estados Unidos – do que a URSS da época da Guerra Fria.

Fiori afirma, com a mesma confiança exibida por muitos soviéticos no passado, que “hoje parece rigorosamente impossível reverter a expansão social, econômica e tecnológica chinesa”. E também afirma, com uma verdadeiramente deliciosa fé no bom senso alheio, que seria uma “temeridade global” tentar bloquear a China “através da guerra convencional”. Mas, com a cautela devida, reconhece que a “onipotência e a insensatez” podem prevalecer e acha que neste caso o “acerto de contas” já “está agendado e tem lugar e hora marcados: será na Ilha de Taiwan”.

Admitamos o argumento: ele basta para demonstrar que não é “rigorosamente impossível” causar imensos problemas para a China, com consequências que só podemos especular. E registre-se que são problemas de natureza “defensiva”, ou seja, um triunfo chinês na luta por Taiwan não “resolve” a contradição entre o socialismo chinês e o mundo capitalista liderado pelos EUA. Aliás, a solução desta contradição não depende dos chineses, motivo pelo qual eles adotam uma estratégia de longo prazo, na expectativa de que fatos novos ocorram noutras regiões do mundo, fatos que enfraqueçam o poder dos EUA. Mas para que estes fatos novos ocorram, é preciso que haja quem se disponha a lutar por eles.

Fiori termina seu texto afirmando não ser “impossível imaginar um futuro em que o hiperpoder econômico e militar dessas grandes civilizações que dominarão o mundo no século XXI impeça uma guerra frontal” e possibilite um longo período de “armistício imperial” em que se “possa testar a proposta chinesa de um mundo em que todos ganhem, como vem defendendo o presidente chinês Xi Jinping” (...) “O problema” é que um “armistício imperial” desse tipo requer que as “sete potências da Cornuália” abram mão de sua “compulsão catequética” e do seu “desejo de converter o resto do mundo aos seus próprios valores civilizatórios”.

Da minha parte, considero que o principal “problema” deste cenário – que de resto eu considero totalmente improvável, para não dizer outra coisa – é que o lugar da América Latina e do Brasil nesta solução será similar ao do cinturão de asteroides na ficção científica The Expanse. Entre outros motivos porque não é possível um mundo capitalista em que “todos ganhem” (...)

 

Os três textos que transcrevi anteriormente, escritos em 2006, em 2016 e em 2021, respectivamente, fazem parte de um esforço feito, nos marcos do Partido dos Trabalhadores, para “interpretar o mundo”. Evidentemente, muito mais importante e muito mais difícil é reunir as forças necessárias para incidir na transformação socialista do mundo. As dificuldades que temos tido, no Brasil, tanto para interpretar quanto para transformar devidamente, produzem diversos efeitos colaterais: a traição, a acomodação, o esquerdismo acadêmico, o pessimismo crônico etc. Um destes efeitos colaterais negativos consiste na “terceirização” das nossas tarefas, ou seja, fazer nosso futuro depender principalmente do que façam ou deixem de fazer nossos “inimigos” e nossos “amigos”.

Dois exemplos desta terceirização foram as expectativas infundadas no governo Biden (criticadas em: Valter Pomar: Mercadante, Zero e o que precisamos enterrar) e a subestimação dos riscos oferecidos pelo governo Trump (criticadas em: Valter Pomar: Texto sobre os Estados Unidos). Outro exemplo de terceirização consiste na crença de que a derrota do imperialismo e do capitalismo decorrerão principalmente das conquistas e realizações da República Popular da China e de seus aliados (como, por exemplo, a Federação Russa).

Não há nada de positivo em confiar nos ianques, nem tampouco em subestimar sua capacidade de nos causar dano. Mas existe algo de positivo em acreditar no “vento que vem do Leste”, a saber, o reconhecimento da fundamental contribuição da periferia na transformação do mundo! Vale lembrar que, antes da Revolução Russa de outubro de 1917, a maioria dos que se consideravam marxistas (noves fora os “revisionistas”) acreditava que as primeiras revoluções socialistas ocorreriam nos países capitalistas mais desenvolvidos, que a transição ao comunismo seria relativamente rápida e profundamente democrática. Esta crença tinha sua lógica: afinal, nos países capitalistas mais desenvolvidos, tratar-se-ia principalmente de colocar sob controle social as forças produtivas previamente desenvolvidas e coletivizadas pelo próprio capitalismo. O desenvolvimento prévio destas forças produtivas, por sua vez, levaria a que a maioria da população fosse composta por trabalhadores assalariados, logo a “ditadura do proletariado” seria para esta maioria uma verdadeira democracia. Além disso, como os países capitalistas mais desenvolvidos eram também imperialistas e militaristas, a transição socialista seria não apenas o caminho para o comunismo, mas também livraria a maior parte do mundo das guerras e da opressão colonial. Em resumo: “tudo de bom”. Uma transição socialista relativamente rápida, democrática e pacífica.

Até pelo menos 1917, a julgar pelo que está disponível em suas Obras Completas, Lênin também acreditava em algo parecido com isto, embora existam vários sinais de que ele percebia que havia um “distúrbio na força”. Exemplo dessa percepção foi sua tese acerca do Império Russo ser “o elo mais fraco da corrente imperialista”. Mas mesmo essa tese vinha então acompanhada da convicção de que a revolução começaria na Rússia, mas, logo em seguida, o proletariado dos países capitalistas mais avançados viria em socorro do proletariado soviético, fazendo as coisas de certa forma voltarem ao seu lugar, ou seja, as batalhas definitivas da luta pelo socialismo continuariam sendo travadas nos países capitalistas mais desenvolvidos.

Como sabemos, o que aconteceu não correspondeu à previsão feita por Lênin em 1917. A “vanguarda” soviética permaneceu isolada por um quartel de século. Enquanto isso, nos países capitalistas mais desenvolvidos, a revolução não ocorreu ou foi derrotada (caso da Alemanha). Mesmo assim, ao menos nas resoluções de vários dos congressos realizados pela Internacional Comunista, o esquema original (que dava destaque para a revolução e transição socialista nos países capitalistas mais desenvolvidos) seguiu presente, embora convivendo com fórmulas que buscavam adaptar o esquema à realidade, por exemplo, a tese segundo a qual a libertação das colônias provocaria uma crise nos países centrais, neles acelerando a revolução; sem falar na defesa da União Soviética como tarefa central. Entretanto, a Internacional Comunista foi dissolvida antes que se constatasse que, mesmo depois do mundo ser sacudido pela crise de 1929 e pela Segunda Guerra Mundial, as revoluções vitoriosas e as tentativas de construção do socialismo seguiriam restritas ao que podemos chamar de periferia do mundo capitalista.

Até hoje, quase 110 anos decorridos desde a Revolução de 1917, não aconteceu revolução socialista vitoriosa em nenhum dos países capitalistas desenvolvidos, em nenhum dos “elos mais fortes” da “corrente imperialista”. Todas as revoluções socialistas vitoriosas e todas as decorrentes tentativas de construção do socialismo aconteceram em países que, originalmente, exibiam menor desenvolvimento capitalista; em conexão com este fato, todas as tentativas de construção do socialismo foram submetidas a pressões imensas por parte do mundo capitalista “desenvolvido”: guerras, bloqueios, sabotagem etc. Aconteceu o mesmo naqueles países que foram trazidos ao “campo socialista” por obra e graça do Exército Vermelho.

Mesmo partindo de uma posição de relativo atraso e mesmo sob intenso cerco, aqueles processos de transição socialista conseguiram inúmeros êxitos. Este êxito pode ser constatado em dois planos combinados, mas distintos: primeiro, comparando as sociedades socialistas com o que existia antes; segundo, comparando as sociedades socialistas com as sociedades capitalistas contemporâneas.

A União Soviética, por exemplo, foi muito superior ao Império Russo. Além disso, conseguiu competir com êxito com o mundo capitalista até pelo menos a década de 1960. A República Popular da China, além de ser muito superior ao Império e à República chinesas, também vem conseguindo competir e inclusive superar em diversas áreas o país líder do mundo capitalista, os Estados Unidos. Tal superioridade é, aliás, um dos motivos que leva alguns marxistas de hoje a acreditar no mesmo que outros acreditaram na época do XX Congresso do PCUS (1956): que a superação do capitalismo em escala mundial se produzirá a partir de algum tipo de “competição” entre o campo de países hegemonizado pelo socialismo e o campo dos países onde vige o capitalismo.

Segundo aquela hipótese, os países capitalistas centrais teriam se convertido de vanguarda do futuro socialista em vanguarda da reação. Caso a história confirme a citada hipótese, não seria a primeira vez em que o atraso relativo contribuiu para saltos de qualidade. Afinal, a fraqueza relativa do feudalismo em certos trechos da Europa Ocidental é um dos muitos motivos que explica o caminho capitalista seguido por aquela região do mundo, especialmente a partir da Revolução Inglesa de 1640. Portanto, se vier a ser confirmada a hipótese acima exposta, haveria certa simetria entre a expansão do capitalismo a partir da então periferia ocidental do mundo; e a expansão do socialismo a partir da periferia oriental do mundo. Entretanto, o ocorrido com o socialismo soviético nos obriga a questionar esta visão acerca do “cerco global da cidade pelo campo”. Lembremos que, depois da década de 1960, a URSS não conseguiu manter a paridade na competição com o mundo capitalista; aliás, entre 1989 e 1991 o socialismo soviético derreteu. Embora as causas fundamentais desse desfecho tenham sido internas, é evidente que a competição com o mundo capitalista, especialmente em termos de produtividade comparada, teve sua importância. Portanto, para manter o socialismo internamente e, também, para contribuir expressivamente na derrota do capitalismo em escala mundial, as sociedades resultantes das revoluções socialistas ocorridas em países periféricos precisariam manter e acumular – em relação ao capitalismo contemporâneo – muito mais força econômica, cultural, política e militar do que a URSS conseguiu manter e acumular nas suas últimas décadas de existência.

Uma vez que partiu de uma situação de atraso relativo, sem dispor das vantagens econômicas que o imperialismo obtinha mundo afora, além de estar esteve sempre sob intensa pressão, o “emparelhamento” da transição socialista soviética com o capitalismo realmente existente exigiu combinar um imenso protagonismo estatal na propriedade, gestão e decisão sobre os processos produtivos, com gastos imensos e socialmente improdutivos nas atividades de Defesa e Segurança, ao mesmo tempo em que tinha de respeitar inúmeras condicionalidades na exploração da força de trabalho. No socialismo, mesmo quando a exploração da força de trabalho era intensa, ela tinha obrigatoriamente que ser acompanhada de fortes políticas sociais e reduzido desemprego. Enquanto isso, os países líderes do capitalismo realmente existente tinham a seu favor um maior desenvolvimento acumulado, maior flexibilidade nas combinações entre Estado e mercado, a possibilidade de lucrar com os investimentos em Defesa e Segurança, grande flexibilidade na exploração da classe trabalhadora, além do uso e abuso da exploração imperialista de outras regiões do mundo. Graças a isso, mesmo quando atravessou, de 1914 a 1945, aquela que foi até hoje sua maior crise sistêmica, o capitalismo conseguiu transformar boa parte do limão em limonada: as guerras que, para os russos e depois soviéticos, foram fundamentalmente destruição, para os Estados Unidos, funcionaram como alavanca, além de facilitar a renovação da base industrial europeia e japonesa.

Reiteramos que estas vantagens relativas do capitalismo na competição econômica com o socialismo não são suficientes para explicar o derretimento soviético de 1989 a 1991. Mas são uma variável fundamental para compreender os motivos que levaram o campo socialista hegemonizado pela URSS a perder a competição com o campo capitalista hegemonizado pelos Estados Unidos.

A natureza decisiva da dimensão econômica, do desenvolvimento das forças produtivas, da capacidade científico-tecnológica, é também demonstrada pela experiência chinesa. A República Popular da China não teve o mesmo desfecho da URSS por diversos motivos; mas seu emparelhamento com os Estados Unidos tem uma causa principal: a política de “reforma e abertura” iniciada em 1978 e mantida até hoje, política que permitiu diferentes combinações entre Estado e mercado e, ademais, dotou a China da capacidade de manter um intercâmbio material vantajoso com outras regiões do mundo.

Como a política de “reforma e abertura” e o resultante “socialismo com características chinesas” envolveram, em maior ou menor medida, a adoção de relações de mercado e de produção de tipo capitalista, há marxistas que não consideram que a atual República Popular da China seja socialista. Para os defensores desta posição, o conflito entre Estados Unidos e China seria exclusivamente de tipo intercapitalista.

Claro que a discussão sobre o “enigma chinês” envolve inúmeras outras dimensões. Mas já que um dos principais argumentos utilizados pelos que negam a natureza socialista da China é a grande presença de relações capitalistas de produção na sociedade daquele país, cabe lembrar – pelo menos a quem se considera marxista – que impugnar o socialismo chinês por conta da presença de relações capitalistas nos obrigaria a impugnar todo e qualquer socialismo, a impugnar a própria noção de transição, a acreditar em uma transição direta do capitalismo ao comunismo, sem mediações. O que pode ser maximalismo, mas marxismo não é.

Entre os que consideram que a China é socialista existem diferentes opiniões acerca de qual socialismo. Seria um “socialismo de mercado”? Um “socialismo de Estado”? Ou seria um “socialismo de características chinesas”, fórmula genial entre outros motivos por permitir todo tipo de interpretação? Qualquer que seja a variante, não resta dúvida – aos que defendem que a China é socialista – que estamos diante de um socialismo diferente do imaginado pelos marxistas do século XIX e início do século XX, diferente entre outros motivos exatamente porque a transição socialista não começou pelos países capitalistas mais desenvolvidos.

Para os defensores da natureza socialista da China, o conflito desta com os Estados Unidos envolveria várias camadas, sendo uma delas o conflito intersistêmico. No debate sobre os desfechos possíveis deste conflito, a “fração do tudo de bom” (aquela que acredita que tudo de positivo vai acontecer e nada de negativo acontecerá) trabalha com a seguinte hipótese: uma “expansão permanente” da China, sem interrupção nem tampouco reversão da transição socialista rumo a uma sociedade “moderadamente próspera”. Aceita esta hipótese, ainda assim, caberia perguntar: isto seria o suficiente ou pelo menos um fator chave para impor uma derrota ao capitalismo em âmbito mundial? O que não funcionou no caso da URSS funcionará no caso da China? Dito de outra forma: agora que tem a China como protagonista, terá êxito a variante global do “cerco da cidade pelo campo”? O socialismo originado na periferia será não apenas capaz de sobreviver, mas também será capaz de derrotar o capitalismo em escala mundial?

O primeiro a dizer a respeito das questões acima é que a expansão da influência chinesa não implica em substituir as relações de produção existentes mundo afora. A sociedade chinesa é socialista, existem diferenças políticas e geopolíticas entre a expansão chinesa e a expansão do capitalismo imperialista, mas a presença de empresas e de investimentos chineses não altera a natureza capitalista de um determinado país ou região do mundo. Dito de outra forma: a ampliação da influência geopolítica e geoeconômica da China não equivale à ampliação de um “campo socialista”.

Alguém poderia argumentar, com razão, que assistimos a um crescimento do prestígio e da influência do modelo chinês de planejamento e gestão estatal. Mas admitir o sucesso do modelo chinês de planejamento e gestão estatal não implica em aderir ao socialismo como alternativa ao capitalismo. Até os capitalistas podem admitir as excelências do planejamento estatal, mas isso não os faz abrir mão de lutar, o tempo todo, por manter e ampliar seu poder, sua propriedade, sua riqueza e sua hegemonia em escala nacional e mundial. Aliás, os capitalistas, seus partidos e seus Estados nunca aceitaram e seguirão não aceitando que se ultrapassem certos limites. E não há nenhum motivo para desacreditar na sua (deles) disposição de, no limite, ir às vias de fato (seja à guerra, seja ao golpe, seja à contrarrevolução).

É possível que este seja um dos motivos pelos quais, diferente do que os soviéticos e os próprios chineses fizeram no passado, a atual República Popular da China seja extremamente prática e proativa na hora de defender seus interesses nacionais, mas dê preferência à retórica na hora de defender os interesses de outros povos submetidos ao ataque militar direto e indireto dos Estados Unidos, como é o caso da Palestina, do Irã, de Cuba e da Venezuela. Aliás, também diferente de outros momentos de sua própria história e de outros momentos da história do movimento comunista, os atuais comunistas chineses não se propõem a ser o “partido guia da revolução mundial”; nem mesmo operam com esta ideia. Ao contrário – provando que a sua majestade, a história, tem uma forte veia irônica – a visão estratégica global defendida atualmente pelo PC da China lembra bastante a que foi aprovada pelo PCUS em seu XX Congresso (1956), com exceção de algo importante: a estratégia soviética tinha um declarado propósito anticapitalista. Já a “grande estratégia” chinesa parece operar com base na lógica de “um mundo, dois sistemas”. O que faz sentido do ponto de vista geopolítico chinês, mas não dá conta das necessidades do movimento socialista de outros países e do mundo como um todo.

O quadro exposto anteriormente não se altera quando incluímos, na equação, além da China, o Vietnã, a Coreia do Norte e Cuba. Mesmo admitindo que as forças políticas hegemônicas nesses países seguem e seguirão tendo como objetivo trilhar uma transição socialista em direção ao comunismo; mesmo supondo, com um total excesso de otimismo, que nenhum dos países anteriormente citados sofrerá processo similar ao ocorrido com o socialismo de tipo soviético entre 1989 e 1991; mesmo que acreditemos que o exemplo desses países possa ser e seguir sendo, no essencial, positivo para os que lutam pelo socialismo mundo afora; mesmo admitindo tudo isso e algo mais, seguem pendentes de resposta um conjunto de questões estratégicas, entre elas: por quais caminhos o socialismo poderá triunfar no conjunto do mundo? Que lugar ocupa, nesses caminhos, a derrota do capitalismo nos Estados Unidos, na Europa Ocidental e no Japão? Como essa derrota poderá se dar? E que lugar ocupam, nesse mapa do caminho, a África, a América Latina e o Brasil?

Obviamente, as questões formuladas anteriormente só poderão ser respondidas, com quase absoluta segurança e certeza, pelas gerações futuras. Hoje, o que podemos apresentar é, no fundamental, uma hipótese de trabalho. Hipótese que deve se basear, principalmente, na evolução do próprio capitalismo; e não principalmente na evolução dos países socialistas. Para justificar isto, lembremos de uma história contada em algum lugar: na guerra, quando os aviões voltavam cheios de furos de balas, os engenheiros tinham duas opções. A primeira era reforçar os locais furados: esta era a opção errada. A segunda era reforçar os locais que não haviam sido furados por balas: esta era a opção correta. Afinal, os aviões que conseguiram regressar tiveram sua fuselagem perfurada em pontos não fatais. Já os aviões que não regressaram provavelmente foram perfurados em outros pontos, que, neste caso, teriam se demonstrado ser os fatais. Mutatis mutandis, as revoluções socialistas ocorridas no século XX não se demonstraram, até agora pelo menos, fatais para o capitalismo. Portanto, a manutenção do capitalismo nos demais países do mundo e seu metabolismo global é que parecem ser as variáveis fundamentais para a resiliência do sistema. Aí está, portanto, a variável fundamental a ser estudada por quem deseje superar o capitalismo do ponto de vista global.

O capitalismo que serviu de base para a hipótese comunista se desenvolveu intensamente na segunda metade do século XIX e viveu uma imensa crise na primeira metade do século XX. O conflito intercapitalista existente de 1914 a 1945 criou um ambiente catastrófico, relacionado ao qual ocorreram as duas grandes revoluções socialistas vitoriosas e inúmeros outros processos de imenso impacto: a formação de um “campo socialista”, a descolonização, o desenvolvimentismo e o chamado “estado de bem-estar social”. Mas estes “furos na fuselagem” não derrubaram o capitalismo: num certo sentido, ocorreu o contrário. Se os processos resultantes da crise do capitalismo, por um lado, o ameaçaram e levaram a sua superação parcial em algumas regiões do planeta, por outro lado, o levaram a produzir respostas que, ao fim e ao cabo, prolongaram sua existência. No plano geopolítico, uma das respostas principais foi subordinar os conflitos intercapitalistas ao objetivo comum de derrotar seu inimigo principal: a URSS enquanto inimiga geopolítica e a classe trabalhadora de todas as partes enquanto inimiga interna. Esta política teve êxito, ao menos no fundamental e até agora, nas pouco mais de quatro décadas que separam a fundação da República Popular da China (1949) e a dissolução da URSS (1991); o que predominou não foi a expansão do socialismo, mas a sua contenção. A última grande revolução do século XX, ocorrida em 1979 no Irã, não foi socialista. Em 1989, começou o desmanche do campo socialista liderado pela União Soviética, abrindo um imenso espaço para a expansão dos negócios capitalistas no Leste Europeu e, a partir de 1991, também no território da extinta União Soviética. No mesmo período, aconteceu a expansão dos negócios capitalistas no território regulado pelo socialismo chinês, assim como nos espaços abertos pela crise dos “projetos” desenvolvimentistas, anticoloniais e social-democratas. Como resultado disso, em 1998 – depois de um século e meio de intensa luta pelo socialismo – o capitalismo se encontrava mais universalizado e mais poderoso do que era em 1848, quando foi lançado o Manifesto Comunista. Paradoxalmente, talvez a maior prova da hegemonia capitalista seja que, ainda hoje, o principal contraponto aos Estados Unidos e seu modelo de capitalismo é exatamente a China, país onde existe grande espaço para relações de produção e de mercado de tipo capitalista. Aliás, o entrelaçamento entre a China e o mundo capitalista é um dos motivos pelos quais constitui um erro dizer que estamos vivendo uma “segunda guerra fria”. A URSS tinha poucos laços econômicos com o mundo capitalista, já a China moderna tem profundos laços. Aliás, alguém já disse que na China o capital não está propriamente em “crise”.

The game is over? Não, pelo contrário. O fato de o mundo ser mais capitalista hoje do que era no passado contribui para ampliar imensamente as contradições do capitalismo. O fato de a classe trabalhadora e de o socialismo serem mais fracos que antes tem levado o capitalismo a desprezar todos os seus “protocolos de segurança”. Como resultado disto, está se criando um ambiente que tende a produzir crises mais generalizadas e que podem ser mais difíceis de conter. Aliás, num certo sentido, os tempos que vivemos recordam aqueles que antecederam a época de crises e guerras intercapitalistas ocorridas de 1914 a 1945. Cabe perguntar: além de tempos de crise e de guerra, serão também tempos de revolução? Revoluções não apenas na periferia, mas também nos países capitalistas centrais? Não apenas revoluções derrotadas, como a alemã de 1919, mas também revoluções vitoriosas, que poderão abrir novos processos de transição socialista em direção ao comunismo?

A primeira e a segunda questões dependem, em primeiro lugar, do próprio capitalismo e dos capitalistas. Isto porque é o agravamento das condições objetivas e o comportamento das classes dominantes que empurram as sociedades para o caminho da revolução. A esse respeito, o que podemos constatar é que vivemos um período de instabilidade e deterioração crescentes, decorrente da luta incessante pela elevação da taxa de lucro, dos conflitos intercapitalistas, do declínio da potência hegemônica, da ascensão de outra potência, da crescente multipolaridadade, da polarização social, política e ideológica, tudo isto combinado à catástrofe climática e à “ameaça existencial” da robótica e da IA contra a classe trabalhadora. Um contexto, portanto, propício a que ocorram grandes conflitos, rupturas e inclusive revoluções.

Apontar esta tendência não garante que ela se materialize. Por exemplo: é verdade que a crise é profunda nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, mas, ao final, pode prevalecer uma “saída pela direita”. Pois a combinação entre fortalecimento de nações periféricas, financeirização e saltos tecnológicos reduziu as possibilidades que as classes dominantes metropolitanas tinham de hegemonizar a classe trabalhadora através de promessas do tipo “trabalhe e prospere”. A decadência do “american way of life” é uma prova disso. Entretanto, se nesse contexto a esquerda errar na mão, poderá terminar predominando, em amplos setores das classes trabalhadoras, uma adesão às posições de extrema-direita. Se isto acontecer, a atual crise sistêmica pode não resultar em reformas estruturais ou em um novo ciclo de revoluções socialistas vitoriosas. Pode resultar, ao contrário, em guerras e contrarrevoluções preventivas que levem à continuidade do capitalismo; ou mesmo em um cenário apocalíptico do tipo “destruição das classes em luta”.

Retomando o que foi dito anteriormente: vivemos em tempos de crises, de guerras, de rupturas e de possíveis revoluções, que podem ocorrer inclusive nos países capitalistas centrais. A vitória destas revoluções, entretanto, não depende principalmente do capitalismo e das classes dominantes; a eventual vitória depende, isto sim, das classes trabalhadoras e das esquerdas. E o que temos visto, nas últimas décadas, é que parte importante da esquerda está com dificuldades imensas de atuar nestes tempos de crise & guerra. Como em outras vezes na história, as condições objetivas são melhores do que as subjetivas. Ou seja, o aumento da produtividade social segue ampliando as possibilidades de uma sociedade que combine trabalho mínimo com abundância máxima. Claro que isso segue sendo mais verdadeiro nas sociedades capitalistas centrais do que nos capitalismos periféricos. Aliás, no século XXI, assim como ocorreu no século XX, a tendência é que as revoluções sigam sendo mais prováveis na periferia do que no centro do capitalismo, não apenas porque os mecanismos de contenção à disposição das classes dominantes são menores na periferia do mundo; mas também porque as classes trabalhadoras e as esquerdas têm mais radicalidade. Entretanto, como demonstram os acontecimentos recentes na Palestina ou na América Latina e Caribe, mesmo na periferia, as dificuldades são imensas e, às vezes, parecem intransponíveis.

Em resumo, o comunismo é necessário, a revolução é uma possibilidade, a transição socialista pode ter êxito, mas a dialética entre fatores objetivos e subjetivos – ou seja, a política com p maiúsculo – pode levar a outros cenários, por exemplo:

*a sobrevivência da humanidade tal como a conhecemos pode ser posta em questão, pela catástrofe climática, pela guerra ou por algum outro desfecho distópico;

*o capitalismo pode achar maneiras de continuar sobrevivendo à suas crises e aos que lutam por sua superação;

*o socialismo pode se estabelecer em algumas regiões do mundo, mas sem conseguir concluir sua transição em direção ao comunismo, devido à existência de um capitalismo poderoso em outras regiões do mundo.

Ao refletir sobre estes cenários, constatamos que o único cenário em que o capitalismo é superado em escala mundial é aquele em que ele é total ou parcialmente derrotado nas metrópoles (Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão). Ou seja, aquele cenário em que o “capitalismo metropolitano” perde as condições de conter, de sabotar, de influenciar e de impor limites e condicionalidades à transição socialista. Portanto, a derrota global do capitalismo segue pressupondo a ocorrência de revoluções socialistas vitoriosas nos países centrais, já que a alternativa – o “cerco global da cidade pelo campo” – só levaria à derrota do capitalismo nas metrópoles se a classe dominante dos Estados Unidos e de seus aliados não tiver a disposição e os meios para realizar um contra-ataque preventivo; e não há nada que indique isso. Não custa lembrar, ademais, que uma guerra global contra os Estados Unidos e seus aliados teria apenas perdedores.

Isto tudo posto, o que deve fazer a esquerda brasileira?

Embora possamos e devamos contribuir no limite das nossas possibilidades, ainda assim é mínima nossa capacidade de influir no que vai ocorrer no Japão, na Europa e nos Estados Unidos. Aliás, tampouco temos incidência relevante sobre o que farão ou deixarão de fazer os russos, os chineses, os vietnamitas e os coreanos. Mas temos como incidir na luta de classes no Brasil e, a partir daí, podemos influenciar a região da América Latina e Caribe e, por este caminho, incidir de maneira mais intensa no restante do mundo, a começar pela África. Assim, quando especulamos sobre nosso lugar no mapa do caminho, terminamos voltando à “estratégia global de cerco da cidade pelo campo”, mas em termos distintos daqueles adotados por quem acredita que a China nos salvará. A respeito da estratégia da esquerda brasileira, reproduzo a seguir trechos de um texto (Valter Pomar: A estratégia do PT) escrito em fevereiro de 2025:

(…) Até hoje, as tentativas feitas pela esquerda ou pelos somente progressistas no sentido de mudar os rumos do Brasil sempre terminaram em derrotas relativas. Nossa independência política frente a Portugal não superou a dependência frente a Inglaterra e, depois, aos Estados Unidos. A escravidão foi “abolida”, mas as marcas da escravidão seguem entre nós. A República nasceu atravessada pelos militares e controlada pelo latifúndio. A industrialização não foi acompanhada de reforma agrária, nem tampouco de um “estado de bem-estar social”. A redemocratização foi contemporânea do neoliberalismo. E os governos de esquerda não implementaram, até agora, reformas estruturais. Até mesmo a industrialização capitalista do Brasil, no passado, foi feita geralmente apesar de e muitas vezes contra setores expressivos da classe dominante. Hoje, quando necessitamos de uma industrialização de novo tipo, não se pode nem se deve esperar nada dos capitalistas: ou o Estado assume o protagonismo, ou seguiremos sendo uma subpotência primário-exportadora.

Noutras palavras: se depender da classe dominante, especialmente de suas frações financeira, do agronegócio, da mineração e das transnacionais, nosso país continuará como sempre foi: dependência profunda, desigualdade abissal, democracia limitada, desenvolvimento parcial. A classe dominante não apenas lucra com o status quo, como sabe que perderia muito caso nosso país superasse a dependência e a desigualdade, caso se tornasse realmente democrático e desenvolvido. Façamos as contas: para mudar o lugar do Brasil no mundo é preciso enfrentar o imperialismo; para enfrentar o imperialismo é preciso contar com o apoio das classes trabalhadoras; para contar com as classes trabalhadoras é preciso distribuir em alguma medida a propriedade, a riqueza e o poder; ao fazer isso, a classe dominante perderia mais do que aceitando a posição subalterna que hoje ocupa no mundo. Por isto, uma transformação estrutural do Brasil depende essencialmente das classes trabalhadoras (...)

As classes trabalhadoras só conseguirão fazer isto caso se tornem classe dominante. Ou seja, se tiverem poder suficiente para mudar as estruturas da sociedade brasileira. Acontece que uma sociedade onde as classes trabalhadoras detenham tal quantidade de poder terá se transformado em uma sociedade socialista. Pois a essência do socialismo é o controle do poder pelos que vivem do seu trabalho. Noutras palavras: um Brasil soberano, democrático, com altos níveis de bem-estar e desenvolvimento será também um país socialista (…)

Como aconteceu no passado, é nos momentos de crise mundial que aumenta a possibilidade de as sociedades fazerem transformações internas e, inclusive, mudar o seu lugar no mundo. A atual crise sistêmica, em particular a disputa entre EUA e China, abre uma “janela” que o Brasil pode e deve aproveitar para mudar sua sociedade e seu lugar no mundo. Esta “janela” não ficará aberta para sempre. Se não aproveitarmos a oportunidade, não importa quem venha no futuro a hegemonizar o mundo, seguiremos dependentes. E nossa dependência seguirá produzindo desigualdade, a desigualdade seguirá constrangendo as liberdades democráticas, o conjunto da obra seguirá limitando nosso desenvolvimento. Por outro lado, caso tenhamos êxito na luta em favor dos objetivos históricos das classes trabalhadoras, caso o Brasil se torne um país socialista, isto dará uma contribuição imensa para a luta mundial pelo socialismo. Como é óbvio, se um país com a potência do Brasil se tornar socialista, isto alterará significativamente a correlação de forças mundial entre socialismo e capitalismo.

Mas, para que isso aconteça, é preciso que a classe trabalhadora brasileira detenha o poder. Alguns setores da esquerda brasileira passaram a acreditar que “poder” é igual a “governo”. Mas a experiência que tivemos desde 1980, especialmente a partir de 2003, particularmente em 2016, mas também analisando nossa situação em 2025, demonstra, a quem tiver dúvida, que governos têm poder, mas não concentram todo o poder. Em 2016, depois de termos vencido quatro eleições presidenciais, fomos derrubados por um golpe parlamentar, midiático e judicial. Em 2025, apesar de termos a Presidência da República, a famosa “correlação de forças” nos impõe imensos limites, que alguns enxergam como intransponíveis.

Acontece que o poder, assim como o capital, não é uma “coisa”, mas sim uma relação social. Portanto, para que as classes trabalhadoras detenham o poder, é preciso que a classe capitalista deixe de ser dominante, ou seja, deixe de ter a maior parte do poder de que dispõe hoje. Este poder da classe dominante advém, em primeiro lugar, do controle dos meios de produção. Enquanto a classe dos capitalistas controlar a maior parte das empresas e dos recursos financeiros, ela terá os meios para decidir ou pelo menos influenciar fortemente os rumos da sociedade brasileira.

O poder dos capitalistas advém, em segundo lugar, do controle das instituições de Estado. Embora sejam minoria numérica na população brasileira, os capitalistas controlam, direta ou indiretamente, a maior parte do Congresso Nacional, dos governos estaduais e dos governos municipais. Além disso, os capitalistas têm enorme presença no atual governo federal e no Banco Central. As forças armadas, as polícias e o sistema judiciário são ideologicamente alinhados com os valores capitalistas, sem falar dos vínculos políticos e inclusive familiares que existem entre os juízes, o oficialato e o empresariado.

O poder dos capitalistas advém, em terceiro lugar, do controle de uma rede de instituições privadas que estão, direta ou indiretamente, comprometidas com a manutenção da ordem baseada na exploração do trabalho pelo capital. Entre estas instituições, destaca-se grande parte dos meios de comunicação, cultura, esportes, educação e igrejas. O crime organizado, inclusive na sua versão miliciana, também faz parte desta rede de instituições privadas comprometidas com a exploração do trabalho pelo capital.

O poder dos capitalistas advém, em quarto lugar, do apoio internacional, particularmente decisivo quando há governos de esquerda, que precisam ser sabotados e/ou derrubados pela ingerência externa.

Finalmente, há a força da inércia, do “sempre foi assim e sempre será”. Para que as classes trabalhadoras venham algum dia a deter o poder, faz-se necessário enfraquecer ao extremo o poder dos capitalistas e, de forma mais ou menos simétrica, fortalecer no limite o poder das classes trabalhadoras.

É preciso, em primeiro lugar, ampliar a propriedade coletiva, estatal, pública dos meios de produção. Fazer a reforma agrária e urbana. Impor limites ao poder dos capitalistas sobre suas empresas e, também, sobre seus recursos financeiros. O sistema financeiro, em particular, precisa estar sob controle do Estado, não de um oligopólio privado. Só desta forma poderemos industrializar o país, uma industrialização de novo tipo, que nos converta em uma das grandes "oficinas e laboratórios" do mundo.

É preciso, em segundo lugar, ampliar a presença da classe trabalhadora nas instituições de Estado. Mas esta ampliação esbarra nos mecanismos de eleição e de "seleção" vigentes hoje e desde há muito tempo. Por isso, com base nas regras atuais, não há como ampliar suficientemente nossa presença na chamada institucionalidade; para isso é preciso construir uma nova institucionalidade, um Estado de novo tipo. Não apenas uma reforma eleitoral ou política, mas uma profunda reforma do Estado. Sem isso, as classes trabalhadoras nunca terão o controle dos parlamentos, dos executivos, do judiciário, das forças armadas e das polícias, muito menos de "agências" como o Banco Central.

É preciso, em terceiro lugar, construir uma rede de instituições privadas comprometidas com o trabalho na sua luta contra o capital: meios de comunicação, cultura, esportes e educação a serviço da humanidade, não a serviço dos capitalistas. Mas, acima de tudo, é preciso fortalecer as organizações típicas das próprias classes trabalhadoras: os sindicatos, os movimentos, os partidos de esquerda. Sem auto-organização das classes trabalhadoras, não se conquistará o espaço possível de conquistar na atual institucionalidade, nem se criará uma nova institucionalidade, nem se manterá sob controle a nova institucionalidade que vier a ser criada.

É preciso, em quarto lugar, construir uma rede de apoio internacional, particularmente na América Latina e Caribe. Quanto mais ocupado estiver o imperialismo, mais difícil será para ele concentrar toda a sua energia contra uma determinada sociedade. (...) Finalmente, é preciso contrapor, à inércia do “sempre foi assim e sempre será”, uma cultura de massas estruturada em torno da ideia de que outro mundo é possível, urgente e necessário: um mundo socialista. Não haverá socialismo, nem transformação estrutural, sem que haja um élan revolucionário pelo menos em uma parte importante da classe trabalhadora. Isso implica em difundir valores democráticos, populares, ambientais, nacionais, integracionistas, internacionalistas, feministas, laicos, contrários a todo tipo de racismo, intolerância e preconceito. Criar uma cultura cívica socialista de massas é condição necessária para combater a ideologia fascista e as teologias neoliberais (...)

A vitória do socialismo depende da luta prática, da mobilização de dezenas de milhões de pessoas. Embora muitas vezes não pareça ser assim, uma das principais características do ser humano é pensar antes de agir, ou seja, prefigurar na sua mente os atos que vai realizar. Isto que vale para um ser humano individual também vale para as organizações e para as grandes massas, ainda que nestes casos o processo seja mais complexo e envolva outras variáveis. Em qualquer caso, quanto mais precisa for a definição dos objetivos que se pretende alcançar, quanto mais exata for a compreensão adequada da realidade sobre a que se vai agir, assim como o conhecimento acerca da história nacional e mundial da luta pelo socialismo, maiores as chances de êxito (...)

A extrema-direita surge nos momentos de profunda crise do capitalismo, quando parte das classes trabalhadoras estão despertando para a necessidade de “virar o mundo de ponta-cabeça”. Nesse ambiente, a extrema-direita busca se apropriar da insatisfação que os trabalhadores têm contra o “sistema” e tenta converter esta insatisfação em raiva contra outros trabalhadores (as vítimas geralmente são os migrantes, os negros e negras, as mulheres, os lgbt’s, os trabalhadores de esquerda).

Vale dizer que esta operação da direita está na origem da confusa discussão acerca do chamado identitarismo. A direita joga uns setores contra outros, estigmatizando as principais vítimas. Uma parte da esquerda reage a isto, fazendo uma defesa intransigente, a ultranza, dos direitos dos setores estigmatizados pela direita. Outra parte da esquerda reage, fazendo uma defesa abstrata, genérica da "classe", tal qual seria se fosse homogênea, mesmo sob pena de largar a mão de muitas vítimas. O desafio, por óbvio, está em defender os trabalhadores realmente existentes: as classes trabalhadoras no Brasil são predominantemente femininas e negras, além de profundamente diversas sob inúmeras outras facetas; como diria o alemão, são concretas enquanto síntese de múltiplas determinações.

Se a esquerda não disputar a insatisfação e a raiva que nossas classes trabalhadoras têm do "sistema", se a esquerda não for a campeã da luta contra o status quo, se a esquerda abrir mão de defender a revolução, a ruptura, as reformas estruturais, abriremos caminho para o crescimento da extrema-direita. E não se trata, apenas, de uma questão circunscrita à batalha cultural, ideológica, de visões de mundo. Trata-se de algo com efeitos políticos imediatos (...)

 

Encerro aqui a transcrição do texto já citado. Como já está dito em outras palavras, os objetivos estratégicos da extrema-direita e de boa parte da direita tradicional brasileiras são funcionais ao imperialismo estadunidense, à medida que perpetuam nossa condição primário-exportadora e submetida ao capital financeiro. Noutros termos, a classe dominante brasileira e o imperialismo seguirão atuando por manter o status quo no Brasil. Por outro lado, o momento mais propício para fazer mudanças estruturais no Brasil é exatamente o atual, uma vez que a principal nação imperialista está às voltas com tentar reverter seu declínio. Se e quando esta “janela de oportunidade” fechar, as chances de uma mudança estrutural no Brasil se reduzirão brutalmente por um tempo mais ou menos longo. Aliás, a depender das condições em que a “janela” se feche, nossas condições podem se tornar relativamente piores do que as atuais; por exemplo, se uma derrota mundo afora obrigar os Estados Unidos a concentrar no continente toda a força hoje espalhada pelo mundo.

Um dos grandes desafios da classe trabalhadora brasileira é aproveitar a atual “janela” histórica, reunindo a vontade e as forças necessárias para começar a solucionar nossas contradições estruturais através de medidas como a adoção de uma política de desenvolvimento acelerado, com industrialização e alta tecnologia; a proteção efetiva da nossa soberania política e material; a democratização profunda do conjunto dos ambientes e instituições políticas; e a ampliação em escala geométrica do bem estar da maioria da população. De conjunto, estas medidas podem fazer o Brasil se tornar um dos polos do mundo, dando uma enorme contribuição não apenas para a maioria das gerações presentes e futuras do povo brasileiro, mas também para a transição socialista em escala global. Pois todas aquelas medidas, juntas e misturadas com altas doses de radicalidade, implicarão em ter a classe trabalhadora no poder e implementando um programa de transformação socialista. Neste caso, ainda estaríamos nos marcos de uma estratégia de “cerco da cidade pelo campo”. Mas esta estratégia ganha outro impacto e outra natureza, se ela for implementada a partir de um conjunto de imensos países espalhados pelos continentes asiático, americano e africano. Neste caso, continuaria sendo necessário que o socialismo venha a triunfar nos EUA, Europa e Japão; mas aumentariam as chances desse triunfo acontecer, uma vez que a ampliação do território sob controle da esquerda reduziria a margem de manobra do imperialismo.

Qual o horizonte temporal dessa hipótese que descrevemos anteriormente? Evidentemente, não sabemos. Uma pessoa que tenha nascido em 1900 tinha 17 anos quando aconteceu a Revolução Russa, 49 anos quando triunfou a Revolução Chinesa e 91 anos quando a URSS acabou. Provavelmente, terá morrido pensando que the game is over.

Já uma mulher que nasceu em 1980 tinha 11 anos quando a URSS acabou, 28 anos quando da grande crise capitalista de 2008, aos 45, está assistindo a ultrapassagem dos EUA pela China, sendo possível que antes de completar 100 anos assista ao desenlace (positivo ou negativo) da atual disputa hegemônica.

Vale o mesmo ou ainda mais para quem tiver nascido em 2000 e depois. É possível que as diferentes gerações que hoje convivem no mundo assistam e sejam protagonistas das próximas batalhas entre o capitalismo e o projeto comunista. Este projeto tem fundamentos objetivos: o desenvolvimento do capitalismo nos séculos XIX, XX e XXI confirmou e segue confirmando que o comunismo é uma possibilidade e uma necessidade.

Uma possibilidade porque o desenvolvimento das forças produtivas torna a cada dia mais realista aquele cenário no qual a população da Terra possa colocar a imensa produtividade acumulada a serviço da qualidade da vida e não a serviço do lucro. No qual possamos construir uma sociedade onde se trabalhará o mínimo necessário e, ao mesmo tempo, receberemos o máximo necessário a uma vida de alta qualidade, ambiental e socialmente planejada, com base em parâmetros que serão definidos tendo como régua os desejos e as aspirações de seres humanos que terão podido nascer em condições objetivas e subjetivas de outro tipo. Condições que permitirão superar a influência tóxica não apenas do capitalismo e do acicate do lucro, mas também de todas as formas de exploração, opressão e dominação, da desigualdade, do racismo, do patriarcado e da intolerância. Falo mais a respeito no seguinte texto: Socialismo por Valter Pomar | Página 13

Como prova dessa possibilidade, basta pensar nos efeitos resultantes que resultariam do uso, em benefício coletivo, da imensa quantidade de riqueza atualmente destinada à indústria bélica, à especulação e aos gastos improdutivos dos 1% mais ricos. Sem falar das potencialidades resultantes do uso planejado da capacidade produtiva da humanidade.

Além de uma possibilidade realista, o comunismo é também uma urgente necessidade. Afinal, o desenvolvimento das forças produtivas sob o capitalismo vem gerando efeitos cada vez mais destrutivos contra a humanidade e contra a natureza, gerando uma barbárie crônica e volta e meia levando nossa espécie a escorregar na borda do precipício, ao mesmo tempo em que um personagem de extrema-direita como Elon Musk reconhece cinicamente as possibilidades disruptivas decorrentes do aumento da produtividade humana (ver: Elon Musk believes work will be "optional" by 2045).

Entretanto, embora seja uma possibilidade e uma necessidade, até hoje, foram poucas as tentativas de caminhar através do socialismo em direção ao comunismo. Ademais, a maioria dessas tentativas foi derrotada. As que não foram derrotadas estão nesse momento muito longe da meta, ao menos no sentido cunhado por Marx e Engels no século XIX: uma sociedade com alto nível de desenvolvimento das forças produtivas, baseada na propriedade comum dos meios de produção, onde não existam classes nem Estado, nenhuma das formas hoje conhecidas de opressão e dominação. Há quem ache que os objetivos firmados pelos dois alemães seriam utópicos, no sentido de irrealizáveis. Mais uma vez, só as gerações futuras poderão dar uma resposta definitiva a esta alegação. Por enquanto, o que podemos dizer com certeza é que a luta por aqueles objetivos – o socialismo e o comunismo – é essencial para garantir nossa vitória inclusive nas batalhas imediatas por soberania, democracia, bem-estar e desenvolvimento. Lembrando ademais que, a julgar por toda a história humana, o capitalismo não é eterno. Mas, apesar de não ser eterno, ou a humanidade acaba com o capitalismo ou o capitalismo seguirá acabando com a humanidade (vide a catástrofe climática, a fome, as guerras, a pandemia de sofrimento mental, assim como o uso capitalista da robótica e da chamada Inteligência Artificial). Além disso, o combate às ameaças conectadas da catástrofe climática, da guerra e da extrema-direita estão diretamente vinculadas ao socialismo: não haverá futuro, paz e liberdades democráticas reais sem enfrentamento ao capitalismo & sem socialismo.

Em resumo: a situação objetiva do mundo, a profundidade da crise, os riscos decorrentes do crescimento da extrema-direita e das tentativas que os Estados Unidos e o imperialismo fazem para manter sua influência, tudo isso junto e misturado fazem com que a luta imediata pelo socialismo e a meta futura de construir uma sociedade comunista sejam temas inescapáveis do nosso presente. O companheiro David Capistrano Filho, no seu último discurso público, feito em 2000, disse que, nas questões de saúde, não cabe pensar em longo prazo, é preciso ter pressa, pois, do contrário, as pessoas morrem. Pois bem: podemos dizer que a saúde do mundo e da humanidade também exigem pressa. Mas, para que mais pessoas se mobilizem nesse sentido, talvez ajude inverter o famoso raciocínio do grande comunista Antonio Gramsci acerca do otimismo da vontade e do pessimismo da razão. Hoje, grande parte da esquerda está tomada pelo pessimismo da vontade, descrente das nossas possibilidades coletivas. Para mudar esta atitude, devemos mobilizar a nosso favor o otimismo da razão. E, para dar conta desta tarefa, ainda não foi criada ferramenta teórica mais poderosa do que a tradição inaugurada por Marx e Engels. No Brasil, a tradição marxista segue precisando dar conta de três grandes questões: o balanço das tentativas de construção do socialismo no século XX, as perspectivas do capitalismo no século XXI e a estratégia da classe trabalhadora para conquistar o poder. Nenhuma destas questões será enfrentada a contento se as pessoas que se consideram marxistas não estiverem organizados junto à classe trabalhadora e a seus partidos. Afinal, a questão proposta pela mesa-redonda – “há uma alternativa socialista?”- só pode ser respondida pela luta de classes. Venceremos, se soubermos lutar!

Nenhum comentário:

Postar um comentário