O professor Luis Felipe Miguel acaba de publicar um texto acerca da Venezuela.
O texto está disponível aqui: Entre a análise e a militância - by Luis Felipe Miguel
Segundo Luis Felipe Miguel (daqui por diante, LFM), “a situação da Venezuela é nebulosa, mas não é a crença em clichês militantes que ajuda a desvendá-la”.
Isto é verdade?
Em parte é verdade: afinal, como dizia Mao, devemos combater os “clichês”.
Parte não é verdade: afinal, é errado dizer que a situação da Venezuela seja “nebulosa”.
Convenhamos: aconteceu um ataque militar, sequestraram o presidente Nicolás Maduro e a deputada Cilia Flores, os Estados Unidos chantageiam publicamente o governo venezuelano.
Que existe de “nebuloso” nisso tudo?
Estamos ou não estamos diante do imperialismo clássico?!
Ah, mas tem pontas soltas!
Ah, mas talvez tenha havido uma conspiração!
Pontas soltas, sempre existem.
Mas quem acha que existiu uma conspiração precisa provar.
Evidente, quem é "irresponsável" (no sentido de não ter responsabilidades dirigentes) pode se dar ao luxo do devaneio supostamente acadêmico.
Mas quem tem responsabilidades dirigentes precisa lembrar que investir nesse tipo de "conjectura" sem prova tem como efeito prático enfraquecer um dos lados - a Venezuela - ao mesmo tempo que distrai a atenção acerca do que é principal, a saber: enfrentar a ofensiva dos Estados Unidos sobre a América Latina e Caribe.
O texto de LFM é um bom exemplo dessa "operação distração absoluta", uma espécie de lado B da Operação Determinação Absoluta (nome dado pelos gringos ao ataque contra a Venezuela).
LFM começa falando que todos nós, humanos, teríamos dois traços marcantes: “criar narrativas e tomar lado, separando os bons dos maus”.
Isso é verdade? Não sei dizer, até porque sempre desconfio dessas considerações genéricas sobre os "humanos", abstraindo da história, da política, da situação concreta.
Ademais, não concordo que tomar lado conduza necessariamente a “separar os bons dos maus”.
Claro que há quem pense e aja assim. Mas também existe quem não caia nesse tipo de maniqueísmo. E para isso não é necessário ser acadêmico.
Aliás, nas entrelinhas do texto de LFM está uma óbvia, tola e falsa crença de que a militância seria cega às sutilezas do real, acessível apenas a quem tem a academia como "lugar de fala".
Esta superioridade "científica" a priori do saber supostamente acadêmico é real?
Não, não é.
Por exemplo: na guerra da Ucrânia, o melhor para nós da esquerda brasileira é que a OTAN seja derrotada. Isso não transforma Putin num “good fellow”. Mas tampouco é um "devil", visão acerca de Putin que predomina em parte importante da academia.
Outro exemplo: no conflito entre a República Popular da China e os Estados Unidos, o melhor para nós da esquerda brasileira é que os EUA sejam derrotados. Isso não converte a China em "salvadora da humanidade". Mas admitir isso não significa aderir, como faz parte importante da academia, a uma visão hipercrítica acerca da China.
A verdade é que "clichês" estão por todas as partes. E as pesquisas demonstram que as pessoas com maior educação formal não são, nesse momento, aqui no Brasil pelo menos, as que melhor se posicionam do ponto de vista político, nos grandes temas nevrálgicos de nossa época.
Dito de outra forma: há pessoas que, ao invés de atacar a OTAN e os EUA, concentram suas energias em atacar os inimigos dos nossos inimigos. Gastam mais tinta contra a Rússia e contra a China, do que contra os Estados Unidos. E, fazendo assim, as vezes sem perceber o que estão fazendo, as vezes percebendo e sendo premiados por isso, de repente cruzam a linha e se convertem em amigos úteis aos gringos e seus aliados.
Premiados significa, por exemplo, espaço na grande mídia e acesso facilitado a financiamentos para projetos acadêmicos. Para que não reste dúvida, não estou acusando nem insinuando que LFM corresponda a este comportamento fenício.
O que digo é que LFM, em nome de não cair na “tentação de estabelecer um vilão e um mocinho”, adota o procedimento de fazer críticas simétricas às interpretações da direita e da esquerda acerca da Venezuela. Emulando um comportamento comum na época da Guerra do Vietnã: a "teoria dos dois demônios".
Mas de repente, não mais que de repente, a suposta simetria de LFM some, restando apenas a crítica contra a Venezuela, como se pode ler aqui: “Também é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis. Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e militarizaçnão do aparelho estatal”.
Suponhamos que o acima transcrito fosse 100% verdade. Pergunto: os defeitos e problemas citados caíram do céu? Ou têm fortíssima relação com a postura do imperialismo, da classe dominante e da oposição venezuelana? Se têm, por que isto não é citado?
A razão é bem simples: o alvo principal de LFM no texto analisado é criticar os que supostamente exageram ao defender a Venezuela. Portanto, na prática ele pesa a mão contra o lado mais fraco da disputa. Me lembra algumas pessoas que, diante de acusações de assédio na academia, concentram suas energias em desqualificar as denúncias e denunciantes.
Ressalto que LFM tem todo o direito de falar da “gravidade dos problemas da própria Venezuela”, criticar o “autoritarismo” de Maduro e “o caráter duvidoso de sua eleição”. Mas isso não converte o exercício deste direito em algo neutro, sem consequências.
Pergunto: a quem ajudava criticar o governo de Stálin, quando as tropas soviéticas estavam matando nazistas?
A quem ajuda criticar o chavismo, quando os chavistas estão sob ataque extrema do império?
Não admira, portanto, que parte do texto de LFM seja dedicado a criticar Breno Altman.
Cito textualmente: “É constrangedor ver um jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump”.
LFM afirma que, segundo Breno, “pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a ‘desmobilizar a resistência’.”
Supondo que Breno tenha utilizado estes termos, pergunto: a quem interessa lançar suspeitas sobre a lealdade de Delcy aos princípios do chavismo? Quem na prática se beneficia disso? Especular sem provas a respeito ajuda quem?
LFM também diz que Breno “sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a ‘mobilização popular’.” Mas que agora, “quando a reação popular à agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele [Breno} tem pouco a falar”.
Não sei de onde LFM tira que a reação popular "se mostra quase inexistente". Claro que também há desânimo, claro que também há desencanto, entre outros motivos porque os EUA tiveram êxito no ataque e Maduro foi sequestrado.
Mas na condição de quem vem acompanhando há tempos os acontecimentos na Venezuela, simplesmente não vejo base fática para dizer que a “reação popular à agressão... se mostra quase inexistente”.
Nessa e noutras questões, talvez porque os fatos não cooperem como esperado, LFM adota o modo especulativo, típico da grande imprensa. Ele diz, por exemplo, que “regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Chávez, dão conta de ambos os fenômenos”.
É óbvio que entre “antigos apoiadores” existe quem destaque e exagere ao máximo esse tipo de fenômeno. Mas a pergunta é: o que isso teve que ver com o êxito do ataque militar e do sequestro?
A resposta de LFM, textual, é a seguinte: “São suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo”.
Aqui há três afirmações misturadas.
Primeiro: algumas pessoas têm muita informação sobre o ocorrido e é com base nelas que opinam. Nesse caso, não se trata de dogmatismo, mas de pesquisa. A atitude de LFM, ao converter ignorância em argumento, também constitui uma forma de "dogmatismo", muito comum na extrema-direita mas também presente noutros pontos do espectro político.
Segundo: não sei dizer se é verdade a citada ausência de baixas estadunidenses. Não tenho motivo para acreditar no que dizem os EUA. Mas obviamente as baixas do lado venezuelano foram significativas. E a causa disto é um combinado entre poderio militar, eficiência militar, infiltração, traição e falhas pontuais e sistêmicas nas contramedidas.
Terceiro: dentre todas estas causas, ao escolher focar na traição, usando o eufemismo “colaboração interna”, para em seguida falar da posição de Delcy frente ao governo Trump, o que LFM insinua é que a colaboração teria sido do mais alto nível.
Ou seja e noutras palavras, insinua que Maduro teria sido entregue, não sequestrado.
Ao chegarmos neste ponto, por um passe de mágica, via "suposições", o vilão deixa de ser o vilão ou, pelo menos, deixa de ser solitário. E a culpa, ou parte importante dela, passa a ser da vítima. Não consigo deixar de pensar no modus operandi mental de alguns luminares acusados de assédio.
LFM chega a dizer que Trump “aceitou” Delcy Rodríguez “como presidente do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington. Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram”.
Por partes: a tática de Delcy é a mesma tática que Maduro já vinha adotando. A saber: negociar. Pois já era óbvio que, em caso de guerra convencional, os Estados Unidos levariam vantagem, fato confirmado no dia 3 de janeiro. Assim como já se sabia que, em caso de invasão, as chances da Venezuela aumentariam, mas o custo também aumentaria. Assim, Maduro antes e Delcy agora não tinham nem têm outra alternativa senão negociar.
Quem acha que toda negociação é por definição uma traição, buenas, só posso dizer que vive noutro mundo. E quem acredita que depois da negociação virá a paz, também não entendeu nada do que está ocorrendo nesses tempos de crise, guerra e extrema-direita.
A respeito de Delcy, LFM é capcioso ao dizer que Trump “aceitou Rodríguez como presidente do país”, uma “narrativa” que conduz, via insinuações, a tratar Delcy como "colaboradora".
Proponho outra “narrativa”: Trump achava que sequestrando Maduro e chantageando o chavismo, obteria - sem os custos de uma intervenção militar ao estilo Iraque ou Afeganistão - um governo capacho ou a convocação de novas eleições, que poderiam resultar no tal governo capacho. É por isso que nesse momento descartou Corina e cometeu frases ambíguas e fakes sobre Delcy.
Acontece que, ao menos aos preços vigentes dia 9 de janeiro as 8h da manhã, nenhuma das pretensões de Trump se materializou. Motivo pelo qual Trump também disse que pode voltar a atacar. Mas ao mesmo tempo que ameaça, Trump também quer negociar.
A situação, portanto, não tem nada de "nebulosa", embora tenha muita confusão e várias desdobramentos possíveis, como aliás acontece tanto na política quanto na guerra. Tudo isso agravado pelo estilo Trump.
Ao descrever a situação como "nebulosa", LFM prepara o terreno para concluir que nessa história tem vilão dos dois lados.
Exemplo: “é razoável imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro”.
Que os venezuelanos preferem um acordo a uma guerra, repito que não tenho dúvida. Que Trump também queira um acordo, também me parece óbvio. A diferença é que os venezuelanos querem ganhar tempo, enquanto Trump tem pressa e quer arrancar um acordo colocando uma arma na nuca da Venezuela.
Ao omitir este detalhe e agregar que tal acordo incluiria “a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder”, fica confirmado - a meu juízo - que para LFM tem vilão nos dois lados do conflito.
Talvez por isso ele não imagine que o governo venezuelano possa simplesmente querer ganhar tempo.
LMF toma o cuidado de dizer que “é razoável, eu escrevi – não é certo”. E ele acha que devemos “reconhecer a incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes apenas porque aquecem nosso coração. E lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa história”.
Nada mais natural que atribuir aos outros a condição de "mirabolante". Ademais, a atitude de LFM é totalmente compatível com alguém "irresponsável" (ou seja, uma pessoa que não tem a responsabilidade de dirigir partidos, movimentos, governos, nem considera que seja papel de um militante orientar todo um entorno). Mas na prática este tipo de atitude ajuda o verdadeiro "vilão", que pode a qualquer momento atacar de novo, inclusive noutros países, como é o caso de Cuba.
Um ponto final: é bastante curioso que se use, nesses tempos em que os EUA exigem vassalagem, o termo "vilão". Mas deixo esta digressão especulativa para outro momento.
Abaixo, o endereço de alguns textos que escrevi acerca das opiniões de LFM.
Valter Pomar: Luis Felipe Miguel, o Baleia e o "intranscendente"
Valter
Pomar: Luís Felipe e a "boa fé"
Valter
Pomar: Comentário sobre dois textos de Luis Felipe Miguel e Milton Temer
Valter
Pomar: Luís Felipe Miguel, os centímetros e os milímetros.
Valter
Pomar: Luis Felipe Miguel, Aldo Fornazieri e a disputa da Mesa
Valter
Pomar: Marighella seria um "contra-exemplo"?
SEGUE ABAIXO O TEXTO CRITICADO
Entre a análise e a militância
A situação da Venezuela é nebulosa, mas não é a crença em clichês militantes que ajuda a desvendá-la.
Luis Felipe Miguel
jan 08, 2026
Dois traços marcantes de todos nós, humanos, são criar narrativas e tomar lado, separando os bons dos maus. Pode ser que venha de fábrica, como parece que é a tendência de ver rostos humanos em quaisquer objetos remotamente assemelhados. Ou talvez seja efeito de nossa socialização primária – os contos de fada, quem sabe?
Mas o fato é que, diante de uma tevê ligada em uma sala de espera, passando uma partida de futebol entre duas equipes desconhecidas, bastam poucos minutos para que nossa simpatia se incline para um dos lados. E que, com qualquer fragmento de informação, logo acionamos nosso repertório de explicações padronizadas e escolhemos aquela que julgamos mais adequada, para operar com ela ao menos de forma provisória.
Podemos pensar também no Horse Race Test, um “jogo” que fez sucesso no Twitter no ano passado. Avatares toscos de cavalos vagavam aleatoriamente até encontrarem cenouras, o que não impediu de surgirem fãs apaixonados de alguns dos competidores e elaboradas teorias conspiratórias sobre por que o cavalo ciano sempre perdia. O perfil do Horse Race Test tem hoje mais de 160 mil seguidores.
No caso, agora, da Venezuela, temos os dois problemas. Por um lado, há uma série de pontas soltas, de fatos aparentemente pouco compreensíveis e contraditórios entre si. É meio que inevitável que qualquer um que tente compreender a situação embarque em algum tipo de especulação. Mas é importante diferenciar claramente o que é fato razoavelmente confirmado, o que é hipótese a ser validada e o que é especulação, ainda que bem fundada.
Ao mesmo tempo, nossa tendência de tomar lados faz com que seja grande a tentação de estabelecer um vilão e um mocinho. Para que esta narrativa seja coerente, no entanto, é preciso de muita seletividade quanto às informações que serão levadas em conta.
À direita vê Nicolás Maduro como um ditador cuja queda precisa ser comemorada. Donald Trump, naturalmente, ocupa o lugar de herói: é aquele que, motivado por ideais nobres, foi capaz de derrotar o malvado e levá-lo para que receba a justa punição.
Isso só faz sentido se é menosprezada toda a ideia de direito internacional e de soberania das nações – o que é feito, em geral, de forma implícita. É preciso também ignorar deliberadamente que o próprio Trump, em seu discurso autolaudatório depois do sequestro do presidente venezuelano, falou sem parar de petróleo mas se esqueceu de mencionar a democracia.
Políticos bolsonaristas não disfarçaram a esperança de que os Estados Unidos dessem uma forcinha para tirar Lula da presidência, com ou sem eleições no final deste ano. Não vou dizer que tiraram a máscara porque faz tempo que já não usam nenhuma: estão poucos se lixando para a soberania nacional ou para a democracia. Mas relatos com esse teor vieram também de analistas da imprensa, que, ao menos pretensamente, deveriam prezar pela qualidade mínima daquilo que apresentam. Temos desde a sempre folclórica Natália Beauty, afirmando que o destino de Maduro é um alerta para governantes que não apoiam o “empreendedorismo”, até Joel Pinheiro da Fonseca, que gosta de pensar que está em outro patamar, colocando uma ressalva aqui, outra ali, mas, no geral, saudando a promessa de renascimento de uma democracia venezuelana.
São relatos, também, que creditam toda a calamidade humanitária na Venezuela de hoje às taras do próprio regime, ignorando o papel exercido pelo boicote dos Estados Unidos e de seus aliados internos, Mas, à esquerda, se vê o oposto. Não faltam comentaristas que tecem loas ao regime de Maduro que – dizem eles – só não era o paraíso na Terra por causa do imperialismo ianque.
Este tipo de ilusão é mais grave quando ocorre à esquerda, porque a esquerda deveria se basear – como dizia Lênin – na “análise concreta da situação concreta”.
O processo político venezuelano, desde a chegada de Hugo Chávez ao poder, é complexo. Não há dúvida de que houve um esforço de afirmação da soberania nacional que atingiu os interesses estadunidenses e levou a uma reação feroz do imperialismo ianque. Mas não há dúvida também que o propalado socialismo sempre foi muito mais uma figura de retórica do que qualquer outra coisa. Basta assinalar que, ao fim da primeira década do século XXI, isto é, após também dez anos de governo bolivariano, o setor privado ampliara sua participação na economia venezuelana, o capital se apropriava de uma parcela maior da riqueza nacional e a taxa de exploração do trabalho crescera.
Também é verdade que o regime perdeu legitimidade ao longo dos anos, o que tanto estimulou quanto foi resultado de uma escalada autoritária, acentuada fortemente nos anos de Maduro no poder. As suspeitas de que as últimas eleições presidenciais foram fraudadas são, para dizer o mínimo, bastante verossímeis. Desde o começo, porém, iniciativas de participação política popular eram combinadas com forte centralização do poder, personalismo exacerbado e militarização do aparelho estatal.
A Venezuela serviu de espantalho para a direita latinoamericana, sendo usada para desviar a atenção dos graves problemas de outros países do subcontinente, governados pela direita e submissos aos Estados Unidos. Mas isso não nega a gravidade dos problemas da própria Venezuela.
Deve ser possível denunciar a agressão estadunidense, a motivação imperialista que a animou e a ilegalidade do sequestro de Maduro sem negar o autoritarismo de sua presidência e o caráter duvidoso de sua eleição. Assim, aliás, como deve ser possível denunciar a invasão russa à Ucrânia sem fazer de Zelensky um herói ou da OTAN uma empreitada do bem. Ou denunciar o genocídio em Gaza e a inadmissível ocupação colonial israelense sobre o território do povo palestino, do rio ao mar, sem esquecer que o Hamas é um grupo fundamentalista.
Tudo isso é necessário para ver o mundo clareza – e para saber como intervir nele.
O entendimento da natureza do governo de Maduro também é necessário para tentar compreender o desenrolar dos acontecimentos. É constrangedor ver um jornalista como Breno Altman – um sujeito capaz, sem dúvida, mas preso em sua persona de stalinista impenitente e porta-voz brasileiro do regime venezuelano – vituperando contra quem sugere que possa ter havido um acordo entre a presidente interina, Delcy Rodríguez, e Donald Trump.
Segundo ele, pensar nessa hipótese seria como uma traição, destinada a “desmobilizar a resistência”.
Aliás, Altman sempre propagandeou que o grande diferencial da Venezuela era a “mobilização popular”. Até ficou famosa a resposta da ex-presidente Dilma Rousseff, questionada por ele e explicando que quem garantia o regime não era a mobilização popular, mas as forças armadas. E agora, quando a reação popular à agressão imperialista se mostra quase inexistente, revelando o desânimo e o desencanto dos setores que no passado foram base do chavismo, ele tem pouco a falar.
Não pode ser “traição” encarar a realidade. Regimes fechados costumam ter sua cúpula dividida em camarilhas imersas em disputas internas. Processos inicialmente revolucionários em decrepitude fomentam o oportunismo. Muitos relatos sobre a Venezuela, inclusive de antigos apoiadores de Chávez, dão conta de ambos os fenômenos.
São suposições, claro, mas a hipótese de colaboração interna é a que melhor explica a surpreendente ausência de baixas estadunidenses na operação de sequestro de Maduro. Não pode ser descartada por dogmatismo.
O fato é que Trump fez todas as suas bravatas, mas descartou impor um oposicionista como chefe da Venezuela e aceitou Rodríguez como presidente do país. E ela, por sua vez, continua com a retórica de que Maduro deve ser libertado, mas ao mesmo tempo anuncia que deseja uma relação “equilibrada e respeitosa” com Washington. Trump anunciou que 50 milhões de barris de petróleo venezuelano que seriam destinados à China agora serão dos Estados Unidos. Os chineses deram mostras que acreditaram.
Mas, claro, não falta gente que prefere acreditar nas fake news triunfalistas de algum Pepe Le Gambá, falando sobre como os EUA chegaram ao fundo do poço.
Só o desenrolar dos acontecimentos vai trazer luz, mas, no momento, é razoável imaginar que os dois lados veem como possível tentar um acordo – e os termos dele, não é preciso ser muito perspicaz para imaginar, incluiriam a permanência da camarilha dirigente venezuelana no poder, de um lado, e tratamento mais camarada para as petroleiras estadunidenses, do outro.
Em vez de mandar tropas para controlar o país, com resultado provavelmente desastroso, ou tentar empossar uma María Corina da vida, que não controlaria os militares e geraria uma crise permanente, faz sentido que Trump consiga um arranjo com o governo atual. É o caminho mais rápido para a “estabilização”, até porque, sem o apoio dos EUA, a oposição de direita ao regime vai à míngua.
É razoável, eu escrevi – não é certo. Mas se trata realmente disso: reconhecer a incerteza, pensar em cenários prováveis sabendo que não estão definidos, usar a navalha de Ockham, resistir à tentação de acreditar em narrativas mirabolantes apenas porque aquecem nosso coração.
E lembrar sempre que embora claramente exista um vilão, não há mocinho nessa história.