Marilena Chauí é uma das melhores professoras do Brasil. Escreveu e segue escrevendo (e falando) muito, embora nem tudo seja interessante, como é o caso de seu texto em defesa de Boaventura de Souza Santos.
Uma de suas obras mais conhecidas é um livretinho intitulado “O que é ideologia?”, parte de uma ótima coleção lançada pela Editora Brasiliense.
Apontamentos sobre “O Que é Ideologia” ou... Para uma crítica da “anti-ideologia”
I
“O real não é constituído por coisas”, diz Marilena Chauí. E mostra que uma mesma “coisa” pode ser “diferentes coisas” para sociedades e classes diversas.
Ou seja, é impossível conhecer a essência dos fenômenos.
Mas, ela continua, “não se trata de supor que há, de um lado, a “coisa” física ou material e, de outro, a “coisa” como ideia ou significação. Não há, de um lado, a coisa em si, e, de outro lado, a coisa para nós, mas entrelaçamento do físico-material e da significação, a unidade de um ser e de seu sentido, fazendo com que aquilo que chamamos “coisa” seja sempre um campo significativo.”
É provável que para algum espírito anterior ao homem a “coisa em si” tivesse espantosos significados.
Vejamos como se defende Chauí: “Isto, porém, não implica em afirmar o oposto, isto é, se o real não é constituído por ideias ou por nossas representações das coisas”.
Para ela, o empirismo “considera que o real são fatos ou coisas observáveis e que o conhecimento da realidade se reduz à experiência sensorial que temos dos objetos cujas sensações se associam e formam ideias em nosso cérebro. O idealista, por sua vez, considera que o real são ideias ou representações e que o conhecimento da realidade se reduz ao exame dos dados e das operações de nossa consciência ou do intelecto como atividade produtora de ideias que dão sentido ao real e o fazem existir para nós”.
Mas que diferença podemos encontrar entre o empirista (experiência sensorial), o idealista (o intelecto como produtor das ideias que dão sentido à realidade) e Chauí, para quem existe um “campo significativo”?
Tomemos o exemplo de Chauí, o da montanha!
Para ela, “costumamos dizer que uma montanha é real porque é uma coisa.” No entanto, o simples fato de que essa coisa possua um nome, que a chamemos “montanha”, indica que ela é, pelo menos, uma “coisa-para-nós” (...) Suponhamos que pertencemos a uma sociedade cuja religião é politeísta e cujos deuses são imaginados com formas e sentimentos humanos (...) A montanha já não é uma coisa. Suponhamos, agora, que somos uma empresa capitalista que pretende explorar minério de ferro e que descobrimos uma grande jazida numa montanha. Como empresários, compramos a montanha, que, portanto, não é uma coisa, mas propriedade privada. Visto que iremos explorá-la para obtenção de lucros, não é uma coisa, mas capital. Ora, sendo propriedade privada capitalista, só existe como tal se for lugar de trabalho. Assim, a montanha não é coisa, mas relação econômica e, portanto, relação social (...) Suponhamos, agora, que somos pintores (...) não é uma coisa, mas um campo de visibilidade.”
O fato de que Chauí se esquece é que essa montanha já existia antes do homem – e que, portanto, ela não depende do homem para possuir um significado que a defina.
A mesma montanha (ou, a mesma coisa) pode ser capital, olimpo, campo de visibilidade: e não deixa por isso de ser um agregado de rochas de certa altura.
A “montanha” pode significar várias coisas, ou seja, pode estar presente em diversas relações. O que não muda seu estado de “coisa-montanha”.
Não é porque a Terra era imaginada quadrada na Idade Média que ela de fato era...
Na realidade, Chauí consegue trocar a “sensação” e a “consciência” pela “práxis”, pela “relação”.
No fundo, no fundo, Chauí se esforça por ser dialética e só o consegue resvalando no velho bem conhecido idealismo.
Vejamos se não é isso de que se trata.
O “real” para Chauí é, como todo linguajar “filosófico” dos nossos novos filósofos, algo sem muita precisão. Mas tentemos percorrer o caminho em que ela tropeçou.
O universo, o mundo que nos rodeia, não é a representação de nenhuma ideia; também não é fruto da prática humana. Ela existia muito antes do Homem, e continuará existindo quando este se for.
O mundo é algo material; tudo que se encontra nele são formas distintas da matéria.
Agora, essa matéria não é algo estático, amorfo. Ela se encontra em movimento, se modificando, se organizando em novas formas.
Essa movimentação da matéria não é, por sua vez, arbitrária, desconexa, casual.
Ela segue leis precisas; essas leis podem ser particulares (ou seja, aplicadas apenas em alguns campos de atividade da matéria – por exemplo, as leis da química ou da física), ou universais – e as leis universais do movimento são as leis da Dialética.
O que são as leis do movimento da matéria (e não as leis apenas do desenvolvimento da sociedade humana)?
1º A matéria não é algo estático, morto; ela está em constante movimento.
2º Esse movimento se origina não de ações exteriores à matéria, mas de suas contradições internas;
3º Nesse movimento a matéria se organiza das formas inferiores às formas superiores;
4º Esse movimento originado das contradições internas da matéria se dá através da negação da negação: ou seja, ocorre uma negação inicial da “primeira forma”, que dá origem a uma nova, seu contrário; e há a segunda negação dessa forma resultante da primeira negação.
Em outras palavras, o Universo inteiro é uma concatenação única que se movimenta de acordo com leis próprias, naturais, objetivas independentes do homem.
Nesse sentido, a “montanha” de Chauí é, antes de mais nada, uma “coisa”, matéria organizada sob determinada forma; e o que poderia por acaso interessar à nossa coisa não é o que os homens pensam dela, mas o que ela de fato é.
Daremos um exemplo para tornar isto mais compreensível.
Um copo, para uma civilização qualquer, poderia significar um símbolo religioso; para o senhor feudal, um local para se beber vinho, um instrumento; para o capitalista, mercadoria; para a dona-de-casa, utensílio doméstico.
Isso quer dizer que temos quatro copos diferentes? Lógico que não. Afinal, o mesmo copo pode ser copiado, feito novamente, ou seja, pode-se “resgatar” alguma coisa inerente ao copo: sua organização material – esteja ele onde estiver.
Não importa ao artesão que faz copos seu significado, seu “campo significativo”. Nem muito menos os movimentos da crosta terrestre que deram origem a nossa montanha diferenciavam muito uma tribo selvagem de um capitalista voraz.
Em outras palavras, existe uma “coisa em si”, e o campo significativo é seu reflexo momentâneo, uma aparência, e não sua parte integrante.
Mesmo porque, morada dos deuses ou mercadoria, essa montanha explodiria da mesma forma sob uma boa carga de dinamite...
E qual a importância de se mostrar que existem “coisas” e não “campos significativos”?
Afinal, se considerarmos a matéria (o “real”) como essência e aparência juntas, torna-se impossível distinguir e analisar o que quer que seja.
Em duas palavras, luta-se contra o agnosticismo e o idealismo duma só vez.
Alguém poderia objetar que não se trata de idealismo.
Analisemos a seguinte passagem de Chauí:
“Ora, o real não é um dado sensível, nem um dado intelectual, mas é um processo, um movimento temporal de constituição de seres e de suas significações, e esse processo depende fundamentalmente do modo como os homens se relacionam entre si e com a natureza.”
Em outras palavras, o “real” depende do “homem”.
Mas Chauí se resguarda, e diz em seguida:
“Essas relações entre os homens e deles com a natureza constituem as relações sociais como algo produzido pelos próprios homens, ainda que estes não tenham consciência de serem seus únicos autores.”
Mas é claro que isso não explica nada: dizer que o “real” depende dos homens (mesmo tomando o homem sem consciência de si, como práxis – para usar o termo adorado pelos novos filósofos) significa dizer que o “real” surgiu com o homem e depende deste para existir.
Mas o que nos ensinam as ciências? Que o homem surgiu a menos de dois milhões de anos, que a Terra tem quatro bilhões e outro tanto e assim por diante.
Daí que Chauí construiu todo o seu castelo de cartas sob uma base falsa – a aplicação do que ela quer que seja marxismo apenas à sociedade humana e não compreender sua validade universal, como teoria geral do conhecimento (e, já que é científica, isto significa dizer que o marxismo engloba as leis cientificamente provadas e de aplicação universal ou restrita, do movimento da matéria).
É justamente essa a inconsistência de toda a teoria baseada na práxis (e aí temos Luckacs, Gramsci, Adelmo Genro Filho, Chauí e outros): se esquecer que o homem é posterior à matéria, é sua mais elevada forma de organização, e nem por isso a ela menos subordinada.
Mas nossa idealista (e agora julgamos possível trata-la assim) não para por aí.
Passa a dizer que a história é práxis, e que a história é o real e que o real...
Ou seja, limita tudo à sociedade humana. Fundam-se os céus e as terras, pois assim o que Chauí! E assim agindo, se esquece que o homem não pode ser explicado pelo homem; o homem é fruto da natureza antes de mais nada – um fruto especial, é certo, mas um fruto.
Se as relações entre os homens parecem ter alçado voo, é porque elas ainda não tocaram o limiar que lhes lembrará que, a partir de um certo limite, o homem é subordinado direto da natureza.
E nisto o cacique Sealth é mais esperto e melhor filósofo que Chauí: diz que o acontecer “à Terra, acontecerá também aos filhos da Terra”.
Mas isso deveria ser letra passada para os marxistas. O caso é que o marxismo está em crise, o que faz com que os tipos mais extravagantes se transvistam e saiam dizendo suas tolices por aí!
II
“Além de procurar fixar seu modo de sociabilidade através de instituições determinadas, os homens produzem ideias ou representações pelas quais procuram explicar e compreender sua própria vida individual, social, suas relações com a natureza e com o sobrenatural. Essas ideias ou representações, no entanto, tenderão a esconder dos homens o modo real como suas relações sociais foram produzidas e a origem das formas sociais de exploração econômica e de dominação política. Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia.”
Mais uma vez teremos que retornar do princípio.
Os homens realizam sua história em condições que não foram escolhidas por eles; ou seja, eles têm de começar de onde pararam as gerações anteriores. Da mesma forma que um filho não escolhe os pais, cada geração não escolhe seu passado.
Mas o homem não executa sua história pura e simplesmente; ele é capaz, possuidor que é da mais alta forma de organização da matéria – o cérebro humano – e membro de uma coletividade que assim o exige, de pensar sua história, de procurar dar-lhe uma “causa”, de procurar explica-la.
E isto não é privativo da sociedade de classes. Mas o fato é que na sociedade de classes torna-se necessário (e possível) explicar a dominação, a existência de classes, a partir do único ponto de vista possível: o de classe.
Pois bem: isto é “ideologia”. Vejamos agora se é justo o que diz Chauí:
“Esse ocultamento da realidade social chama-se ideologia.”
Toda ideologia oculta a realidade social?
Em primeiro lugar, cabe estabelecer uma premissa básica – nunca é possível apreender totalmente o “real”ou, dito em outros termos, nunca é possível conhecer totalmente a realidade.
E isso é algo que nem o marxismo pode fazer. Apreender totalmente a realidade significa compreender intelectualmente todas as conexões entre os elementos que a compõe; conhecer todos esses elementos; etc...
E isso é provado pelos avanços das ciências naturais nos últimos séculos: nenhuma teoria consegue abarcar tudo, pois cada elemento, cada conexão descobertos, abrem caminho a centenas de novas conexões e elementos.
Mesmo contando com uma teoria geral do conhecimento (o materialismo dialético), a humanidade nunca vai esgotar o potencial do que lhe é desconhecido.
Estabelecida esta premissa, sigamos adiante: cada classe social produz uma ideologia própria, que lhe justifica a existência.
Essa ideologia pode assumir formas diversas, para as diversas formas que assumir esta classe.
Daí que a ideologia não possui um “conteúdo básico” único, uma razão de ser independente da razão de ser de sua proprietária, a classe.
Se a classe, em dado momento, é revolucionária, a ideologia o será, correspondendo, naquele momento, “à realidade social”.
Se em outro momento a classe torna-se reacionária, o fará também a ideologia – tornando-se fator de “ocultamento”.
Por isso não se pode escrever uma “história” das ideologias, própria a elas e independente. “A ideologia não tem história”.
Repetindo o que dissemos anteriormente, a ideologia de uma mesma classe pode ser ora fator de “iluminismo”, ora de “ocultamento”.
Por que então Chauí se agarra à sua definição? Prossigamos...
O mesmo acontece com o proletariado. Ao contrário do que diz Chauí, o proletariado possui uma ideologia.
O proletariado, da mesma forma que aos fuzis burgueses chocará os seus, à ideologia burguesa chocará a sua.
A luta de uma classe para tornar-se dominante é sua luta para também tornar dominante sua ideologia.
Aqui, mais uma vez, teremos de sair do terreno da ideologia e cair no terreno da luta de classes.
A ideologia burguesa é fruto da necessidade da própria burguesia de estabelecer sua dominação.
A ideologia proletária, por sua vez, é fruto da necessidade do próprio proletariado de estabelecer sua dominação.
No que reside então a diferença?
Se a burguesia é revolucionária em certo momento, sua tendência geral é o reacionarismo, o “ocultamento”.
E qual é a tendência geral do proletariado, sua “tarefa histórica”?
A de revolucionar a sociedade de classes, destruindo as classes e seus apetrechos: o Estado, a dominação e a... Ideologia!
A ideologia proletária tem duas facetas:
- Uma reacionária, de ideologia, que existirá enquanto houver proletariado;
- Uma revolucionária, de teoria geral do conhecimento, que se manterá mesmo quando este já não houver, só que já não mais como ideologia ou filosofia, mas como parte integrante das ciências.
Essas duas facetas não existem por si só. Relembremos o percurso do proletariado rumo à sociedade sem classes:
Esse percurso é, como não poderia deixar de ser, contraditório. O proletariado realiza um movimento no rumo de sua negação como classe ao mesmo tempo em que necessita se afirmar enquanto tal.
É essa contradição que dá origem a contradição de sua própria ideologia; contradição que não é inerente a ela, ideologia, mas sim ao próprio proletariado.
Sob essa perspectiva, somos então capazes de compreender a crise do marxismo enquanto crise do próprio proletariado enquanto classe revolucionária, que luta pelo socialismo.
Daí que concluímos:
III
Chauí se afirma marxista, ou ao menos procura defender esta posição, este ponto de vista, em seu texto.
Em primeiro lugar, julgamos que ela cometeu um equívoco razoável, em três aspectos:
1º Buscou se referir à “Ideologia Alemã” com o texto em que Marx realiza a “caracterização da ideologia” – se esquecendo do que ela mesma afirma (ou seja, de que o objetivo do texto era caracterizar – criticando o pensamento filosófico alemão);
2º Se referiu a “Ideologia Alemã” que foi um texto incompleto feito como “dever de casa” por Marx e Engels;
3º Busca retirar a “concepção marxista” (de Marx) de um só texto.
Afora isto, nos parece que ela defende não propriamente o marxismo em seu texto. É o que pretendemos provar, assim como criticar mais profundamente o uso da “Ideologia Alemã” (I.A.) para referência do “O que é Ideologia”.
Chauí começa relatando sobre o percurso do “I.A.”. E diz em certa parte (p. 34):
“Essas considerações (sobre o fenômeno da ideologia), embora tenham como solo a sociedade capitalista europeia do século XIX, têm como pano de fundo a questão do conhecimento histórico ou a ciência da história...”
E diz logo mais:
“Sabemos que Marx concebe a história como um conhecimento dialético e materialista da realidade social.”
Chauí realiza uma espantosa inversão do “real” (inversão “ideológica”?) nesses trechos. Como pode haver uma questão de português..., nos limitaremos a citar estas duas inversões:
Em seguida ela relata sobre o pensamento hegeliano e só então penetra no que nos é de enorme interesse, ou seja, como Marx irá inverter esse pensamento.
Em primeiro lugar, julgamos sagaz e oportuno estabelecer que a dialética não é materialista porque substitui o espírito pelo homem (luta de classes). A dialética se torna materialista na medida em que substitui o espírito pela matéria, na medida em que reconhece que as leis válidas anteriormente para o “espírito” só o são se aplicadas à matéria. Na sociedade humana e só nessa, essa contradição surge, em nossa “pré-história”, como luta de classes. Porque, afinal de contas, o “real” não é “fundamentalmente” determinado pelas relações dos homens entre si e com a natureza, mas independe destas.
Dito isto podemos partir para Chauí. Ela discorre sobre o método histórico-dialético (ou para citar Engels, lógico-dialético). No que consiste este método?
Marx e Engels, ao realizarem a crítica da economia política de sua época, precisaram lançar mão de um método de investigação que lhes permitisse obter as leis gerais do processo histórico que estudavam, qual seja, o capitalismo concorrencial.
Que método seria esse? Demos a palavra a Engels:
“Allí donde comienza esta historia debe comenzar también el processo discursivo, y el desarrollo ulterior de éste no será más que la imagen refleja, en forma abstracta y teoricamente consecuente, de la trayectoriahistórica; una imagen refleja corregida, pero corregida con arreglo a las leyes que brinda la propia trayectoria histórica; y así, cada factor puede estudiarse em el punto de desarrollo de su plena madurez, en su forma clasica.”
Ou seja:
Um bom exemplo disso é o estudo do modo de produção capitalista, em sua forma concorrencial, a partir do exame de uma forma específica desse modo de produção: o capitalismo inglês.
Esse estudo só foi possível porque:
Ao analisar um organismo, por exemplo, procura-se retirar dele tudo o que é específico nele; num segundo momento, procura-se sua unidade fundamental; analisa-se então os dois lados dessa unidade; primeiro separadamente, depois em conexão.
Vejamos dois exemplos.
Escolhe-se o organismo mais desenvolvido, ou seja, o próprio ser humano.
Isola-se a unidade fundamental: a célula. Procura-se então descobrir quais são os dois lados que compõem a célula, seus dois lados contraditórios – coisa que só pode ser feita no terreno da abstração.
Analisa-se, então, cada um dos lados em separado, e depois suas conexões.
Isola-se a unidade fundamental: a mercadoria.
Determina-se seus dois lados contraditórios: valor de uso e valor de troca.
Estuda-se esses dois lados em separado e depois suas relações.
Parte-se então da forma mais simples às formas mais complexas.
Está claro que existe uma diferença fundamental: a mercadoria não é uma coisa posta em uma relação entre os homens; a mercadoria é a própria relação.
Trata-se do estudo de uma forma específica de organização humana – o capitalismo – e, portanto, parte-se sempre de relações; só que não são relações determinadas pelo intelecto do pensador, mas relações reais, nexos reais, que se desenvolvem entre homens; a mercadoria surge então como se fosse uma “coisa”, mas na realidade sendo uma relação ela mesma.
Na medida em que se analisam dois lados de uma relação contraditória, e depois a própria relação, surge a necessidade de se dar solução a contradição. E essa solução, na medida em que não se trata de uma contradição mental, mas real, deve ser buscada na própria realidade.
É importante destacar que o aspecto abstrato do método lógico-dialético não é uma contradição com seu conteúdo histórico. Pelo contrário, neste método o discurso tem de acompanhar de perto a realidade.
Se o que apresentamos é verdadeiro, não se trata de partir simplesmente do que é “mais abstrato ou mais simples ou mais imediato”, mas também e principalmente, do que é a célula, a unidade básica.
IV
Notas sobre a economia política de Marilena Chauí
Não é o trabalhador a mercadoria, mas sim sua força de trabalho.
Isto é justo?
- Valor de uso e valor de troca são elementos (lados) contraditórios de uma mesma relação;
- O valor de troca é determinado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para produzir a mercadoria;
- O valor de uso é a utilidade da mercadoria;
- O capitalista, ao vender uma mercadoria, “troca” um não-valor de uso para ele com um valor de troca do comprador, para quem ela é valor de uso.
- As vezes parece que Chauí não sabe direito do que está falando.
Fazem parte do “tempo de trabalho socialmente necessário” – e o trabalho é uma mercadoria e, portanto, valor de uso e valor de troca – i) tempo necessário para produzi-la; ii) tempo necessário para produzir as máquinas que a farão.
O salário pago ao trabalhador é parte do tempo de trabalho que esse trabalhador aplicou sobre a mercadoria, dando-lhe valor; assim, não é “algo a mais”, mas parte integrante da “quantidade de tempo (...) necessário para produzi-la”, o tempo “gasto diretamente”.
Os cientistas burgueses não conseguiam enxergar a mercadoria como uma relação. Marx consegue mostrar que a “mercadoria” é uma relação entre homens e não uma coisa.
Do que parece, Chauí resolveu generalizar o exercício de abstração necessário à Economia Política ao campo da filosofia, e por isso caiu no idealismo.
Aqui está a nossa idealista limpa de roupagens “marxistas”. “A matéria... é algo inerte”. Os últimos avanços das ciências naturais (e isso já se diz há 100 anos) mostram que, muito pelo contrário do que afirmava a ciência do século XVI (a qual Chauí deve estar se referindo quando fala em “provas”), a matéria “física ou química” (para usar este termo impreciso, já que a matéria não é física ou química, ela pode estar em estado “físico ou químico”) é viva, e se move de acordo com as leis da dialética!
Exemplifiquemos:
Se se compreende o processo de interiorização como algo “subjetivo”, ou seja, que necessite de conhecimento de si próprio, então só as “relações sociais” se “interiorizam”.
No entanto, o processo de negação e de superação sob uma forma mais elevada é comum a toda matéria, e não só a pensante, e muito menos a sob forma humana.
Dessa forma, Chauí não supera Hegel. Involui a partir dele!
Chauí determina que até o homem surgir miraculosamente sobre a face da Terra, tudo era metafísico; com sua vinda, fez-se a interiorização!
Mas, justamente o homem é fruto de uma interiorização, de uma reflexão da matéria; pois não é o próprio homem (matéria sob alta forma organizativa) uma negação da matéria não viva? Não é ele a “naturezavendo-se a si mesma”, para citar mais uma vez Engels?
“A dialética é materialista porque seu motor não é o trabalho do espírito, mas o trabalho material propriamente dito...”
Cômodo substituir a dialética do espírito pela dialética da... Práxis! E o resto da natureza, o resto da matéria, é o que, senhora Chauí? Metafísica?
Ela não se contenta a limitar a dialética aos homens; busca agora determinar seu motor:
“O motor da dialética materialista é a forma determinada das condições de trabalho.”
Não contente em limitar a dialética ao homem, diz que seu motor é a forma determinada de uma contradição que determina a sociedade humana em uma fase histórica de sua existência.
Enfim, não temos o instrumento abstrato cujo motor é a contradição; mas a dialética da práxis, cujo motor é a divisão social do trabalho!
V
O Problema da Ideologia
Chauí determina agora as questões que, segundo ela, “nos conduz diretamente ao fenômeno da ideologia”.
Busquemos, novamente, retomar do princípio, para evitar a confusão de termos.
Desde que o homem passou a assumir uma forma organizada de existência, por mais atrasada que fosse, ele passou também a estabelecer uma série de relações entre si; um dos problemas que surgiram então era: como explicar o homem, como explicar suas relações com a natureza; como explicar a natureza.
Essas questões não surgiram para a humanidade de uma só vez, e muito menos por um capricho curioso.
Os homens dependiam de certas respostas para sobreviver; podiam respondê-las (ou ao menos tentar): eram possuidores da mais elevada forma organizativa da matéria – o cérebro.
Em suma: necessitavam e podiam estabelecer explicações para tudo o que os rodeava.
O que determinava o tipo e o alcance dessas explicações era o nível de desenvolvimento da sociedade que os elaborava.
O problema é que, num determinado momento do desenvolvimento da sociedade humana, surgiu a sociedade de classes.
E, a partir daí, surgiu algo novo a explicar: a dominação de classe. E não apenas explicar; tratava-se também de justificar a dominação de classe, por um lado; pelo outro, e aí a depender da classe explorada, a luta contra a exploração e pelo domínio da nova classe.
Essa “explicação” do domínio de classe, da exploração e do mundo – ou seja, todo o conjunto de ideias agora usadas para justificar o domínio de uma determinada classe – é “ideologia”.
Em outros termos: ideologia é a concepção de mundo de cada classe social historicamente dada.
Cada classe vai ter uma ideologia correspondente à sua forma histórica, seu papel social, sua tarefa histórica.
Daí não ser possível buscar uma “teoria geral” sobre as ideologias (coisa que, mesmo que possível, resvala com facilidade para o pedantismo): uma ideologia existe sob formas particulares, de acordo com as necessidades de sua proprietária, a classe.
Verifiquemos agora o que nos interessa mais imediatamente: as ideologias da burguesia e do proletariado.
A burguesia surge na cena histórica com a tarefa de derrubar o feudalismo e desenvolver ao máximo as forças produtivas.
Nesse sentido, e até que tome o poder, sua ideologia (e aqui tratamos dela no seu sentido histórico mais geral) será eminentemente progressista e desmistificadora, com a função de derrubar o domínio da reacionária ideologia feudal.
A ideologia burguesa será, nesse momento, fundamentalmente, “iluminista”, aclarando o real.
Pode-se objetar: a burguesia não conseguiria explicar o mundo de fato, não conseguiria ir tão longe quanto foi o proletariado.
Isso é verdade, e bastante cômodo para quem se situa fora da história.
A grande questão é saber se, num dado momento histórico, aquela ideologia conseguiu fornecer a explicação para a ação prática da classe.
Mais adiante a burguesia torna-se reacionária historicamente; com ela, sua ideologia também o faz.
A ideologia proletária também perfaz o percurso necessário e possível ao desenvolvimento do próprio proletariado.
Não repetiremos aqui o que já foi dito anteriormente; o fundamental é deixar claro que o proletariado produz uma ideologia possível e necessária a cada momento histórico e a cada classe operária historicamente dada.
Daí que cabe retomar algumas questões levantadas por Chauí:
- Certamente não é por causa da ideologia; a ideologia dominante (que em geral é a que “procura” conservar essa realidade) pode contribuir para a manutenção de uma situação, mas somente na medida em que sua classe ainda a possa mantê-la.
- Certamente não vem de lugar nenhum, porque até mesmo a ideologia mais reacionária admite a existência de “contradições” e de “antagonismos sociais”.
- Perceber que existem classes sociais e que uma delas vive da dominação das outras é lugar comum nos dias de hoje.
Na realidade, não se trata de “não percepção” e “obscurecimento” nas questões apontadas por Chauí.
O fato é que cada classe produz explicações diversas para estas questões (ou não as admite).
Aí, Chauí se confunde: uma questão é saber como classes diferentes interpretam o mundo a seu redor; outra é dizer que a ideologia dominante procura ocultar ou interpretar a seu favor os fenômenos (sociais ou não); outra, ainda, é verificar como as outras classes interpretam esses fenômenos.
O fato é que Chauí, do topo de sua profunda filosofia, se engasga em dois problemas:
Na realidade, o “real” é a própria matéria; não faz sentido, assim, falar em apreensão do real em geral, ou de qualquer coisa parecida; faz sentido, isto sim, tratar da forma com que cada classe apreende a real forma determinada pela sua posição de classe; e tratar esta só é possível sob um ponto de vista de classe!
Mas Chauí não pode tratar a coisa desta forma, senão será obrigada a cais na velha e boa... Ideologia!
VI
Um pouco mais da Economia Política de Chauí
Mon dieu! O trabalhador produz sua “obra”, uma coisa qualquer. Emprega nessa produção sua força de trabalho vendida ao capitalista. Ao realizar esta operação, transfere valor à mercadoria. Vejamos concretamente.
Um trabalhador produz uma faca. Empregou nessa produção sua força de trabalho. Recebe por seu trabalho apenas parte do valor correspondente à força de trabalho empregada por ele na produção. A parte restante é apropriada pelo capitalista.
Pois bem: a faca é uma coisa. Mas os homens estabelecem entre si uma determinada relação chamada mercadoria.
No caso dessa faca, imaginemos o seguinte:
Certamente não será uma faca também. Senão, não se teria necessidade de um valor de uso, por parte do comprador, e nem de outro igual, por parte do vendedor. Não se trocam mercadorias de mesmo valor de uso, mas sim de mesmo valor de troca.
Portanto, aquela minha mercadoria inicial tem dois valores: um de uso, outro de troca.
Esses dois valores são inerentes a qualquer mercadoria, e não a uma faca ou a qualquer outra coisa.
Pois bem, calculemos como calculemos, mercadoria será sempre trabalho humano concentrado; mas nem sempre trabalho humano não pago. Pois:
- Todas as mercadorias recebem seu valor de troca do trabalho humano nelas empregado(uma mercadoria como outra, ainda que peculiar);
- Parte das mercadorias tem seu valor de troca transferido de trabalho não-pago; parte tem de trabalho pago.
Mercadoria é “trabalho socialmente concentrado”; mais-valia é que é trabalho não pago.
Trata-se aqui de saber o que é pior em Chauí: se sua economia política ou se seu português.
A economia política marxista afirma haver contradição entre as forças produtivas e as relações de produção e não entre as relações de produção e as “relações sociais” (???) ou entre essas e as forças produtivas.
O que é isto? De repente só há história se houver “consciência” enquanto condição!
Vejamos se é justa essa ideia.
Em primeiro lugar, qual o conceito de história com que Chauí trabalha? O de Marx?
Vejamos o conceito de Marx sobre história.
VII
Teoria, Prática e Ideologia
“Percebemos então, que a teoria – ao contrário da ideologia – não está encarregada de tomar o lugar da prática, fazendo a realidade depender das ideias. Também não está encarregada de guiar a prática, fazendo com que a atividade histórica dependa da consciência “verdadeira”. E também não está encarregada de se inutilizar enquanto teoria para valorizar apenas a prática, visto que a alienação prática reproduz a prática alienada”.
Chauí consegue aqui o máximo: mostrar que o marxismo é diferente porque é “não-ideologia”, é “teoria”.
Antes de começar pelo princípio, coisa que é básica caso não queiramos cair nos tropeços de linguagem do tipo “prática alienada” e “alienação prática”, vamos às afirmações de Chauí.
Primeiro, não se pode pensar em “teoria” em geral. Qual é a teoria que se propõe a não tomar o lugar da prática? O marxismo.
Por que ela assim o quer? Por algum capricho teórico? Não, ela não se propõe a tomar o lugar da prática porque tal postura impediria a libertação prática do proletariado.
E qual é o sentido deste “não tomar o lugar da prática”?
E isso de fato ocorre? Vejamos duas coisas distintas: por um lado, o marxismo não se propõe a “substituir a prática”, nos dois sentidos acima levantados; por outro lado, a prática dos marxistas tende por vezes (quando não sempre) a fazê-la (e a própria “teoria” marxista resvala nisso).
Assim, Marx e Engels nutriam ilusões a respeito de uma revolução proletária vitoriosa no século XIX; Engels, a respeito de uma revolução social na Inglaterra do mesmo período; Lênin e todos os marxistas do mundo inteiro, a respeito da vitória da revolução socialista de 1917; e assim por diante.
Portanto, se os marxistas percebem este fenômeno e procuram evita-lo, é uma coisa; mas que ele é uma lei objetiva que força todos os marxistas a cometer esta inversão, e que eles a cometem, mesmo que inconscientemente (como Chauí, que quer que o marxismo seja uma teoria pura e imune às leis objetivas do desenvolvimento social), isto é, um fato.
Daí Chauí cometer uma inversão no seu raciocínio:
- O marxismo percebe a inversão feita pelos teóricos entre teoria e prática;
- Daí ela deduzir que o marxismo (e a prática dos marxistas) não comete a inversão...
- Quando o marxismo reconhece a resistência de um fenômeno objetivo a que ele não é imune.
Não fica claro aqui o que diz Chauí. A teoria é justamente uma forma de guiar a prática dos homens; agora, a atividade histórica (produto das ações de todos os homens) não depende de consciência nenhuma.
Se a teoria consegue se adequar à matéria, no sentido de que o movimento do discurso corresponda ao da matéria, então os homens serão capazes de adequar sua prática individual (numa sociedade, com sua prática coletiva) ao movimento da matéria, buscando com isso chegar mais próximo dos fins desejados.
Agora, enquanto os homens como coletividade, não tiverem domínio destas leis, a teoria não conseguirá guiar a prática histórica da humanidade, e quando esse domínio for obtido, a mesma situação permanecerá, pois a teoria marxista busca, não guiar a prática histórica, mas sim corresponder a ela, numa interação dialética.
Mas os “marxistas” (incluso Chauí), não entendem assim; para eles a teoria acaba por funcionar como um “farol”, capaz de responder às questões todas, e isso porque se esquecem que os próprios marxistas e o próprio marxismo é dialético, e não estático.
Assim:
Busquemos agora iniciar do princípio.
A divisão social do trabalho permitiu que o mundo das ideias se achasse independente do mundo real.
O mundo real continuava, no entanto, determinando o mundo das ideias.
Na realidade, a própria inversão feita pelos produtores de ideias correspondia a determinada situação material.
O materialismo dialético consegue corresponder ao mundo material – o movimento do discurso corresponde ao do mundo material.
Agora, não é porque consegue corresponder ao movimento da matéria (e aqui no sentido superior proporcionado pela inversão da dialética de Hegel); ou, não é porque os homens dispõem de conhecimento das leis de desenvolvimento da matéria, que podem fugir delas.
No entanto, os marxistas (e a própria produção intelectual marxista) frequentemente pensam poder fugir das leis de desenvolvimento da matéria. Este fenômeno objetivo produz, no plano teórico, crises da teoria marxista; e representa uma crise do próprio movimento revolucionário do proletariado.
Essa negação do próprio marxismo efetuada por ele mesmo, numa “reflexão” interna, é uma lei interna do desenvolvimento desta teoria.
Vejamos exemplos disto:
No nível da teoria, os marxistas passaram a substituir mais e mais a necessidade de se percorrer o movimento da matéria pelo conhecimento desse movimento. Assim, saber que a classe operária precisa de um partido e o organizará, justifica que se organize esse partido independente do movimento real da classe.
Essa inversão acaba levando a erros propriamente ditos no campo teórico.
Por exemplo, a teoria do socialismo num só país.
Marx, Engels e Lênin sempre se prontificaram em dizer que tal coisa seria impossível. Agora, as necessidades concretas do proletariado russo o levaram a admitir tal coisa (e a importância universal da revolução o generalizou), sob uma argumentação “marxista”.
O fato é que não existe nenhum critério para determinar que a partir daí não se tinha marxismo, mas outra coisa. Principalmente porque o que houve foi uma negação interna do próprio marxismo.
Na realidade, Chauí aprioristicamente determina que o marxismo é imune à prática dos homens e às suas próprias leis internas. E, no entanto, é impossível dar vida própria ao marxismo, sem levar em conta a prática concreta da classe que o representa: o proletariado.
Mas o fato é que Chauí passa por uma estrada paralela a nós. O marxismo é “teoria”, e independente das classes; o marxismo não é ideologia, é “saber real” (como se o “saber real” fosse possível).
Chauí não se dá conta, mas o que ela fez é dizer o que o marxismo deve ou não fazer; o marxismo (e não uma “teoria” em geral) não está encarregado de tomar o lugar da prática – nos dois sentidos acima levantados: mas quando os marxistas substituem a prática como critério da verdade (ou, pior, quando não entendem este axioma, como os críticos do “socialismo real”), o que temos?
Revisemos agora as afirmações de Chauí a respeito da “ideologia” e da “teoria”.
O marxismo tem que possuir alguma base objetiva para existir. E disso Chauí se esquece! Qual a base objetiva do marxismo – ou seja, qual sua base de classe?
Em outros termos: como e por que surge o marxismo?
O marxismo vai surgir quando a classe operária assume importante papel na luta de classes.
Surge, por um lado, pela necessidade que a classe operária tinha de produzir um corpo de ideias que representasse, no plano teórico, sua tarefa histórica.
Surge, por outro, pela possibilidade criada pelo extremo desenvolvimento das ciências, e pelo estado atingido pela economia política inglesa, pela filosofia alemã e pelas ideias políticas francesas.
Assim, independente do que “passa” o marxismo, ele tem uma base objetiva: a luta da classe operária pelo socialismo.
E, enquanto houver classe operária, e enquanto o marxismo for uma arma em suas mãos contra a burguesia, ele será ideologia.
Agora, de fato, o marxismo possui enormes diferenças em relação às restantes ideologias.
Em primeiro lugar, ele não se diz um pensamento de “todo o povo”. O marxismo reconhece sua origem de classe.
Em segundo lugar, o marxismo é o único conjunto de ideias que explica cientificamente sua origem, sua existência e seu fim.
Em terceiro lugar, o marxismo consegue explicar os acontecimentos de forma científica – o marxismo é teoria geral de conhecimento.
E, principalmente, o marxismo faz isso por conseguir ser um reflexo, no discurso, do movimento da matéria.
E aqui surge a seguinte questão: o que é o marxismo?
E a resposta que nos interessa aqui é uma só: o marxismo é a ideologia da classe operária.
O marxismo, por causa de sua base objetiva de classe conseguiu, como já dissemos, representar ao nível teórico as leis do mundo material.
Nesse sentido, ele não se limita apenas a desvendar os processos “resultados” e “condições” da prática humana: ele, enquanto teoria geral do conhecimento é capaz de investigar (desvendar) todos os processos materiais, todas as formas e estados de movimento da matéria.
Mas o pior não é a limitação; é o fato dos processos reais só ocorrerem enquanto resultados da prática humana. A natureza, provavelmente, foi produto do oitavo dia...
Os leitores podem escolher qual dos dois erros teóricos de nossa “marxista” é pior. Em nossa opinião, existem os dois.
Essa é a afirmação mais sem nexo de Chauí. Qualquer relação é dialética. E a “relação” entre teoria e prática é revolucionária em que sentido?
Porque é dialética? Se for isso, no sentido de que produz mudanças “no real”, então é uma afirmação pedante, para encher linguiça.
Senão, se for no sentido de que essa relação em especial é dialética, ao contrário da relação (como Chauí entende isto, como relação, oposição ou o quê?) entre ideologia e prática, então Chauí, de “grande filósofa”, nos parece agora uma mera escolar.
Na realidade, mais nos parece que Chauí se espantou por descobrir que esta relação é dialética. Ela tende, a partir daí, a mistificar tudo o que envolva “teoria”.
E no que consiste a relação dialética entre teoria e prática?
- Por exemplo: um triângulo tem três lados; essa ideia não se modificou desde os egípcios; certamente que essa aparente imutabilidade deve ser usada pelas classes reacionárias contra os revolucionários; mas:
- Por outro lado, a ideia da evolução, a teoria evolucionista, só pode surgir em uma sociedade revolucionária, como a sociedade burguesa; a teoria evolucionista já foi uma arma ideológica nas mãos da burguesia; e isso apesar do seu caráter geral, de sua universalidade;
- Por outro lado, a ideia do socialismo obtém formas diversas de acordo com as condições diversas de existência de certas classes oprimidas; no entanto, o socialismo científico é fruto da luta concreta da classe operária; o socialismo científico é, como o restante, também de validade universal, com os “opressores” dos restantes;
É sempre bom lembrar que a “ideia”, o “pensamento”, não é nada mais, nada menos, que produção da matéria organizada sob determinada forma.
Para nós, ao contrário de Chauí, não existe nenhum conteúdo especial no termo teoria; para nós, ele indica apenas um conjunto de ideias sobre alguma coisa.
Existe, por acaso, alguma contradição geral entre teoria e prática? (Além da apontada, entre matéria pensante e matéria não-pensante?).
Vejamos:
VIII
Ideologia
Chauí tem o dom da prestidigitação. Um pouco mais atrás em seu texto ela diz que “as ideias tendem a ser uma representação invertida do processo real”.
O próprio Marx (citação de Chauí) vai dizer que “quase toda ideologia se reduz ou a uma concepção distorcida (desta história) ou a uma abstração (dela)...”
Obviamente, como Chauí mesmo vem reconhecer, não são “homens”, mas sim classes que produzema ideologia, a sua própria ideologia. E aí trata-se de verificar cada classe, o papel que ela joga na sociedade e quais seus interesses (donde derivarão suas ideias). Nós só podemos realizar essa verificação sob um ponto de vista de classe – não há ideia independente da luta de classes, numa sociedade de classes.
O proletariado consegue realizar essa verificação de forma não-invertida; e isso por sua posição de classe.
Obviamente, aqui trata-se do proletariado assumindo consciência na forma de seus ideólogos – que não precisam ser “proletários”.
Mas, má costureira, ela prossegue dizendo que “a ideologia é um dos meios usados pelos dominantes para exercer a dominação, fazendo com que esta não seja percebida como tal pelos dominados”. Mas não só pelos dominantes é usada a ideologia: os dominados também buscam difundir suas ideologias.
- A pequena burguesia, o proletariado, esses lutam para tornar a sua ideologia, ideologia dominante.
Aqui, como em todo o resto, Chauí parte da ideologia dominante para definir o fenômeno ideologia.
Portanto, recomecemos do início.
O que torna a ideologia possível e necessária é:
É a ideologia impossível de remover? Certamente que não: o fim das classes é o fim das ideologias.
É peculiar de Chauí dizer as suas besteiras nas entrelinhas. Ela fala de ideologia (p. 86) como “suposição de que as ideias existem em si e por si mesmas desde toda a eternidade”.
Como já dissemos, a crítica a essa ideia é, como não poderia deixar de ser, ideológica.
Além do mais, nos parece que Chauí é que pensa assim. Ela não identifica o marxismo a nada, a ninguém; daí nos perguntamos: donde vem o marxismo – da “eternidade”?
No fundo, Chauí é dogmática (repete como papagaio uma série de teses corretas), mas frequentemente idealista (quando quer ser dialética) e metafísica (quando quer ser materialista).
Outro elemento notável em Chauí é seu desleixo por provar o que diz. Sua impunidade é bem mostra da mediocridade da intelectualidade do país.
Por exemplo, na p. 92 ela vai dizer que:
“As diferentes classes sociais representam para si mesmas o seu modo de existência tal como é vivido diretamente por elas, de sorte que as representações ou ideias (todas elas invertidas) diferem segundo as classes...”
Obviamente, o proletariado para Chauí deve ser um grande equívoco, um sonho.
Realmente, o proletariado representa “invertida” a realidade, aos olhos da burguesia, assim como a recíproca é verdadeira.
O que nos autoriza a deixar clara a inversão realizada pela burguesia é nossa postura favorável à luta proletária. Não existe “saber real”.
Assustada com a perspectiva de “ideologia-coisa”, Chauí faz duas afirmações:
“A ideologia é o processo pelo qual as ideias da classe dominante se tornam ideias de todas as classes sociais, se tornam ideias dominantes.”
“A ideologia consiste precisamente na transformação das ideias da classe dominante em ideias dominantes para a sociedade como um todo.”
Novamente Chauí reduz toda ideologia à ideologia da classe dominante.
Em primeiro lugar, a sociedade é composta por mais classes que a já dominante. E cada classe luta por ser ela a classe dominante. E a luta de cada classe para tornar-se dominante é a luta para tornar sua ideologia dominante.
Nesse sentido, a “ideologia” não é só o corpo de ideias de uma classe; mas também não é só o processo por qual a ideologia da classe dominante se torna ideologia dominante.
“Todos esses procedimentos consistem naquele que é a operação intelectual por excelência da ideologia: a criação de universais abstratos.” (p.95)
Chauí agora pulveriza a si própria:
“Os ideólogos são aqueles membros da classe dominante ou da classe média (aliada natural da classe dominante) que (...) constituem a camada dos pensadores ou dos intelectuais. Estão encarregados, por meio da sistematização das ideias, de transformar as ilusões da classe dominante em representações coletivas ou universais (...)”
Chauí provavelmente não se considera uma intelectual ou uma ideóloga. O que é Chauí? Uma sombra?
As classes sociais produzem seus ideólogos (que, mesmo tendo origem em outra classe, economicamente estando em outra classe, assumiram a postura dessa classe); não faz sentido, por exemplo, dizer que os “intelectuais” sempre vão se colocar ao lado da burguesia (direta ou indiretamente) – esse tipo de postura joga qualquer tentativa de organizar o proletariado e sua luta para o momento em que Deus assim o queira...
Como não poderia deixar de ser, logo Chauí se contradiz. Primeiro ela disse que toda ideologia é “obscurecimento do real”; já na p. 100 ela vai ser obrigada a reconhecer que a ideologia não é metafísica, ao dizer que:
“As ideias universais da ideologia não são uma invenção arbitrária ou diabólica, mas são a conservação de uma universalidade que já foi real num certo momento (...)”
IX
Determinações Gerais da Ideologia
Chauí comete aqui uma inversão. A ideologia não é resultado da “divisão social do trabalho”, mas da divisão da sociedade em classes.
A sociedade de classes exige a ideologia. A divisão social do trabalho torna-a possível.
Existe nas “determinações” de Chauí um esforço implícito em se esquecer que estabelecer taisdeterminações é uma tarefa... Ideológica.
O processo que Chauí descreve (erroneamente) é “válido” até que o proletariado entra em cena na história.
O proletariado possui (do ponto de vista histórico) uma visão do mundo que corresponde ao próprio mundo material. A sua ideologia não deixa, por isso, de se afastar do mundo real quando o proletariado se afasta da revolução.
O problema é que Chauí equivale ideologia a “ideias autonomizadas”. E mesmo aí Chauí se engana. Vejamos:
Chauí é também metafísica:
“O papel específico da ideologia (...) é impedir que a dominação e a exploração sejam percebidos em sua realidade concreta.”
“A ideologia é um instrumento de dominação de classe.”
A ideologia não apenas serve à dominação (aliás, Chauí mesmo se refere a isto); no momento que uma nova classe luta contra a dominação, sua ideologia é revolucionária; somente no momento seguinte, a ideologia desta classe se torna reacionária, “obscurece” a realidade concreta.
Obviamente que toda ideologia será em algum momento, instrumento de dominação; mas estabelecer isto (ou o obscurecimento) como verdade universal não ajuda em nada na compreensão dos momentos revolucionários da ideologia burguesa ou mesmo dos reacionários da ideologia proletária.
Principalmente porque o fundamental é que Chauí considera que o “papel específico da ideologia” é impedir que a dominação e a exploração sejam percebidos em sua “realidade concreta”.
Nesse caso, qualquer classe que se encontra em luta para destruir a dominação de outra, e que precisa, portanto, mostrar a realidade como ela é (e o faz na medida de suas possibilidades como classe) não será capaz de esclarecer sobre a dominação e a exploração de que são vítimas. E, no entanto, a burguesia fez isso.
X
O Saber Real dos Oprimidos
“Assim, por exemplo, a sociedade burguesa aparece em nossa experiência imediata como estando formada por três tipos diferentes de proprietários: o capitalista, proprietário do capital; o dono da terra, proprietário da renda da terra; e o trabalhador, proprietário do salário (...) Enquanto não ultrapassarmos essa aparência e procurarmos o modo como realmente e concretamente são produzidos esses proprietários pelo sistema capitalista, não poderemos compreender que o salário não é a propriedade do trabalhador, mas é o trabalho não pago pelo capitalista, que a renda não vem da terra, mas de sua transformação em capital pelo trabalho não pago do camponês ou dos mineiros, e que, finalmente, só o capital é efetivamente propriedade.”
“Nascida por causa da luta de classes, a ideologia é um campo teórico (religioso, filosófico ou científico) que não pode pensar realmente a luta de classes que lhe deu origem.”
“Por este motivo cometemos um engano quando imaginamos ser possível substituir uma ideologia “falsa” (que não diz tudo), por uma ideologia “verdadeira” (que diz tudo). Ou quando imaginamos que a ideologia “falsa” é a dos dominantes, enquanto a ideologia “verdadeira” é a dos dominados (...) Em primeiro lugar, porque uma ideologia que fosse plena ou que não tivesse “vazios” e “brancos”, isto é, que dissesse tudo, já não seria ideologia. Em segundo lugar, porque falar em ideologia dos dominados é um contrassenso, visto que a ideologia é um instrumento de dominação.”
“Podemos, isto sim, contrapor ideologia e crítica da ideologia, e podemos contrapor a ideologia ao saber real que muitos dominados têm acerca da realidade da exploração (...) a que este saber está submetido.”
“Compreendemos também como as ideias não ideológicas (...) são capazes de ultrapassar o tempo em que são pensadas. E isto em duas direções: com relação ao passado, de modo a não “explica-lo” com as ideias do presente, mas reencontrando as próprias determinações diferenciadoras que fazem do passado, passado; com relação ao futuro, na medida em que não projeta para o que ainda está por vir aquilo que já existe, mas procura, nas linhas de força do presente, aquilo que anuncia a possibilidade futura (...)”
Aqui está concentrada boa parte do pensamento de Chauí acerca da ideologia.
- O marxismo pode, através de uma análise concreta, como qualquer outro instrumento científico de análise, representar a história passada em sua real movimentação;
- Nem por isso deixamos de “explicar o passado” com as “ideias do presente”;
Notas
Por que realizar uma crítica à Chauí?




