domingo, 21 de dezembro de 2025

Em favor do desacordo Mercosul-UE

Celso Amorim, em um passado muito recente, disse que o acordo Mercosul-União Europeia seria um “pacto neocolonial”.

Deixou de ser?

Passemos a palavra ao companheiro Lula, em declaração dada neste dezembro de 2025: "O acordo é mais favorável para eles do que para nós”.

Pelo visto, segundo o presidente, o acordo continua sendo neocolonial. Afinal, “é mais favorável” para as antigas metrópoles colonizadoras.

Claro, a versão atual do acordo é melhor do que a negociada pelo governo cavernícola.

Isso é um dos motivos pelos quais a Europa está esticando a corda: para que o acordo seja ainda mais favorável para eles.

Mais detalhes aqui: Acordo Mercosul/UE: já era ruim e ficou pior, por Paulo Nogueira Batista Jr. e Manoel Casado

Por quais motivos, apesar disso, Lula insiste em assinar?

Um dos motivos é a influência deletéria do agronegócio em nosso governo.

De maneira similar, é a influência do capital financeiro que explica termos um bezerro de ouro na presidência do Banco Central; é o que explica, ainda, que o governo insista numa meta de inflação que serve de pretexto à alta taxa de juros.

Mas tem outro motivo: a política externa do nosso governo Lula 3 vem adotando alguns pressupostos equivocados, parcialmente contraditórios com a política externa dos governos Lula 1 e 2 e, também, contraditórios com a política internacional do PT.

Não que os governos Lula 1 e 2 fossem alheios a equívocos: por exemplo, lembrai-vos do Haiti e, também, de algumas posições adotadas nas negociações da Organização Mundial do Comércio. 

Mas, no governo Lula 3, os equívocos estão nos levando a becos sem saída. 

Vide Venezuela: ao não reconhecer o governo Maduro e ao não aceitar a incorporação da Venezuela aos BRICS, criamos uma situação que torna mais difícil fazermos, agora, a coisa certa. E – como é óbvio – se a guerra dos EUA contra a Venezuela escalar, será uma imensa derrota para a paz, para a América do Sul, para o Brasil e para nossa política externa.

O acordo Mercosul-União Europeia é outro equívoco imenso. Nesse caso, o pressuposto equivocado foi e segue sendo, na minha opinião, apostar na Europa, como uma espécie de “sinal” de que no conflito EUA versus China, o Brasil seguiria uma “terceira via”. Em termos genéricos, seria uma aposta na sobrevivência do “multilateralismo”.

Acontece que o compromisso da Europa com o multilateralismo tem a mesma profundidade que o compromisso do governo alemão com a paz.

A essa altura do campeonato, se o acordo ainda sair, será em condições tão favoráveis para a Europa – leia-se, para as elites capitalistas europeias – que a razão estará com o Celso Amorim. Aquele Celso que falava em pacto neocolonial.

Assim sendo, o melhor resultado para o presente imbróglio não é um acordo, mas sim um desacordo.

4 comentários:

  1. Haters precisam reconhecer suas limitações. No mundo das ideias até eu posso administrar. Mas estadista, hoje, no mundo, é o Lula. Brizola e Prestes (que eu respeito) ficaram em um tempo menos complexo. Parece desonestidade intelectual olhar o mundo hoje com aquelas lentes. Se esse for o único argumento dos críticos, está superado.

    ResponderExcluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  4. Vamos aos motivos listados no artigo.
    ...
    “Um dos motivos é a influência deletéria do agronegócio em nosso governo.”
    Nosso de quem, cara pálida?...
    Ou será que por Luiz Inácio, um filiado do chamado Partido dos Trabalhadores, ter vencido sua terceira corrida eleitoral, os comunistas acomodados na agremiação podem chamar de ‘nosso governo’ o Governo Lula III?
    Se nos agarrarmos à tese do hibridismo, formulado pelo teórico peto-comuna Breno Altman, esse ‘nosso governo’ seria do PT(nem digo dos comunas), no máximo, quebrando o galho e sendo muitos generosos, só pela metade.
    Olhando daqui o que rola na Administração Lula III e no Partido dos Trabalhadores, eu diria que a fração desse ‘nosso governo’ que cabe aos comunistas acomodados na agremiação é infinitesimal.
    ...
    “Mas tem outro motivo: a política externa do nosso governo Lula 3 vem adotando alguns pressupostos equivocados”

    Não há equívoco: faz parte de um projeto cuja diretiva maior é conformar-se - sem contestação, salvo declarações que não vão além de garganteios teatrais - com a função determinada a países da periferia capitalista: exportação de commodities e importação de bens de alto valor agregado.
    Só não vê quem não quer.

    Não creio que, nas tantas leituras que Luiz Inácio disse ter feito nos 580 dias que amargou cativeiro na República de Curitiba, uma delas tenha sido SISTEMA NACIONAL DE ECONOMIA POLÍTICA, de Friedrich List.
    Haddad certamente leu, mas foi só pra passar na prova.
    ...
    Até pode ser, quem sabe, que não sejamos capazes de perceber a sagacidade dialética de Luiz Inácio: o acordo Mercosul/União Europeia seria de fato um passo histórico rumo à reindustrialização de Pindorama.
    Para quem duvida da sagacidade de Lula e de seu estado-maior, recupero abaixo a teoria da conspiração formulada por Valter Pomar em entrevista pra Dafne Ashton, postada no Contramola do Brasil 247, em 24 de abril do ano passado.
    Ei-la:
    “Na verdade, na verdade, o Arcabouço Fiscal é um plano do Fernando Haddad para estimular a mobilização da classe trabalhadora. Porque com a classe trabalhadora nas ruas, vai ser possível finalmente colocar em jugo o domínio do capital sobre o país. Eu acho que, no fundo do fundo do fundo, o Haddad é um revolucionário, oculto sob a aparência de um ministro que defende a austeridade fiscal. Essa é minha tese. [Risinhos contidos de Valter e Dafne.] ”
    Faz sentido.
    (Jucemir Rodrigues da Silva)

    ResponderExcluir