Digitação feita por Alana Gonçalves, a partir de PDF feito por Edma Walker. Sem revisão.
VOZ ATIVA - Estruturação e Atuação no Movimento
Este documento foi feito tendo em vista a discussão em torno da organização do grupo de secundaristas que participou da campanha da chapa Voz Ativa. Pretende responder a duas perguntas básicas: por que organizar e como organizar.
Para responder a essas perguntas o documento não poderá permanecer apenas em torno de nossa experiência como Voz Ativa. Terá de aproveitar os ensinamentos de outros companheiros, da prática de outros companheiros.
O primeiro passo para iniciar a discussão é descobrir de onde a dita surge.
A discussão e o movimento concreto.
A nossa discussão é fruto das necessidades do movimento.
Eis a origem de toda a discussão que vem se travando nas reuniões de Voz Ativa e fora delas: o próprio movimento secundarista. Não haveria discussão sobre organização se não houvesse o “por que organizar”. Nenhuma discussão surge do vazio.
Constatando isto, para onde vamos? O passo seguinte é descobrir quais as necessidades do movimento, necessidades essas que definirão a nossa organização (ou não) e a forma pela qual deveremos (ou não) nos organizar. Para isso, é necessário fazer uma breve análise do movimento secundarista; analisar o trabalho nas entidades de base, o trabalho na Umes SP, as movimentações dos estudantes, etc. A situação do movimento colocará as tarefas a serem cumpridas, as tarefas darão o rumo de nossa discussão.
O mvoimento concreto.
Como andam nossas entidades de base?
Creio ser possível afirmar que as entidades de base estão fracas e não representativas (no geral); que os estudantes não estão obtendo muitos saldos organizativos na sua luta por melhores condições de ensino que são poucas as entidades de base que são reconhecidas pelos estudantes sendo a maioria desconhecidas, ignoradas ou achadas como não suas!
Quais as causas dessa situação?
Por um lado, temos todas as condições objetivas para que haja um descontentamento generalizado com a situação do ensino, com as taxas, etc e esse descontentamento realmente há. Por outro, esse descontentamento não tem se refletido em um saldo organizativo (a tomada das entidades “pelegas” e inoperantes, o respaldo as entidades mais combativas, etc.) ao contrário disso, a grande maioria dos estudantes prossegue alheia a necessidade da organização ou a necessidade de participarem das entidades já existentes e que o permitem. O que falta para que se dê o salto qualitativo de “dificuldade-desorganizada” à “combate-organizado”?
Creio ser possível afirmar que o fator ausente é a “vanguarda”.
O movimento estudantil não vai se transformar em um movimento forte de maneira espontânea; a massa estuandil não vai se incorporar a luta espontaneamente. É necessário o tão conhecido fator subjetivo: a “vanguarda”. Do ponto de vista histórico, essa necessidade é bem comprovada: que seria da Revolução Russa sem o Partido Bolchevique: da Revolução albanesa sem o PTA; da Revolução Cubana sem o PC(c); mais atualmente, da greve dos metalúrgicos sem os seus líderes (tantos que não se pode nomeá-los); mais ligado a nós, da reconstrução da UNE sem os líderes estudantis, e tantos outros exemplos?
Embora no MS seja difícil distinguir exatamente uma vanguarda, sendo mais fácil distinguir uma parcela mais avançada, constatamos que vale o mesmo: sem direção justa, o movimento não vai para a frente.
Pergunto então: onde está a direção justa, onde está a parcela mais avançada, a “vanguarda”, que seja capaz de dirigir realmente e duradouramente o movimento? Não existe.
E a nossa entidade geral?
Com essa situação nas entidades de base, como é que poderia estar a entidade geral? Amorfa, inexistente, um aparelho para aqueles que a encabeçam (e que, provavelmente, vão acabar por dar com a cabeça no muro).
Aonde está a falha? No trabalho (ou na ausência deste) nas entidades de base! Círculo vicioso.
As tarefas.
Aí está um (breve) panorama da situação. Ela nos coloca tarefas bem claras: reforçar o trabalho de base, imprimir uma linha justa a Umes, evitar que os mesmos erros se cometam em outros locais, o que significa estender nossa “área de influência” à outras cidades e estados, criar um grupo capaz de realizar estas tarefas.
Eis aí a questão: para realizar as tarefas que o movimento nos exige temos de criar um grupo capaz de realizá-las. Como tem de ser este grupo é uma decorrência das tarefas que precisam ser cumpridas.
Tem de ser um grupo que possua uma unidade política em torno de pontos mínimos. Tem de ser um grupo com um mínimo de organização, que lhe permita intervir no movimento, estabelecer contatos, organizar debates que fortaleçam politicamente seus membros. Tem de ser um grupo aberto a todos que concordem com seus pontos mínimos, seu programa. Tem de ser um grupo democrático, com debates abertos entre seus membros e (com as devidas restrições) a todos que se disponham a participar. Tem de ter como objetivo a massificação das entidades, a luta pelas aspirações e necessidades dos estudantes, contra o vanguardismo, o aparelhismo, os conchavos!!!
Sem um grupo que atenda à essas colocações, o movimento não avançará. Mas antes mesmo, tem de atender ao requisito maior: o programa realmente virado para o movimento secundarista. Tratarei disto mais adiante. Melhores definições da organização.Levantei já algumas questões referentes aos requisitos que Voz Ativa tem de possuir para realmente ocupar um lugar de direção no movimento sucundarista.
É necessário explicitar mais sobre as formas de organização que Voz Ativa tem de assumir.
O que compreendemos, afinal, por “organização”? Serão ordens, que devem ser acatadas (e metam o rabo entre as pernas!)? Obediência irrestrita? Não. Por uma questão essencialmente política, não se trata disto. Trata-se sim do instrumento pelo qual os que participam de Voz Ativa poderão atuar no movimento secundarista.
Qual a melhor forma que permitirá: atuar no movimento tendo prioridade o trabalho nas entidades de base; atuar na Umes; realizar debates concomitantemente com as outras atividades; ser democrático no funcionamento?
Creio que tal forma atende na totalidade ao que foi levantado na reunião da tese: uma coordenação, composto por aqueles com mais disponibilidade de tempo e maior capacidade de tomar decisões, sendo que todas as regionais de Voz Ativa devam estar representadas nela; as regionais, que coordenem o trabalho à nível loca, atuando nas regionais da Umes e mesmo nas escolas; o jornal, ao qual dedicarei mais tempo adiante, que tem por grande função a divulgação de nossas propostas.
O Programa.
A questão central, que deverá atrair nossa atenção maior, é esta.
Não adianta tratar de mais nada antes de se ter chegado a um campo de unidade em termos políticos. O que devemos ter em vista para o programa de Voz Ativa?
Tem de ser um programa que vise realmente os desejos e aspirações dos estudantes, que crie uma prática e uma política próprias para o movimento.
Tem de ser um programa aberto no que não se refere ao movimento estudantil:
- não pode ter definição político-partidária, sob risco de vermos nosso grupo reduzido.
- não pode querer ser o guru do movimento popular. Somos um grupo que visa defender determinadas posições para o movimento secundarista. Sair dele é, entre outros, quebrar nossa unidade.
Tem de compreender Voz Ativa como uma frente de atuação no movimento secundarista. Sabemos todos que existem entre nós pessoas das mais variadas procedências políticas. Querer que todos os que participam de Voz Ativa tenham uma posição em bloco, fechada, em tudo e sobre tudo, como um partido tem, é retirar muitos dos que participam dela agora e se perder em discussões estéreis para o movimento secundarista.
O jornal.
O jornal “Voz Ativa” produziu em nosso meio uma discussão tão acirrada quanto a sobre tendência. Cabe-nos retomar alguns pontos da discussão para esclarecer melhor a discussão.
Inicialmente, a colocação de que o jornal viria a se tornar divisionista, se tornando o pólo da famosa “puxar para a tendência” e não para a entidade.
Isso é levar ao máximo a profetização. Como, perguntamos, pode-se de antemão definir se o jornal vai ser ou não divisionista?
Em primeiro lugar, por outras experiências, sabemos da importância dos jornais para a divulgação de posições e ideias: a Tribuna, o Hora do Povo, o próprio Movimento, o Em Tempo e tantos outros estão aí, sem que, ao que me consta, dividirem o movimento popular. O Novos Rumos, o Voz Operária, o Classe Operária, o Barricada da FSLN e tantos outros que já se foram ou ainda existem dividiram por acaso o movimento popular? O Iskra, do nosso tão conhecido Lênin dividiu o movimento popular? Os jornais feitos por grupos desvinculados politicamente por acaso dividem o movimento estudantil (só no Equipe cito “Mamulengo”, o “Marreta”, o “Atrasado”)?
Em segundo lugar, o que faz um jornal dividir ou não o movimento estudantil é seus objetivos e suas propostas. Assim, o jornal “Voz Ativa” tem de ter como objetivo apenas a divulgação de nossas ideias a parcela mais avançada de cada escola (*³); tem de ser apresentado como jornal de uma tendência que atua no movimento; tem de ter como objetivo político em suas matérias o reforço da Umes, e não da tendência.
Em seguida, a forma editorial do jornal. Dizem alguns que ele deve ter posições fechadas, para que possa exercer um papel de direção.
Coloco em primeiro lugar que a existência de debate no meio do jornal nada tem a ver com o papel de direção que ele venha a ter. Se por um lado devem haver matérias dedicadas especialmente à nossas posições frente a determinadas questões, deve haver uma seção de debate, aberta a todos que queiram escrever nela. Esse é um dos requisitos do crescimento político: o debate aberto, em que não se possa cortar ideias, posições, pontos de vista.
Coloco em segundo lugar uma crítica severa daqueles que anteriormente já queriam lançar o jornal, sem um debate mais aprofundado sob seu caráter, suas matérias, sob o pretexto de que “devíamos correr para pegar os estudantes ainda nas escolas”. Isso é evitar o debate e evitar o aprofundamento das discussões, um passo para o erro.
Tarefas para o momento.
Assumem importância para o momento, afim de se levar adiante o processo de discussão no seio de Voz Ativa:
1. Ativar a preparação das teses, a fim de que elas estejam prontas para a discussão entre os diversos membros de Voz Ativa, pelo menos um mês antes da plenária de Voz Ativa.
2. Criar um grupo executivo, que encaminhe a impressão das teses, a distribuição delas e a preparação da plenária de Voz Ativa.
3. Encaminhar a preparação de mais um Boletim Voz Ativa, como preparação aos debates. Este boletim tem de ser preparado por um grupo maior, e tem de conter alguns aspectos relevantes para a discussão, aos quais o último boletim esquivou-se; o boletim seria preparado para ser distribuído antes das teses.
Valter/jan81
*³ não porque distribuir à todos seja “divisionista”.
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