quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Hora de arrumar a casa

A pesquisa Datafolha que acaba de sair tem duas interpretações possíveis: a foto e o filme.

A foto: Lula segue liderando no primeiro turno e segue vencendo no segundo turno.

O filme: se nossa campanha não der uma guinada imediata e profunda, a próxima pesquisa pode mostrar uma foto muito desagradável.

A esta altura do campeonato, é perda de tempo e seria até de mal gosto repetir o que já foi dito em inúmeras outras ocasiões, acerca do que devíamos e do que não devíamos ter feito desde o final de 2022 até ontem.

Assim, vamos às sugestões práticas. 

Primeiro: é preciso dizer a real para nossa militância. Ou todo mundo se engaja, em escala 7 x 0, daqui até o dia 25 de outubro, ou esta não será a “eleição de nossas vidas”.

Nesse espírito, convocar para o dia 7 de setembro uma mobilização nacional, com o mote de “ou ficar a pátria livre…”!

Segundo: é preciso concentrar toda a campanha na conquista do eleitorado feminino, negro, jovem e trabalhadores pobres. 

Nesse espírito, nada de sinais dúbios. O governo que vai assumir dia 1 de janeiro de 2027 fará absolutamente tudo o que for necessário fazer, para que o Brasil seja infinitamente melhor para a grande maioria do povo. E as ações nesse sentido devem começar já.

Terceiro: é preciso criar as condições para que a Nação Petista possa fazer a campanha de Lula. Isso significa materiais impressos, adesivos e bandeiras em grande quantidade. E significa, também, coordenação real e direções funcionando.

Nesse espírito, os e as dirigentes partidárias devem dar prioridade total para a campanha presidencial, mesmo que o preço seja deixar de lado suas candidaturas proporcionais.

Quarto: a situação é grave e, provavelmente, vai piorar um pouco antes de melhorar. Mas nada de pânico: se arrumarmos a casa, há tempo suficiente para vencermos a guerra total que a classe dominante e o imperialismo travam contra nós..

Nesse espírito, lembremos do que dizia David: nossa salvação está nas mãos da nossa militância vietnamita, aquela que não espera ordens, nem pergunta o que precisa ser feito: vai lá e faz! 

Texto do V.Ventura

Data a determinar, revisão por fazer. PDF dos originais feitos por Edma Walker. Digitação feita por Alana Gonçalves.


proposta de um governo democrático operário e popular

 

Já há algum tempo de quando foi lançada, a proposta de um “Governo Democrático Operário e Popular” ainda não se encontra nem o suficiente difundida nem o suficiente compreendida, de forma que se torna quase que impossível realizar a sua propaganda entre os setores de vanguarda da classe operária e das massas populares.

A intenção deste texto é ser uma síntese da proposta do “CDOP”, que possa servir de base a discussões mais amplas, bem como participar do debate que já se trava em torno do significado preciso da proposta. Desta forma, não há a preocupação de esgotar o assunto nem em aprofundar uma série de questões aqui tratadas.

1. O que faz necessária uma proposta de governo

A crise que a dominação burguesa atravessa atualmente no Brasil tem dois aspectos: por um lado é uma crise estrutural do capitalismo monopolista dependente, conjugada com a crise por que passa o capitalismo mundialmente. Por outro lado, é uma crise política da forma que assumiu a dominação burguesa no país nestes últimos anos, a forma ditatorial-militar.

Diante desta crise, acentuam-se os conflitos de classe, bem como vão ficando mais claras as propostas de cada setor da sociedade brasileira para sua solução e, principalmente, para a sociedade brasileira como um todo. Está claro, por exemplo, para os setores operários e populares que esta crise só será solucionada em prol de seus interesses se houver uma profunda modificação na estrutura social do país. E que essa modificação envolve uma solução política, em que o poder passe a ser exercido pelas massas populares.

Ademais, os programas de cada classe e setor de classe tendem a se delinear melhor. A classe operária não se furta a possuir um programa. E, dentro desse programa, uma proposta mais geral, estratégica, para a sociedade brasileira, que leve em conta o estágio atual de desenvolvimento desta sociedade, suas relações internas e externas, os conflitos de classe que se fazem presentes, objetivando sua luta por alcançar o socialismo e o comunismo.

Essa proposta estratégica da classe operária é justamente a de transformações radicais na sociedade brasileira, que levem em conta os interesses não só dela como também os da pequena burguesia urbana e do campesinato. Que visem destruir o poder do capital monopolista, da grande burguesia.

Efetuar estas transformações - que a nosso ver se resumem em três grandes eixos: as tarefas anti-monopolistas, anti-imperialistas e anti-latifundiárias - só pode ser tarefa de um governo revolucionário comprometido com tais transformações. Por um governo composta pelas três classes interessadas numa revolução deste tipo. Em outras palavras, por um governo democrático, operário e popular. Democráticoporque realizará tarefas democrático-burguesas; operário, porque conterá elementos socialistas; popular, porque terá necessariamente que contar com a participação ativa das amplas massas da população.

Possuir uma proposta deste tipo é necessário à classe operária na medida em que só desta forma ela pode ter um referencial claro na sua luta contra a ditadura militar ou contra qualquer outra forma que assuma a dominação da grande burguesia no Brasil.

2. O desenvolvimento da dominação burguesa e as diversas classes da sociedade brasileira

Em primeiro lugar, a ascensão da burguesia à situação de classe dominante no Brasil não se deu através de um processo revolucionário. Não tivemos algo semelhante à revolução francesa ou à guerra de independência norte-americana. Ao contrário, “a burguesia brasileira nasce(u) do entesouramento praticado pelos latifundiários e grandes comerciantes (...) sob a proteção do Estado” (1), constitui um setor monopolista acentuando seus traços reacionários e conservadores e alcança a situação de classe dominante por um processo não-revolucionário.

Apesar disso, o processo de desenvolvimento do capitalismo, em especial nestes ano de ditadura-militar, se marcou por um acelerado desenvolvimento das forças produtivas, tanto intensivamente (ou seja, através da penetração de novos equipamentos, da instalação de grandes fábricas, da concentração e mudança de composição do capital) como em extensão (penetração das relações capitalistas nas áreas atrasadas do país, absorção de relações não-capitalistas por aquelas, etc…). Esse desenvolvimento, apesar de não ter se esgotado, criou uma base material já capaz de comportar transformações socialistas, bem como criou a classe capaz de levar adiante tais transformações.

Em terceiro lugar, apesar desse desenvolvimento e penetração do capitalismo, “o Brasil ainda é um país pequeno burguês, mesmo dominado pelo setor monopolista da burguesia” (2). E as camadas pequeno-burguesas (a pequena burguesia urbana e o campesinato) que se veem permanentemente exploradas e ameaçadas de proletarização pelo grande capital, sendo forçadas a lutar contra este, continuam a objetivar uma via diferente para o desenvolvimento capitalista no Brasil, uma via capitalista-democrática.

Uma luta, portanto, que não é socialista, apesar dos mitos que se acumularam na teoria marxista acerca do “socialismo” embutido na luta dos camponeses. No Brasil, a luta dos camponeses e da pequena burguesia urbana só adquire tonssocialistas porque é uma luta capitalista que se volta contra o capitalismo - apenas que é anti-capitalista monopolista e não anticapitalista em geral, já que tem por objetivo garantir o desenvolvimento da pequena e média propriedades capitalistas.

Em quarto lugar, a burguesia brasileira (3) não consegue - como aliás nunca conseguiu em toda sua história - se colocar como classe revolucionária, que luta por uma via democrática de desenvolvimento capitalista para o Brasil, por uma via diversa da reacionária e conservadora hoje predominante. Só há uma classe dominante no país, a burguesia, e todos os seus setores estão igualmente comprometidos com o domínio do capital monopolista, com a via conservadora de desenvolvimento do capitalismo no Brasil (4).

A classe operária, por sua vez, tem no capital monopolista o inimigo de todas as transformações radicais que ela almeja para a sociedade brasileira. E na sua luta pelo socialismo ela tem de ter em vista que será necessário que determinadas tarefas históricas, como a que envolve a questão agrária, tenham sido resolvidas, ou pela via conservadora ou pela via democrática do desenvolvimento do capitalismo. Bem como que será necessária uma base social bastante ampla para a realização da revolução. É em função destes dois elementos que ela se alia a luta da pequena burguesia urbana e do campesinato, tendo por inimigo principal o capital monopolista e sua dominação, visando a derrubada deste domínio, a consecução das tarefas anti-monopolistas, anti-latifundiárias e anti-imperialistas e a instauração de um governo democrático operário e popular.

A classe operária deve buscar dirigir as demais classes revolucionárias por entender ser esta a única garantia da consequência da revolução - entendendo que esta direção tem de ser obtida na luta, não estando concedida “de bandeja” ao proletariado.

3. A etapa da revolução no Brasil

A revolução no Brasil, suas atuais tarefas, são determinadas objetivamente pelo desenvolvimento da sociedade brasileira, pela base material criada pelo capitalismo para sua própria destruição, pelas contradições de classe existentes no seu interior e pelas relações dessa sociedade com as demais.

O Brasil já é um país capitalista desenvolvido, já possui uma sólida base material capitalista. Essa base material se desenvolveu de tal forma que deu origem a um capitalismo monopolista, porém estreitamente dependente e vinculado ao imperialismo. Por outro lado, teve surgimento no interior de um conflito entre as duas vias de desenvolvimento de capitalismo no Brasil, a via reacionária e conservadora e a via democrática (5). A via reacionária, que hoje predomina e que teve sua expressão mais acabada no golpe de 1964 e em seus atos subsequentes, incorporou  os elementos mais atrasados da economia brasileira, ao invés de destruí-los revolucionariamente o que fez com que se mantivesse até hoje a necessidade de se efetivarem determinadas tarefas democrático-burguesas.

Por outro lado, da mesma forma como ainda se fazem necessárias e imprescindíveis as tarefas democrático-burguesas na atual etapa da revolução brasileira, a base material da sociedade brasileira, o acelerado desenvolvimento das forças produtivas nesses últimos anos, a existência de uma classe operária bastante concentrada - todos estes fatorespermitem a classe operária lutar desde já por ir adiante rumo a revolução socialista, buscando estatizar e colocar sob seu controle o grande capital. No entanto, estas tarefas “socialistas” estarão, de certa forma e ao menos de início, em função de uma série de tarefas democrático-burguesas de revolução, o que reduzirá sobremaneira o seu alcance.

De uma forma geral, podemos dizer que a revolução no Brasil já penetrou em sua etapa socialista, porém ainda não possuindo este caráter. Que a revolução no Brasil, nesta etapa, ainda tem tarefas democrático-burguesas que serão, muito provavelmente, o encerramento do ciclo de desenvolvimento capitalista no Brasil e a criação, de forma ineludível, das condições necessárias à efetivação da revolução socialista.

4. O “GDOP” e o socialismo

O Governo Democrático Operário e Popular não será ainda um governo socialista. Suas principais tarefas são democrático-burguesas, e mesmo as tarefas ditas “socialistas” da revolução se colocarão muito em função daquelas. Bem como sua composição de classe é essencialmente democriático-revolucionário.

Estão enganados os que pensam que a presença da classe operária ou sua  “hegemonia” sobre as classes revolucionárias transformará o governo em “socialista”. O que poderá transformar este governo em socialista será  o próprio desenvolvimento objetivo da sociedade brasileira: e quando estiver na ordem do dia a luta direta entre capital e trabalho então estará também colocada na ordem do dia a luta entre as próprias classes que formam a frente democrática operária e popular, o que fatalmente levará a dissolução do GDOP.

Da mesma forma, não se trata ainda de “ditadura do proletariado”. O GDOP, ainda que tenha de ser sustentado por orgãos populares de poder (cuja forma não podemos nem devemos adivinhar hoje), e mesmo que estes orgãos cheguem a ser radicalmente distintos dos orgãos burgueses de poder, mesmo que ultrapassem os mais radicais orgãos que a democracia burguesa conseguiu criar, ainda assim não se terá transformado em ditadura do proletariado. Isto porque suas tarefas o tornam um governo que não luta pelo socialismo, que não luta contra todo o capital, mas apenas contra uma parcela dele e por uma ordem que ainda é burguesa. E essa limitação objetiva lhe tira quaisquer veleidades de “democracia operária”.

5. Governo Democrático Operário e Popular e a tática atual

A luta pelo GDOP (6) é o objetivo estratégico da classe operária na atual etapa da revolução e desta forma não deve substituir as palavras de ordem e os objetivos táticos do momento. Bem ao contrário, deve ser o referencial da classe operária ao elaborar sua tática para o momento atual da luta de classes.

De forma sintética, a tática deve buscar centrar no inimigo principal o que é ditadura militar, expressão do domínio do capital monopolista sobre a classe operária e demais trabalhadores, e, sem recusar as alianças necessárias com as forças burguesas de oposição, ter por objetivo forjar a aliança das forças democráticas operárias e populares, ou seja, o proletariado, o campesinato e a pequena burguesia urbana, visando a derrubada daquela ditadura e também do capital monopolista e sua substituição por uma ordem democrática, operária e popular (7).

Sobre isto, é importante ficar claro que a classe operária não deve colocar em seus objetivos nenhum “governo intermediário” entre a derrubada da ditadura militar e a revolução democrática operária e popular. A priori propor um governo desse tipo é rebaixar os objetivos do proletariado, ainda que ele de fato possa vir a se formar (8).

A proposta do GDOP no momento atual tem que ser propagandeada - ou seja, tem de ser discutida junto aos setores mais avançados da classe operária, junto aos ativistas oriundos da pequena burguesia, junto aos elementos mais conscientes enfim, privilegiando (e isto tem de ser feito de fato) a classe operária, seus setores mais avançados. Não é correto fazer agitação desta proposta enquanto ela não for colocada na ordem do dia pela luta de classes. Não cabe hoje (julho de 83) falar desta proposta em comícios, buscar introduzi-la em plataformas de luta - ou seja, realizar sua agitação. Nem muito menos é uma questão de ação tática imediata.

A transformação do GDOP de palavra-de-ordem de propaganda em palavra-de-ordem de agitação ou mesmo em questão de ação tática imediata dependerá, única e exclusivamente, do processo da luta de classes. À vanguarda caberá estar atenta para o momento correto de efetuar tal modificação.

 

V. Ventura

 

Notas

 

(1) “Observações sobre a ‘Revolução Burguesa’”, de W. Pomar, pp.4
(2) idem, pp. 27
(3) ou seja, “aquele setor social que detêm os meios modernos de produção e que realiza a acumulação do capital por meio da apropriação da mais valia produzida pela classe dos trabalhadores assalariados” - idem, pp.2
(4) o que não quer dizer que todos os seus setores estejam “igualmente comprometidos” com a forma ditatorial-militar que assume atualmente a dominação da burguesia no Brasil.
(5) esta tese se encontra desenvolvida no trabalho de W. Pomar aqui citado.
(6) é bom que fique claro que o centro da questão não está no nome do governo, mas nas tarefas que o movimento revolucionário deve cumprir. Para estudar esta questão, é interessante acompanhar o debate entre W. Pomar e O. Duarte nas revistas de nº 4 e 5 de Teoria e Política.
(7) está claro que a constituição desta frente e a obtenção da direção por parte da classe operária dependerá em grande medida de que o proletariado tenha por centro de sua tática a luta por liberdades políticas, contra a ditadura militar. A frente só se constituirá na própria luta.
(8) no caso de vir a se formar um governo deste tipo, a posição das forças revolucionárias frente a ele, do ponto de vista prático, não pode ser delimitada agora.

Observação: não foi realizada nenhuma correção neste texto. Assim, ele está sujeito a incorreções.

Texto de janeiro de 1982 do Oto

PDF feito pela Edma Walker, digitação pela Alana Gonçalves, revisão por ninguém.


O CR finalmente publicou, praticamente dois meses após a realização de sua “1ª fase”, as deliberações da Conferência Regional.

O atraso é notável, principalmente se levando em conta que foram os vencedores na Conferência. Para mim, isso demonstra o que poderemos esperar em termos de agilidade no cumprimento de coisas tão simples.

Minha opinião é de que enquanto isto não for normalizado; enquanto os canais de debate do partido não estiverem abertos e funcionando de fato, não se poderá falar em disputa política séria, pois qualquer disputa política séria é impossível neste estado de coisas.

Mas enfim, temos as deliberações em nossas mãos. Isso permitirá ao conjuntos dos militantes do partido apreciarem o real significado da conferência, que a simples realização nada diz!

Digo isto porque boa parte da (?) que o “Editorial” (?) do “Traço de União” faz à Conferência se deve a sua pura e simples realização. É bom lembrar que há questão de meses a E-1 do Rio de Janeiro e a E-2 de São Paulo (* manuscrito) realizaram suas “Conferências Regionais”, todas elas dizendo se tratar de um gesto de “defesa do partido e reafirmação do marxismo-leninismo”, etc etc

Não é nem a simples realização de uma conferência nem o que se proclama dela que a caracterizará como vitoriosa ou não em seu intento! Tem-se de analisar o processo de preparação, o conteúdo das deliberações, os debates havidos; senão, todo intento de uma análise rigorosa fica por água abaixo.

Nesse sentido, o “Editorial” do Boletim Informativo da E-1 é de um triunfalismo sublime.

Sua preparação foi feita durante meses”; sim, é verdade. A convocação data de fevereiro de 81; o documento sobre a tática do mesmo período; agora, a “Folha de Discussões” e a “Respostas” só saem em julho! Sua preparação se limita, do ponto de vista regional, a uma Folha de Discussões e a um documento escrito pelo CR (um bloco de documentos)!

O debate havido no conjunto dos setores e áreas foi fraco, já que não contou com as respostas das outras áreas, que em uma organização que se quer “leninista” deveria ser uma constante.

Não houveram documentos? Duvido. Afinal, eu mesmo enviei vários: 1 sobre a crise, 1 sobre a convocação dos demissionários e da ala amazonista para a conferência, 1 sobre a constituinte. Sei de um outro camarada que também enviou documentos.

Não houve dinheiro? O organismo secundarista tinha condições de publicar os documentos no mesmo esquema do BID.

Aliás, se falava mesmo que os documentos estavam sendo distribuídos como xerox. Já na Conferência se diz que não estavam sendo distribuídos. Cadê a seriedade do nosso “leninista” CR?

O CR, desde 1979, ainda segundo o “Editorial”, “vem procurando colocar em atividade as instâncias próprias de realização do centralismo democrático no Partido”.

(* manuscrito) organizações ligadas ao Ja.

De que se está falando? Essa “direção regional” não foi a mesma que cometeu tantos erros, afundando o partido, não abrindo o debate, mantendo as discussões fechadas dentro do CR? Por que agora se fala que ela vinha procurando colocar em funcionamento as “instâncias próprias do centralismo democrático”???

Mas afinal de contas é claro que, como qualquer fórmula (*), o “centralismo democrático” é utilizado ao gosto do freguês. O “Editorial” não cita como exemplos as Reuniões Ampliadas?!

Reuniões Ampliadas com “delegados indicados pelas várias áreas e setores do trabalho partidário”... Isto é gozação. Principalmente nas duas últimas reuniões ampliadas, bem sei como foi o processo. Porque, aliás, o CR não faz logo o bendito relatório de suas atividades, coisa a que é agora obrigado pela Conferência, para que possamos ter toda a extensão dessa aplicação de “centralismo democrático”?!

Depois, a eleição do CR, em que “cerca de 80% dos titulares foram eleitos pela unanimidade dos delegados”. UM CR eleito sem discussão política. Um CR com um enorme número de membros (correspondia a quase 50% da Conferência) e que [complemento manuscrito ilegível] foi ampliado [complemento manuscrito ilegível]. O que se pode ter de um organismo em que a maioria dos novos membros é novato no partido, ainda mais sendo um organismo com encargos de direção regional? UM organismo que agora sim está como uma federação de áreas com um número que o torna amorfo?

O significado da Conferência”

O “Editorial” diz que “a Conferência foi o coroamento de um período extremamente significativo na vida do partido em São Paulo. Ele se iniciou em fim de 1979 (...) Mas nesse período de luta interna contra a ala JA ocorreu um processo de diferenciação entre os integrantes do Partido XX em São Paulo. Um número significativo de membros do CR, vários dirigentes intermediários e alguns militantes da base iniciaram o que ficou conhecido como ‘movimento de saída’, que tomou forma numa reunião do CR em 2 de maio passado. A partir desse momento (os grifos são meus) abriu-se uma nova frente na luta interna (...). A Conferência refletiu o espírito de defesa da concepção marxista-leninista do partido (...) A Conferência foi um fórum vivo de debate e tomada de posição, em que pese algumas dificuldades no processo de preparação. Restaurou a prática avançada do debate e da polêmica que devem alimentar a militância dos comunistas.”

Desse conjunto de opiniões acerca da conferência, pouca coisa se salva como aproveitável. Apenas se pode dizer que a Conferência foi realmente o “coroamento” do processo de luta interna. E isso mostra bem o quanto nos diferenciamos em analisar como se deu este processo de luta interna!

Essa diferenciação apareceu na Conferência, não só na discussão sobre as “deliberações” do CN, mas também na hora de se avaliar a experiência de construção do partido.

(* manuscrito) e como tratamos com mecanicistas, o C-D vira uma fórmula e não uma relação dialética

 

Essas divergências se cristalizaram (*) em torno de duas avaliações: a do camarada Joel (Proposta 7) e a do camarada Antonio (proposta 1 - derrotada).

Lendo a primeira nos vemos que ela se limita a responsabilizar as areas e o CR a tarefa de produzir um “relatorio” ou, no caso do CR, “sistematizar um informe com a avaliação da trajetória da E-1… com base nas discussões da Conferência”.

A segunda fala em avaliação e fala também em “autocrítica de como foi aberto em princípio (?), o rompimento com a ala amazonista, na medida em que as questões de fundo programático e de concepção de partido não foram abordadas concretamente. O CR precisa reconhecer que durante muito tempo buscou resolver os problemas internos de maneiro consensual, deixando de tratar as evidentes divergências internas de maneira franca e sem receios…” e vai por aí a fora.

Os membros remanescentes do CR apresentaram uma proposta a Conferência (proposta 6) em que consideram ter cometido o erro de “não lutarem pela explicitação das divergências no CR e de não levarem a luta ideológica que já se sem estágio inicial, ao conjunto do partido”; que “passam a travar a luta ideológica contra as posições dos principais demissionários… já significou um esforço autocrítico em relação aquele erro anterior.”

Ja o camarada Flavio apresentou uma proposta em que fala que a Conferência “considera que um dos ensinamentos dessa crise mostra a necessidade da explicitação das posições e da luta de ideias ao conjunto do Partido [...] que o debate em curso na nossa estrutura deve ser elevado a um patamar superior, isto é, em torno das teses do VI Congresso”.

Não é difícil de ver que essas deliberações apresentam inúmeros pontos de conflitância ou são até antagônicas (propostas de Joel e Antonio). Até mesmo a proposta dos remanescentes do CR contém elementos de conflito com a proposta de Antonio, porque enquanto esta falava em autocrítica e citava ponto por ponto os erros cometidos, esta faz uma tímida ressalva a um erro já devidamente corrigido ou em processo de “autocrítica”!

Todos concordam que a Conferência foi um “coroamento”: mas de que?

O processo de debates preparatórios a Conferência foi dos piores. Do ponto de vista do conjunto da estrutura regional, o debate se limitou a uma verdadeira coletânea de textos antigos (que, estranhamento, não contava com textos sobre as divergências a respeito da centralização imediata, como os textos do cam. Orlando e do cam. Ruy) e a um texto recente, do cam. Alfredo. O documento Respostas e os doc. do Apendice, mesmo que tenham representado um enorme avanço do ponto de vista da explicitação das posições do CR, não esgotaram a potência que, no entanto do ponto de vista coletivo, se esgotou. E isto mesmo havendo documentos outros tratando da crise e que  foram entregues ao CR! Diante de um fraco processo preparatório, só poderiamos ter um saldo fraco e confuso na Conferência - coisa que provaremos mais adiante tratando das deliberações tomadas por ela.

Como o debate anterior já vinha debilitado, por falha do conjunto do CR, que se obstinava em negar ao partido os canais de debate adequados, então podemos dizer que o processo de preparação a conferência não sofreu “algumas dificuldades”, mas tantas e tão enormes comprometeram-na totalmente.

O tal fórum vivo de debates e tomada de posição, que “restaurou a prática avançada de debate e da polêmica que devem alimentar a militância dos comunistas”, onde esteve? Na conferência?

Por que um grupo de velhas se junta para fofocar e o fazem durante horas isso quer dizer que elas estão instaurando ou restaurando a “prática avançada de debate…”? Não, é claro.

Porque se reuniu a conferência, e dentro dela houve um debate e uma polêmica enormes, isso quer dizer que essa polêmica refletiu de fato um avanço? Ou será que a grande quantidade de pontos tratados ainda estavam confusos para os militantes?

Vejamos só um exemplo. O camarada Lajes apresentou uma proposta que qualificava a saída do liquidacionista. Essa é uma qualificação de peso, que implica numa séria tomada de posição.

Afinal, qualificar como liquidacionista significa dizer que os dimissionários na teoria e na prática, se posicionam contra a existência do partido da classe operária; o que, portanto, significa dizer que já somos esse partido ou viremos a ser, certamente. Isso sem falar em outras implicações.

Aí um camarada operário pergunta a ele se “qualquer pessoa que sai do partido é liquidacionista”. E o camarada Lajes vai ter que lhe explicar o que é “liquidacionismo”.

Bem, é óbvio que com deliberações feitas “nas coxas” e cujo conteúdo é desconhecido da imensa maioria dos militantes, não se pode ter nenhuma “prática avançada”, mas apenas uma palhaçada!

Outro exemplo. A proposta 5, do camarada Marcos, que trata da “condução do debate interno”, fala que “todos os canais partidários estão abertos a todos os militantes, em essencial no processo do Congresso”. Só não fala que canais são esses, que nunca aparecem. A Folha de Discussões? A TD do Congresso? E por que não são publicados? Documentos haviam, já foi dito, então porque não foram publicados?

É óbvio que essa proposta é um contrassenso (que para mim visava tão somente ir contra a divulgação que fazíamos pela estrutura dos documentos do cam. Orlando).

[riscado à caneta] E o adendo que apresentei visava ir contra o conteúdo da proposta, o seu conteúdo real. Apresentei como adendo, no entanto passou?! Uma proposta adendada a outra são totalmente antagônicas. Esta é a polêmica avançada em que um não ouve o que o outro está dizendo? [encerra texto riscado]

Mais exemplos: o camarada Flávio apresentou uma recomendação à conferência sobre política de organização (proposta 8). Essa recomendação sofreu um verdadeiro parto. Primeiro o camarada apresentou-a a seu modo. Surgiram  divergências. Abriu-se um intervalo para, entre outros, a discussão entre os camaradas que apresentavam divergências no conteúdo da proposta!

Verdade seja dita, essa forma é esplêndida para se resolverem divergências: sentam-se todos e conversam, enquanto o resto da conferência espera…

Essa “recomendação”, que não fora discutida nem na menor parte, e que continha imprecisões de monta, passa a votação. Um número significativo de abstenções se verifica na maioria dos itens. O problema é que a proposta, como toda proposta, continha um todo coeso organicamente [*]. No entanto, haviam camaradas que “sacavam” o sentido de uma e votavam; não “sacavam” o sentido de outra e não votavam!! Enfim, um samba de crioulo doido.

E depois a camarada Júlia pediu a palavra. Ela era uma das que se abstenha. Falou que essa proposta não havia sido discutida, e que o “leninismo é um conjunto de princípios gerais, que são aplicados as situações concretas, e é nesta aplicação que se verifica a forma concreta de organização do partido”.  Neste momento o cam. Marcos pergunta acerca do que seria “recomendação”. A camarada Júlia responde que ela é não-obrigatória para o CR, que pode extrapolar ou negar aquilo que está escrito. O camarada Lajes discorda, e passa a dizer que não, “recomendação” ao CR indica a ele as linhas gerais pelas quais deve estabelecer uma política de organização. Passa-se a votação do que seria recomendação, e vence o camarada Lajes!!! Volta-se a votar novamente.

Eis a prática avançada de debate dos comunistas, ou eis as palhaçadas seculares a que somos submetidos quando nos metemos a fazer as coisas sem uma mínima preparação anterior?

Ou ainda a proposta 11, sobre o trabalho secundarista. Eu havia escrito um artigo com as posições que expus na conferência (sendo que o artigo continha propostas gerais, a nível nacional). O artigo não foi publicado. Na conferência de uma forma ou de outra, era necessário que propusesse a formação de organismo secundarista, para legalizar internamente nossa situação. Pois muito bem: a bagunça começou quando, pouco antes do início da reunião, apresentei a alguns camaradas do Universitário e BD dos secundaristas. O cam. Joel praticamente teve um colapso do outro lado da sala, e passou a intervir dizendo que esse BD teria de ser posto em discussão, e não sei mais o que, etc… Pois bem, teria de apresentar a questão do BD também..

Apresentei, e, surpreendentemente, o camarada João se dispôs a defender a minha proposta. Defendeu-a contra os camaradas Mário e Joel, que propunham que o org. sec. fosse integrado ao C. Universitário. O item “a” passou. Eis então que se vota o item “b” e… não passa. A Conf. nega a um organismo o direito de ter um órgão, coisa que, aliás, não podia fazer.

Coloca-se novamente em votação. O cam. João defende mais uma vez (!), acentuando a questão de ser um direito (perguntem sobre suas intenções a ele).

Veta-se e é aceita a proposta.

Me virei para o cam. e lhe falei que “queria ver isto não ser aprovado”. Ele se virou para mim e me perguntou se eu pensava que sairia de lá com essa “bandeira”

A prática avançada do debate entre comunistas imperou mais uma vez…

Agora, o absurdo maior foi a questão do camradaOrlando. Ele não foi convidado, mas pediu, através de uma carta, que a conferência deliberasse sobre os motivos do CR.

A Conferência aprova uma deliberação (proposta 1) dizendo que é necessário estar organizado na estrutura regional para participar da Conferência.

Concordamos. Agora, quem era o responsável por organizar imediatamente o camarada Orlando? O Cr. Não o fez. Porque então, já que “nas condições em que se deu sua preparação, não se definiu uma solução orgânica que garantisse o direito” do camarada Orlando “de ser candidato a delegado da Conferência”, não se convidou o cam. a participar, com direito a voz?

Essa argumentação que coloquei entre aspas foi usada para os membros do CR. Eles não tiveram solução orgânica e tiveram voz. O camarada Orlando não teve solução orgânica e não teve voz. Por que será???

Os camaradas são tão ridículos que se contradizem em questão de três folhas de papel. Deveriam tomar mais cuidado, já que o argumento utilizado para os membros do CR cabe como uma luva para o cam. Orlando.

Sem contar que participaram do encontro observadores “ligados ao trabalho prático do Partido, mas que não estão ainda organizados na sua estrutura regular”. O que é isso?! Não podiam participar só camaradas “organizados”?

O critério foi puramente administrativo, técnico, em um partido político. O CR e o cam. Orlando polarizam a discussão na estrutura. Porque não convidá-lo, e dar-lhe chance de colocar suas posições aos delegados, mesmo que já em minoria, pela não publicação de TODOS os seus textos, mas apenas de uma carta. Talvez os camaradas tivessem se assustado com esta possibilidade.

A prática avançada é tão avançada que EXCLUI os adversários da polêmica…

O camarada Lajes (ah, sempre o camarada Lajes), na 2. sessão, foi quem apresentou a resolução acerca das “considerações” contidas na minha carta.

Talvez eu devesse ter sido mais expresso. A Conferência, a partir do momento que deliberou sobre questões fundamentais não discutidas pelo coletivo, PERDEU SUA LEGITIMIDADE.

Coroou” um mendigo, e não o príncipe, e assim perdeu sua legitimidade. Quanto a militância “individual”, o que é isso? [riscado à caneta] O partido, que eu saiba, é composto por indivíduos, e não por máquinas. A unidade política entre esses indivíduos vai depender de suas divergências anteriores. [encerra texto riscado] Sinceramente, o camarada que explique para mim a sua militância individual, assim como “explicou” para o cam. operário seu “liquidadionismo”.

O partido deve exigir uma nova Conferência, que deve se realizar o mais cedo possível, precedido do necessário debate, até mesmo antes da conferência do Congresso, afim de corrigir esses erros. Se não, vai pelo caminho do cisionismo a nível nacional, já que está endossando um movimento que rompeu com a luta pelo VI Congresso, nos moldes em que ela colocada pela I Conferencia Nacional.

 

A Conferência refletiu o processo de luta interna por que passamos no E-1 de São Paulo. Um processo onde as questões de fundo programático não foram tocadas; um processo onde não houve preocupação, apesar de tanto se falar a respeito, de se abrir os canais de debate ao coletivo partidário; um processo onde o partido “inchou” das pessoas de mais variadas origens, sem um mínimo de critério; enfim, um processo negativo, que em nada contribuiu para a luta pelo VI Congresso.

Nosso problema maior não era a não-intervenção na “luta de classes em curso”. Era a forma como encaravamos essa intervenção. O partido tinha de estar presente em tudo, mesmo que para isso tivesse de passar por vexame do tipo da Enclat, onde camaradas se contradiziam.

Por que desde aquela época não corria pelo partido um Boletim de Debates? Porque quem teve a ideia primeiro foi um organismo de base, provavelmente. Hoje se diz que aquele BID era “anti-leninista” (pobrezinho do boletim, que não sabia o que fazia…). No entanto, o CR solta um Boletim “Informativo” onde podem correr debates internos (isso ao menos segundo o assistente do meu setor, pois de resto, no Boletim mesmo não há nada nesse sentido). O que diferencia isto do BID? O fato de estar sob a direção do CR? Mas não era isso que o BID propunha há muito? O que acontece, então?

Acontece que os companheiros do CR roubaram a ideia da O. B da leste, roubaram a ideia de outros, e não querem dizer isso, pois implicaria em fazer a maldita auto-crítica. Maldita auto-crítica do que querem se safar tentando achar diferenças entre o BID e o BI. Poderão mostrar essas diferenças logo, censurando artigos ou atrasando sua publicação, coisa de que, por essas alturas, não duvido.

[riscado à caneta] Aliás, antes que reclamem do meu estilo “provocativo” e pouco “cavalheiresco”: quero ver se assim, com os companheiros se tornando bem “zangados”, eles respondem, sendo forçados assim a colocar suas ideias no papel. [encerra texto riscado]

E quem foi o responsável por este estado? Os “liquidacionistas”?

Creio que não. Em primeiro lugar, os camaradas remanescentes participavam do CR tão ou, a julgar por eles mesmos, mais que os camaradas “liquidacionistas”. Assim, se haviam tantos erros, a responsabilidade pesa sobre os seus ombros tão ou mais (ainda a julgar por eles…) do que sobre os dos cam. “demissionários”.

Em segundo lugar, se os cam. remanescentes são os guardiões da teoria marxista leninista do partido, deveriam ter se apercebido do mal cedo. Se aperceberam tarde demais, a julgar pelo cam. Flávio, que disse em uma reunião do meu organismo que (falando dos remanescentes) “nós nos espantamos quando eles disseram quem assinava aquele documento de demissão”. Mas não se aperceberam. Das duas a uma, ou eles assimilaram a teoria marxista-leninista acerca do partido agora, ou estavam no mesmo barco dos demissioonários.  (* manuscrito: Menos no trabalho miúdo das fábricas)

Mas o máximo que se admite está na proposta 6, que os remanescentes teriam cometido o erro de “não lutarem pela explicitação das divergências no CR”.

Ora, o único erro então foi não abrir ao partido o debate e não lutar pela explicitação das divergências. O erro político-ideológico maior foi dos “liquidacionistas” que traziam o mal. O erro dos “guardiões” foi ter “dormido no ponto”. Em todo o caso, segundo a proposta, a luta ideológica contra as posições dos principais demissionários em todo o partido já significou um esforço auto-crítico em relação àquele erro anterior.

Esta hipótese parece até plausível a uma primeira vista. Vejamos aogra alguns busilis que fazem disto algo por demais improvável. 

Segundo os camaradas, a luta ideológica contra as posições dos demissionários já representou um esforço autocrítico. Muito bem. O partido inteiro teria de se posicionar “conscientemente” diante do processo de saída. Para isso, o CR cumpriu um papel: colocou no papel parte de suas concepções a respeito do partido revolucionário. E, coisa que sem dúvida parece um avanço, reproduziu os documentos atingidos pelas suas respostas.

Agora, vejamos por um momento aonde é que se centravam as divergências principais. Em primeiro lugar, na questão de por onde é que se vai construir o partido revolucionário do proletariado no Brasil. Em segundo lugar, e aí um pedaço 

particular” dessa primeira questão, o trabalho desenvolvido pela E-1 e pelo CR, em especial, como orgão dirigente. Em terceiro lugar, as questões políticas.

Quanto a primeira questão, apareciam, segundo os companheiros o mesmo como podemos ver isso de forma clara, três posições: a do CR-SP, a do CD-B e a do cam. Orlando.

Do ponto de vista político, as divergências se centravam na questão das eleições e na Constituinte.

Quanto a prática na E-1, apareciam questões tanto na Carta de CD-B quanto na do cam. Orlando.

Entraremos no núcleo das questões acima mais adiante, quando formos tratar do conteúdo das divergências. Por enquanto, só queremos mostrar que o nosso “leninista” CR não foi muito honesto quando tratou de abrir o debate no partido.

Em primeiro lugar, publicou na Folha de Discussões os documentos que, segundo ele, poderiam dar uma ideia da trajetória das divergências no CR-SP. 

O engraçado é que de todos os documentos escritos por membros do CR e no período anterior a crise, só estavam lá os dos demissionários. Contraditoriedade com o camarada João, que disse em uma reunião com meu organismo que a maioria das resoluções eram escritas pelos remanescentes. Em segundo lugar, não aparecem, em nenhum momento, citações ou os textos dos camaradas Rui e Orlando, a respeito da centralização imediata do partido, debate que corria desde a I Conferência Nacional!

Em terceiro lugar, os camaradas colocam lado a lado no Respostas os textos do CD-B, do Orlando e o Projeto de Jornal.

Bem, o do Orlando, que “um quadro de sua experiência” não deveria escrever, já que pouco se aprofundar nos assuntos, foi dos golpes mais sujos que já vi na minha experiência dentro do partido. Tive contato com este texto do Orlando antes do resto do partido, e por acaso, vi também um outro muito mais extenso e completo que, se o CR fosse mais honesto, poderia ter publicado. Agora, como o texto já avisava que iria haver uma crise caso se continuasse com a prática então vigente, o CR deve ter achado mais prudente não publicá-lo…

O único texto político escrito na época pelos remanescentes foi o contido no Respostas e o do cam. Horácio. No entanto, foi com base nisto que se mudou a política anterior do partido, que antes apoiava a Constituinte e que de repente não mais que de repente, passou a execrá-la como obra do demônio e da burguesia. E o partido caiu como pato nessa mudança de 180 graus sem parar para pensar. Boa pergunta fez um companheiro nos “encontros” de 13/12, a respeito da mudança brusca de posição do partido!

Depois, cessou a publicação de textos. Tivesse me avisado que eu rodaria, eu mesmo meus artigos. Nas outras áreas onde corria algum debate (sul, por exemplo), porque não houve a preocupação em enviar os textos aos restantes setores do partido? Provavelmente por causa do espírito “federalista”, não…

Os camaradas não entendem a necessidade do partido se integrar organicamente, das bases secundaristas estarem sabendo o que fazem as bases universitárias, e estas estarem sabendo do que fazem as bases operárias, etc etc? Ou será que são como os “liquidacionistas”, federalistas (esse termo é que é medieval!)

Esses, justiça seja feita, pelo menos tinham o BID, se preocupavam em coordenar o partido, em produzir debate. Os camaradas, nem isso.

Aliás, nosso partido parece estar amorfo. Ninguém escreve, ninguém diverge, todos com medo do quê??? Por que as pessoas não escrevem com suas posições? São suas, não? Quantos eram árduos defensores da Constituinte? Quantos se pronunciaram agora? Quantos defendiam o BID? Quantos se pronunciaram agora?

E a auto-crítica de que os camaradas tanto falam, ficou aonde? Nos belos discursos nos papos. Os companheiros só sabem utilizar isto da boca para fora.

E se fosse só isso, não haveria problema. Vejamos como está o processo de debates para o VI Congresso. Cadê a TD do Congresso? Não estava escrito na nº 1 que ela estava aberta para os militantes? E agora? Os companheiros estão cortando o debate, submetendo o partido, repetindo o gesto da ala amazonista por outros métodos.

Os companheiros, nesse sentido, são uma prolongação da ala amazonista em nosso campo.

E são os companheiros, com suas concepções e com sua prática, que ameação fazer com que o partido se esqueça do Congresso, do processo de debates, transformando-o,  aí sim, em uma mera reunião “acadêmica”...

 

O que tem me espantado é a passividade do coletivo diante tudo isto. Ninguém se pronuncia, ninguém faz auto-crítica, ninguém escreve. Os companheiros do partido, onde estão, pergunte!

Os camaradas do Pará se separaram da CN. E estão em um processo de discussão em que as bases do Pará devem, no espaço de um mês, responder, por escrito, as questões colocadas.

É possível imaginar o CR/SP fazer uma coisa dessas? Acho que não. Leia-se no resposta sobre a incapacidade das bases de generalizar as coisas, e se verá isso.

A Conferência se realizou, isso é um fato, agora, a forma como ela se realizou, com mais da metade do partido tendo se retirado, com um mínimo de debate coletivo e organizado, fez com que ela se transformasse em espantalho de camaradas como Lajes e João, que se utilizaram dos militantes do partido. Os militantes que reflitam sobre sua postura diante da ausência do debatem o fato do CR não assumir o BID, a Constituinte, ontem e hoje, e verão que conseguimos reproduzir o bom militante amazonista, que muda de posição e passa a defender outra proposta sem o mínimo de autocrítica e reflexão.

II - A Conferência e suas deliberações

 

A análise do conteúdo das deliberações é importante para que se saia do palavreado frouxo acerca dos “atos de defesa do marxismo leninismo”.

Não posso negar minha dificuldade pessoal em realizar uma análise profunda, que seria o caso para o momento. Mesmo assim, creio que a contribuição pessoal de cada um é fundamental para o crescimento do debate.

As resoluções da 1ª fase da conferência (não pretendo neste momento analisar as resoluções da 2ª fase, a não ser de passagem) são marcadas, ainda, por um certo ecletismo. Como já mostramos, existem resoluções que vão contra o espírito que marcou a conferência, como a do BD secundarista, ou mesmo a do cam. Marcos (em que pese sua ingenuidade). Aliás, esse ecletismo é parte do pensamento dos camaradas, como o é também da ala amazonista. No entanto, existem resoluções centrais, a meu ver duas, que exprimem o posicionamento, o eixo, principal do pensamento dos “delegados” a conferência: a sobre as deliberações da Conferência Nacional, e a sobre demissionários.

a) Sobre as decisões da Conferência Nacional

A CR concordou com as decisões da CN, no que diz respeito “ao caráter deliberativo da CN, respeitados os poderes decisórios exclusivos do Congresso para as questões de Programa e Estatuto do Partido”.

O que significa esse caráter “deliberativo” que a atual CN possui? Em primeiro lugar, ela pode funcionar como um CC, emitindo deliberações concernentes a “intervenção imediata na luta de classes em curso”. Em segundo lugar, ela tomou a si o encargo de organizar o partido nos estados onde já haviam e somente haviam núcleos de militantes. (* manuscrito: Não se trata nem de “dificuldade”, que existe, mas de incapacidade congênita.

 

Em primeiro lugar, algumas constatações. É impossível que a CN se exclua deliberar acerca do programa e dos estatutos, já que a “intervenção imediata na luta de classes em curso” implica em utilizar, no mínimo, elementos (do ponto de vista consciente, que na prática isso implica na existência, não formulada e explicitada, de um programa) do programa.

Em segundo lugar, quais são os poderes decisões exclusivos do Congresso? Se limitam só a estas duas questões?

Em terceiro lugar, qual é a concepção política que existe por trás disso, ou seja, qual é a visão política que existe que o partido seja imediatamente centralizado para intervir na luta de classes em curso? Sim, por que o partido não é algo apolítico e necessariamente os companheiros que centralizaram o partido não o fizeram por uma conepção “organicista”. Eles pensam que o partido tem de intervir desta forma para cumprir seu papel. Agora, o que pensam esses camaradas, à la Cam. Ruy?

Em quarto lugar, quais os efeitos concretos desse apoio; melhor até, qual o efeito, o significado da centralização. Ela significa um passe “adelante” ou “dos atrás”?

Eu faço tais colocações iniciais por que senti na conferência duas coisas bem claras; primeiro, a maior parte dos delegados sentia a centralização como um remédio para a situação amorfa em que o partido realmente estava; segundo, era possível notar claramente que ninguém se preocupava muito nem com a causa nem com os efeitos dessas medidas, ou seja, sua causa política e seus efeitos políticos: todos tendiam a ver aquilo como uma medida para salvaguardar o partido de um “congresso do tipo federativo”, e só, se esquecendo que os camaradas que defendiam já há algum tempo tais medidas pretendem, claramente, impor uma determinada linha política através delas.

É necessário recuperar a essência da noção de partido: um instrumento político da classe operária, não um conjunto de dogmas mal colocadas.

Para mim os companheiros que defenderam a centralização a todo custo tem uma visão política clara: a de que é imprescindível a intervenção poderosa do partido na “luta de classes em curso”, nacionalmente, sem o que a coisa não vai para a frente. A situação política estaria se deteriorando, as massas necessitando de uma direção, e nós teríamos por tarefa ser tal direção. Como o partido atuando desunificadamente nas várias regiões, é possível atuar de tal forma, e daí a necessidade de centralizar.

Os camaradas podem não pensar dessa forma, mas é o que eu pude desprender de discussões e colocações deles. Aliás, de grande auxílio seria que eles explicitassem suas posições a respeito.

De fato, existe a necessidade do partido atuar unificadamente a nível nacional, de ele intervir na luta de classes, e dirigir a classe operária em sua luta contra o capitalismo.

Agora, como concretizar isto sem repetir os velhos erros? Como é que poderemos dfato construir tal direção?

Em primeiro lugar existe o problema que nos foi colocado por quase três quartos de

(*Manuscrito: em outras palavras, este argumento usado para justificar a

centralização é pura demagogia) século de desenvolvimento da sociedade humana: o da “crise” nos países “socialistas” (por mais imprecisa que possa parecer esta caracterização).

Não é segredo para ninguém que este problema se constitui na chave para a resolução dos problemas fundamentais dos marxistas-leninistas no mundo inteiro.

A burguesia se utiliza desses erros, desses “desvios”, dessa crise, desses problemas reais que existem nos países ditos “socialistas” para “demonstrar” que, “afinal de contas”, o socialismo não é viável. E o faz pelas mais diversas formas: os adeptos do desenvolvimento pacífico (os filantropos burgueses), os conservadores, com sua verborragia anti-comunista, os “tecnocratas”, etc…

E os marxistas, o que fazem diante disso?

A primeira reação aos problemas ocorridos na URSS partiu, justiça seja feita, do Trotsky, Kollontai, enfim, da “oposição de esquerda”. Embora conheça pouco do debate ocorrido naquele período (conhecimento que é fundamental para um posicionamento mais claro), é possível dizer que tanto as análises feitas quanto as possibilidades objetivas de se reverter o processo real de burocratização do estado soviético eram, respectivamente, erradas e muito pouco possíveis.

Trotsky se limitou a se afastar do marxismo no que diz respeito a alguns pontos fundamentais, como a luta de classes como motor do desenvolvimento histórico, do desenvolvimento das forças produtivas como necessidade para a transformação de uma sociedade em outra, etc… Chegou mesmo a adotar posições que julgo contra-revolucionárias, como ir contra as frente populares na luta contra o fascismo, coisa que inclusive o impediu de tomar uma posição a esquerda no momento em que isso se tornou necessário; afastando-se das frentes populares, qual a influência que se poderia ter no momento em que a revolução, a tomada de poder político pelo proletariado, estivesse na ordem do dia, como esteve, aliás, na França, na Espanha, na Grécia, na Itália?

Depois várias outras posições foram sendo adotadas. Mao, os albaneses, Charles Betellhein, Sweezy, Jacek Kuron, etc…

Mas o fato é: sem responder a estas questões conseguiremos ir a frente? Acho que não. Estas questões dificultam o nosso dia-a-dia, no trabalho de massas, na cooptação de companheiros, etc… E não demos ainda um passo concreto no sentido de avaliar este período.

Aliás, quem tenta fazê-lo é classificado de anti-partido, como classificou o cam. João o tão malfadado “orgão de propaganda”.

Em segundo lugar, resolver o problema do partido revolucionário no Brasil. Esta é uma questão delicada, já que envolve mexer em mitos que certos companheiros consideram intocáveis.

Mas é uma questão que temos de resolver. Duvido muito que a simples reafirmação do que está escrito em “QUE HACER” nos resolva os problemas que temos; a obra de Lênin, por um lado, reflete a realidade russa, e, por outro, não é sua concretização prática. O que temos pela frente é verificar o que há de geral e o que

 

há de particular na sua teoria, e que a prática realmente confirmou, etc… Isso despenderá tempo, mas creio que sem isso também de nada adiantará avançar muito. Aliás, é algo que necessita de um conhecimento histórico razoavelmente extenso e profundo sobre a classe operária brasileira, suas lutas, etc. O que reafirma a necessidade de se avançar com cuidado.

Os camaradas remanescentes, ao escrever o Respostas, parece que se esqueceram disto tudo, já que criticam os cam. do CD-B por não saberem para onde vão, daonde se deduz que nós saberíamos… E nós de fato sabemos? Quantos são os militantes que tem se preocupado em estudar a evolução, a história, do PC no Brasil? Quanto são os camaradas que, embora tanto falem de “concepção leninista de partido”, leram o “Que Hacer”?

Eu achei que uma das coisas mais ridículas na conf. foi justamente o fato de certos camaradas flarem da concepção “leninista” e não sei mais o quê, sem nunca terem pego em mãos uma obra, um texto, sem ter feito um estudo. O cam. Antonio chegou a dizer que os teóricos estão no PCB… Ou seja, nós temos é a prática pela frente. Quanto a necessidade da teoria revolucionária, isso é coisa do passado e do reformismo, não?!

Qual o esforço concreto que temos feito para resolver esta situação?

Em terceiro lugar, voltando aonde estávamos, existe o problema do desenvolvimento capitalista no Brasil, coisa que ainda não resolvemos, não conseguimos compreender. qual o comunista que escrever algo a respeito, além das teses e textos rápidos, dos postulados estratégicos e dos “pontos”?

Sem compreender como se deu o desenvolvimento capitalista no Brasil, muito dificilmente conseguiremos ir a frente em nossos intentos.

Sem responder a estas três questões, com uma resposta de fundo, de peso, os marxistas não conseguirão avançar muito em rumo a um trabalho organizado e correto no seio da classe operária brasileira.

Isso não é pouca coisa. Como já disse, são três quartos de século a estudar. Sem isso, qualquer tentativa de levar uma luta política séria contra a burguesia é pura balela.

O Congresso de fato avançaria rumo a compreensão desses problemas, se não fosse enxergado como uma reunião acadêmica, como enxergam os companheiros do CR.

Pelo menos seria uma tentativa de avançar na compreensão e sistematização desses problemas. Mas os companheiros enxergam a “intervenção na luta de classes em curso” como sendo uma necessidade imperiosa e coisa fácil e coerente com nossa perspectiva marxista sem a resolução de pelo menos uma parte desses problemas.

E, de fato, na prática, tem abandonado qualquer ideia ou tentativa de solucionar esses problemas: o “orgão de propaganda” não é apoiado, mas, ao contrário, caracterizado como “anti-partidário”; a TD não é aberta; as teses não saem; cadê tal grupo de propaganda entre a classe operária; etc etc

Será que é realmente possível unificar o partido sem solucionar uma parte desses problemas? É possível, desde que se enxergue (como os cam. do CR/SP) a unidade do partido como sendo uma coisa puramente administrativa, e não uma

unidade política consciente.

Os militantes do MR-8 são “unidos” politicamente, são uma força que intervem “poderosamente” na “luta de classes em curso”, não?

E daí? A custa de que eles conseguem essa coesão religiosa? Na base do doutrinamento, da coibição dos debates, de uma relação autoritária entre base e direção, no não entendimento da necessidade da teoria. Pegue-se um militante de base do 8 e “seque-se” ele, como se faz com um limão não tem sumo, é seco por dentro, é uma máquina falante.

Faça-se o mesmo com militante da TLO: o que temos? Nada. São militantes que seguem religiosamente os preceitos de seus chefes e que não tem condições de contradizê-los, por que não há preocupação com que as bases pensam nem em fazê-las ter condições de optar politicamente.

Unidade desse tipo nós poderemos conseguir, sem dúvida, através do processo que os companheiros estão apontando. Centralize-se o partido, corta-se o debate, publica-se as teses, faz-se o Congresso e sai-se por aí falando novas palavras de ordem.

E o que conseguiremos com isso? Nada de novo.

Não é muito difícil ver esse quadro que esbocei já em miniatura na prática da estrutura aqui em SP.

E como se não bastasse eles levarem essa prática aqui em SP, querem fazê-la uma prática nacional. Unificar-se-a o partido e pronto: estaremos de pé para intervir “unificadamente” na luta de classes.

Para mim isso não resolve nem nossos problemas concretos, que enfrentamos, nem evitará a desagregação ou resultará numa intervenção mais coerente na luta de classes. Os problemas concretos, esses os companheiros do CR parecem não saber quais são: corre o debate na estrutura, ter os resultados da conferência em mãos, colocar para funcionar o tal grupo de propaganda, manter em contato constante as várias áreas do partido, etc.

A desagregação, esta quem está conseguindo causar são os próprios companheiros. E isso porque querem unificar um partido que está dividido nacionalmente na base do porrete, sem haver discussão política à nível de todo o coletivo (se é que tem havido ao nível das direções). O que sabe o militante daqui de SP das posições do militante do RGS, e vice-versa? Se a CNOP tem poderes deliberativos, então ela vai ter que se posicionar sobre os casos do Pará, do RGS, onde se fazem articulações oposicionistas e não “petistas”. Das duas a uma: ou vai resolver na base do consenso, deixando cada região levar adiante sua posição, ou vai tentar exercer o “centralismo democrático” e aí é que eu quero ver quem é que vai aceitar isto. E se nós somos obrigados a passar por tais situações, a culpa é dos companheiros que não permitiam o livre acesso de todas as opiniões, de forma organizada (através de uma TD), a todo o partido, desde que começou o processo de luta interna contra a ala direita do PCdoB.

Ter uma intervenção comum é algo mais que estar centralizado a nível nacional. É ter de fato uma prática comum, que só pode ser conseguida através do debate e da sistematização das experiências militantes das mais diversas partes do país. Os companheiros estão pensando que vamos conseguir uma prática comum através de uma medida administrativa, sem ter feito o menor esforço por de fato unificar a prática dos vários militantes vão apenas denegrir o centralismo, que perde seu

sentido se fica só limitado a um ato administrativo.

 

 

Os companheiros ficam então batendo na famosa tecla de que “processo de congresso em bases federativas não leva a partido do tipo leninista”. E repete isso até o esgotamento, no que são acompanhados por uma série de militantes de base que parecem ter retomado o gosto por repetir as fórmulas prontas.

Agora, que tal os companheiros me responderem como o POSDR foi um partido do “tipo leninista” (utilizo esse termo por que os companheiros gostam, pois para mim o parece uma classificação à la Lamark), se seu 2º congresso se consagrou em bases “federativas”? Como é que consideram o partido comunista do brasil, surgido em 22, como o veio da construção do “partido do tipo leninista”, se ele surgiu a partir da fusão de círculos comunistas dispersos, desunificados, “federados”?

Não, não: o nosso partido, se quiser realmente se construir enquanto partido revolucionário, terá de o fazer através de um processo de unificação a partir do que temos, ou seja, regiões “federadas”.

Mas o problema é que quem quer fazer realmente uma “federação” sem princípios são os companheiros, com essa “centralização” a nível nacional, como um “conselho de feudos”. Eu prefiro optar pela necessidade de uma unificação política, que leva de fato a uma unidade política, e não esse processo de “centralização” que é um embuste, pois não modificou em nada a composição político-ideológica dos regionais.

Os militantes do partido fariam um grande favor se parassem de olhar para as frases bonitas do tipo das do companheiro João e se dessem conta de seu conteúdo na realidade inverso ao que dizem.

Para mim a unidade só vai ser possível quando tivermos um dado fundamental: uma transformação qualitativa da atual composição político-ideológica dos regionais, que aponte de fato no sentido de uma fusão; hoje, temos uma diversidade total de prática pontos de vista, posição política; quando isso se alterar no sentido de uma unidade político-ideológica, teremos então condições de aplicar integralmente o centralismo, ou seja, utilizá-lo enquanto instrumentos de intervenção unificada de todos os militantes na luta de classes. O caminho, o de sempre, o de debate política e da experimentação prática das diversas concepções.

Até lá, qualquer tentativa de unidade, que ultrapasse os termos colocados pela CN, só dará com os burros n’água. E nesse barco eu não vou não, e vou falar isso para todo mundo.

b) sobre os demissionários

A CR deliberou sobre o “movimento de saída”, classificando-o de “liquidacionista”. Ao que parece, ninguém se deu conta das implicações mais profundas que isso encerrava. 

A partir do momento em que qualificamos os cam. que saíram como liquidacionistas estamos querendo dizer que: 1. Eles vão contra, na teoria e na prática, a ideia de partido de vanguarda da classe operária;

2. O único caminho para construir o partido de vanguarda, ou o mais avançado nesse sentido, somos nós.

Será que isso é justo; será que isso corresponde a verdade?

Para mim, o debate que estamos travando em torno do VI Congresso pode inclusive vir a demonstrar que não é o PCdoB o caminho para a construção desse partido, e até lá, até isto estar claro, eu não me arriscaria a ficar classificando disto ou daquilo os companheiros que saem do partido.

Em segundo lugar, e aqui se referindo a mais especificamente à E1 de SP, já que graças aos camaradas do CR, pouco conhecemos das outras regiões, o que é que temos a mais que as outras organizações de esquerda?

Política acertada? Duvido. Além do mais, as vaciladas que estamos dando durante todo este período nem ao menos podem nos caracterizar como “sérios” politicamente.

Organicamente somos mais avançados? Temos um dos funcionamentos mais deficientes de toda a esquerda, e isso por que não se tem dado atenção a coletivização do trabalho do partido nas suas várias áreas, principalmente.

Em terceiro lugar, quem é que se preocupou em verificar as concepções dos “principais demissionários” para ficar falando o que se falou? Só ouvimos as vozes dos companheiros do CR, não recebemos documentos, que li dos companheiros da leste sempre me demonstrou que eles tem uma enorme preocupação em construir o partido da classe operária, em procurar os caminhos para essa construção.

Para mim, essa qualificação já demonstra que algo de errado está havendo; se classifica de “liquidacionista” sem atentar para o conteúdo desta qualificação. Somos o caminho ou somos o partido; escolham…

O que eu acho mais engraçado é que o pessoal do Rio, ou pelo menos o quadro mais influente ou mais conhecido de lá, parece achar que não. E no entanto, estamos todos no mesmo barco, centralizados, bonitinhos. Que unidade mais estranha, não???

Sinceramente, creio não ter capacidade para contrapor, tintim por tintim, às posições aprovadas na conferência. Mas quem cala consente, e eu não pretendo me calar apesar de certos companheiros acharem desagradável eu sair por aí dizendo minhas opiniões em debates públicos, ou me manter alheio às deliberações da conferência.

E aqueles camaradas que, bem sei, discordam de certos pontos das deliberações, faria um grande bem a todos nós caso escrevessem a respeito. Acho que enquanto ficarmos na cabeça com aquela ideia de que só se escreve se estiver bonitinho e cheio de frases de efeito, não sairemos da tutela de uns dez doutores que nos dizem o que fazer e a quem nós obedecemos.

III - A situação atual e suas perspectivas

Escrever este texto para mim tem sido uma grande necessidade. Eu queria ver se colocava em pratos limpos tudo o que eu estava pensando acerca da situação interna, para ver se conseguia dar mais atenção a outras tarefas para as quais eu estou mais capacidade ou acho mais importantes.

Tenho plena consciência das deficiências do texto, mas é preferível escrevê-lo e

colocá-lo na rua de que restrito a reclamar verbalmente a um ou outro companheiro.

Minha ideia inicial era escrever um limitado aos acontecimentos da conferência. Mas daí aconteceram uma série de coisas: uma camarada desligou-se do trabalho secundarista; estou sendo obrigado a organizar uma série de trabalhos em uma série de escolas e levar discussões com inúmeros companheiros; etc Daí resolvi ampliar o texto, e coloco nele uma série de opiniões minhas, para ver se pelo menos eu esgotava o passivo de colocações que tenho engasgadas em minha garganta.

Óbvio que o texto não iria sair mil e uma maravilhas. Mas como nada sai limpo e

perfeito da primeira vez, resolvi fazer assim mesmo.

Aí dividi o texto em três partes: a 1ª tratando mais genericamente da realização da conferência; a 2ª comentando suas deliberações; a 3ª colocando o que eu estou vendo como perspectivas para o VI Congresso e, de uma forma mais geral, para o processo de unificação dos marxistas leninistas e a construção do partido revolucionário no Brasil.

Essa terceira é a mais complicada das três e a mais simples, ao mesmo tempo. Não pretendo fazer grandes demonstrações, mas colocar a seco o que eu estou fazendo.

Em primeiro lugar, com o desligamento do cam. Marcel. tratei de reorganizar o trabalho no setor. Essa reorganização não podia se dar repetindo os mesmo erros do passado senão seria um verdadeiro inferno novamente. Assim, me preocupei em escrever bastante a respeito do trabalho que desenvolvemos no setor e divulgar isto a todo o partido.

Escrevi três textos: o primeiro, já foi rodado e distribuido; é uma “avaliação do nosso trabalho, mais propriamente um histórico; o segundo responde a carta de desligamento do Marcel coloca mais uma série de questões tratadas superficialmente ou somente citadas no primeiro; e terceiro faz uma espécie de síntese dos dois últimos, colocando também um pouco das das divergências políticas que haviam dentro do CS.

Em segundo lugar, havia a necessidade clara de manter as pessoas organizadas, as pessoas com quem discutíamos partidariamente, já num estado bastante avançado. E hoje temos montado um Círculo Comunista, em que estamos tentando desenvolver um novo estilo de relações entre os comunistas (por mais romântico isso pareça…)

Lado a lado a isso, havia a luta interna no partido. Essa luta interna, infelizmente quase não tem trazido frutos concretos ao nosso trabalho. E isso por que nem se discute questões políticas mais gerais, as “grandes questões” do momento, nem se discute a respeito da prática concreta que se está levando nas várias frentes de trabalho do partido; simplesmente não se faz nem uma coisa nem outra.

Enquanto não estiverem normalizados os canais de debate, não haverão condições para que possamos avançar em nossa solidificação política; e para normalizar esses canais somos obrigados a pressionar o CR; e para pressionar o RC somos obrigados a paralisar uma série de outras tarefas importantes; e o tempo, por enquanto, ainda é muito curto.

É uma contradição difícil. Pessoalmente, não sei como resolvê-la. Talvez o mais correto seja dar atenção as questões “menores” e desenvolver quanto as questões “maiores” um estudo maior. Mas isso é uma coisa que terei de solucionar logo, pois senão acabarei caindo na roda-vida dos companheiros outra vez.

Quanto ao VI Congresso, eles está realmente difícil de sair. Até agora, as teses não foram publicadas nem a TD aberta, isso embora tal coisa fosse prometida desde fins de 80.

 

Os camaradas, por seu lado, não vem fazendo nenhum esforço sério no sentido de agilizá-lo. Quanto a participação da ala amazonista, ela hoje é puramente utópica embora isso não signifique que devamos deixar de convocá-la para ele.

O que me choca mais é a quase impossibilidade do Congresso vir a ser realizar com a participação de todas as regiões. O desenrolar da luta interna vem apontando para um racha dentro da “esquerda”, mesmo que “dentro” da perspectiva do Congresso.

Os camaradas, por seu lado, não irão suportar a presença de vozes inquiridoras por muito tempo. A recusa de minha expulsão por parte da conferência, ainda que tenha sido mais uma reação a loucura do cam. Antonio (que em minha opinião é um verdadeiro perigo), foi também um ato político; não faço muito crédito que essa recusa dure muito, já que isso dependerá exclusivamente da correlação de forças dentro do partido.

A preparação teórica e a organização, mesmo que fora do PC, dos comunistas que estão conscientes desses problemas que teremos de enfrentar, fazem parte das necessidades do momento.

Também fazem parte das necessidades do momento manter contatos, mesmo que por enquanto esparsos, com os companheiros que sairam e mantem-se organizados (no caso, os camaradas do CD-b).

O problema é que, como já disse, as necessidades são tantas que fica difícil de estabelecer que todas devam ser executadas. E aí estamos de volta àquela contradição.

Aqui em São Paulo, assim que a luta de classes radicalizar-se, estaremos com uma boa possibilidade de crise; isto acontecer ou não vai depender muito da religiosidade dos camaradas com a possibilidade, facilitada pela discrepância de capacidade entre os quadros membros do CR, de se formar uma fração mais ou menos coesa dentro do orgão dirigente. Afinal, o CR está composto por uma infinidade de pessoas e com uma discrepância muito grande entre cam como João e Lajes e Guilherme e José (aqui não estou menosprezando os camaradas, estou contatando o verdadeiro fosso que existe entre esses camaradas no que toca a capacidade teórico-política); a quase inexistência de um debate e a falta de preocupação em aprofundar as discussões, a busca de divergências, fará ou com que se acomode a maior parte do CR, fazendo o pape de executores da política traçada, ou levará a uma nova crise. Uma terceira possibilidade que esses companheiros se apercebem dos problemas e evitem que tanto uma quanto outra aconteçam, ainda é muito pequena, no meu entender.

A curto prazo, estou pessimista. Agora, creio que não se deva abandonar a luta e, muito pelo contrário, na medida de nossas forças, ajudar a solucionar a crise que o marxismo sofre no Brasil e no mundo.

 

Saudações Comunistas

Oto 01/82